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Sexta-feira, 7/4/2006
Minha história com Guimarães Rosa
Julio Daio Borges

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+ 3 Comentário(s)

Ao contrário de grande parte dos nossos literatos, eu não tenho vergonha de confessar que não li todo o Guimarães Rosa, nem todo o Machado de Assis. Sempre me incomodaram as posturas do tipo oito ou oitenta em relação a eles. Como são nossos clássicos – um, o maior escritor do século XIX, o outro, não há dúvida, o maior do século XX –, todo mundo que pretende escrever, no Brasil, se apressa em dizer que são geniais, ponto. A unanimidade em torno de Machado, por exemplo, me incomoda – principalmente quando surgem críticas (rapidamente sufocadas), como a de Domingos Pellegrini; ou como a de Millôr Fernandes, que, entre sério e brincalhão, me falou, pessoalmente, que Bentinho (de Dom Casmurro) era “bicha” e que o Carolina (Machado de Assis) traiu seu esposo, o bruxo do Cosme Velho. Ou, ainda, como a de Ariano Suassuna, que sente falta do “galope épico” – presente em Euclides da Cunha –, pois os personagens de Machado não têm “nem [mesmo] um quintalzinho” (em suas casas). Nesses momentos, quando alguém se põe a questionar a soberania do autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas – como Domingos, Millôr e Ariano – recebe logo uma saraivada de balas. As pessoas se esquecem de que uma das críticas mais ferozes a Machado de Assis partiu, justamente, de Guimarães Rosa, em seu diário na Alemanha: “Não pretendo mais lê-lo por vários motivos: acho-o antipático de estilo, cheio de atitudes para ‘embasbacar o indígena’; lança mão de artifícios baratos, querendo forçar a nota da originalidade; anda sempre no mesmo trote pernóstico, o que torna tediosa a leitura. Quanto às idéias, nada mais do que uma desoladora dissecação do egoísmo, e, o que é pior, da mais desprezível forma do egoísmo: o egoísmo dos introvertidos inteligentes”.

Tudo isso para avisar que não vou adotar, aqui, a postura do “eu já li tudo”, e nem vou repetir – fique tranqüilo – todos os lugares-comuns a respeito de Guimarães Rosa. Porque acredito que esse tipo de testemunho não serve pra nada. É o Brasil-oficial e o Brasil-real de Machado de Assis: o Brasil-oficial diz que leu e entendeu todo o Guimarães Rosa, tecendo loas as mais óbvias em relação a ele; e o Brasil-real, semi-analfabeto – o do Lula –, nem passou perto, ignorando totalmente as aventuras de Diadorim e Riobaldo (mesmo as da televisão) – ainda que seu criador tenha se inspirado tanto no Brasil-profundo... Minha história com Guimarães Rosa é pessoal e intransferível – e só assim, penso, ela pode interessar a alguma pessoa.

No fim do ginásio, tive um professor de Português (faço questão aqui das maiúsculas) que me impressionou bastante. Ele anunciava sempre que, no colegial, teríamos aulas de Literatura (maiúsculas, de novo), e gostava de adiantar alguns pontos, sempre que um autor brasileiro surgia no nosso horizonte (o da nossa Gramática). Eu adoraria saber (ou lembrar) o que esse professor pensava de Guimarães Rosa, mas eu saí do colégio justamente no colegial e mudei para outro onde o ensino de literatura (aqui, em minúsculas) não era, assim, lá, grande coisa. Meu primeiro contato, mais direto, com Guimarães Rosa foi, então, no Cursinho. Graças a uma professora de literatura que nos envolvia com suas histórias mirabolantes sobre livros e autores, embora o tempo fosse curto (era o tempo do vestibular). (Por coincidência, ela foi a primeira a reconhecer que eu tinha algum talento para escrever...) Naquele ano, lemos – ou tivemos de ler – as Primeiras Estórias, de João Guimarães Rosa.

Lembro muito pouco dessa primeira leitura. Eu, naturalmente, não entendi nada, ou quase nada. Antes de entrar aqui no discurso do “é um absurdo que se dê Guimarães Rosa na escola” etc. e tal, eu conto que já havia lido Machado de Assis (Dom Casmurro), e gostado, apesar das intermináveis notas de rodapé, e José de Alencar, e adorado, apesar da imensa maioria, ainda hoje, detestar Senhora. Mas Guimarães Rosa, aos dezessete anos, era dose. Estava, literalmente, além da minha compreensão. A empenhada professora de literatura decifrava para nós cada “estória”, e eu só me lembro de uns quartos escuros, de uma incapacidade geral (das personagens) para a comunicação, de um ar meio místico – ou mal-assombrado –, de uns nomes ou umas palavras que, quando desmembradas, nos desencorajavam a continuar. Se estávamos ainda aprendendo a manejar a língua, para o nosso próprio uso, como poderíamos assimilar um sujeito que, fundamentalmente, inventava outro idioma?

