Corpo é matéria, corpo é sociedade, corpo é ideia | Duanne Ribeiro | Digestivo Cultural

busca | avançada
45069 visitas/dia
1,9 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Projeto cultural leva cinema até paradas de descanso de caminhoneiros
>>> HOMENS NO DIVÃ Ano XV
>>> Paulo Goulart Filho é S. Francisco de Assis na peça de Dario Fo
>>> Momo e o Senhor do Tempo estreia dia 15 de janeiro
>>> Rafa Castro leva canções de Teletransportar ao palco do Sesc Belenzinho
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> O melhor da Deutsche Grammophon em 2021
>>> A história de Claudio Galeazzi
>>> Naval, Dixon e Ferriss sobre a Web3
>>> Max Chafkin sobre Peter Thiel
>>> Jimmy Page no Brasil
>>> Michael Dell on Play Nice But Win
>>> A história de José Galló
>>> Discoteca Básica por Ricardo Alexandre
>>> Marc Andreessen em 1995
>>> Cris Correa, empreendedores e empreendedorismo
Últimos Posts
>>> Fazer o que?
>>> Olhar para longe
>>> Talvez assim
>>> Subversão da alma
>>> Bons e Maus
>>> Sempre há uma próxima vez
>>> Iguais sempre
>>> Entre outros
>>> Corpo e alma
>>> O tempo é imbatível
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Museu dos brinquedos
>>> O engano do homem que matou Lennon
>>> 1º de Novembro de 2014
>>> Overmanos e Overminas do Brasil, uni-vos!
>>> As palmeiras da Politécnica
>>> BDRs, um guia
>>> Papai Noel Existe
>>> Viva a revolução
>>> Blogs: uma ficção
>>> Livro das Semelhanças, de Ana Martins Marques
Mais Recentes
>>> Da cabeça aos pés: histórias do corpo humano de Gavin Francis pela Zahar (2017)
>>> A Princesa Que Enganou a Morte e Outros Contos de Sonia Salerno Forjaz pela DeLeitura (2011)
>>> A Princesa Que Enganou a Morte e Outros Contos de Sonia Salerno Forjaz pela DeLeitura (2011)
>>> O Homem Que Entendia as Mulheres de Gladis Costa pela AllPrint (2005)
>>> Kafka e a Boneca Viajante de Jordi Sierra i Fabra pela Martins Fontes (2009)
>>> História do Mundo Para Crianças de Monteiro Lobato pela Círculo do Livro (1987)
>>> Sociedade Anônima de Minas Kuyumjian Neto pela Clip (1987)
>>> O Jovem Mandela de Jeosafá Fernandez Gonçalves pela Nova Alexandria (2013)
>>> Lawyers and Other Reptiles de Jess M. Brallier pela Contemporary (1992)
>>> Dictionary of Obstetrics and Gynecology de Vários autores pela Gruyter (2022)
>>> Curas Mediúnicas - Argumentos que Esclarecem, Fatos que Comprovam de Expedito de Miranda e Silva pela Ab (2013)
>>> Mba Compacto - Planejamento de Negócios para o Crescimento de Philip Walcoff pela Campus (2003)
>>> Pode beijar a noiva de Patricia Cabot; Sulamita Pen pela Essencia (2011)
>>> Lava Jato - o Juiz Sérgio Moro e os Bastidores da Operação Que Abalou de Vladimir Netto pela Primeira Pessoa (2016)
>>> A Empresa Pensante de Moshe F Rubinstein; Iris R Firstenberg pela Futura (2000)
>>> Mal Secreto de Zuenir Ventura pela Objetiva (1988)
>>> As 100+: O guia de estilo que toda mulher fashion deve ter de Nina Garcia pela BestSeller (2009)
>>> Caderno de Rabiscos Para Adultos Entediados no Trabalho de Claire Faÿ pela Intrínseca (2008)
>>> Filha, Mãe, Avó e Puta: A história de uma mulher que decidiu ser prostituta de Gabriela Leite pela Objetiva (2009)
>>> O Filme Perfeito: picture perfect de Jodi Picoult pela Planeta (2009)
>>> Lealdade E-loyalty de Ellen Reid Smith pela Campus (2001)
>>> Histórias Amareladas de Sonia Rosa pela Rovelle (2015)
>>> Os Judeus Povo Ou Religião? de Francisco Corrêa Neto pela Francisco Corrêa Neto (1987)
>>> Gerenciando Pessoas de Idalberto Chiavenato pela Makron Books (1992)
>>> Santinho de Luis Fernando Verissimo pela Cia Das Letrinhas (2017)
COLUNAS

