O espelho quebrado da aurora, poemas de Tito Leite | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
101 mil/dia
2,4 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Povo Fulni-ô Encontra Ponto BR
>>> QUEÑUAL
>>> Amilton Godoy Show 70 anos. Participação especial de Proveta
>>> Bacco’s promove evento ao ar livre na Lagoa dos Ingleses, em Alphaville
>>> Vera Athayde é convidada do projeto Terreiros Nômades em ação na EMEF Ana Maria Benetti sobre Cavalo
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
>>> Garganta profunda_Dusty Springfield
>>> Susan Sontag em carne e osso
>>> Todas as artes: Jardel Dias Cavalcanti
>>> Soco no saco
>>> Xingando semáforos inocentes
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Esporte de risco
>>> Tito Leite atravessa o deserto com poesia
>>> Sim, Thomas Bernhard
Colunistas
Últimos Posts
>>> Rodrigão Campos e a dura realidade do mercado
>>> Comfortably Numb por Jéssica di Falchi
>>> Scott Galloway e as Previsões para 2024
>>> O novo GPT-4o
>>> Scott Galloway sobre o futuro dos jovens (2024)
>>> Fernando Ulrich e O Economista Sincero (2024)
>>> The Piper's Call de David Gilmour (2024)
>>> Glenn Greenwald sobre a censura no Brasil de hoje
>>> Fernando Schüler sobre o crime de opinião
>>> Folha:'Censura promovida por Moraes tem de acabar'
Últimos Posts
>>> A insanidade tem regras
>>> Uma coisa não é a outra
>>> AUSÊNCIA
>>> Mestres do ar, a esperança nos céus da II Guerra
>>> O Mal necessário
>>> Guerra. Estupidez e desvario.
>>> Calourada
>>> Apagão
>>> Napoleão, de Ridley de Scott: nem todo poder basta
>>> Sem noção
Blogueiros
Mais Recentes
>>> The Matrix Reloaded
>>> Por que as curitibanas não usam saia?
>>> Jobim: maestro ou compositor?
>>> 7 de Outubro #digestivo10anos
>>> A insignificância perfeita de Leonardo Fróes
>>> Soco no saco
>>> De Siegfried a São Jorge
>>> O Paulinho da Viola de Meu Tempo é Hoje
>>> Pelas curvas brasileiras
>>> A pintura admirável de Glória Nogueira
Mais Recentes
>>> Ao Redor do Mundo de Fernando Dourado Filho pela Fernando Dourado Filho (2000)
>>> O Administrador do Rei - coleção aqui e agora de Aristides Fraga Lima pela Scipione (1991)
>>> Memória do Cinema de Henrique Alves Costa pela Afrontamento (2024)
>>> Os Filhos do Mundo - a face oculta da menoridade (1964-1979) de Gutemberg Alexandrino Rodrigues pela Ibccrim (2001)
>>> Arranca-me a Vida de Angeles Mastretta pela Siciliano (1992)
>>> Globalizacão, Fragmentacão E Reforma Urbana: O Futuro Das Cidades Brasileiras Na Crise de Luiz Cezar de Queiroz Ribeiro; Orlando Alves dos Santos Junior pela Civilização Brasileira (1997)
>>> Movimento dos Trabalhadores e a Nova Ordem Mundial de Clat pela Clat (1993)
>>> Falso Amanhecer: Os Equívocos Do Capitalismo Global de John Gray pela Record (1999)
>>> Os Colegas de Lygia Bojunga pela Casa Lygia Bojunga (1986)
>>> Amazonas um Rio Conta Historias de Sergio D. T. Macedo pela Record (1962)
>>> A História de Editora Sextante pela Sextante (2012)
>>> Villegagnon, Paixaƒo E Guerra Na Guanabara: Romance de Assis Brasil pela Rio Fundo (1991)
>>> A Política de Aristóteles pela Ediouro
>>> A Morte no Paraíso a tragédia de Stefan Zweig de Alberto Dines pela Nova Fronteira (1981)
>>> Rin Tin Tin a vida e a lenda de Susan Orlean pela Valentina (2013)
>>> Estudos Brasileiros de População de Castro Barretto pela Do Autor (1947)
>>> A Origem do Dinheiro de Josef Robert pela Global (1989)
>>> Arquitetos De Sonhos de Ademar Bogo pela Expressão Popular (2024)
>>> Desafio no Pacífico de Robert Leckie pela Globo (1970)
>>> O Menino do DedoVerde de Maurice Druon pela José Olympio (1983)
>>> A Ciencia Da Propaganda de Claude Hopkins pela Cultrix (2005)
>>> Da Matriz Ao Beco E Depois de Flavio Carneiro pela Rocco (1994)
>>> Testemunho de Darcy Ribeiro pela Edições Siciliano (1990)
>>> Tarzan e o Leão de Ouro de Edgar Rice Burroughs pela Record (1982)
>>> Viagem de Graciliano Ramos pela Record (1984)
COLUNAS

