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COLUNAS

Terça-feira, 29/4/2003
Quixotes de Bukowski
Rafael Lima
+ de 2600 Acessos

Dom Quixote, de Cervantes, é o romance maior da literatura espanhola e de fundamental importância para a compreensão da literatura e da era moderna. Colocando de maneira muito simples, o enredo trata das aventuras de um fidalgo que, após vasta leitura de romances medievais, se acredita ele mesmo um cavaleiro andante e sai peregrinando num raquítico cavalo, envergando um simulacro de armadura metálica aos pedaços, sob o nome de Dom Quixote. Em seus devaneios, Quixote enxerga gigantes em moinhos de vento, inimigos potenciais para os atos heróicos que visa perpetrar, enquanto é enganado, iludido e ludibriado pelos comuns em seu caminho.

Na escola, é usual ouvir-se a interpretação de que o Quixote seria uma crítica à era medieval, aos valores da Idade Média então caindo em decadência – um comentário sobre a chegada dos novos tempos. De fato, uma das características marcantes da época moderna é a adoção de temas vulgares pela arte, aqui ressaltando-se o caráter de retrato de seu tempo. Se os temas dignos de serem retratados na pintura, antes, – dignos inclusive por motivos financeiros, posto que a massificação dos meios de expressão só foi uma realidade a partir dos tempos modernos – eram deuses, santos, guerreiros, reis ou nobres, agora passariam a ocupar as telas pescadores, pequenos comerciantes, as dançarinas de cabaré pintadas por Toulouse-Lautrec.

A mudança de eixo temática dos tempos modernos foi profunda em todas as direções. Se as restrições técnicas e financeiras de antes já funcionavam como um filtro para os artistas, com o aumento das tiragens pela chegada da era Industrial, muitas normas caíram por terra. Leis e decretos regulamentando a moral e a “decência” nas letras, que impediram a chegada aos Estados Unidos da América de livros como O Amante de Lady Chatterley, Trópico de Câncer e Almoço Nu, caíram em cascata a partir do início dos anos 60. Se a quebra dos parâmetros do Antigo Regime – fim da distinção de uma nobreza, maior distributivismo dos meios de produção, espalhamento da renda – dera voz a certo tipo de escritor para falar das vulgaridades de seu dia a dia (do latim vulgus, comum), ainda haveria a inércia das idéias e das leis a se vencer até a divulgação universal. Nos EUA, essa inércia foi vencida através da Primeira Emenda, que garantia a liberdade de expressão, das brechas na definição legal puritana do que fosse “obsceno” e do crescimento de obras dotadas do que se convenciona chamar “valor social” – tal como o Complexo de Portnoy, de Philip Roth – ao longo das anos 60 e 70, até que não fizessem absolutamente mais sentido e qualquer coisa pudesse ser publicada e vendida em livros naquele país.

É nesse contexto que surge Charles Bukowski. Tipicamente porque é impensável um Bukowski – um baixo funcionário público dos correios, oriundo de classe média baixa, sem instrução superior – ser publicado nos tempos medievais. São temas de seus escritos a derrota (em oposição à glória do sonho americano), o tédio cotidiano, a falta de expectativas & perspectivas, o vazio da existência, a serem encenados por prostitutas velhas e feias, trabalhadores braçais, jogadores profissionais, delinqüentes e o tipo de gente que transita entre as brechas dos sistemas social, econômico e legal.

Bukowski está longe de ser o pior escritor de seu tempo, até conseguindo alguns momentos de lirismo notável em seus poemas, mas é sério concorrente a pior influência literária de todos os tempos. Só em termos de Brasil, já devemos estar na terceira ou quarta geração de jovens escritores que se diz “seguidora espiritual” do velho safado e ainda assim “malditos”, constituindo-se numa espécie de tradição maldita, se é que isso é possível. E Bukowski é a principal referência, quando não única, apesar dos beatniks, dos expoentes da novíssima geração da literatura, a primeira que encontrou na internet uma meio para divulgação, como o foram a xerox e o mimeógrafo há dez, vinte anos atrás. Como disse em recente entrevista Alexandre Soares Silva, “Entre todos os escritores da literatura mundial, eles escolheram Bukowsky e John Fante como modelos. Acho que isso diz tudo. A história da literatura brasileira é a história de uma longa paixão pela sarjeta, e só Machado de Assis escapou disso.”

