Um kadish para Tony Judt | Sérgio Augusto

busca | avançada
54703 visitas/dia
2,2 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Rosas Periféricas apresenta espetáculos sobre memórias e histórias do Parque São Rafael
>>> Música: Fabiana Cozza se apresenta no Sesc Santo André com repertório que homenageia Dona Ivone Lara
>>> Nos 30 anos, Taanteatro faz reflexão com solos teatro-coreográficos
>>> ‘Salão Paulista de Arte Naïf’ será aberto neste sábado, dia 27, no Museu de Socorro
>>> Festival +DH: Debates, cinema e música para abordar os Direitos Humanos
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> A história de Claudio Galeazzi
>>> Naval, Dixon e Ferriss sobre a Web3
>>> Max Chafkin sobre Peter Thiel
>>> Jimmy Page no Brasil
>>> Michael Dell on Play Nice But Win
>>> A história de José Galló
>>> Discoteca Básica por Ricardo Alexandre
>>> Marc Andreessen em 1995
>>> Cris Correa, empreendedores e empreendedorismo
>>> Uma história do Mosaic
Últimos Posts
>>> Desigualdades
>>> Novembro está no fim...
>>> Indizível
>>> Programador - Trabalho Remoto que Paga Bem
>>> Oficinas Culturais no Fly Maria, em Campinas
>>> A Lei de Murici
>>> Três apitos
>>> World Drag Show estará em Bragança Paulista
>>> Na dúvida com as palavras
>>> Fly Maria: espaço multicultural em Campinas
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O primeiro livro que li
>>> Uma Obra-Prima Sertaneja
>>> O Chileno
>>> 17 de Julho #digestivo10anos
>>> Os Rolling Stones deveriam ser tombados
>>> Chuck Berry
>>> Autor não é narrador, poeta não é eu lírico
>>> E se tivesse dado certo?
>>> Entrevista com Milton Hatoum
>>> Um gourmet apaixonado por Paris
Mais Recentes
>>> As Crônicas do Rei Gormath de Nonato Peixoto nogueira pela Chiado Books (2021)
>>> Kaluana Kami de Nonato Peixoto nogueira pela Arte (2016)
>>> Arlindo de Ilustralu pela Seguinte (2021)
>>> Ver Bem Sem Óculos de Dr. Vander pela Mestre Jou (1967)
>>> Soma Uma Terapia Anarquista vol 2 -A Arma é o corpo de Roberto Freire pela Guanabara Koogan (1991)
>>> Dicionário Jurídico Italiano - Portoghese /Português-Italiano de Romolo Traiano pela Centro Studi Ca'Romana (1997)
>>> História da Umbanda: Uma Religião Brasileira de Alexandre Cumino pela Madras (2019)
>>> Cromoterapia Técnica de René Nunes pela Linha Gráfica (1987)
>>> Confissões de Santo Agostinho pela Principis (2019)
>>> A Vida Secreta das Árvores de Peter Wohlleben pela Sextante (2017)
>>> Macaco Preso para Interrogatório de João Aveline pela Age (1999)
>>> O Mal Não Vem de Fora de Lourdes Carolina Gagete pela Panorama (2004)
>>> Croma - O Oráculo de Atlon (Ficção Científica)li de Leandro Garcia Estevam pela Do Autor (2003)
>>> Cruzadox turbante Livro 15- Nível Médio de Coquetel pela Coquetel (2021)
>>> Palavras cruzadas Livro 52- Nível fÁCIL de Coquetel pela Coquetel (2020)
>>> Caça Palavras ouro euro nº 21- Nível Médio de Coquetel pela Ouro (2020)
>>> Sob o vulcão de Malcolm Lowry pela Artenova (1975)
>>> Caça Palavras ouro dólar nº 16 de Coquetel pela Ouro (2020)
>>> História da dança no ocidente de Paul Bourcier pela Martins Fontes (1987)
>>> Caça Palavras ouro dólar nº 11- Nível Médio de Coquetel pela Ouro (2020)
>>> Cidades da noite escarlate de William Burroughs pela Siciliano (1995)
>>> Caça Palavras ouro euro nº 15- Nível Médio de Coquetel pela Ouro (2020)
>>> Zenzele - Uma carta para minha filha de J. Nozipo Maraire pela Mandarim (1996)
>>> Caça Palavras ouro dólar nº 10- Nível Médio de Coquetel pela Ouro (2020)
>>> Lasar Segall e o modernismo paulista de Vera D'Horta Beccari pela Brasiliense (1984)
ENSAIOS

