A ostra, o Algarve e o vento | Elisa Andrade Buzzo | Digestivo Cultural

busca | avançada
78907 visitas/dia
2,2 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Teatro Sérgio Cardoso recebe As Conchambranças de Quaderna de Ariano Suassuna
>>> “Meus bichos do sertão”, da artista mineira Maria Lira, em exposição na AM Galeria
>>> Maurício Limeira fará parte do DICIONÁRIO DO PROFUNDO, da Ao Vento Editorial
>>> Longa documental retrata música e territorialidade quilombola
>>> De Priscila Prade, Exposição Corpo em Quarentena abre dia 4/10
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> Cris Correa, empreendedores e empreendedorismo
>>> Uma história do Mosaic
>>> Uma história da Chilli Beans
>>> Depeche Mode no Kazagastão
>>> Uma história da Sambatech
>>> Uma história da Petz
>>> A história de Chieko Aoki
>>> Uma história do Fogo de Chão
>>> BDRs, um guia
>>> Iggor Cavalera por André Barcinski
Últimos Posts
>>> Brasileira muda paisagens de Veneza com exposição
>>> Os inocentes do crepúsculo
>>> Inação
>>> Fuga em concerto
>>> Unindo retalhos
>>> Gente sem direção
>>> Além do ontem
>>> Indistinto
>>> Mais fácil? Talvez
>>> Riacho da cacimba
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Pronétaires, unissez-vous!
>>> O mapa da África
>>> Tem café?
>>> Dois anos de Cinema Independente
>>> O filme do Lula e os dois lados da arquibancada
>>> O comércio
>>> Isto é para quando você vier
>>> A vez dos veteranos
>>> A morte e a morte de jorge amado
>>> Solidão Moderna
Mais Recentes
>>> Assumindo o Controle do Seu Tempo de Hbr pela Elsevier (2007)
>>> Feliz Ano Novo de Rubem Fonseca pela Companhia das Letras (1990)
>>> Ai de Ti, Copacabana de Rubem Braga pela Record
>>> O Poder da Esposa Que Ora de Stormie Omartian pela Mundo Cristão (1998)
>>> Alexandre e Outros Heróis de Graciliano Ramos pela Record
>>> Nosso Lar de Chico Xavier pela Feb (1997)
>>> Pai Nosso de Francisco Cândido Xavier pela Feb
>>> Pai Nosso de Francisco Cândido Xavier pela Feb
>>> Maria, a Maior Educadora da História de Augusto Cury pela Planeta (2007)
>>> O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint Exupéry pela Harper Collins Br (2006)
>>> Ação e Reação de Francisco Cândido Xavier pela Feb
>>> O Mestre dos Mestres Análise da Inteligência de Cristo Vol 1 de Augusto Cury pela Sextante (2006)
>>> Seara dos Médiuns de Francisco Cândido Xavier pela Feb
>>> Mantenha Seu Cérebro Vivo de Lawrence C Katz pela Sextante (2000)
>>> Terminologia Em Enfermagem de Maria Aparecida Modesto dos Santos pela Martinari (2006)
>>> Oração de São Francisco de Leonardo Boff pela Sextante (1999)
>>> Dom Quixote - Série Reencontro de Miguel de Cervantes / José Angeli pela Scipione (1985)
>>> Orixás, Caboclos e Guias de Edir Macedo pela Unipro (2007)
>>> A Suspeita de Friedrich Durrenmatt pela Circulo do Livro
>>> O Quinze de Rachel de Queiroz pela Salamandra
>>> O Que Você Precisa Saber Sobre Maçonaria de Elias Mansur Neto pela Universo dos Livros
>>> Filha da Noite de Marion Zimmer Bradley pela Imago
>>> A Rainha da Dança de Thalia Kalkipsakis pela Fundamento (2005)
>>> Ansiedade Como Enfrentar o Mal do Século de Augusto Cury pela Saraiva (2014)
>>> Ansiedade Como Enfrentar o Mal do Século de Augusto Cury pela Saraiva (2014)
COLUNAS

Quinta-feira, 2/9/2021
A ostra, o Algarve e o vento
Elisa Andrade Buzzo

+ de 800 Acessos

O quanto observei e andei por essa cidade, isto de nada adiantará para conhecê-la de fato, nem servirá de caminho de entrada para finalmente percorrer por dentro de sua circulação sanguínea. Admirar, sempre na distância, como uma paisagem a fugir e a se metamorfosear exata e fractal em veios moventes de ondas, em reflexos duros nas falésias. Vi janelas fechadas, janelas entreabertas, janelas acortinadas, mas nada me deixam ver das pessoas e do interior das casas. Não posso me aconchegar em peito algum, pois só bordejo pela saliência mais exterior das criaturas. Por outro lado, todos me veem e medem meus passos, desde as chaminés algarvias até os gatos de rosto maltratado pelo tempo árido e pelo mar, passando pelas gaivotas em transe orgíaco nas ilhotas do Martinhal pela manhã, ou então pousadas nas encostas da praia da Baleeira nos finais de tarde.

