Rebocos da memória: 1929, de Rafael Fava Belúzio | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
47137 visitas/dia
1,6 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Sessão Única com Jogo de Escape Game e debate do filme 'Os Bravos Nunca se Calam' em SP
>>> OBRAS INSPIRADAS DURANTE A PANDEMIA GANHAM DESTAQUE NO INSTITUTO CERVANTES, EM SÃO PAULO
>>> Sempre Um Papo com Silvio Almeida
>>> FESTIVAL DE ORQUESTRAS JUVENIS
>>> XIII Festival de Cinema da Fronteira divulga Programação
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Entre Dois Silêncios, de Adolfo Montejo Navas
>>> Home sweet... O retorno, de Dulce Maria Cardoso
>>> Menos que um, novo romance de Patrícia Melo
>>> Gal Costa (1945-2022)
>>> O segredo para não brigar por política
>>> Endereços antigos, enganos atuais
>>> Rodolfo Felipe Neder (1935-2022)
>>> A pior crônica do mundo
>>> O que lembro, tenho (Grande sertão: veredas)
>>> Neste Momento, poesia de André Dick
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lula de óculos ou Lula sem óculos?
>>> Uma história do Elo7
>>> Um convite a Xavier Zubiri
>>> Agnaldo Farias sobre Millôr Fernandes
>>> Marcelo Tripoli no TalksbyLeo
>>> Ivan Sant'Anna, o irmão de Sérgio Sant'Anna
>>> A Pathétique de Beethoven por Daniel Barenboim
>>> A história de Roberto Lee e da Avenue
>>> Canções Cruas, por Jacque Falcheti
>>> Running Up That Hill de Kate Bush por SingitLive
Últimos Posts
>>> Nosotros
>>> Berço de lembranças
>>> Não sou eterno, meus atos são
>>> Meu orgulho, brava gente
>>> Sem chance
>>> Imcomparável
>>> Saudade indomável
>>> Às avessas
>>> Amigo do tempo
>>> Desapega, só um pouquinho.
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A Turquia em Stoke Newington
>>> Olavo de Carvalho: o roqueiro improvável
>>> De quantos modos um menino queima?
>>> Sobre Parcerias
>>> A voz de uma geração perdida e abandonada
>>> Direita, Esquerda ― Volver!
>>> O menino mais bonito do mundo
>>> iPad
>>> iPad
>>> iPad
Mais Recentes
>>> Como Dizer Tudo Em Inglês - Fale a Coisa Certa em Qualquer Situação de Ron Martinez pela Campus (2000)
>>> Chega de Saudade de Ricardo Azevedo pela Moderna (2006)
>>> Confinado No Front - Notas Sobre A Nova Geopolítica Mundial - Coleção 2020 Ensaios sobre a Pandemia Covid 19 de Guga Chacra pela Todavia (2020)
>>> Comunicação E Cultura Das Minorias de Raquel Paiva - Alexandre Barbalho pela Paulus (2009)
>>> Natal de Sabina de Francisco Cândido Xavier pela Geem (2018)
>>> Adeus solidão de Francisco Cândido Xavier pela Geem (2019)
>>> Jovens no além de Francisco Cândido Xavier pela Geem (2019)
>>> Tempo e amor de Francisco Cândido Xavier pela Geem (2022)
>>> Vida nossa vida de Francisco Cândido Xavier pela Geem (2018)
>>> Mensagens de Ines de Castro de Francisco Cândido Xavier pela Geem (2019)
>>> Adeus solidão de Francisco Cândido Xavier pela Geem (2021)
>>> Viajaram mais cedo de Francisco Cândido Xavier pela Geem (2018)
>>> Novamente em casa de Francisco Cândido Xavier pela Geem (2020)
>>> Resgate e amor de Francisco Cândido Xavier pela Geem (2018)
>>> Calma de Francisco Cândido Xavier pela Geem (2022)
>>> O ligeirinho de Francisco Cândido Xavier pela Geem (2019)
>>> Urgência de Francisco Cândido Xavier pela Geem (2019)
>>> Vida no além de Francisco Cândido Xavier pela Geem (2019)
>>> Como se Escreve a História e Foucault Revoluciona a História de Paul Veyne pela Unb (2022)
>>> Educação Escolar: políticas, estrutura e organização de José Carlos Libâneo; outros pela Cortez (2007)
>>> Sapiens - uma Breve História da Humanidade de Yuval Noah Harari; Janaina Marcoantonio pela Lp&m (2022)
>>> Natureza Humana: Justiça Vs Poder - o debate entre Chomsky e Foucault de Michel Foucault pela Martins Fontes (2015)
>>> Sangue Azul ; morte e Corrupção na Pm do Rio de Leonardo Gudel pela Geração (2009)
>>> Estado de Exceção de Giorgio Agamben pela Boitempo (2005)
>>> A História dos Novos baianos e Outro Versos de Moraes Moreira pela Língua Geral (2007)
COLUNAS