Mesmo que se retire da questão a temática abordada – vale meleca, sangue e cocô – é completamente questionável a adoção de Bukowski como um modelo literário a ser seguido, ou, como colocou com muita graça Ruy Goiaba nesta analogia: “Pense na literatura universal como um grande supermercado. Você dentro de um Pão de Açúcar literário, com dinheiro para gastar em livros fresquinhos. Obviamente, a grana não dá para comprar o supermercado inteiro; contudo, ela é suficiente para encher seu carrinho. Você circularia várias vezes por entre as gôndolas, hesitaria na hora de decidir entre um autor e outro ('este Shakespeare está cheirando bem, aquele Byron parece meio rançoso'), mas se abasteceria. E voltaria ao supermercado dali a uma semana ou um mês, dependendo do apetite. Por que, então, certas pessoas vão sempre à mesma empoeirada prateleira dos vinhos Chapinha e escolhem uma garrafa de Bukowski ou John Fante? Isso não enche o carrinho, não mata a fome e, caso vocês não saibam, dá uma literocaganeira filhadaputa.”

Um dos grandes motivos do sucesso literário de Bukowski pode ser atribuído ao realismo de suas narrativas. Ele chegou a declarar que mais de noventa por cento de toda sua ficção aconteceu mesmo em sua vida ou na de seus conhecidos, o que seria o tempero do molho. Assim, imediatamente generalizou-se o exemplo pessoal de sucesso dele – como se o único tipo de realismo que pudesse ser feito em literatura tivesse necessariamente que incluir prostitutas, mendigos, marginais, becos sórdidos, subúrbios sujos, enfim, o tipo de lugar por onde Bukowski costumava circular. Ao conhecer-se a vida miserável que ele levou, lendo-se sua biografia, não fica difícil inclusive nutrir um sentimento de compaixão para alguém tão massacrado pelas vicissitudes. Daí a elegê-lo como um modelo a ser seguido são outros quinhentos. Primeiro, porque o pessoal da nova geração, ao invés de querer levar uma vida dele, quer levar a vida literária dele (viver exclusivamente dos livros, escrever com desleixo pela forma, investir uma energia mínima na transformação de suas idéias em ficção, ser idolatrado por leitores apesar de tratá-los mal), perdendo assim o segredo de Polichinelo para o realismo de seu texto.

Para entender o segundo motivo é preciso voltar ao Dom Quixote. Como todo bom romancista, Cervantes construiu sua obra magna com complexidade de tal sorte que significados ocultos vão se revelando à medida em que se mergulha com maior dedicação e estudo na leitura. Julio de Lemos anotou que, apesar de desconhecer os motivos, sua intuição continuava a dizer “ser ele [Dom Quixote], no fundo, a única pessoa lúcida numa história onde os que o cercam são todos loucos. Talvez uma pista esteja na seguinte constatação: sabendo que é um personagem de romance, ele é o único que age como tal; os outros vivem as suas vidas mesquinhas na mais disparatada banalidade. Em outras palavras, haveria, aí, uma sábia inversão de perspectivas: o fidalgo Dom Quixote teria consciência de ser uma persona literária, e os outros, alienados, julgariam ser pessoas de carne e osso.” Apesar de Quixote aparecer em todo o romance defendendo de maneira “muito esperançosa e aparentemente disparatada... os valores da nobreza e da honra”, ninguém mais consegue compartilhar com o cavaleiro andante tanto sua visão quanto seus valores de nobreza.

Charles Bukowski é um Quixote às avessas: todos querem compartilhar seus valores – ou a falta deles – e, nesse afã, perdem noção da realidade como perdeu o guerreiro hispânico, passando a enxergar gigantes e dragões onde o que há são grandes escritores e alta literatura.

Nota do Editor
Texto originalmente publicado na revista falaê!, de Augusto Sales. Rafael Lima atualmente assina o blog Na Cara do Gol.


Rafael Lima
Rio de Janeiro, 29/4/2003

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