Terça-feira, 11/6/2019
O espelho quebrado da aurora, poemas de Tito Leite
Jardel Dias Cavalcanti
+ de 6100 Acessos



O poeta Tito Leite acaba de publicar Aurora de Cedro, pela editora 7 Letras. O livro é dividido em cinco seções, com um total de 51 poemas. Há um desejo de equilíbrio entre as seções, pois, com exceção de uma com 11 poemas, todas as outras possuem exatamente 10.

Cada seção parece trazer uma preocupação específica, que vai das questões sócio-existenciais, com a denúncia de um real insuportável, ao desejo de uma transcendência do mundo ordinário, com devaneios espirituais – que buscam o silêncio - ou mesmo composições de versos com imagens mais radiantes, menos sombrias ou sob o peso da melancolia.

O livro nos transmite a sensação de que o poeta está a fazer uma via-crucis que vai do inferno do mundo concreto e intragável – que o esgota – ao mundo das sensações (ou das imagens) que podem produzir ainda algum prazer- que o liberta.

O fato do poeta ser monge, formado em filosofia, tem alguma coisa a ver com isso? Não, nenhuma. Esqueçamos isso. Quem se apresenta aqui é o poeta e é como poeta que ele pensa e repensa o mundo, pensa a vida e/ou a possibilidade de evadir-se dela. “O mundo foi feito para ser transformado em um livro”, como disse Mallarmé. E o poeta está, antes de tudo, interessado mais na operação da linguagem – a poesia - do que em produzir reflexões ordinárias a partir de suas ocupações mundanas (seja como monge ou estudioso da filosofia). O poeta pensa com a poesia. “A solidão transmuta-se/ em poema”, diz no poema denominado justamente “Poeta”.

Apesar dessa divisão meio estanque que eu apresento, que parte do peso do social dos versos ao prazer mais ligeiro das imagens “felizes”, creio que há um elemento insubordinado que atravessa todo o livro. É a inadequação do poeta a quase todos os fatores da existência. “É dilacerante escolher/ a pior parte”, vaticina no poema “Dilacerante”. Essa “pior parte” está em todo lugar, em cada poema, se observarmos bem. O poeta moderno é um ser dilacerado, como que carregando a lava vulcânica de sua inadequação, inclusive, como ferramenta para continuar escrevendo poesia. Não é incomum na poesia moderna e contemporânea o branco da página sulcada pelas sombras de uma desilusão em relação ao mundo: “o tempo dos homens ocos”, de T. S. Eliot, não se encerrou, como sabemos.

Em Aurora de Cedro Tito Leite consegue, por operações poéticas bem pensadas, catalisar oposições, tensões, que fazem todo o livro vibrar em dissonância, desmantelando qualquer crosta lírico-sentimental salvacionista. É bom prevenir – “abandonai todas as esperanças” quem vier a procurar no livro um espelho, alguma imagem de um estado de paz desejado ou de verdade assentada – Tito quebrou os espelhos, que se pisados no chão produzirão fortes cortes nos pés desprevenidos.

Desse modo, se o poeta se liga a um ou outro dado da realidade, ele procura ao mesmo tempo negar ou trilhar espaços de salvação possíveis. O que se apresenta nos versos do livro são incômodos, aversão ao mundo, é certo, mas proposições sacrificadas em nome da máquina da linguagem que é o poema. Este é um livro de poemas, livro de poeta, não um empastelamento de páginas de auto-ajuda.

O que Aurora de Cedro parece dizer é: somos filhos da queda, assim é o homem, assim sua natureza, assim seu destino. Diferente do que sugere o caquético pensamento cristão, não virá um salvador. Estamos em queda livre porque essa é nossa condição enquanto humanos. A mais poética revolução, em nome do bem-comum, gerou também milhares de cadáveres. O Capital, alma desse mundo, não para de abrir covas e se dirigir para o auto-esfacelamento. “Todo dia/ o mesmo esquartejamento”, diz em “Carteira de trabalho”. E continua “Adão, tu ganhas/ o pão com o suor/ da tua tarde, mas muitos dos teus/ filhos comem/ a nossa carne”.



