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Sexta-feira, 1/2/2008
Bate-papo com Ruy Castro
Julio Daio Borges
+ de 1300 Acessos
+ 6 Comentário(s)

"[A imprensa] foi boa enquanto durou, e 200 anos são uma idade respeitável. Não só a nossa, mas a mundial ― acho que, se não se reciclar, ela se transferirá toda para a internet dentro de algum tempo. O que o rádio e a televisão nunca conseguiram, que foi substituir o papel, a internet ameaça conseguir. Só não acredito ainda que ela venha a substituir o livro."

1. Parafraseando Zuenir Ventura, 1808 é também um "ano que não terminou"?
Não. Todos os anos terminam, e 1808 foi certamente um grande ano, mas também terminou. Só em 1809 e 1810 é que o príncipe D. João terminou de implantar os grandes melhoramentos que tinha em mente. Sua fabulosa biblioteca, por exemplo, que daria origem à Biblioteca Nacional, levou aqueles anos para acabar de chegar ao Rio. Quando decidi situar meu romance Era no tempo do rei em 1810, e não em 1808, era porque precisava que a Corte já estivesse bem instalada e, principalmente, que o jovem príncipe D. Pedro tivesse 12 anos ― ou seja, uma idade em que ficaria mais crível tirá-lo do palácio e fazê-lo viver nas ruas do Rio as aventuras que lhe reservei.

2. Você mesmo já disse que suas biografias são tão bem escritas quanto obras de ficção (e eu concordo) ― então por que escrever ficção?
Não me lembro de ter usado a expressão "tão bem escritas" ― seria pretensioso de minha parte. Mas, depois de anos sujeito ao rigor da biografia, em que a informação é sagrada e não é permitido ao biógrafo supor ou imaginar nada, achei que uma escapada na ficção poderia ser algo relaxante. Mal sabia eu que, para escrever Era no tempo do rei, iria mergulhar no estudo do Rio daquela época e criar uma base documentária sólida sobre a qual fazer correr a trama. O outro motivo para me jogar na ficção, nem que fosse temporariamente, foi porque não havia outra maneira de combinar o menino Pedro, herdeiro do trono, com o menino Leonardo, que pedi emprestado ao Manuel Antonio de Almeida.

3. O Leonardo, de Memórias de um Sargento de Milícias, é um dos primeiros anti-heróis da nossa literatura ― ao colocá-lo ao lado do príncipe D. Pedro, você, de repente, sugere que os anti-heróis representam melhor os brasileiros (que os heróis)?
Talvez, por que não? E não somente os brasileiros. Os anti-heróis são sempre mais interessantes. Sorte nossa que um deles tivesse resultado justamente no homem que fez a nossa independência e se tornou o primeiro imperador. Na verdade, usei tudo que conhecemos do Pedro adulto para criar o Pedro adolescente. E, ao fazer isto, vi que havia mais semelhanças que diferenças entre ele e o Leonardo.

4. Você é craque em século XX e na história do Rio. Como foi pesquisar o século XIX e a vinda da Corte para cá? Ficção dá o mesmo trabalho que biografia, nesse sentido?
De fato, até então, todos os meus livros tinham se passado no século XX. Mas, para deleite próprio, particular, sou também um estudioso constante do passado mais remoto. Tenho uma enorme biblioteca sobre o Rio com material a partir de 1502, que foi quando Americo Vespúcio passou por aqui e nos deu o nome de Rio de Janeiro. Aliás, um livro anterior, Carnaval no fogo ― Crônica de uma cidade excitante demais, já tratava do Rio do século XVI até os dias de hoje. E, embora poucos saibam, tenho paixão também pelo século XIX. Em algum próximo livro, não sei se de ficção ou de não ficção, quero voltar a esta época, mas me fixando em 1870 ou 1880, que foi outra grande época da cidade.

