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Segunda-feira, 14/5/2007
Fielding, a prosa da razão sensual
Daniel Piza

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No capítulo 35 de Tom Jones, de Henry Fielding (1707-1754), o protagonista é assediado por uma mulher mascarada. “Jones nunca se sentira menos inclinado a galanteios do que então”, informa a narrativa, “mas ser galante com as mulheres era um dos seus princípios de honra, e ele achava que tanto devia aceitar um desafio para o amor quanto um desafio para um duelo.” Esse tipo de humor, brincalhão e sensual – irônico ao contrapor termos como “galanteio” e “honra” –, é a marca de Fielding, cujo tricentenário se comemora hoje. E, se ele se tornou um dos maiores romancistas de todos os tempos, em grande parte foi porque não levou esse gênero tão a sério.

Romances, afinal, ele escreveria apenas cinco – o primeiro deles aos 34 anos, depois de ter feito nada menos que 25 peças de teatro nos mais variados estilos, de adaptações de Molière, farsas e comédias a operetas e sátiras políticas. Poemas, artigos, ensaios e manifestos também seriam produzidos em sua prolífica e conturbada carreira, que ainda passaria pela política e pela advocacia. Mas é basicamente por Tom Jones (1749; adaptado no Brasil por Clarice Lispector, em livro reeditado agora pela Ediouro) que seu nome é e deve ser lembrado; a única outra obra de interesse atual é Joseph Andrews (1742), seu segundo romance, que o tornou popular em sua época e em que muitos elementos daquela obra-prima são adiantados.

Ele nasceu no interior, perto de Glastonsbury, e foi educado em casa e mais tarde em Eton, um dos colégios mais reputados da Inglaterra. Chegou a Londres aos 18 anos e pouco tempo depois já publicava poemas e comédias. Até 1737 seguiu na carreira de dramaturgo, quando ela foi interrompida por um ato do primeiro ministro conservador Robert Walpole, enfurecido com uma sátira de Fielding. Casado com Charlotte Cradock, que seria modelo para seu último romance, Amélia (1751), ele então tentou carreira como advogado, mas foi como ficcionista que fez sucesso. Também produziu muito jornalismo político, depois da queda de Walpole, e voltou a escrever sátiras. Ainda trabalhou como juiz e se tornou uma autoridade importante, numa ascensão interrompida pelas doenças, das quais tentou se recobrar em Lisboa antes de morrer.

Seu primeiro romance se chama Shamela, um trocadilho entre Pamela, título do romance de Samuel Richardson, e “shame”, vergonha. Fielding o escreveu para zombar desse tipo de história, em que uma empregada doméstica se casa com o filho do seu rico empregador. O subtítulo do romance de Richardson é Virtude recompensada. Em Fielding, não é sempre a virtude que é recompensada. Tom Jones tem um final feliz, mas está longe de ser um personagem virtuoso. Num ensaio famoso, “A ascensão do romance”, o crítico inglês Ian Watt comparou os dois autores e, em defesa de Richardson, notou que em sua ficção há um trabalho mais minucioso e envolvente de caracterização; os personagens são descritos em detalhes, e conhecemos seus motivos íntimos ao ter contato com suas vozes em cartas e diálogos.

No entanto, os personagens de Fielding são plenos de vida, e é essa aparente contradição que lhe faz superior como escritor. Seu romance seguinte, Joseph Andrews, também começou com a intenção de parodiar a ficção da época, que começava a cair no gosto da classe média por transportar os leitores para microcosmos desconhecidos, novos, de onde deriva o termo “novel” (romance, em inglês). A intenção do livro era expor sua idéia sobre o que deveria ser um romance, mas Fielding foi além da tese e fez uma narrativa em que o leitor se envolve com a história, mesmo que interrompida por comentários e análises. Andrews, que é obrigado a deixar o emprego porque não quer namorar a patroa e parte com um companheiro de viagem, Parson Adams, tenta a todo custo manter a virtude, mas as experiências que vive se tornam mais importantes. O mesmo vale para Jonathan Wild, seu livro de 1743.