O poeta é o único ser verdadeiramente marginal. À margem de tudo, tudo pode ver à distância. Não podendo nem gerar Capital (quem paga por poesia?), “ele se liberta do cativeiro servil face ao mundo, que aparece como patrão, cliente, consumidor, oponente, árbitro e desvirtuador de sua obra”, para usar os temos de Susan Sontag.

Falando dos demônios pessoais ou do vácuo da existência, todo bom poeta é também visceral, propõe Tito Leite em seu poema “Sondareza”. Faz das vísceras o coração. Então, o imbróglio que cada poema se propõe ser, sustentado na contradição de estar na lama e adorando o brilho das estrelas celestes, é o que o torna uma ferramenta não dogmática da leitura do mundo. O poeta aceita contradições, como podemos ver no poema “Stravinsky”: “Em cada ode, o poeta canta/ uma morte: como quem recria/ uma semente de alegria/ no recreio dos segregados.

Aurora de Cedro radicaliza a historicidade em uma poética da negatividade: o ritmo do mundo pessoal e cultural interiorizado pela força da consciência poética. Ao mesmo tempo, a linguagem do poeta é a tradução e a traição dessa consciência. “O poeta moderno é aquele que sabe o que há de instável na condição de encantamento de seu texto, sempre dependente de sua condição de enigma” (J. A. Barbosa). A linguagem (sempre em crise) da poesia, sua tensão corrosiva, procura converter o enigma em espaços onde o leitor pode decifrar as tensões do mundo, não como certeza do real, mas como impossibilidade de retê-lo como imagem símile refletida num espelho.

“Tenda dos Milagres”, poema da última parte do livro, parece um aviso do poeta aos leitores afeitos à tábuas de salvação: se o que Jorge Amado escreve é real, eu quero é o gosto do mar, como um pescador que leva flores para Iemanjá com o nome do seu amor, eu quero “em cada/ agrado, meu sonho/ sagrado”.

Ah, mas que contradição! Depois de nos lançar todo seu desespero o poeta quer fugir para o éden! Mas o poema “Infindo” vem para dissolver esse lugar especial que parece existir e se desvanecer tão rápido: “Vão-se pétalas/ e relicários/ e o que temos de sagrado/ se esgarça.” Sim, eis o espelho quebrado que ele vos oferece! Sou “Anômalo”, indica o poema com mesmo nome, “Não quero chão./ Quero nuvens, lua ou a queda.”

“A balança/ não pesa/ para o sol/ da virtude:// o escuro é frágil/ e desleal à vida/ se os sinos não/ dobram para os lírios/ do campo.” Precisa dizer mais do que diz o poema “Desrazão”?

Liberto do cativeiro do leitor que espera salvação, Aurora de Cedro é um livro insuportável, porque o mundo é insuportável.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 11/6/2019

Quem leu este, também leu esse(s):
01. A mentira crítica e literária de Umberto Eco de Paulo Polzonoff Jr


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2019
01. O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour - 17/9/2019
02. Dor e Glória, de Pedro Almodóvar - 16/7/2019
03. Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito - 8/10/2019
04. As Lavadeiras, duas pinturas de Elias Layon - 22/1/2019
05. O espelho quebrado da aurora, poemas de Tito Leite - 11/6/2019


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A Justiça de Deus no Destino Humano
Penna Ribas
Sepe
(1999)



Pele saudável
Leslie Baumann
Campus
(2007)



Livro Infanto Juvenil O Caso do Filho do Encadernador Romance da Vida de um Romancista
Marcos Rey
Atual
(1997)



Contos Novos
Mário de Andrade
Villa Rica
(1993)



A festa de Babette e outras anedotas do destino
Isak Dinesen (Karen Blixen)
Círculo do livro
(1990)



King Lear
William Shakespeare
Wordsworth
(2004)



Dieta Nota 10
Dr. Guilherme de Azevedo Ribeiro
Bertrand Brasil
(2006)



Méditations D un Penseur
L. A. Cahagnet
Paris
(1860)



Livro Literatura Brasileira Um Homem e Seus Discípulos
Cesar Romão
Academia
(2010)



Livro Literatura Estrangeira O Guardião De Memórias
Kim Edwards
Sextante
(2007)





busca | avançada
101 mil/dia
2,4 milhões/mês