Retrato de corpo inteiro de um tirano comum | José Nêumanne

busca | avançada
60133 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Se for viajar de navio...
>>> Incompatibilidade...
>>> Alguns Jesus em 10 anos
>>> Blogues: uma (não tão) breve história (II)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I)
>>> Asia de volta ao mapa
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
ENSAIOS

Segunda-feira, 17/6/2002
Retrato de corpo inteiro de um tirano comum
José Nêumanne

+ de 5400 Acessos
+ 2 Comentário(s)

A República Dominicana divide uma ilha pequena com o miserável Haiti no Mar do Caribe, também é pobre e não tem notáveis atrações turísticas. Mas um episódio de sua história recente dá um bom exemplo de um tipo peculiar de regime que prevaleceu na América Latina inteira: o ditador Rafael Leonidas Trujillo Molina tem todas as qualificações biográficas do tipo de tiranete que mandou e desmandou em épocas diferentes em todos os países do subcontinente, mais ou menos ricos, mais ou menos populosos.

Como Bolívar, San Martín, Perón ou Pérez Jimenez, ele era militar, mas não um oficial pançudo à feição do desastrado sargento Garcia e, sim, um oficial com talentos de espião que se fez notar pelos comandantes das tropas de fuzileiros navais dos Estados Unidos, potência onde ele, como nove entre dez ditadores, logo encontrou apoio e guarida. Com um bigodinho fino, ao estilo do de Hitler e dos galãs de cinema da época, imitava Napoleão no vestir e usava assessores para levar mocinhas ao leito. O playboy Porfírio Rubirosa, também dominicano e famoso no jet set internacional pelas dimensões avantajadas de seu membro viril, foi seu genro (casou-se com Flor de Oro, filha do ditador) e protegido, compartilhando estrelas de Hollywood e socialites européias com os filhos dele, que tinham nomes de heróis egípcios (Ramfis e Radhamés), como convinha a quem pretendia ser rival dos faraós em poderio e longevidade.

Essas características são habilmente descritas nas páginas do romance A festa do Bode (Mandarim, 456 páginas, R$ 37), no qual o escritor peruano Mario Vargas Llosa exercita suas habilidades de ficcionista e seu conhecimento de causa sobre um tema que domina como poucos de seus colegas no mundo: o poder absoluto, em sua versão cucaracha. O Bode do título, bicho-símbolo da resistência à aridez e iguaria típica da cozinha latino-americana, dos mares do Caribe aos sertões do Nordeste brasileiro, foi inspirado na alcunha do tema do texto. Lá e cá, o rei dos chiqueiros de cabras é identificado com o macho promíscuo que espalha seu sêmen pelas fêmeas da tribo – papel que o ditador dominicano procurou exercer, ainda quando a próstata inflamada cobrou-lhe o dízimo da impotência. Um dos episódios mais chocantes – e nem por isso menos realista – do romance é o de sua tentativa de desvirginar a protagonista, Urania Cabral, usando o dedo para compensar brutalmente a impossibilidade da penetração convencional.

O sexo com súditas forçadas (no México, o “derecho de pernada”) era apenas mais um dos sinais externos do abuso de autoridade típico dos regimes personalistas sob cujo jugo a América Latina tem vivido desde as priscas eras em que deixou de ser colônia de Espanha e Portugal. Mario Vargas Llosa é um narrador superdotado de episódios fictícios, mas coerentes com a vida real e com a História de verdade, sendo capazes de substituir quaisquer discursos teóricos a respeito de mecanismos políticos e administrativos. Da mesma forma como se saiu magistralmente em A guerra do fim do mundo sobre o episódio de Canudos, retratou o Caribe hispânico de forma a não deixar reparos a serem feitos pelo leitor mais atento.

Ele descreveu Trujillo como uma espécie de Édipo tropical, que cultuava de forma peculiar a personalidade de sua mãe, a “Excelsa Matrona”, tema constante de homenagens na rede escolar e alvo permanente de pleitos ao todo-poderoso rebento. A casa materna era parada obrigatória do jogging diário que o tirano fazia pelas ruas da capital, Santo Domingo, rebatizada com seu nome: Ciudad Trujillo. Essas caminhadas, em que os áulicos se revezavam para ficar ao alcance dos olhos, da boca e, sobretudo, dos tímpanos de Sua Excelência, atendendo a sinais sutis que ele mesmo emitia, são metáforas exatas do funcionamento do absolutismo em culturas desacostumadas às instituições democráticas como o são as antigas colônias ibéricas na América.

