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Quarta-feira, 24/3/2004
Autor não é narrador, poeta não é eu lírico
Ana Elisa Ribeiro

+ de 19600 Acessos
+ 5 Comentário(s)

Certa vez, resolvi escrever uma espécie de reportagem sobre o comportamento das pessoas que escrevem e da reação de seus parceiros (esposos, namorados, etc.) aos escritos. Ficou só na idéia, porque não levei a cabo a história de apurar uns fatos sobre o tema. Minha motivação havia sido a crise histérica de ciúme de um namorado com relação a algum poema meu. Coisa de maluco mesmo. Um trelelê danado porque aquele cara do poema não era ele, que eu estava escrevendo coisas que não diziam respeito a ele, o que as pessoas iriam pensar, que ele era um corno manso, que eu devia pensar antes de escrever um tal texto e, principalmente, que não deveria publicá-lo em hipótese alguma, já que constrangia o namorado e o expunha ao ridículo. Discurso pra lá de sindrômico e seqüelado. Fiquei parada pensando no poema, ajeitando uma maneira de "pensar antes de escrever", um pseudônimo, qualquer coisa que atrapalhasse menos o namoro, mas, afinal, quem atrapalhava o namoro era o namorado!

De fato, alguns poemas são inspirados em pessoas de carnes e ossos, certos textos são dedicados escancaradamente. Já escrevi poemas para namorados, amantes, amigos, parceiros, mulheres. De vez em quando alguém me pergunta sobre possíveis alusões homoeróticas, só porque dediquei um poema de amor a uma mulher. Curioso é que não vejo orientação sexual em poemas! Quando dá na telha, posso escrever um poema de amor inspirado na história de uma amiga, por exemplo, e dedicar a "obra" a ela, como se desse mesmo um crédito, afinal, a idéia não é originalmente minha, a execução é que me faz dona do poema. Idéias sem execução vão pro saco, nalgum lugar bem inacessível, e ficam sem forma e sem dono.

Outro dia eu estava falando com Jorge Rocha sobre minha impaciência com a velocidade das pessoas. Concordo que certas coisas devam ser planejadas, para que não saiam erradas. Mas fico tiririca quando a idéia não passa disso. Quando a idéia aponta, metade da coisa já está feita. E o poema me dá na telha dum jeito abrupto e resolvido. Quem me conhece bem de perto sabe como a coisa acontece.

A poeta e professora Sônia Queiroz, da UFMG, com quem trabalhei por alguns anos, tem um livro de poemas, da coleção Poesia Orbital, chamado Relações cordiais, cuja capa ostenta um ideograma japonês que deve significar "gentileza", se me lembro bem da explicação da autora à época. Eis que tal livro tem um poema que muito me iluminou em 1997, cujo nome é "Consternação da Esposa Perversa". Não pensem que o nome do meu segundinho (livro), Perversa, seja baseado nisso, mas é uma coincidência legal. O poema de Sônia Queiroz trata da relação homem/mulher, quando esta última se reconhece um ser livre, potente, solitário (no melhor sentido), individual, único, valioso, capaz, apto, vivo, dono de certo espaço. A esposa passa a querer legislar sozinha no espaço que lhe é de direito e o incômodo com as invasões (bárbaras) do outro (marido, namorado) começa a queimar muito. E li aquele poema com ardor. Tive vontade de que ele fosse meu, que eu o houvesse escrito. Admirável. Era isso. Então resolvi escrever um outro, de certa forma uma resposta, em que eu via minha vida numa espécie de contraste: se não me engano, o meu poema se chamou "Invasão de Domicílio", e está no Poesinha, meu livrinho (o primeiro) da coleção Poesia Orbital (1997).

Dediquei o texto à professora Sônia. E algumas pessoas me perguntaram se ela havia sido minha namorada, já que o texto se dirigia a alguém. Leitura fácil! E eu fazia questão de não esclarecer o equívoco, porque não me importa que pensem que escrevi um poema para uma mulher. Também coisa semelhante me aconteceu com poemas que fiz para o Galego, meu personagem preferido nos poemas escritos entre 2002 e 2003. Não é ainda conhecida essa minha safra, mas faz parte dela a inspiração na leitura das cantigas de amigo e de maldizer que escrevi naqueles anos, quando lia compulsivamente para me apaixonar pelos ares de Portugal, pelos trovadores que faziam eus líricos femininos tão cheios de saudade. Inventei um galego submisso e longínquo, ao qual dediquei uma série de poemas tórridos e eróticos, agressivos e longos. E algumas pessoas vieram me perguntar quem era aquele cara, tão merecedor do meu fogo encantado. Eu ria.