Terça-feira, 4/9/2012
Corpo é matéria, corpo é sociedade, corpo é ideia
Duanne Ribeiro

+ de 6600 Acessos

De julho a setembro, a exposição Metrô de Superfície - Mostra I reuniu no Paço das Artes, em São Paulo, 13 jovens artistas nordestinos, em um recorte sobre o corpo - desde a acepção mais simples, material mesmo, até o referencial humano, nas relações que o sujeito mantém consigo e com a sociedade. Vou me concentrar em três deles, que me atingiram de maneira particular: Marina de Botas e a mulher que se maquia com uma cega; Carlos Mêlo e arte moderna tateante e exibicionista; Rodrigo Braga, cabeça de cachorro morto grudada na cara.

São esses os que mais me desestabilizaram conceitos de beleza, representação, afeto, autoconhecimento, fantasia - como se nessas várias direções as obras tocassem em algum tipo de limite. Metrô de Superfície também traz trabalhos de cunho mais social ou de pesquisa gráfica-visual. Esses outros artistas serão citados perifericamente, mas sem a intenção de criar aqui uma hierarquia de valor: minha seleção não abrange tudo, convido o leitor a conhecê-los todos e levar aos comentários sua própria curadoria.

Marina de Botas, Entrevista (2009)
Entrevista é um vídeo de 20 minutos que enfoca duas mulheres que se maquiam, uma a outra. Marina pinta o rosto de Helena, que depois pinta o seu. Helena é cega de nascença. Há uma tensão inicial dupla aqui. De um lado, seja qual for a beleza criada por Marina, essa beleza não poderá ser vista pela própria modelo; a precisão é inútil, e se ela torna Helena bonita, é menos por ela do que pelo costume de maquiar assim, ou por seus padrões ou alheios. De outro, Helena não mede quanta tinta e quanto pó, não acerta linhas, tateia a face e especulativa cumpre seu trabalho. Se deixa Marina feia, é porque esse tipo de precisão não está a seu alcance; e se Marina se deixa enfear, é por qualquer coisa - pelo vídeo, por caridade - menos por si.

Há assim um deslocamento dos sujeitos de posições em que a adequação é simplória. Essa sensação é fortificada por um outro elemento formal: uma narração em off, feita por uma voz feminina, descreve todas as ações do vídeo, em tom monocórdico, como quem lê um texto. O modo como a maquiagem é feita, os erros, a finalização - logo a leitura ultrapassa o momento do vídeo, e passamos a escutar em palavras o que será visto. O texto termina e recomeça, ouvimos o que já vimos acontecer, ouvimos o que já ouvimos sendo lido e talvez não tenhamos visto. Termina e recomeça outra vez.

No primeiro ciclo, esse texto nos lança adiante, imaginamos o que diz. No segundo, já podemos nos lançar para trás, lembramos o que vimos ou ouvimos. No terceiro, só há a ladainha repetitiva, e nos focamos nas imagens presentes. Há assim deslocamento - desta vez, da percepção. Nos dois casos, essas perturbações levam como que a uma purificação: percebemos, como espectadores, que as palavras eram secas demais para ressaltar o insólito e o afetivo da relação real a nossa frente; e o contato das moças se eleva da execução de uma técnica a um relacionamento através do gesto, performance que não cria uma aparência fetichizada, mas tem um valor em si própria.

Tendo em vista a tonalidade feminista do vídeo, é interessante contrastá-lo com outras obras da exposição que abordam temáticas de reconhecimento: Studio Butterfly, uma instalação de Virginia Medeiros que investiga a experiência de travestis em Salvador (BA), através de ensaio fotográfico, entrevistas em vídeo e contos; e o documentário sobre a intervenção queer de Solange Tô Aberta no Transgenialer CSD, uma parada gay de Berlim. O trecho abaixo parece ser da mesma gravação exposta no Paço:



Carlos Mêlo, Nova Arte Moderna (2004)
Nova Arte Moderna é também um vídeo, mais curto que o anterior. O artista está nu e se permite filmar pelas lentes de uma câmera noturna. Como se descobrisse de súbito que possui um corpo, ele se tateia, passa a mão por exemplo pelos dedos, pela sola do pé. Como se investigasse o espaço, se dispõe de em vários pontos do apartamento. Por fim, como se explorasse os modos possíveis de ser visto, varia as posturas e ângulos, deixando-se com vagar em cada um delas (como somos seres pudicos, é com asco que se vê o pênis, ou o escroto pressionado entre as coxas). Enquanto isso, o som de um rádio (ou TV) soa deslocado, até incompreensível. A dissociação entre áudio e cena se mistura e reforça o absurdo da performance.

