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Terça-feira, 24/7/2001
A diferença entre baixa cultura e alta cultura
Rafael Lima

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Quando Alexandre o Grande partiu em sua conquista da costa do Mediterrâneo, além dele próprio, talvez apenas Aristóteles desconfiasse das reais intenções do general: expandir seu império por todo o mundo conhecido, espalhando a cultura helênica. Para garantir seu lugar nas crônicas, enviou o sobrinho Calístenes a fazer as vezes de historiador da expedição, tarefa que cumpriu com maestria até morrer em algum ponto da Ásia, como tantos outros, em decorrência dos brutais sacrifícios que Alexandre submeteu ao seu exército.

Antes de se auto-coroar o rei da cocada preta, celebrado como filho pelo próprio deus Zeus-Amon do Egito (os sacerdotes do templo não eram nada trouxas), Alexandre fez questão de conhecer Diógenes, um renomado filósofo da linha dos cínicos (palavra grega derivada de cachorro, segunda consta, a sua principal companhia). Diógenes morava dentro de um barril, andava em andrajos e saía à luz do dia com uma lanterna à procura do "homem honesto". O diálogo entre ambos foi mais ou menos assim:

- Salve, Diógenes, eu sou Alexandre, rei da Macedônia e conquistador de todos os povos. Pede o que quiseres e eu te darei agora.

- Então sai da minha frente que eu quero tomar sol.

Além desse, Diógenes tem mais um ou dois diálogos memoráveis com Platão - que não era cínico mas também botava pra quebrar - porém, nossa atenção agora deve ser voltada para o ocorrido quase 2000 anos depois, quando Gary Groth, editor da Fantagraphics (Seattle, USA), recebe pelo correio o fanzine que os chicanos irmãos Hernandez - Jaime, Gilbert ("Beto") e Mario - faziam no comecinho dos anos 1980. O único que não desenhava era Mario, o mais velho.

Beto focaria suas histórias nos habitantes da vila de Palomar, a típica cidadezinha de fronteira mexicana, um microuniverso na linha que Jorge Amado, Dias Gomes e Gabriel Garcia Márquez popularizaram em seus romances. Jaime faria as Mechanics, grupo de 6 garotas entre 17 e 35 anos que inicialmente eram histórias de aventuras (o título se referia à profissão de Maggie, mecânica pro-solar, a mais valorizada no universo fictício das chicanas) e evoluíram para tramas mais românticas e de cotidiano (a banda de rock, namorados antigos etc). Penny Century rapidamente se tornou a personagem mais popular.

Penny é aquele tipo de loira americana alta, voluptuosa e totalmente descolada, a quem as amigas recorriam quando estavam numa fria, mesmo que essa fria fosse apenas falta de grana para comprar um modelo de botas novo. Isso porque Penny era namorada de Herv C. Costigan, simplesmente o homem mais rico do mundo. O cara que disputava quem tinha mais ilhas com seu rival El Mugre. Que usava papel higiênico folheado a ouro. Além disso, Penny era a fã número um da Camarada 7, uma super-heroína dos gibis que existia de verdade no mundo das Mechanics. Quando Penny é despedida por ocasionar paradas na produção de uma das linhas de montagem das fábricas de Costigan, enquanto sonhava acordada, Herv vem em seu socorro:

- Ouça! Você não precisa trabalhar. Posso lhe dar qualquer coisa no mundo! Basta dizer que será sua! Qualquer coisa...

- Tudinho? Quero ser super-herói.

Herv se embaraça, pergunta se Penny não preferia ter seu próprio país (estava na moda), mas Penny insiste ("daquele que voa!"), causando o recuo final do multimilionário:

- Não posso fazer de você um super-herói. Você tem que ter um acidente imprevisto ou coisa assim! E se meus cientistas desenvolverem um raio de força, eu poderia vir a ser eliminado. Um novo planeta eu posso criar, mas um super-herói (uff!), seria meu fim!

- Eu sabia que era bom demais para ser verdade...

* * *

Com base nas histórias acima, e sabendo-se que a vida de Alexandre foi recontada em livro numa trilogia por Massimo Valerio Manfredini, e que as histórias em quadrinhos dos irmãos Hernandez foram publicadas na revista Love & Rockets, explicar em redação de 20 a 30 linhas a diferença entre baixa cultura e alta cultura.

* * *

Parece brincadeira, mas as confusões entre baixa cultura, ou low brow, e alta cultura, ou high brow, podem ser maiores que imagina nossa vã filosofia. Partindo para uma definição como Zico partia para o gol, estabeleçamos que alta cultura engloba todos os produtos artísticos que disseram algo fundamental a respeito da humanidade, e que por isso mesmo ultrapassaram a história e a geografia, constituindo-se em conhecimentos universais, com status de cânone cultural; parâmetros de qualidade, mas nem por isso, como veremos, inquestionáveis. Baixa cultura, nesse contexto, é a cultura popular no seu sentido mais fundamental, oriunda do povo na sua forma mais autêntica: é a música que a bandinha da cidade pequena toca no coreto da praça, nas tardes de domingo, composta nas horas vagas por bombeiros, pequenos comerciantes, sapateiros e professores, todos eles "artistas" não profissionais; é o samba batucado por pintores de parede em caixas de fósforo na hora do almoço para descolar um extra. Eventualmente, para atender a demanda maior, um sambista desses pode passar a uma produção mais seriada, talvez comprometendo a qualidade. E entre as duas, confundindo o meio de campo, fica a cultura média (middle brow), cujo principal, e talvez único mérito indiscutível, é ser um espelho de seu tempo.