O Galego é uma sombra, um leitor, uma fusão dos ex-namorados dos últimos dois anos. Sequer poderia existir na minha lista de paixões, já que é conhecida minha preferência por morenos, em detrimento dos louros. O Galego é minha vontade, talvez uma ex-crise de querer gostar de alguém daquele jeito. E então me vêm à mente aquelas velhas aulas de literatura, em que a professora dizia, pausadamente: autor não é narrador! O poeta não é o eu lírico.

Mas, afora as hipocrisias contentes, às vezes o poeta é o eu lírico, outras vezes, o poeta não o é. O fato é que é arriscado ler, sempre, como se fosse. E, para o poeta, gostoso mesmo pode ser confundir, deixar o leitor fazer-lhe a caveira, a idéia exata ou a idéia errada, para que a sedução fique completa. Pra mim, que fui batizada de perversa, na leitura de um livro cheio de finezas de mulher, erotismo suave, induzidíssimo ao erotismo fetichista pelo projeto gráfico do meu editor, foi embaraçoso me desvencilhar da fama de "matadora", dos olhares curisosos e sexuais, da idéia que faziam de mim. A coleção de cantadas equivocadas e a imagem que eu via num espelho inventado eram, às vezes, constrangedores. E eu, embora lançasse uns poemas perversos, que realmente me vêm a cabeça, tinha que admitir que eles não passam de expurgos quase terapêuticos. Euzinha, uma tímida enrustida, medrosa e esquiva dos amores e, principalmente, do que possa ser descartável ou dar errado. Outra vez, cheguei ao lançamento do Perversa e notei decepção em uns olhares que me diziam: mas é ela? Onde se lia: só isso? Pensavam, talvez, que eu faria o tipo que pinta listas boninas no cabelo modernoso, ou se veste de grunge de boutique, ou que anda travestida de puta fashion, ou que chega aos lançamentos com roupa de couro, até mesmo de quepe, dentro do figurino da enfermeira ou da colegial-tomando-sorvete. Escreve palavrão pra parecer emancipada. E eu estava ali, quase fardada, de preto, gola alta, mal tinha as mãos destampadas, sapato fechado, nem ao menos uns saltos altos, jamais a barriga de fora, nem sombra dos seios, cabelão estilo evangélica, sem batom, sem laquê. Contava apenas com a forma das sobrancelhas exóticas, os cílios imensos e naturais e os cachos das pontas do cabelo. Podia chover ou fazer sol, que eu não me desmanchava. Pra confundir os leitores (do livro e de mim mesma), um andar meio masculino e um jeito de falar de adolescente da zona leste. E então o eu lírico ficava muito mais desejável do que a poeta.

Os namorados tinham ódio dos textos, dos espelhos, da exposição e até das dedicatórias. Um poema dedicado a um amigo podia soar estranho: quem não te conhece vai achar que você tem caso com esse cara, vão pensar que eu sou chifrudo. E o eu lírico se refestelava em amores ambíguos e intensos, enquanto, na vida real, a autora mandava os ex-parceiros se foderem. A vida era muito menos interessante do que a arte, ao menos nos conflitos entre livros & namorados.

Então fica confortável escrever muito e namorar pouco. Produzir poemas para exprimir vontades, inspirados em temas e histórias alheios, viver uns casos esparsos e não-assumidos para ficar com as idéias em riste.

Sempre pensei que casar com um escritor não daria certo. Pode ser que fiquemos enjoados, entediados, repetitivos ou competitivos. Mas até que tem sido bem confortável. Ao menos ele parece entender que os poemas são eu, ou não, ou quase, ou nem sempre. E eu, por minha vez, não fico caçando sarna pra coçar nos contos dele. Somos experiências estéticas, quando nos apresentamos nossos escritos recentes (sempre bom colher uma opinião), e experiências estésicas quando lidamos conosco em carnes, ossos e almas. A vida ficou diferente da arte, embora elas possam morar na mesma casa de palavras.

os três ribeiro rocha

É sabido que eu, agitadora poética da capital mineira, e Jorge Rocha, contista campista aliciador de perversas perdidas, nos acasalamos e proliferamos.