São dois sujeitos em jogo: um de nós, espectador; e o próprio artista. O espectador se vê assistindo a um homem pelado indo pra lá e pra cá. Quais sentimentos te afloram? Constrangimento, nojo, desagrado, atração? Esse pode não ser uma qualidade interna à obra, mas certamente é um dado interessante quando a vemos inscrita em sua época: como reagimos frente ao corpo do outro? Que valores precedem a formulação de que a nudez é "desnecessária" ou "ofensiva"? Na medida em que a cultura é uma "segunda natureza", o vídeo pode nos atingir diretamente, no pudor - e, assim, no corpo.

O artista se exibe em obra pública. Mesmo que não de forma sexualizada, ele parte de uma expectativa de olhar alheio, assim sendo, de gestos para o consumo alheio. Nesse sentido, eu, nós - o espectador abstrato - também atingimos o performer de forma direta, determinando, com nossa reação presumida, a performance.

Contraste Nova Arte Moderna, que parece se centrar na agência sobre o corpo, no seu uso, com Sonata, instalação de Milena Travassos. São três projeções, uma na parede à frente, duas nas laterais. Vemos um lago, uma mulher que flutua à superfície, como se morta, sem qualquer reação, jogada às ondulações. Também a vemos sob a água, onde tudo se move sem consciência: flores submersas, o tecido de seu vestido, ela própria... O ambiente da instalação, de cor azulada e sonoplastia peculiar, é contemplativo, e se pode mesmo sentar e descansar um pouco ali. Insconciência, imobilidade/mobilidade, o corpo não mais humano, só matéria.

Rodrigo Braga, Fantasia de Compensação (2004)
Fantasia de Compensação é uma série de fotografias que registram a transformação de um homem em uma criatura obscura, zoomórfica, fantástica. Rodrigo Braga manipula o cadáver de um cão, o degola, corta e põe à parte uma porção de pelugem, assim como as orelhas e o focinho. Enfia um tubo de plástico pela boca do animal, através da garganta. O artista então costura com linha azul, na própria carne, os pêlos do cachorro sobre sua cabeça, ao redor dos olhos; costura as orelhas nas suas, acopla o focinho em seu rosto. É seguro dizer, creio, que a reação do espectador é sempre instantânea e intensa.

Não é possível, no entanto, reduzir essa obra ao "mero desejo de choque", feito a crítica comodista frequentemente faz. Existe repulsa - que pelo seu caráter multifacetado traz um interesse especial - e fascínio nesta representação. A repulsa parece óbvia: nós nos sentimos enojados tanto pelo uso de um corpo morto (é razoável lembrar quantos rituais temos para eliminar, de vez ou gradualmente, uma carcaça) como pela anexação dele ao corpo vivo. Temos sentimentos de piedade pelo cachorro - não sabemos como chegou a ser matéria-prima dessa obra, qual tratamento recebeu antes disso. Também podemos nos incomodar com o fato de que o artista se machuca a si mesmo, sua autopreservação abandonada e a nossa recusando violentamente a ideia de que alguém possa fazer isso.

Já o fascínio é muito sutil. Pode-se percebê-lo trocando os sinais da descrição anterior: o homem que lida com os mortos e o homem que supera/ignora a dor são arquétipos que conhecemos em várias manifestações, desde certo simbolismo agregado às profissões de coveiro ou taxidermistas até mesmo a alguns topos da religião cristã. No entanto, prefiro outra interpretação, guiada pelas palavras do título do trabalho: tudo se passa como se o que vissemos fosse a construção prosaica de um lobisomem; uma criatura de estórias de terror, de contos de fada, tornada "real" a base de bisturi, tesoura, linha e agulha. Como se vestisse um imaginário, em compensação de algo. O que é que se precisa compensar?