5. O humorismo ― que você exercita muito bem no seu jornalismo ― é uma das suas vocações não realizadas? Ou não?
Não tenho vocações não realizadas, exceto talvez a de ser um artista gráfico como meu amigo Helio de Almeida. Nunca pretendi ser humorista, na linha Millôr ou Verissimo ― e eles também não se consideram humoristas. Às vezes posso escrever engraçado, mas é involuntário. Ao escrever, eu próprio me surpreendo rindo com certos efeitos, o que prova que não é uma coisa estudada.

6. Mudando um pouco, arriscaria um balanço da Bossa Nova 50 anos depois? Podemos esperar uma nova edição de Chega de saudade? Ou um novo A onda que se ergueu no mar?
A Bossa Nova é uma realidade, não dá para contestar. De pelo menos 15 anos para cá, há mais Bossa Nova em oferta do que em qualquer outra época, inclusive a de quando a música estava começando. Entre hoje numa loja de discos ― nunca se ofereceu tanta Bossa Nova. Há até discos com este rótulo e em que o conteúdo não tem nada a ver ― sinal de que se tornou uma marca comercialmente rentável. Ouve-se Bossa Nova em palcos, praias, praças públicas, salas de espera, aeroportos, consultórios de dentista, trilha da novela, comercial de xampu. Ah ― você dirá ―, mas ela não está nas paradas... E daí? Os sabiás e os bem-te-vis também não estão nas paradas, mas cantam o dia inteiro. Quanto ao meu livro Chega de saudade, que desde 1990 já teve 24 reimpressões no Brasil e edições nos EUA, Japão, Alemanha e Itália, vêm aí em abril a edição espanhola e uma edição brasileira de bolso. Um novo A onda que se ergueu no mar não está nos planos, mas, se eu tiver material novo suficiente, pode pintar.

7. A nossa imprensa também completa 200 anos em 2008 ― qual futuro você vê para ela depois da internet?
Foi bom enquanto durou, e 200 anos são uma idade respeitável. Não só a nossa, mas a imprensa mundial ― acho que, se não se reciclar, ela se transferirá toda para a internet dentro de algum tempo. O que o rádio e a televisão nunca conseguiram, que foi substituir o papel, a internet ameaça conseguir. Só não acredito ainda que ela venha a substituir o livro.

8. Neste ano, sai mais uma coletânea sua de artigos, justamente, sobre literatura ― por que abandonou o assunto como jornalista (como crítico)? Alguma chance de voltar ou a produção de hoje não te inspira nem um pouco?
Nunca fui crítico, seja de literatura, cinema ou música popular ― apenas escrevi com frequência sobre esses assuntos. O livro a sair este ano pela Companhia das Letras, O leitor apaixonado, é o terceiro de uma série de coletâneas de artigos que publiquei na imprensa, organizados pela Heloisa Seixas. Os primeiros foram Um filme é para sempre, de artigos sobre cinema, que saiu em 2006, e Tempestade de ritmos, sobre jazz e música popular, que saiu em 2007, ambos também pela Companhia das Letras. Se não tenho escrito em jornais especificamente sobre literatura é porque estou apaixonado pelo espaço tri-semanal que ganhei na página 2 da Folha há um ano ― é um desafio desenvolver um raciocínio em apenas 1.777 batidas, que costuma ser o que cabe naquele quadrado. E ali não é bem um espaço para a literatura.

9. E Nelson Rodrigues ― acha, como eu, que ele é, cada vez mais, um dos maiores escritores do século passado?
Sempre achei isto e fico contente quando me dizem que a publicação de O anjo pornográfico ajudou a fazer com que as pessoas enxergassem esse óbvio ululante. Lamento apenas que nossas edições caprichadíssimas de sua obra completa fora do teatro, lançadas pela Companhia das Letras, tenham sido suprimidas judicialmente, e agora estejam voltando por outra editora, com roupagem nova, as edições originais, que eram feitas por uma irmã do Nelson sem o menor critério.

