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ENSAIOS

Segunda-feira, 28/1/2008
Ah, essa falsa cultura...
Sérgio Augusto

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+ 9 Comentário(s)

Como dar conta de tantos livros? Eis um drama universal, que vários livros já inspirou. O último da espécie que li intitulava-se Los Demasiados Libros, do poeta e ensaísta mexicano Gabriel Zaid, aqui traduzido pela Summus, informação que só estou lhe passando, "paresseux lecteur", por tratar-se de leitura rápida (tem em torno de 150 páginas), ademais prazerosa e inspiradora. Zaid possui uma biblioteca de mais de 10 mil livros. Não é um colecionador, um bibliômano; apenas adora ler; e é claro que: 1) não leu todos eles; 2) nem sequer folheou a maioria; 3) vários só leu até a metade, se tanto. Como todo mundo, aliás. Complexo? Zero.

Acumular milhares de livros não lidos sem perder a pose nem o desejo de comprar outros mais é um dos apanágios do verdadeiro homem ilustrado, defende-se Zaid de eventuais patrulheiros culturais. Até porque livros descartáveis ou apenas de consulta é o que não falta.

Mesmo quem lê muito rápido, sem prejuízo do gozo e da assimilação, sofre um bocado com o acúmulo de livros ao seu redor. Acompanhar o ritmo do mercado editorial é um anseio impossível, uma frustração permanente, que, como a morte, deve ser encarada como uma fatalidade ecumênica. Não sei se os que lêem menos, sobretudo por falta de tempo, sofrem mais que os bibliófagos, mas é entre eles que se encontra o maior número de preocupados com a pecha de inculto e alienado.

Para estes já existe um remédio. Paradoxalmente, sob a forma de livro. E, ainda que o autor rejeite o rótulo, um livro de auto-ajuda, quiçá de alta ajuda. Publicado na França, Comment Parler des Livres que l'on n'a pas Lus? (Editions Minuit) já foi traduzido para o inglês, também virou best-seller na Alemanha, e tem tudo para virar franquia retórica nas tertúlias do mundo inteiro, pois o sonho de poder falar sobre livros que não lemos talvez seja mais intenso e disseminado que a quimera de ter lido todos os livros importantes publicados até hoje.

Seu autor, Pierre Bayard, 52 anos, mestre em literatura e psicanalista, já aprontou várias petulâncias. Há sete anos, publicou Comment Améliorer les Oeuvres Ratées, em que sugere mudanças em obras menores de Marcel Proust, Marguerite Duras e outros medalhões. Em 2002, lançou Enquête Sur Hamlet: Dialogue des Sourds, no qual tenta provar que Claudius não matou seu irmão, o rei da Dinamarca e pai de Hamlet.

Comment Parler des Livres que l'on n'a pas Lus? é seu 12º livro. Embora possa parecer um açougueiro promovendo as virtudes do vegetarianismo, de insincero Bayard não pode ser acusado. Já no prefácio admite ler pouco, por falta de tempo e interesse, e confessa ter dado aulas e palestras sobre obras em que nunca pôs os olhos.

De messiânico, sei não. Afinal, ele se diz investido da missão de salvar a humanidade das profundas neuroses semeadas pelo fetiche livresco, vale dizer do sentimento de culpa e humilhação que costuma afligir os que não gramaram do princípio ao fim os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust. Aos quais poderíamos acrescentar os 17 tomos da Comédia Humana, de Balzac; as quase mil páginas de Ulisses, de James Joyce; as 800 páginas de A Montanha Mágica, de Thomas Mann; as quase 400 páginas de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa; as 1.190 páginas de Guerra e Paz, de Tolstoi (na tradução da Aguilar) ― para ficarmos só em alguns dos mais célebres catataus da literatura ocidental.