O retrato da patota cortesã, que o acompanhava nessas caminhadas, foi traçado com impiedade por Vargas Llosa. Pelo texto, traduzido com precisão e graça pelo jornalista brasileiro Wladir Dupont, que tem a vantagem de escrever em castelhano e viver na Cidade do México, desfilam figuras impagáveis. Uma é o perverso Johnny Abes, cuja crueldade foi premiada com uma patente de coronel. Outra, o senador Henry Chirinos, apelidado pelo povo de Constitucionalista Bêbado, por sempre dispor de alto teor alcoólico no sangue e estar de prontidão para achar alguma justificativa legal e até constitucional para os desmandos do Chefe. Este o chamava de Imundície Vivente, por causa da mania que ele tinha de alisar os tufos sebosos de pêlos que se acumulavam em suas orelhas. Que outro países latino-americano, maior ou menor, mais rico ou mais pobre do que a República Dominicana, pode jactar-se de não ter produzido personagens como esses, hein?

Num levantamento completo como esse não poderiam faltar evidências de uma característica comum aos regimes do gênero: a forma como os negócios públicos misturam-se com os privados, no caso administrados pelo especialista em economia e perpétuo parlamentar Henry Chirinos, que “foi tudo o que se poderia ser nos trinta anos da Era: deputado, senador, ministro da Justiça, membro do Tribunal Cosntitucional, embaixador plenipotenciário e encarregado de negócios, presidente do Banco Central, presidente do Instituto Trujilloniano, membro da Junta Central do Partido Dominicano e, há um par de anos, o cargo de maior confiança, supervisor das empresas do Benfeitor. Como tal, a ele estavam subordinados os ministérios da Agricultura, do Comércio e das Finanças”. Mas enriquecimento pessoal não era a paixão peculiar do chefão, que manipulava dinheiro das contas bancárias pessoais fundamentalmente para investir em publicidade e comprar aliados poderosos nos Estados Unidos. Em compensação, seus irmãos, a mulher e os filhos construíram à sombra dele um império patrimonial, tornando a família “dona” do país, ao se apropriar, ao longo de seu mandarinato, de 70% da terra cultivável e 90% de toda a indústria dominicana.

O contraponto ao personalismo, à crueldade e à corrupção da ditadura é representado por duas ilusões recorrentes, não só na República Dominicana daqueles tempos, mas em todos os nossos países desde sempre até agora. A primeira delas é de que basta eliminar fisicamente o ditador para que o castelo de cartas da tirania desabe. A outra é de que basta a democracia, uma democracia de verdade, com voto unitário e plural, para restaurar um país, devolvendo o poder à sociedade, por muito tempo subjugada a um tiranete qualquer.

Mario Vargas Llosa promove uma minuciosa demolição desses dois mitos, dedicando praticamente um terço de todo o seu texto à longa espera noite adentro, às lembranças e às vidas dos assassinos do Generalíssimo. Movidos pela desilusão em relação ao regime, por antigos conceitos de honra e até por fé religiosa, os assassinos de Trujillo funcionaram como uma espécie de mão armada de um destino inexorável. Em 1961, quando o Belair azul-claro 1957 em que o ditador viajava foi picotado de balas, sua ditadura não tinha mais tanto fôlego para resistir ao cerco financeiro e político do ex-aliado a norte do Caribe, manifestado pelas pressões de sempre, a começar pela resistência explícita do clero católico.

A humilhante incontinência urinária e outras evidências de decadência física (descritos com perversa ironia por Vargas Llosa) não eram os únicos males que abatiam o ditador, antes de ser fuzilado num carro em movimento. Na prática, ele já era um cadáver político, cuja sobrevivência não interessava mais a seus antigos protetores num mundo que mudou à sua distância e revelia e onde não havia mais lugar para arrocho político, mesmo quando tido como condição para a pujança econômica (quem não se lembra do “milagre brasileiro”?).