Segunda-feira, 29/3/2021
Rebocos da memória: 1929, de Rafael Fava Belúzio
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 500 Acessos



Memórias só se constroem sobre ruínas. Ou embaixo delas. Ou como elas. O cronista, embora mergulhado no presente, alimenta-se também daquilo que é sem devir, mas que se apresenta aos seus olhos como o presente de uma existência destroçada. São as ruínas... que apenas ao flâneur-cronista se apresentam.

O livro recém-lançado de Rafael Fava Belúzio, denominado 1929, publicado pela editora Impressões de Minas, trata de uma data, mas também de uma cidade, em crônicas que se inscrevem como ruínas. Pedaços da memória, como decalques da existência de uma pequena cidade de Minas Gerais, Carangola, que sob o peso da crise de 1929, tornou-se uma espécie de cidade fantasma e espaço intérieur para os devaneios do cronista.

Composto de pequenos textos, o livro registra em fotografias as janelas, antigos casarões, ruínas de casas, anjos de cemitério, pessoas numa estação de trem ou rodoviária, um pequeno sítio. A incerteza narrativa impera. Fragmentos, em sua forma estilhaçada, vão compondo um vitral que não se completa, seja de experiências, de memórias ou de sonhos - vitral aos cacos, impossível de se colar.

A abordagem caleidoscópica, num empilhar de fatos e lembranças, não oferece uma visão totalizante de Carangola. Os rebocos que a escrita vai colocando na memória ou nos fatos observados pelo cronista não conseguem tapar todos os buracos. O escrito em ruínas é o estilo que melhor se adapta à sensibilidade contemporânea, ela também em ruínas. Mesmo as datas das crônicas se misturam num vai-e-vem constante, como o fato da data de uma crônica de 2014 aparecer antes de 2010, por exemplo.

O capítulo “Fotojornalismo” tenta apresentar uma possível ideia de crônica, citando autores como Olavo Bilac, Antonio Candido, Walter Benjamim, Artur Azevedo. As definições se embaralham com a própria ideia de cidade: a crônica (ou a cidade ou a memória) como “esse cemitério que tem o aspecto de um interior, um local isolado”, no dizer de Benjamin.

Em outro caso, como na definição de Bilac (“Eu, o rabiscador de crônica, já sinto que me falta o solo abaixo dos pés”), onde apresenta-se a incapacidade de construção de uma história, já que falta ao cronista a possibilidade de estabelecer um ponto fixo de entendimento (ou interpretação) do real.

Cambaleante, o texto de Belúzio se insere nessa consciência do fracasso de se querer definir um lugar ou quaisquer situações com alguma certeza - ou de se querer amontoar nas "caco-crônicas" uma montanha de ideias sobre uma cidade ou sua memória quando tudo parece trespassado por uma nuvem de melancolia.

Um vai-e-vem de contrapontos entre a cidade grande e a cidade perdida no fim do mundo, Carangola, vai estabelecendo diferenças, mas ao mesmo tempo esclarecendo o devir da impossibilidade das duas. A antena parabólica ao lado de uma mãe dando comida às galinhas numa pequena chácara perdida do mundo é o retrato da conexão (im)possível entre dois mundos.