Partindo de uma constatação razoavelmente lógica ― se lemos um livro de ponta a ponta, muitos outros terão de ser desprezados ou, na melhor das hipóteses, lidos pela metade ou apenas folheados ― Bayard propõe algo mais que uma atualização pós-moderna do Método de Leitura Dinâmica de Evelyn Wood, que tantos seguidores amealhou nos anos 60, entre os quais o presidente John Kennedy e milhares de brasileiros. É uma nova e estrambótica maneira de se lidar com um livro, um vade-mécum que mais parece uma paródia de Jacques Derrida e da Modesta Proposta de Jonathan Swift, aquele panfleto satírico (safra 1729) em que o autor de As Viagens de Gulliver recomendava que os irlandeses à beira de miséria faturassem algum transformando seus rebentos em alimento para os ricos. Ou uma paráfrase daquela competição inventada pelos Monty Python, cujos participantes tinham 15 minutos para resumir os sete volumes da Recherche proustiana.

A leitura tradicional, letra por letra, palavra por palavra, está superada, pontifica Bayard, que nunca terminou Ulisses nem O Homem Sem Qualidades (de Robert Musil), só conhece A Eneida (de Virgílio) e Oliver Twist (de Charles Dickens) através de ensaios, não se lembra de mais nada de A Interpretação dos Sonhos (de Freud) e O Lobo da Estepe (de Hermann Hesse), e não faz a mais remota idéia do conteúdo da Retórica de Aristóteles.

Embora mencione Oscar Wilde, seu raciocínio não se apóia literalmente na conhecida boutade wildiana: "Nunca li um livro antes de criticá-lo para não me deixar influenciar pela sua leitura." O quesito influência não o aflige, mas as raízes de seu raciocínio estão, sem dúvida, no Wilde do monológico ensaio "O Crítico Como Artista", no qual o provocante irlandês, após salientar ser inútil beber o tonel inteiro para conhecer a origem e a qualidade de um vinho, argumenta: "Pode-se dizer facilmente em meia hora se um livro é bom ou não vale nada. Bastam, de fato, dez minutos, se se possui o instinto da forma."

Também são referências respeitáveis o sábio Montaigne, que lia à beça mas esquecia de tudo ("nulle retention", queixou-se num de seus ensaios), e Paul Valéry, que encontrava maneiras de elogiar autores cujos livros sequer abrira ou lera por alto, como Proust, e esculachar outros, como Anatole France. A propósito, se esquecemos do que trata um livro que efetivamente lemos, podemos considerá-lo lido? Aqui e ali Bayard menciona personagens de Graham Greene, Umberto Eco e David Lodge que questionam a necessidade da leitura tal como vem sendo há séculos praticada.

Que utilidade tem saber que Leopold Bloom come um sanduíche de gorgonzola no almoço?, questiona Bayard. Mais vale saber que Ulisses é um romance experimental de Joyce, inspirado na Odisséia de Homero, que faz uso do "fluxo de consciência" para descrever um dia (16 de junho de 1904) na vida de alguns poucos dublinenses, já não fará feio numa roda de amigos cultivés. E o prazer da leitura? Uma coisa é saber que Dostoiévski introduziu a psicologia no romance ou que Capitu tinha olhos de cigana oblíqua e dissimulada, outra é experimentar, com o máximo de concentração, a febril deambulação de Raskolnikov por São Petersburgo e a crescente paranóia de Bentinho de que foi corneado pela mulher.

A seus alunos e também aos filhos, Bayard ensinou pessoalmente a sua "prática indisciplinada da leitura": primeiro, examinar a capa e a lombada do livro; depois, ler a primeira frase, passar os olhos nas passagens cruciais, e monitorar tudo o que a seu respeito é dito e publicado. Dito por quem o tenha lido de cabo a rabo, presumo; do contrário, como iremos localizar as tais "passagens cruciais"? Livros que se tornam fenômenos por razões extra-literárias, divulgados e discutidos ad nauseam pela mídia, são autênticos pitéus coloquiais. Mas quantos de vocês aí leram até o fim Os Versos Satânicos e O Nome da Rosa? Descomplexidamente confesso: nem abri o primeiro e não consegui ir além da trigésima sexta página do segundo.