Seus romances, portanto, nasceram com a missão de satirizar os romances – dos quais desconfiava desde os tempos em que era comediógrafo. Desconfiança, por sinal, é um dos temas de Tom Jones, que no capítulo 23 faz a distinção entre aquela que vem do impulso, sem provas sólidas, e a que vem da “faculdade de vermos o que está diante dos nossos olhos”, como o marido que surpreende a esposa nos braços de um jovem conquistador... Não é a desconfiança como medo ou maledicência, mas como dúvida inteligente.

Fielding, evidentemente, pertence à linhagem de Miguel de Cervantes, dos ficcionistas “picarescos”, assim como Lesage (Gil Blas), Laurence Sterne (Tristram Shandy) e, mais tarde, o brasileiro Machado de Assis, que leu todos esses autores e, depois de quatro romances mais “richardsonianos”, saltou para outro patamar ao escrever Brás Cubas. Cada um, porém, tem sua peculiaridade. A de Fielding é uma narrativa de viagem cômica em que, embora não haja um triunfo heróico – Jones apanha tanto quanto Quixote ao longo de suas andanças –, a peroração melancólica é trocada por um senso de prazer, uma alegria vital que põe em segundo plano o pessimismo. Ele tira sarro, enfim, dos heróis de romance que enfrentam o mundo para atingir seu ideal e vencem. Mas dá a seu protagonista, por uma sucessão de incidentes e acasos, a realização ainda que tardia de seu desejo maior.

Em certo sentido, o leitor quer ser Jones, o bonitão que perambula por seu país e se envolve numa série de aventuras; ninguém quer ser Quixote, com seus delírios e derrotas. Os capítulos são curtos, o ziguezague da história é intenso, as desventuras são muitas, a humanidade não é vista com bons olhos – mas nem por isso Jones se deixa abater. Disto decorre o sucesso da versão em cinema, dirigida em 1963 por Tony Richardson (por ironia, o sobrenome do rival de Fielding), com Albert Finney e Susannah York. Finney é o perfeito Tom Jones, quase um “playboy” do século 18. Tom Jones é neto de Quixote, mas é também avô de Huckleberry Finn, em sua abertura para o imprevisto.

O escritor Anthony Burgess (Laranja Mecânica), em sua história da literatura inglesa, diz que Fielding é o maior romancista inglês daquele século. E olhe que nele estiveram, além de Sterne, Richardson e Smollet, dois autores que considero difícil dizer inferiores a ele: Jonathan Swift, de Viagens de Gulliver (1726), e Daniel Defoe, de Robinson Crusoe (1719). Por sinal, como se escrevia bem na Inglaterra daquele tempo! Prosadores de ficção desse porte conviviam com jornalistas culturais como Richard Steele e Joseph Addison, homens de letras como Samuel Johnson e historiadores como Edward Gibbon. Burgess classifica esse time sob o nome genérico de “prosa na Era da Razão”, afinal estamos na ante-sala do Romantismo; mas não se trata apenas de uma escrita lógica, lúcida, pois é também colorida, lúdica – o que a de Fielding demonstra em especial.

Nele há um modo de pensar que se pode dizer “iluminista”, tanto é que Jones não cessa de se espantar com a irracionalidade dos que se aproximam, cheios de interesses egoístas e descontroles emocionais; ao mesmo tempo, Fielding não está de acordo com visões otimistas sobre a bondade inata do ser humano, corrompido pela sociedade e recuperável pela educação, e sabe que o comportamento moral não tem regras fixas. O conceito de “razão” como frieza é uma invenção posterior; Fielding, como os outros prosadores citados, não acha que tudo se explica por relação de causa e efeito, num processo mecânico. Seu toque libertário, ou até libertino, não combina com a imagem do racionalista. E é ele que põe fogo em sua prosa e na sensibilidade de seu leitor.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Publicado originalmente n’O Estado de São Paulo, em 22 de abril deste ano.

Para ir além






Daniel Piza
São Paulo, 14/5/2007

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