Belúzio propõe uma viagem entre cidades - entre os recantos de um mundo que parece parado no tempo e a velocidade e arquiteturas de uma cidade grande. Nesse cruzamento de diferenças, seu texto vai estabelecendo colagens, quase de natureza surrealistas, pode-se dizer, entre imagens desconexas que se apresentam entre uma crônica e outra.

Da descrição de um “bater as botas” (“Todo mundo vai trocar um dia de novela pelo último capítulo de sua vida”), até um passeio de férias pela Pampulha, em Belo Horizonte (férias como “uma anistia para as extravagâncias”), o que se constrói nas crônicas é uma tentativa de encontrar algo para além do "meu quarto, silencioso cubo de trevas".

Sua cidade é esta possibilidade de evasão para o exterior, mesmo quando sabe que seu exterior é o chamado do interior, "pois como há muito interior, pode chamar o meu interior de interior de Minas."

A cidadezinha está dentro do autor, aquele que observa sua “vida besta” (Drummond). Janelas com cadeados, burrinhos na rua, adolescentes comprando doces... E não o abandona a ideia de ruína: “Observo escombros e mais escombros sobre as praças... Ruínas de igrejas católicas esvaziadas, dos túmulos desabados do cemitério... Declínios... eu sou o que no mundo anda perdido tangendo um noturno, flanando na parte adormecida de Minas”.

Como texto pós-moderno que é (desculpem-me por não encontrar outra terminologia), essas crônicas, em suas entradas e saídas para uma cidade que vive dentro e fora do autor, são construídas como reboco, a partir de referências de leituras, trechos de música, poemas, que aparecem aqui e ali como colagens sensíveis e poéticas diante de imagens vistas, sonhadas e/ou sentidas como motivos para uma construção textual que não deve satisfação ao real.

Essa vertigem do texto (o que é isso que não é descrição, memória, relato, causo e nem mesmo a tradicional crônica?) nos coloca dentro e fora de uma cidade como dentro e fora do autor. “Carangola, decepção da minha vida... Pierrotesca... Como um som longínquo e longo de trompa num entardecer lento, muito lento...”

1929 reúne crônicas produzidas por uma espécie de resultado da superação dilatada da sensação de vazio que pode se apoderar melancolicamente de quem deixou (ou está deixando) para trás aquele sentimento profundo de pertencer a um lugar.

Ao sair de sua cidade natal e passar a “morar no vazio”, a melancolia do flâneur se torna texto errante, um texto prodigioso em sentimentos que fazem o autor catar aqui e ali os cacos de uma cidade (ou da lembrança dela), mesmo sabendo que deles não poderá criar um vitral.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 29/3/2021


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A fantástica volta (blogueira) ao mundo de Marcelo Maroldi


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2021
01. A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques - 31/8/2021
02. O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis - 17/8/2021
03. Cosmogonia de uma pintura: Claudio Garcia - 18/5/2021
04. Poética e política no Pântano de Dolhnikoff - 23/3/2021
05. Cem encontros ilustrados de Dirce Waltrick - 20/4/2021


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Hotel
Arthur Hailey
Nova Fronteira
(1965)



Escola pra Cachorro - uma Pequena Diferença 2ªed
Nilse Bechara
Liberty
(2018)



Livro - Cachorros Encrenqueiros Se Divertem Mais
John Grogan
Ediouro
(2008)



Sinhazinha Maria Inocencia
Valentina Leonel Vieira
A Tribuna
(2006)



A Porta da Aventura ( 1977)
Noronha Teresa
Brasiliense
(1977)



O Fim e o Início
Ana Cristina Vargas
Boa Nova
(2005)



Voce Sabe Jogar Pongue? 344 Dicas Sobre Desempenho Profissional
Jose Antonio Rosa
Futura
(2004)



Sagrada Sabedoria dos Mestres do Deserto
Jo Camano
Comunicar
(2016)



Livro - O Informe de Brodie
Jorge Luis Borges
Globo
(1970)



As Grandes Lições da Vida
Hal Urban
sextante
(2004)





busca | avançada
47137 visitas/dia
1,6 milhão/mês