A proposta de Bayard soa leviana, para não dizer funesta (e rimar com modesta). Imagino o horror causado em culturalistas & bibliômanos como Harold Bloom, E.D. Hirsch, Alberto Manguel, Sven Birkerts, e nos apóstolos do "close reading"; e o prazer dado a Franco Moretti, excelente ensaísta e professor da Universidade de Stanford, na Califórnia, que até na Alemanha causou sensação com uma conferência sobre "como falar em literatura sem nunca ter lido um romance." Mas é inegável que Comment Parler des Livres que l'on n'a pas Lus? diverte e funciona como quebra-galho social, cheio de dicas para fazer farol e evitar gafes com autores e leitores tradicionais. Ou mesmo escrever resenhas: "Ponha o livro à sua frente, feche os olhos e tente perceber o que nele possa interessá-lo. Aí, então, comece a escrever sobre si mesmo."

Na presença de um autor, o mais aconselhável é elogiar sua obra sem entrar em detalhes. Detalhes, diante dos elogios, são irrelevantes. E, quanto mais vaidoso o autor, muitíssimo mais relevantes os elogios. Deixar o subconsciente expressar sua relação pessoal com a obra, nem que seja para discorrer apenas sobre a expressividade da capa e a elegância da tipologia, é outro conselho que Bayard oferece à sua clientela. Falar de si mesmo, usando o livro como pretexto, sem aprofundar-se no conteúdo, costuma funcionar, principalmente quando o tergiversador força a imaginação e acaba inventando o seu próprio livro.

"Não quero justificar a não leitura, apenas ensinar as pessoas a viver sem pânico com os livros, ajudá-las a encontrar seus próprios caminhos através da cultura, inclusive aquelas alheias ao universo da palavra escrita, que, de tão apegadas à cultura das imagens, têm dificuldade de voltar à leitura. Quero evitar que a cultura cause novos traumas, que a leitura continue sendo vista como um aterrorizante espectro do conhecimento. Quero libertar os alunos da produção de relatórios exaustivos sobre tudo o que leram, obrigados pelo professor. Isso não é leitura, é burocracia."

Bayard quer muita coisa. Eu também. Ler seu livro, por exemplo. Ou vocês acham que eu cometeria a descortesia de o ler antes de escrever as linhas acima?

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado em 11 de novembro de 2006, no "Caderno 2" d'O Estado de São Paulo.

