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Quinta-feira, 5/8/2021
Errando por Nomadland
Elisa Andrade Buzzo

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As paisagens mágicas de Nomadland (2020), da diretora Chloé Zhao e vencedor do Oscar de melhor filme deste ano, não me impressionaram mais do que, por um tipo de ingenuidade minha, depreendi das interpretações e do modo como o filme não foi feito, mas que parece ser, justamente a um desavisado. O expediente emotivo a ser retirado do público seja pela música, pelo cenário ou pelo direcionamento segue a cartilha antiga. Ainda, não parece haver uma evolução da personagem principal no filme (a não ser no enfrentamento corpo a corpo com seu passado, que, ao final, não é mesmo algo diário mental e fisicamente, sempre às voltas com o deserto?), antes uma circularidade que, ao mesmo tempo em que dá uma noção de liberdade à personagem Fern (Frances McDormand), consiste em uma forma de prisão mental e desértica pelas escolhas e oportunidades que não lhe parecem atraentes o suficiente, ou mesmo pela falta de perspectivas.

Mas gostaria de falar sobre uma ilusão distinta de mimese que me causou a interpretação do elenco. Não tendo ido à sala de cinema com referências acerca do filme, nem conhecendo seus atores, nem mesmo sabendo que o roteiro se baseara em um livro, e que tudo aquilo, apesar de alguns personagens serem “reais” seria uma recriação de uma dada realidade de autocaravanismo nos Estados Unidos, a percepção que tive foi a de que aquilo era uma recriação não só plausível, mas verídica, de uma realidade em si.

Explico: Fern parecia ser uma personagem verdadeira, os eventos e relacionamentos pelos quais passou pareciam ser reais, no entanto, consistindo o filme em um documentário remontado (como se todos não o fossem) da sua própria existência, com sua própria “atuação”. Creio que foi uma mistura de personagens secundárias reais, com sua crueza de interpretação da sua própria pele, com certos atores (mormente McDormand e David Strathairn) que tornou a imitação da natureza tão veraz que aquilo que passava na tela só poderia ser a própria natureza se manifestando sem intermediações. Como isso não seria possível, a encenação ali colocada parecia consistir em reconstruções de retrospecto.

Há dois filmes de Jerry Lewis, já de uma fase para um público mais adulto, a despeito do tom de comédia, Boeing Boeing (1965) e Way... Way Out (1966), com interpretações suas que de certa forma caminham em um sentido contrário e também semelhante ao naturalismo de Nomadland. Nesses filmes, e em especial no último, parece haver um cansaço da pessoa real no ator que se apresenta, um pouco esforço naquilo que fácil parece ser. O pouco que ele faz já é muito e o suficiente para esses filmes consistirem no que são; não é preciso muito para o resultado final ser já o que ele é. E isso fica visível, esse fingimento fingido, esse ar exaurido para que tudo aquilo acabe logo. Ou então a facilidade que se adivinha na tela encobre um grande trabalho por detrás disso, tão natural a ponto de nos enganar? Se Nomadland me enganou... A própria visibilidade sutil do processo (seja em acreditarmos miraculosamente nele, ou em desacreditarmos patentemente) resulta em uma quebra de contrato, mesmo o espectador sempre sabendo que tudo é mimese.

Por sua vez, as paródias, mimese depreciativa e engraçada da própria mimese, como Spaceballs (1987), têm o mecanismo de endossar as falhas, autodenegrir e degenerar as interpretações intencionalmente. Elas tornam claro que aquilo se trata mesmo de uma ilusão, uma brincadeira sacanamente forjada com a dificuldade adicional de necessitar criar um novo espaço de relações dentro da referencialidade anterior já estipulada. Os atores estão presentes com a tarefa difícil e complexa de mostrar em uma espécie de entrelinha de sua interpretação que sabem que o público sabe que aquilo se trata de um produto cinematográfico de categoria rebaixada, e que é exatamente isto que ele busca naquela sessão.

Ou mesmo nas regravações de clássicos, que por sua vez em certos casos também consistem em clássicos ainda fortificados, pode haver uma piscadela implícita nos olhares entre os atores principais, tornando aberto o fingimento de que compactuam, não só entre eles, mas junto a quem está do outro lado da tela. Em An Affair to Remember (1957), Deborah Kerr e Cary Grant parecem em sua interpretação antever que estão diante do público. Há uma leve e desconcertante comicidade expressada pelo casal no célebre melodrama, que por sua vez consiste na simulação de algo que já fora simulado, certamente de forma mais sisuda. Os atores não tentam nos dissuadir daquela ficção, enquanto outros filmes iludem sem nos avisar... Errei em Nomadland, mas foi por me deixar errar pelo filme que julguei encontrar especificidades em seu belo e inusitado jeito de fingir algumas dores.


Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 5/8/2021


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