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Quinta-feira, 17/10/2002
O melhor nacional do ano
Lucas Rodrigues Pires

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+ 1 Comentário(s)

Nem Cidade de Deus, nem Abril Despedaçado. O melhor filme brasileiro do ano se chama O Invasor, e foi assinado por Beto Brant, talvez a maior revelação do cinema local nos últimos anos.

Cidade de Deus deverá ser o escolhido nacional a uma indicação ao Oscar. Pode até ser indicado, mas não ganhará, como muitos outros excelentes filmes que morreram na praia. Abril Despedaçado foi cogitado no ano passado, mas um filme poético e repleto de metáforas como o de Walter Salles deve ser demais para os americanos industriais. Provavelmente não captaram a essência da obra, ou acharam chato demais, parado demais e o ignoraram. Ao lado de O Invasor, são os melhores de 2002 do cinema brasileiro.

O filme de Brant acabou de chegar às lojas em DVD. É uma aquisição obrigatória para quem gosta de cinema nacional e para quem busca uma história bem contada, com linguagem e forma diferentes daquelas encontradas no cinemão americano. Brant fez um filme violento, mas sem mostrar uma cena sequer de sangue ou tiro. O que é violento em O Invasor é sua linguagem, a montagem composta basicamente de planos-sequência e a câmera no ombro, sempre em movimento.

O Invasor começa com a encomenda de um crime por parte de dois homens, Giba (Alexandre Borges) e Ivan (Marco Ricca). Em seguida, descobrimos que eles são sócios numa construtora e que o morto seria o terceiro parceiro no negócio, que estava emperrando um contrato irregular com o governo. Giba e Ivan contratam Anísio (Paulo Miklos), o matador vindo da periferia, que não titubeia em acabar com o alvo planejado e com a esposa deste. Giba é seguro de si, sabe o que quer e no decorrer da trama se mostra um homem de sangue-frio, que mantém negócios paralelos ilegais e tem envolvimentos com pessoas ligadas a lobbies e corrupção. Ivan é seu oposto. A ambigüidade e insegurança em pessoa, manipulado e levado àquilo por Giba. Sua presença psicológica está constantemente aberta ao espectador, seu pensamento parece ser o único cabível de alguma justiça e consciência. É nele que o público se encontra, não pela decisão de matar, mas pela culpa, dúvida, ressentimento e medo que uma atitude equivocada o traz.

Num artigo recente em O Estado de S. Paulo, Luis Zanin Oricchio reconhece essa função no personagem Ivan. Lembro-me que, quando do lançamento nos cinemas de O Invasor, o mesmo jornalista escreveu sua crítica fundamentada na ausência de alternativa no emaranhado armado por Brant e pelo roteirista Marçal Aquino. Dizia que Brant era melhor quando se posicionava - o que constatou nos dois trabalhos anteriores, Os Matadores e Ação Entre Amigos. Segundo ele na época, O Invasor pecava por ser cético e não dar alternativa ao espectador, por não dar aquele personagem na qual poderíamos nos apoiar e nos identificar. No artigo mais recente, Zanin assume mudar de postura frente ao filme e invoca Ivan como essa saída, a ponta na qual nos veríamos nas telas. Foi esse artigo que me fez escrever este, pois ele se aproximou da minha interpretação de O Invasor.

A oposição de personalidades entre Giba e Ivan é mediada pela presença ameaçadora de Anísio, que surge nas telas mas não conseguimos de imediato dissociá-lo da figura do grupo Titãs. Quando isso acontece, lá pelo meio da narrativa, sua interpretação cresce e o filme ganha em impacto e originalidade, já que Miklos nunca trabalhara como ator. Ele esteve em estado puro - virginal, digamos -, sem nenhuma forma de cacoete ou truque para (re)criar um personagem. Anísio é o anti-matador por excelência, nenhum Charles Bronson ou Clint Eastwood acostumados ao ato de matar. Mesmo não sendo o protótipo de beleza, outra característica do anti-herói, ele seduz a jovem órfã Marina, filha de sua própria vítima. É essa relação que fará com que tudo mude na vida dos três cúmplices.