Segunda-feira, 30/8/2010
Um kadish para Tony Judt
Sérgio Augusto

+ de 7100 Acessos

Como traduzir "contrarian"? Contrariante tem ranço forense; dissidente é melhor e, no fundo, exprime a mesma coisa, mas era de "contrarian", não de "dissident", que Tony Judt costumava ser qualificado pela frequência e pelo arrojo com que discordava das opiniões correntes. Não era do contra por pirraça, nem para fazer gênero e chamar atenção, pois se dizia insensível à notoriedade e avesso a badalações. Apenas tinha um olhar mais arguto e um cérebro mais bem dotado que a maioria dos mortais. Por isso, via ou farejava o que a outros passava despercebido ou era recalcado por algum parti pris ideológico.

Sua morte, no dia 6, aos 62 anos, deu novo alento semântico à expressão "perda irreparável", quase sempre inapropriadamente invocada para folhear de ouro defuntos de latão. Judt fará muita falta no circuito de ideias e questionamentos incômodos. Ninguém usava a História para refletir sobre o presente com a sua acuidade e a sua nonchalance expositiva. Oficialmente historiador, transformou-se, malgré lui, num intelectual público, mas por vocação vigoroso, sem rebuços e em permanente estado de alerta. Jamais permitiu que o conformismo e a complacência debilitassem sua argumentação. Nem que suas convicções políticas e morais lhe envenenassem o raciocínio.

Apesar de ter sido militante sionista na juventude, quando trocou Londres por um kibutz em Israel, revelou-se, nas últimas décadas, um dos mais pertinazes críticos da política externa israelense. Por combater as ocupações do território palestino por tropas israelenses e defender a criação de um estado binacional como a única solução para buscar a pacificação do Oriente Médio, foi tachado de "antissionista" e coisas piores, expulso do expediente da revista The New Republic e proibido de fazer uma palestra no consulado da Polônia, em Nova York, por pressão do American Jewish Committee.

A despeito de sua ancestral simpatia pela utopia socialista, combateu os desvios e atrocidades do comunismo e as escorregadelas das esquerdas com a mesma implacabilidade de suas estocadas na direita, no neoliberalismo e nos desvarios do pós-modernismo. Espinafrou os intelectuais que apoiaram o catastrófico unilateralismo bushista, os historiadores chapa-branca da Guerra Fria e o ideário prêt-à-porter de Thomas Friedman com o mesmo rigor aplicado à "recusa" do marxista Eric Hobsbawm "a encarar o mal de frente e chamá-lo pelo nome". O mal era o comunismo stalinista.

Volta e meia comparado a George Orwell, por sinal patrono de um prêmio que lhe foi conferido em 2009, Judt só assumiu, de fato, dois mestres, ambos também historiadores: a francesa Annie Kriegel, heroína da Resistência ao nazismo e défroquée do comunismo, cuja metodologia analítica, misto de história e ciência política, o encantava, e o alemão George Lichtheim, "um dos mais brilhantes estudiosos do pensamento marxista". Aos dois dedicou uma de suas obras de maior impacto: Reflexões sobre um século esquecido (tradução de Celso Nogueira), a alentada coda que acrescentou à sua história da Europa do pós-guerra, também traduzida pela Objetiva (José Roberto O"Shea).