Ainda assim, os donos das mãos que assinaram na vida real a sentença de morte do inconveniente ex-aliado não usufruíram de honrarias de heróis. Ao contrário, o quebra-cabeças, do qual o atentado na estrada era somente uma peça, não foi montado como se esperava e os responsáveis pelo alívio representado pela supressão daquele foco de incômodo foram entregues à sanha dos brutais e corruptos irmãos e filhos do ditador pelas mãos melífluas de um personagem que merece destaque quase igual ao do tema central do texto: o bacharel Joaquín Balaguer, que até hoje, aos 94 anos e cego, manipula os cordéis da política dominicana na frágil democracia construída sobre a tumba do Generalíssimo.

Como se adivinhasse em que mãos o poder cairia após sua morte, certa vez o próprio Trujillo perguntou àquele auxiliar sistemático, assexuado e despido de quaisquer marcas pessoais de carisma ou sedução, o que o motivava na vida. Vargas Llosa pôs na boca do Bode a questão central sobre a personalidade de seu sucessor: “Há algo de desumano em você (....) Não tem os apetites naturais dos homens. Que eu saiba, você não gosta de mulheres nem de rapazes. (...) Não bebe, não fuma, não corre atrás de saias, nem do dinheiro, nem do poder. Você é assim mesmo? Ou essa conduta é uma estratégia com um desígnio secreto?” Não foi ainda daquela vez que o Chefe arrancou uma confissão sincera do presidente da República, que lhe era subordinado num arranjo tantas vezes repetido na América (o próprio Fidel Castro deu-se ao luxo de escolher cubanos ilustres para interpretar esse papel de títere). Serenamente, sem se mostrar aborrecido nem diminuído, no mesmo tom de voz monocórdio que usava para conversar ou discursar, Balaguer respondeu-lhe: “Desde que conheci Sua Excelência, naquela manhã de abril de 1930, meu único vício foi servi-lo. Desde aquele momento, soube que, servindo Trujillo, serviria meu país. Isso enriqueceu minha vida mais do que poderia fazer uma mulher, o dinheiro ou o poder”.

Essa pessoa, aparentemente desprovida de espinha dorsal, mostrou que não foram vãs as duras lições de sobrevivência aprendidas em 30 anos de ditadura. Com habilidade digna de um Getúlio Vargas e capacidade de manipulação de matar Haya de la Torre de inveja, deixou a família enlutada triturar os ossos e se nutrir do sangue dos assassinos do Chefe para se assenhorear do poder, adaptando-se à nova ordem interna e externa com a mesma capacidade camaleônica com que houvera servido à antiga tirania, enfim extinta.

Dos assassinos do ditador cuja ditadura não servia mais para o país nem para seus ex-aliados, Amadito García Guerrero, Juan Tomás Díaz, Antonio de la Maza e Salvador Estrella Sadhalá pagaram com o próprio martírio pessoal. Apenas dois dos conspiradores, Antonio Imbert e Luis Amiama, conseguiram esconder-se, sobreviver à retirada negociada dos remanescentes da família Trujillo e, afinal, receberam os louros pelo atrevimento de seu ato extremo. O senador Henry Chirinos apresentou ao Congresso (“O mesmo Congresso de Trujillo, sim senhor”) uma lei nomeando Antonio Imbert e Luis Amiama generais de três estrelas do Exército Dominicano, “por extraordinários serviços prestados à Nação”. O presidente da nova fase da República de sempre, que antes criticara a ditadura na ONU e se comprometera a democratizar o país, os receberia no palácio. A cena ganha a condição de símbolo e emblema na descrição de Vargas Llosa: “Sorrindo e com expressão de profunda alegria, o doutor Joaquin Balaguer foi até eles, sob os flashes dos fotógrafos, os braços abertos”.

Eis a lição encerrada no texto de A festa do Bode: ditadores como o dominicano Rafael Leonidas Trujillo Molina encarnam à perfeição vícios entranhados na organização social, econômica e política de nossos países e, por isso, são entronizados no poder. Mas seu desaparecimento, seja por morte natural, seja a tiros, não leva necessariamente à súbita substituição desses vícios por uma nova ordem mais justa e mais igualitária. Em nossos países de instituições frágeis e cidadania desarranjada, não basta eliminar as evidências físicas do absolutismo personalista malsão. Mas é preciso minar-lhe as bases num combate exaustivo, paciente e repetitivo às manias e distorções arraigadas desde as origens mais remotas de nossa desorganização social.