Aos poucos, o filme se volta a outra questão, a dicotomia centro/periferia. Com o crime, e a decorrente possibilidade de ascensão aos custos dos dois sócios, Anísio faz a peregrinação inversa. Parte da periferia para o centro. Ascende socialmente ao chantagear os engenheiros e ao namorar a garota rica herdeira da construtora. O final é a essência dessa mudança. De roupão de seda, ele abre as portas da mansão para Giba, como se fosse o proprietário absoluto, um rei em seus domínios. E, mais significativo ainda, deixa de ser o executor para ser o mandante. Ele agora pertence a outro patamar, daqueles que não sujam as mãos com mortes.

O inverso ocorre com Ivan. A culpa e o medo consomem-no de tal maneira que acabam por levá-lo a uma neurose real. E nessa onda ele acaba por sair de seu ambiente habitual para cair na periferia. Pelas ruas desertas da madrugada paulistana, Ivan dirige como um louco e colide num outro automóvel. As figuras que do carro saltam são representantes da periferia, o que comprova sua localização. Transtornado, alucinado, perdido, Ivan protagoniza a cena mais representativa de O Invasor - o caminhar solitário, expressão facial próxima da loucura plena, com arma em punho, no meio da avenida vazia de São Paulo. Close em seu pisar, cada passo como um adentrar no inferno. Sem volta, seu destino, a partir daí, estaria com a polícia, para quem conta todo o acontecido do crime. Seu pouso no desconhecido acaba sendo fatal, pois o policial do plantão na delegacia pertence ao esquema de Giba. No fim das contas, ninguém pareceu digno de confiança. Todos o traíram ou o deixaram - sua esposa, Giba, a amante... Todos estão corrompidos, de uma forma ou de outra. É a inviabilidade da nação através de seu povo. Enquanto Anísio deixa a periferia para não mais ser matador, Ivan vai até ela para encontrar o fim. Caminhos com a mesma direção, mas em sentidos opostos.

A viagem de um pólo a outro se mostra mais marcante com a ida de Anísio e Marina para a periferia. Eles fazem um tour pela região, ele mostra sua vizinhança como se ela fosse uma estrangeira. Tão pertos e tão distantes...Imagens de barracos, ruas esburacadas e mal iluminadas, um rap com caráter crítico social de fundo, servem para mostrar a degradação da área, a exclusão social envolvente a todos. Enquanto uns se divertem em bares e restaurantes em que cada prato não sai por menos de 50 reais, outros estão a passar fome e a sofrer nos bairros que cercam aqueles. A renda mensal de uma família não paga o jantar de um único representante do poder econômico da cidade. A disparidade envolve e Brant coloca o dedo nisso. Até que ponto a periferia, e Anísio é sua metáfora em O Invasor, não está invadindo a classe abastada, penetrando em seus domínios silenciosamente e deixando sua marca? Até que ponto a segregação imposta pelo lado mais forte é eficaz nessa selva de pedra? Haveria, assim, como sair ileso e correto desse buraco? Para Ivan, que se consome em culpa e medo, não houve salvação... O único representante palpável de consciência em O Invasor acaba mal. Nesse sentido, não é que a primeira crítica de Luis Zanin Oricchio estava certa? O mundo é mais para os Anísios e Gibas, encontrados aos montes por aí... Os Ivans estão fadados à morte se não cederem. Pagou por ter se arrependido de seu erro.

Para ir além





Lucas Rodrigues Pires
São Paulo, 17/10/2002


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
18/10/2002
15h40min
Oi Lucas, acabei de ler o seu texto, o primeiro de muitos, acredito. Achei sua análise bem estruturada, bem articulada, porém, em alguns momentos, um pouco descritiva demais, como se você quisesse trasnportar o leitor para a realidade que está abordadno muito mais pelo relato analítico de quem dá conta das cores que pintam o quadro do que sobre a maneira que elas o impactam e influenciam. Acho o distanciamneto uma ferramenta vital à análises que se pretendem construtivas, porém gostei mais das breves passagens em que voc~e se deixa levar pela histeria conceitual do filme e fala dele de maneira sanguínea, pulsante. "Passos adentrando o inferno, "estrangeiros" tão longe e tão perto". Não tenha receio de dar vazão a sua própria opinião. Continuarei na espreita, ansiosa pela próxima... Beijos Mônica (Casper)
[Leia outros Comentários de Mônica Charoux]
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