Pra quem não nos vê há tempos e deseja matar a curiosidade, eis a foto que anda pelos porta-retratos de Minas e do Rio, já com Eduardo virtualmente aparente.


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 24/3/2004


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
4/4/2004
17h54min
Perfeito e irretocável seu texto. Tenho um coluna no site da Superinteressante chamada "Retratos" e vira e mexe amigos e conhecidos querem me analisar pelas crônicas. Ou entendê-las por minhas características pessoais. E minha resposta é exatamente essa: narrador não é autor e o texto é meu, mas não só meu. abraço,
[Leia outros Comentários de luciana pinsky]
10/4/2004
15h15min
Lanço um ademais - sim, os narradores são os autores. É preciso dizer, espalhar por aí, que os indivíduos somos "trezentos, trezentos e cincoenta"! Que escritores existem em tudo aquilo que escrevem mesmo sem zelarem pelas cicatrizes do evento narrado. A dificuldade para os leitores é apenas esta: perceber a coexistência do homem-letra, com a mulher-poema, e com o andrógino-ensaísta; todos são a mesma matéria envolvida pelo ectoplasma do desejo (certa coleção de balas perdidas). Há uma pulsão de rabiscar o entorno e a si. E o escritor, que acumula conjugados dentro de si, pouco se importa com a Copacabana que ele seja. Ao invés do Senso, é caro saber da qualidade dos inquilinos desta mesma espinha dorsal. Toda paixão, ao se encontrar e se perder, vive uma sina tranqüila. É inevitabilidade habitual do apreciador de café, cinema, livros e cerveja: saber da literatura como a fratura exposta do caleidoscópio comum-de-cada-dia. Se alguém incompreende, tanto pior, os rabiscos virarão depósito de um devir. Uma próxima geração te compreenderá menos; no entanto, se valendo de inconteste terremoto, a fortuna, logo agregarão algum "ismo" ao seu - outrora - marginal nome. E desta ficção, a História não pára de tecer relatos... Tampouco a ficção se cansa d’através disso cozer a História. Se a narrativa minha soa profética, azar do escritor; posto que mal consigo ser leve quando divago. Minha pena tem concreto embora escreva - é uma pluma macia que não voa, se enterra; não comenta, casmurra. Falo mal do narrador porque posso, estou isento dele, sou leitor e estou leitor.
[Leia outros Comentários de Felipe Eugênio]
13/12/2004
00h25min
Oi, Ana, li este artigo uns meses atrás, gostei muito mas não parei pra pensar nele. Agora, esta semana, passei por uma experiencia parecida (um editor disse que um conto juvenil meu "engana" o leitor ao nao deixar claro se o narrador sou eu ou não). Minha resposta foi o seu artigo. Valeu! Abraço do Leo
[Leia outros Comentários de Leo Cunha]
9/6/2007
13h52min
Ana... Estava vivendo a cotidiana alienação diária nos meus livros da faculdade quando me indaguei se sabia o que eu-lírico significava ao certo.. Nem me pergunte porque pensei nisto, já tentei me analizar antes, contudo meu ego sempre acha ferramentas para me iludir e me contentar! Bom, ao ler seu texto creio que achei a solução para minha singela dúvida (só não esperava encontrá-la de maneira tão interessante). Espero que seus leitores tenham entendido seu recado... Creio que eu entendi! Abraço
[Leia outros Comentários de Bruno Garcia]
4/7/2010
20h32min
Genial o seu texto. Fala exatamente da experiência que vivemos ao lançarmos um livro. Amigos meus ficaram horrorizados com a minha coragem em publicar um poema no qual eles identificaram a autora como o eu lírico, além de identificarem vários outros poemas com vivências pessoais minhas. No início incomoda, mas depois dá prá rir à beça das interpretações...
[Leia outros Comentários de celia]
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