A falsa expectativa do extermínio da ditadura com a eliminação física do ditador se enraíza no mesmo solo onde se nutre a ilusão de que um herói solitário seria capaz de corrigir distorções que têm base em práticas sociais ancestrais e velhos defeitos de caráter nacional. Cometem-se tais enganos desde sempre e foram se repetindo em gestões como as de Hugo Chávez na Venezuela e Alberto Fujimori no Peru. Assim também se ilude quem imaginar que bastará Fidel Castro morrer para Cuba ser redemocratizada e se abrir ao mundo livre.

Da mesma forma, como prova a recente safra de frágeis regimes democráticos latino-americanos (e certamente o Brasil de FHC não é e o México de Vicente Fox não será uma exceção), a liberdade de imprensa e o voto livre podem continuar sendo condições indispensáveis para o usufruto das liberdades políticas a que todos têm direito, mas certamente não dispensam outras. Essas democracias que repetem erros da tirania não são a panacéia universal para curar a miséria e outros males ancestrais de nossos países, mas só os têm empurrado adiante com a barriga (vazia). Sem o exercício pleno da cidadania e o funcionamento impessoal das instituições, nada produzirá o efeito benéfico que nos livrará de todo o Mal.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no "Caderno de Leitura Sábado", do Jornal da Tarde.

Para ir além






José Nêumanne
São Paulo, 17/6/2002

Mais José Nêumanne
Mais Acessados de José Nêumanne
01. A Trilogia de João Câmara - 12/1/2004
02. O prazer, origem e perdição do ser humano - 29/4/2002
03. O CNJ e a Ancinav - 20/9/2004
04. O Desprezo de Alberto Moravia e Jean-Luc Godard - 12/5/2003
05. Retrato de corpo inteiro de um tirano comum - 17/6/2002


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
18/6/2002
01h10min
Eita resenha porreta. Resenha, ou ensaio? Não sou professor, não sei dizer, só sei aplaudir. Alberto da Cunha Melo
[Leia outros Comentários de Alberto Cunha Melo]
18/6/2002
02h17min
É de estontear o Nêumanne cáustico e contundente desse ensaio. Ao analisar A Festa do Bode, vai além da crítica literária. Aproveita o "mote" para dar uma lição histórica. Expõe os tumores da tirania tão íntima aos países latino-americanos, somando-se a V. Llosa na demolição dos mitos que confeitam a podridão da nossa miséria política. Terrível e necessário.
[Leia outros Comentários de Cláudia ]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




MANUAL PRÁTICO DO HORÓSCOPO CHINÊS
MINAMI KEIZI
TRAÇO
(1988)
R$ 15,00



MUITO ALÉM DO CORPO- A CONSTRUÇÃO NARRATIVA DA SAÚDE
FERNANDO LOLAS STEPKE
LOYOLA
(2006)
R$ 13,90



101 NOITES DE NATAL - UMA ANTOLOGIA LITERÁRIA
FERNANDO PESSOA E OUTROS
101 NOITES PROD.CULT.
(2001)
R$ 50,00



O NACIONALISMO NA ATUALIDADE BRASILEIRA
HELIO JAGUARIBE
FUNDAÇÃO ALEXANDRE DE GUSMÃO
(2013)
R$ 35,90



GAFE, NÃO É PECADO
CLAÚDIA MATARAZZO
MELHORAMENTOS
(1996)
R$ 4,00



BOLOFOFOS E FINIFINOS
FERNANDO SABINO
EDIOURO
(2004)
R$ 7,00



COMO FAZER APRESENTAÇÕES
TIN HINDLE
PUBLI FOLHA
(1998)
R$ 10,00



CONVERSAS COM GERDA ALEXANDER
VIOLETA HEMSY DE GAINZA
SUMMUS
(1997)
R$ 50,00



INTRODUÇÃO À PSICOLOGIA EDUCACIONAL
RUY DE AYRES BELLO -2ª EDIÇÃO
BRASIL
(1964)
R$ 8,00



AS 100 TURMAS DA MEDICINA DA USP 3530
DIVERSOS
CASA DE SOLUÇÕES
(2012)
R$ 19,00





busca | avançada
60133 visitas/dia
1,1 milhão/mês