Li o que pude do polêmico professor da Universidade de Nova York (formado em Cambridge, com passagem por Oxford, pela École Normal Supérieure de Paris e por Berkeley) e timoneiro do Remarque Institute, think tank bancado pelos milhões doados pela viúva do escritor alemão Erich Maria Remarque, a atriz Paulette Goddard. Seus inventários da evolução, reconstrução e malversação do socialismo na França, com destaque para aqueles dois estudos sobre "o passado imperfeito" da intelectualidade francesa, de que só o primeiro volume foi aqui publicado, pela Nova Fronteira, são uma lição de história, ciência política, narratividade e lucidez.

Sua última publicação em vida, os curtos ensaios de Ill Fares the Land, lançada em março pela Penguin, sairá daqui a sete meses pela Objetiva. Com epígrafes do irlandês oitocentista Oliver Goldsmith (de cujo lamento sobre as desgraças que o acúmulo de riquezas pode causar a uma comunidade e seus habitantes extraiu o título do livro), Orwell, Tolstoi, De Tocqueville, Keynes, Zweig, Proust, e até Camille Paglia, já diz ao que veio nas primeiras linhas.

Depois de notar a existência de "algo de profundamente errado em nosso atual modo de vida", há 30 anos sendo deformado por um egocêntrico sibaritismo, Judt investe rijo contra o culto à eficiência, ao enriquecimento, à livre iniciativa, às privatizações e ao consumismo desvairado vigente nas "sociedades presas ao capitalismo desregulamentado e seus excessos", nos dois lados do Atlântico. Sociedades moldadas, segundo ele, por uma geração de pensadores e economistas austríacos ― Peter Drucker, Karl Popper, Hayek, Mises, Schumpeter ― fanáticos defensores do estado mínimo; melhor dito, do estado a distância. Mas não muito distante para que possa ser acionado sempre que der chabu no vai-da-valsa liberalista.

Judt simpatizava com a social democracia, sem um pingo de ilusão: "das opções disponíveis no momento, ainda é a melhor". Abandonar seus ganhos históricos ― o New Deal, a Grande Sociedade e o estado de bem-estar social da Europa ―, ou até satanizá-los como à esquerda e à direita se fez e faz, configurava, para ele, uma traição àqueles que nos precederam e às gerações ainda por vir.

Amiúde se queixava de que "vivemos a era do esquecimento". Até o fim lutou para que nos lembrássemos de tudo. Para não repetirmos os erros do passado.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 14 de agosto de 2010.


Sérgio Augusto
Rio de Janeiro, 30/8/2010

Mais Sérgio Augusto
Mais Acessados de Sérgio Augusto
01. Para tudo existe uma palavra - 23/2/2004
02. O frenesi do furo - 22/4/2002
03. Achtung! A luta continua - 15/12/2003
04. O melhor presente que a Áustria nos deu - 23/9/2002
05. Filmes de saiote - 28/6/2004


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Acorda Brasil
Gilberto Vieira Cotrim
Saraiva
(1989)



Turismo Ecológico Bahia Brasil
Editora Isto é
Isto é
(2004)



Procurando Firme
Ruth Rocha
Ática
(1996)



Abra e descubra! como funciona o computador?
Alex Frith e Rosie Dickins
Usborne
(2016)



Maria breve introdução à mariologia
José Lélio Mendes Ferreira
Santuário
(2000)



Bio Volume Único Teste de Vestibulares e Enem
Sonia Lopes
Saraiva



A Pequena Sereia
Disney
Edelbra



Dedinhos Agitados A Menor das Raposas Um Livro Fantoche
The Clever Factory
TodoLivro



Tank Too
Masoud Golsorkhi
Thames & Hudson
(2006)



Os Ásperos Tempos Vol Xiii
Jorge Amado
Martins
(1971)





busca | avançada
54703 visitas/dia
2,2 milhões/mês