Para ir além






Sérgio Augusto
Rio de Janeiro, 28/1/2008

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
28/1/2008
08h34min
Agradeço ao Sérgio Augusto pelo texto acima. Já tinha até colocado o tal livro do Pierre Bayard na lista de comprar do Submarino, mas, como não tinha o cartão de crédito correto na mão, deixei para comprar depois. Agora, graças ao incentivo de tão boas sugestões e reflexões, não vou comprá-lo de jeito nenhum!
[Leia outros Comentários de Albarus Andreos]
28/1/2008
12h45min
A frase mais simples seria: "Não li". Ponto. Ou então esta: "Estou na página 30", que era o modo como João Guimarães Rosa respondia aos autores que lhe mandavam suas aflitivas, pedintes e carentes "obras-primas". Mas Pierre Bayard talvez só esteja dando álibi a uma nova corrida armamentista, que é a da construção da imagem pública a todo custo e a qualquer preço, pela contracapa, pelas orelhas ou pelo vento. Sem traumas. E diet.
[Leia outros Comentários de Paulinho Assunção]
28/1/2008
13h15min
Gostei. Claro que não li o livro de Bayard. Mas pra quê, se Sérgio Augusto nos passou o que é necessário para discutirmos em uma roda de "intelectuais" e pontuarmos com segurança o que sabemos da obra. Mas, gostei, principalmente pela exposição clara do que acontece com muita gente, supostamente, leitores inquestionáveis. O que se pode concluir é o seguinte: Se lemos um livro realmente de cabo a rabo, excelente, o livro é bom, nos agradou. Caso contrário, usemos o procedimento citado. Pode dar certo.
[Leia outros Comentários de Adriana Godoy ]
28/1/2008
14h55min
Existe também o problema dos livros que anulam outros. Parei de ler Proust para ler James Baldwin e depois não consegui voltar. Não consegui voltar pro Kafka depois do Faulkner. Salinger (Borges também, possivelmente) tornou difícil suportar os contistas russos. O contrário também rola: li O Nome da Rosa só porque é um pastiche de Sherlock Holmes. Vale, como disse Oscar Wilde, "o instinto da forma" e, talvez mais ainda, a aceitação tranqüila da impossibilidade de ler tudo. Quem gosta de ler não vai conseguir continuar, me parece, sem praticar essas duas coisas. Salve.
[Leia outros Comentários de Guga Schultze]
30/1/2008
18h41min
Já estou quase acabando de ler o livro pelas vias tradicionais, ou seja, palavra por palavra do início ao fim. Quem se deixar levar pelo título vai perder um excelente livro.
[Leia outros Comentários de Juca Azevedo]
30/1/2008
23h34min
Às vezes leio livros, noutras freqüento escritores e há momentos nos quais sou levado pela curiosidade em um determinado tema; também já fui hipnotizado por um livro e fiz uma leitura vertiginosa. Esta de pontuar literatices em roda de "intelectuais" é uma modalidade inédita, ao menos para meus fins. Tem aí muito de depressão, de solidão... Acho que a prescrição deveria ser auto-ajuda e o livro do Pierre Bayard. Não sei dizer se leio pouco, mas até onde vou é com o que leio. Penso nos simpatizantes do Método Bayard confundindo leitura com etiqueta social. Mais um simulacro para o molde do homo atual.
[Leia outros Comentários de Carlos E. F. Oliveir]
8/2/2008
15h06min
Caro, não farei o que parece transcender de tua "tese". Mas se o fizesse, seria definitiva a impressão que tive, que você chegou a esta boa qualidade que tens em escrever, através de completas leituras. E agora, por algum motivo relacionado à ansiedade ou coisa maior, prega isso de apenas beliscar o texto. Creio que Wilde não pode ter dito o que você insinou antes de usá-lo. Bem, não li tudo hoje, mas depois leio, quem sabe, aí escrevo novamente.
[Leia outros Comentários de Dante Sempiterno]
11/2/2008
10h27min
Acho que ler é bom! Eu leio de tudo, até bula de remédio. Podem crer, muitas bulas são verdadeiros exemplos ensaistas, um primor descritivo. Deveriam ser consideradas um novo estilo literário. Não é maldade minha, não, é a pura constatação da realidade. Tem tanto livro inútil por aí que as bulas e alguns artigos de blogs são melhores. São muitos os livros publicados e a maioria de autores estrangeiros. As editoras não gostam de publicar escritores brasileiros e muito menos os novos. Entrem em uma dessas modernas livrarias grandes, dessas bonitonas, com café, restaurante, spa, piscina, sauna e parque infantil, que se perderão no meio de tantos títulos. Pesquisem bem e verão que grande parte é de inutilidades. Não é porque o autor é desses conhecidos que o seu livro é bom! Estou lendo um ensaio de Bernard Shaw, "Socialismo para Milionários", que é uma porcaria! E Bernard Shaw é conhecido, não é?
[Leia outros Comentários de I. Boris Vinha]
12/2/2008
14h06min
"Seria bom comprar livros se pudéssemos comprar também o tempo para lê-los, mas, em geral, se confunde a compra de livros com a apropriação de seu conteúdo.", já dizia Schopenhauer. Muitas vezes me senti oprimido pela quantidade de livros não lidos em minhas prateleiras (sim, eu continuo comprando mais). Não posso afirmar, sendo bastante sincero, que isso ainda não me incomode. Na verdade porque o fato funciona para mim mais como um lembrete incômodo da realidade de nossa vida cotidiana. Da absurda lógica capitalista onde "tempo é dinheiro". Onde arranjar tempo para dar conta de tudo que chama a atenção de nosssa curiosidade em um mundo que nos cobra cada vez mais? Amo a leitura. Queria muito mesmo ler mais, porque para mim é acima de tudo, um imenso prazer. Mas leio para mim. Não para os outros.
[Leia outros Comentários de Carlos Santanna]
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