A confusão nasce no modo como esses níveis culturais se interferem e se confundem, fazendo com que se diga muita besteira por aí. Por exemplo, é comum a busca nas raízes populares (low brow) por compositores clássicos (high brow) como Villa Lobos e Francisco Mignone quando querem renovar suas obras - na verdade, essa intervenção acontece sempre que as formas clássicas soam esgotadas, procurando renovação: Picasso inspirou-se em máscaras tribais africanas (low brow) para compor os rostos das Demoiselles d`Avignon (high brow); Guimarães Rosa ouviu o som dos sertanejos para reinventar o português no Grande Sertão. É próprio do caráter acadêmico da arte high brow - a única que se ensina nas escolas - não admitir grandes invenções formais, ficando presa ao paradoxo da tradição, que tem que mudar para permanecer como tal.

Outro problema são as desvirtuações da cultura popular: a cultura populista - que é a cultura popular demagógica, caricatural (de Carmen Miranda a É o Tchan) - e a cultura pop - que é a cultura popular com pretensões a universal, formatada para consumo e pronta para reprodução (de Beatles a Madonna). É precisamente aqui que o middle brow se instala. Nas primeiras décadas do século XX, quando compositores de formação clássica como Gershwin ou Cole Porter utilizam elementos nascentes do jazz e do blues em suas composições, estão criando algo até hoje não enquadrável como alta cultura, porque não aceito pelos compositores eruditos, nem como baixa cultura, por não ter a falta de sofisticação (ou antes, a sofisticação sem afetação) própria da música popular. E ainda assim, Porter, Gershwin, além de Tom Jobim e Ernesto Nazareth conseguem ser universais como a melhor arte high brow e terem a força comunicativa da arte low brow. Mas a discussão não cessa aqui, porque nenhum deles é unanimemente aceito como parâmetro musical como Bach ou Wagner. Por isso, por se originar nesse vácuo cultural, é que a cultura média tem esse aspecto descaracterizado, sem a autenticidade (étnica, regional etc) da baixa cultura e a universalidade a alta cultura desfruta. Também por causa disso é que não vale a pena perder muito tempo com discussões a cerca de qualidade no middle brow: a ausência de referências fatalmente leva ao impasse, mostrando que não há grande distância entre rock e techno, entre Chico Buarque e Carlinhos Brow, entre Rolling Stones e Emerson, Lake & Palmer.

(Nunca é demais lembrar que cada nível de cultura está associado a uma classe social: low brow seria a cultura proletária; middle brow, a classe média, e high brow, claro, a elite, apesar dos produtores e consumidores mais criteriosos transitarem entre elas com desenvoltura. O que não deve ser esquecido é que seus conflitos internos também refletem os conflitos de classes, com o perdão pelo marxismo barato - mas inevitável: cada classe se identifica com o que melhor lhe representa. Nesse sentido, alta cultura não passa de um meio de manter as estruturas de poder vigentes, por isso a necessidade de mantê-la como parâmetro, postura criticada pelo Politicamente Correto, que questiona a concentração de quase todos os cânones ocidentais em homens brancos mortos e pelo desconstrutivistas pós-modernos, que sustentam que nenhum texto tem primazia sobre outro porque qualquer escrito admite infinitas interpretações. Política, poder, dinheiro, está tudo inapelavelmente relacionado com arte, aceite-se ou não.)

Também não se deve confundir forma e função: existem as formas artísticas já consagradas para criação de alta cultura (escultura, pintura, poesia, teatro), e as ainda duvidosas, em geral mais recentes, portanto de validade mais difícil de estabelecer: como saber se resistirão à passagem do tempo? Falo sobretudo de cinema e histórias em quadrinhos. O cinema, ainda que tenha sido a forma cultural mais influente do século XX, parece que sobreviverá com um número de obras ridiculamente pequeno. História em Quadrinhos é ainda mais complicado, porque nasceu como suporte de venda para os jornais no início do século XX, tipicamente baixa cultura, feita por artistas multidisciplinares brilhantes; virou claramente cultura média quando do surgimento dos syndicates (agências distribuidoras), que padronizaram formatos e ajudaram sua difusão pelo planeta, e a partir do momento em que o domínio da técnica foi alcançado, permitindo a transmissão de idéias em vários níveis de leitura, atingiu o patamar da alta cultura (com, por exemplo, Hector Oesterheld na Argentina e Jules Feiffer nos EUA a partir dos 50`s). Hoje em dia, a produção industrial de quadrinhos é tipicamente middle brow, mas ainda há brechas, especialmente entre os independentes e auto-publicados, onde o que se lê é absolutamente popular. E há gente como Moebius, que simplesmente não consegue colocar pena sobre papel sem fazer alta cultura. Exatamente por isso é que se deve olhar essas formas de arte modernas com ainda mais atenção do que para as clássicas: nunca se sabe de onde surgirá um novo clássico.

* * *

Com base nas informações agora adicionadas, reconsiderar as opiniões emitidas na redação de 20 a 30 linhas, e escrever outras 20 demonstrando como é difícil compreender essa tal de cultura.

Para ir além

Ensaio "A verdadeira contracultura" no livro Questão de Gosto, de Daniel Piza, editora Record, 2000.



Rafael Lima
Rio de Janeiro, 24/7/2001


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