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Segunda-feira, 2/3/2020
Arte sem limites
Fabio Gomes

+ de 1100 Acessos

Quando eu estava na faculdade - ou seja, há uns 20 anos -, certa ocasião uma colega, talvez incomodada com o fato de eu ter sempre vários projetos simultâneos (na época, fotografava, fazia cartum, escrevia prosa e teatro...), me fez uma pergunta que até hoje eu não entendi. Ela queria saber qual dessas modalidades artísticas eu escolheria, se só pudesse me dedicar a uma única. Respondi que essa escolha era impossível, pois em cada uma delas eu me expressava de uma maneira diferente.

A questão não era econômica, já que, à época, nenhum desses projetos artísticos me gerava renda alguma (não que eu tivesse algo contra - risos). Mas, assim como é muito difícil, quase impossível, você se sustentar no Brasil apenas com um salário de emprego formal (muitos assalariados acabam desenvolvendo, em paralelo, uma carreira de empreendedor informal movido pela necessidade), penso que é também muito difícil que a um artista baste uma única forma de expressão. 

Desde 2016, pelo menos, alio em 
meu trabalho fotografia e poesia.
O fotopoema acima faz parte do 


Inclusive demorei agora para lembrar de artista que, conhecido por uma modalidade artística, jamais tenha experenciado outra. Ocorreu-me o escritor paranaense Dalton Trevisan, 94 anos. Ao acessar seu verbete na Wikipedia, porém, descobri que em 1974 ele escreveu as histórias e os diálogos do filme Guerra Conjugal, adaptação de contos seus de obras diversas. Diálogo para cinema faz parte do roteiro, e roteiro, mesmo sendo um texto escrito, é uma ferramenta de cinema. 

Então é de se estranhar que a muitos incomode que um artista atue em mais de uma frente, seja por necessidade de expressão, seja por questão econômica ou pelo motivo que for. Em entrevista à Folha de S.Paulo em 1994, Chico Buarque relatou que, mesmo "um sujeito" o tendo chamado de "sambista", pensando ofendê-lo, ele, Chico, gostaria que, ao morrer, dele dissessem: "morreu um sambista que escrevia livros". 

A quem interessa colocar cada artista em uma única "gaveta" dos fazeres artísticos possíveis? E, pior: quem definiria que "gaveta" seria esta?  Vamos pensar no caso do cinema: raramente um cineasta fará mais de um filme por ano, bem como filmes em anos consecutivos. O tempo em que os principais nomes da MPB lançavam um disco todo ano também já passou. Sou a favor de que toda pessoa se expresse da forma que preferir, na quantidade que desejar. A arte só tem valor sendo livre! 




Fabio Gomes
Macapá, 2/3/2020


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