10. Por último, mais futurologia: você, que participou da Companhia das Letras desde os primórdios, como vê as tentativas de digitalização do livro (por exemplo, através desse novo Kindle, da Amazon)?
Estou por fora. Como já disse, continuo achando que o livro é um formato perfeito, portátil, ideal para levar para a cama ou para o banheiro. Tenho prazer físico em segurar e ler um livro, gosto do seu cheiro de mofo ou de poeira, adoro entrar em sebos imundos e já achei muitas preciosidades neles. Se o livro tiver de acabar um dia, espero não estar por aqui para ver. Como você sabe, sou um sujeito antigo, ainda do tempo do rei...

Para ir além
Era no tempo do rei


Julio Daio Borges
1/2/2008 às 12h16

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
7/2/2008
23h01min
Costumo gostar dos bate-papos aqui do Digestivo, mas esse foi perfeito, senti vontade de participar da conversa; percebi o Ruy próximo, inteligente e simples, acessível, me deu tristeza por não ser uma palestra, ao vivo. Ruy Castro é gente de verdade, não deixou dúvida disso. E ainda dizem que uma entrevista não nos faz conhecer o autor... Essa fez, mesmo que só um pouquinho... Muito boa! Também gostei muito do livro "O anjo pornográfico", extenso mas nem um pouco cansativo; uma excelente biografia, onde Nelson Rodrigues é desnudado com maestria, aparecendo tão humano e apaixonante quanto são os seus próprios textos.
[Leia outros Comentários de Cristina Sampaio]
14/2/2008
08h09min
O Ruy Castro chamou minha atenção pelo espaço de mil e setecentos e setenta e sete batidas que o apaixonou. Tem um texto limpo, fala apaixonadamente de uma cidade que está inteiramente desmoralizada perante os brasileiros. Não sei dizer se a imagem é correta, mas tenho o mesmo otimismo que ele. Somos prisioneiros de todos os lugares em que moramos, o Rio por ser maravilhosamente lindo é o mais 'apropriado' para ser covil de bandidos. Esse senso destrutivo que nos possui e diverte; é enfrentando por ele com um brilhantismo sem igual. Um Quixote de óculos que batalha contra o Morro dos Ventos Uivantes. Comprei "Era no tempo do rei", com essa entrevista, o lerei imediatamente. Parabéns.
[Leia outros Comentários de Djabal]
14/2/2008
11h54min
Ruy Castro prova que com disciplina, competência, planejamento e algum talento é possível migrar do jornalismo para a literatura com sucesso. Para ser perfeito, ele teria de ser santista e ter escrito um livro sobre Pelé.
[Leia outros Comentários de Odir Cunha]
14/2/2008
12h23min
Maravilhosa entrevista esta com o Ruy Castro, que considero um dos melhores textos do Brasil, para usar um jargão jornalístico e uma pessoa, sem conhecer pessoalmente, que transparece simpatia e elegância... Seu texto é fluido e uma delicia de ler... Quero também, como os outros comentaristas acima, ler Era no Tempo do Rei... Imagino que deva ser coisa finissima como tudo que ele faz.
[Leia outros Comentários de Ana L.Vasconcelos]
15/2/2008
15h23min
Que delícia! O cara é bom mesmo. Adorei a parte em que ele diz que quando os livros de fato acabarem não gostaria de estar aqui. Eu também. Ótima entrevista. Parabéns. Dri
[Leia outros Comentários de Adriana Godoy]
21/2/2008
10h54min
Concordo com o teor da entrevista de Valdeck Almeida, como bem proclama o escritor Fausto Wolff: " A cultura é um instrumento de defesa pessoal"; neste sentido sugiro também a leitura dos artigos do escritor citado em seu site; ou nas suas crônicas no JBONLINE. Quanto ao Valdeck, deixo meu registro de admiração por sua trajetória humana e intelectual. Atenciosamente, Fabio Daflon
[Leia outros Comentários de Fabio Daflon]
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