Quando saio do carro e sinto o vento, novamente, pela primeira vez, depois de um ano, ele que me gela a boca e me anestesia a língua, ele que se infiltra no corpo e encosta nos ossos, ele que lança areia velha nos meus olhos, que embaraça meus cabelos tal qual um ninho tecido e entrançado por animais, não seria ele homem que se desenha invisível em rajadas ininteligíveis, como o Saulo do romance A ostra e o vento, de Moacir Lopes? Na verdade, foi pouco o quanto já andei, e de nada sei, a não ser que há faróis piscando noturnamente no cabo de São Vicente e na ponta da Piedade, uma rosa dos ventos calcada na terra da fortaleza, capelas, ermidas, mitos de navegadores e infantes. Há pequenezas cotidianas e grandezas históricas misturadas, um gato preto e branco na beira do porto, que chamo de amore mio, raras figurações do Infante na A22 ou em alguns umbrais de residências. Aqui não vivi, e isso me deixa em desvantagem - nada, nada compreendo ao certo dessas coisas e dessas pessoas, apenas suponho, e erro, e bato a cabeça por pedras, e observo gaviões, e me afogo no mar.

Nessas praias, as conchas azul-marinho chegam quebradas. Pequenos caranguejos quedam mortos na linha de areia, deslizados pelas ondas que os comerão. O que é vivo se forma, se integra e desintegra, cedendo lugar a outras formas que abrem os olhos, veem a luz desses tempos, e expandem os alvéolos. E um enxame de algas, castanhas, grossas e fartas, que saem de todo o panorama, de todo o globo azul e verde, vêm a mim como uma enchente que me engole e me cospe, voltando para a labuta e a selvageria natural de onde vieram. Se pela manhã o sol desprende-se lívido, calmo e crescente, nas noites a lua é cheia, vermelha e alta, dominando o panorama negro e frio. O mar é luzidio ou tenebroso, os caminhos agrestes rentes ou interiores às falésias fervem, depois abrandam, formando um ciclo físico e palpável a se repetir nas mentes e nas sensações.

Acho que o que há de mais real e duro nesse pedaço longínquo de costa, que só mesmo dele e de mais nada é próximo, são mesmo essas altas e recortadas rochas, as formações das falésias, os precipícios dos pescadores e dos românticos, as bases e as paredes das construções de defesa e oração, já que tudo isto, ou seja, as palavras, ditas ou escritas, gritadas à quente dos canhões ou sussurradas na gelidez nas naves, é vento atirado ao vento, e as ações verdadeiras me são ocultadas em cinismos e consensualidades. Não, não haverá momento de sentarmos todos juntos dentro desses casebres, que por fora parecem luminosos, mas dentro se fecham obscuros, e esclarecemos os intentos, as angústias, e os desejos. E de que adiantaria algo semelhante? Se lá fora a superfície azulada de mar que encontra o céu é tão vasta, e os oceanos a navegar são repletos de riquezas e mistérios submarinos que apenas os mergulhadores deles se aproximam. As palavras que seriam ditas seriam palavras soltas e vazias, não verbos essenciais como as curvas dos ciclos naturais; tudo aqui é lançado ao vento, e as ações verdadeiras estão mais aninhadas no movimento maior e contínuo do que em uma pequena vida finita em órbita.

Sagres, 27 de julho de 2021.


Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 2/9/2021


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Arte sem limites de Fabio Gomes
02. Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1 de Renato Alessandro dos Santos
03. Primavera para iniciantes de Elisa Andrade Buzzo
04. Estevão Azevedo e os homens em seus limites de Guilherme Carvalhal
05. Viagem a 1968: Tropeços e Desventuras (2) de Marilia Mota Silva


Mais Elisa Andrade Buzzo
Mais Acessadas de Elisa Andrade Buzzo em 2021
01. Um antigo romance de inverno - 11/2/2021
02. Lisboa obscura - 22/4/2021
03. Das construções todas do sentir - 20/5/2021
04. Pobre rua do Vale Formoso - 7/1/2021
05. Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão - 4/2/2021


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Noite de Autógrafos
Reinaldo
Desiderata
(2010)



Muito além da loucura
Marcelo Simões
Geração
(2013)



Empreendedorismo Na Veia
Rogerio Chér
Elsevier
(2014)



Aos Quatro Ventos
Ana Maria Machado
Nova Fronteira
(1993)



Concreto Armado - Eu Te Amo - Vol. 2 - 4ª Edição
Manoel Henrique Campos Botelho & Osvaldemar M. ...
Blucher
(2015)



Complete Cae Students Book Without Answers With Cd Row
Guy Brook Hart and Simon Haines
Cambridge
(2012)



Poesia Visual - Vídeo Poesia - 1ª Edição
Ricardo Araújo
Perspectiva
(2012)



Onde a Religiao Termina?
Marcelo da Luz
Editares
(2011)



Manual de Ioga
Georg Feuerstein
Cultrix
(1975)



Imunizações Em Pediatria Serie Atualizações Pediatricas
Helena Keico Sato e Outros
Atheneu
(2013)





busca | avançada
78907 visitas/dia
2,2 milhões/mês