Imagem retirada de ARTExplorer. Veja todas no site de Rodrigo Braga

Em seu site (textos >> "Dos Bastidores de Um Auto-Retrato"), Rodrigo oferece um pouco de contexto biográfico que permite especular sobre a resposta. São duas experiências de influência central. A primeira, onze anos atrás, aos 17 anos, "no auge de um fobia social que me acompanhou por toda adolescência", encontrou "um cachorro muito magro, sarnento, bastante doente. (...) Assim que cruzamos olhares, cai no choro no meio da rua. Achava absurdo (...), mas também não conseguia me controlar. (...) Tinha muito medo que me notassem doente como aquele cachorro".

A segunda experiência ocorreu três meses antes de ter a ideia do trabalho. Rodrigo teve de dissecar um bode, que seria seu jantar. Como era o único homem no grupo, lhe põem na mão facão e martelo e ele precisa encarar. "Não tinha certeza se eu, ser tão urbano, seria capaz de tal despojamento antes de comer aquilo tudo à mesa... Mas fiz". Ambos os relatos recolocam as tensões que venho tratando, antes lidas somente pela impressão da obra e agora na vida contada do artista. Fantasia de Compensação ganha um caráter de psicodrama, de revivência de momentos subjetivos complexos. Nós também vivemos dramaticamente esses limites, por meio da obra? E o que muda quando descobrimos que é falsa?

O realismo das fotografias não dá sinais de que é pura ilusão e o visitante da exposição não tem acesso a informações além das imagens. Naquele mesmo texto, o artista explica como foi construída uma cabeça de borracha moldada à sua e a busca por um cachorro, cedido pela Prefeitura de Recife, antes em quarentena e condenado. Resulta que é tudo de mentira: corpo morto sobre corpo artificial, matérias já sem vida se sobrepondo, o artista deslocado que se identifica nesta representação feita com ambas. Contrariando as possíveis sensações citadas, sentimos agora alívio? Ou cinismo? (Claro que ele não iria se costurar de verdade!). Mesmo sabendo que é de mentira, as imagens desagradam; e a descoberta não retira retroativamente, pelo menos não de forma completa, o choque.

De certa forma, no fim das contas, Fantasia de Compensação nos põe frente ao mesmo tipo de experiência daquelas duas raízes do trabalho. Somos nós, de modo verdadeiro ou falsificado, contrapostos ao que não queremos sentir.


Duanne Ribeiro
São Paulo, 4/9/2012


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Filmes de guerra, de outro jeito de Ana Elisa Ribeiro
02. Super Campeões, trocas culturais de Brasil e Japão de Luís Fernando Amâncio
03. Conto de amor tétrico ou o túmulo do amor de Jardel Dias Cavalcanti
04. Bibliotecas públicas, escolares e particulares de Ana Elisa Ribeiro
05. Essa Copa de caneladas... de Vicente Escudero


Mais Duanne Ribeiro
Mais Acessadas de Duanne Ribeiro em 2012
01. Diário de Rato, Chocolate em Pó e Cal Virgem - 2/10/2012
02. Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge - 14/8/2012
03. Corpo é matéria, corpo é sociedade, corpo é ideia - 4/9/2012
04. Èpa Bàbá Oxalá! na Nota de Real - 3/4/2012
05. Cinco Sugestões a Autores de Ficção Científica - 7/2/2012


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Vida Assistida (lacrado)
Tess Gerritsen
Record
(2012)



Maigret, je ne déduis jamais : la méthode abductive chez Simenon
Els Wouters
Céfal
(1998)



Fim - Notas Sobre os últimos Dias do Império Americano
G. a Matiasz
Conrad
(2001)



O Que é Umbanda
Patrícia Birman
Brasiliense
(1985)



Força Interior Ensinamentos Práticos para uma Vida Melhor
Carlos França
Circulo do Livro
(1988)



A Bíblia para Crianças Em 36 Lições
Tony Castle
Loyola
(1994)



O contador de histórias
Harold Robbins
Record



The Hound of the Baskervilles
Arthur Conan Doyle Tricia Hedge 4
Oxford University Press
(2000)



Mar de Histórias Antologia do Conto Mundial 9
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira
Nova Fronteira
(1999)



Jacarandás Em Flor
Maria Christina Lins do Rego Veras
José Olympio
(2010)





busca | avançada
45069 visitas/dia
1,9 milhão/mês