Fiquei, anos, com essa impressão do Guimarães Rosa. Os testemunhos, até de leitores tarimbados, reforçavam esse estigma: “Tentei e não consegui”. Ou: “Tentei e só, na segunda vez, consegui”. O que é um pouco de mito, também. Ou seja: eu até entendo que alguém ainda na escola – como eu contei – não consiga compreender (nem aproveitar) Guimarães Rosa. Mas um autor conhecido? Que se meta a escrever em português? No Brasil? Eu levantei a sobrancelha pelo menos duas vezes, que eu me lembre, por causa de escritores brasileiros que revelaram despudoradamente ter “problemas” ao ler Guimarães Rosa. Mario Prata, lógico, falou já que não leu inteiro o Grande Sertão (mas, dele, poderíamos esperar exatamente o quê?). Luis Fernando Veríssimo, na Revista USP, foi até honesto e disse, numa crônica, que só atravessou Grande Sertão: Veredas numa segunda ocasião. Eu havia tropeçado nas tais Primeiras Estórias, e escrevia apenas um diário na época, mas, de certa forma, me incomodou ver autores conhecidos revelarem sua incapacidade com essa sem-cerimônia toda. Resultado prático: se o Veríssimo e o Mario Prata jogavam a toalha diante do Grande Sertão, como é que eu, mero mortal, iria me atrever a enfrentá-lo?

Lembro, ainda, de um amigo – como eu, aspirante a escritor – que, insistentemente, depois de passado o vestibular, tentou voltar às Primeiras Estórias, numa espécie de revanche. Em vão. Eu e ele até já compartilhávamos algumas leituras, apesar da faculdade em engenharia em comum, mas Guimarães Rosa, pelo menos o das Primeira Estórias, continuava inalcançável para nós. As Primeiras Estórias, eu de novo confesso, só fui compreender agora – no ano passado? –, depois de uma aula do Milton Hatoum, na Casa do Saber. Havia desistido delas até segunda ordem, mas, por sugestão dele, encarei “Os irmãos Dagobé” e, em seguida – porque vinha na continuação –, “A Terceira Margem do Rio”. “Os Dagobé”, como conto, meio que passou, mas “A Terceira Margem”... me paralisou. Lembrei do meu pai, lembrei do meu avô. Era muito denso aquele negócio. (Nada a ver com a música do Caetano.) A vida inteira parecia estar lá, naquelas páginas. Eu não poderia, aos dezessete anos – sem ter vivido ainda nada –, aproveitar mesmo alguma coisa.

Mas eu pulei das Primeiras Estórias de 1991 para as Primeiras Estórias de 2005. Para dar esse salto, na realidade, eu fui encarando o Guimarães Rosa devagar. Não lembro em que ano foi, mas abri o Sagarana na década de 1990 e consegui ler, de repente, e aproveitar, um conto todo. Talvez porque fosse o primeiro livro, cronologicamente falando, do Guimarães Rosa... Lembro que era bastante coloquial, tanto que eu quase me atrapalhei com os diálogos (“cê” pra lá, “cê” pra cá); um pouco épico, num enfrentamento de vida e de morte; e o cenário, rural, me era bem familiar, dada a minha infância e adolescência em chácaras e fazendas – de modo que eu poderia, até visualmente, imaginar aqueles personagens (e aquela história). Aliás, eu sempre vi o Guimarães Rosa em fotos e pensei que ele pudesse ser da minha família paterna, que é toda de Minas Gerais. A postura altiva, o olhar penetrante – entre o sábio e o gaiato –, um enraizamento forte, uma mão pesada & um floreio galante, o coração fundo e a alma meio fora de alcance – nada daquilo me era completamente estranho.

Mas o que me motivou a enfrentar o Grande Sertão foi o outro lado da minha família, o ramo da minha mãe. Eu tenho um tio que mora em Paris (acho que já falei aqui), que não fala português, mas que se interessa por cultura brasileira, que adora ler e que maneja muito bem vários idiomas. Por uma motivação qualquer, insondável, eu decidi ir lhe mandando livros de autores daqui, para que ele pudesse conhecer, de outra forma, o Brasil – um outro Brasil. Mandei Nélson Rodrigues; mandei Rubem Fonseca. Presenteei-o com Jorge Amado; com Clarice Lispector. Também Euclides da Cunha; e até João Ubaldo Ribeiro. E, óbvio, Guimarães Rosa e Machado de Assis. O Machado, numa avaliação muito similar à do Paulo Francis, ele achou parecido a Proust. Mas o Guimarães Rosa... Ele estacou no Guimarães Rosa. “Obrigado, você me apresentou um amigo”, ele, uma vez, me disse. Desde então, minha missão tem sido encaminhar-lhe livros de (ou sobre) Guimarães Rosa. Correspondências, traduções, novas edições...

Esse meu tio leu uma tradução, para o francês, de Grande Sertão: Veredas. Diadorim é como chamam a obra lá, na terra de Proust. Meu tio, aliás, deu uma interpretação muito própria para o nome “Diadorim”: uma mistura, em espanhol, de Deus (dios) e diabo (diablo). Leu avidamente no avião, no vôo Paris-São Paulo, e chegou prenhe em impressões que gostaria de compartilhar, mas – adivinhe –, do nosso círculo, ninguém havia lido Diadorim/Grande Sertão. Nem eu. Fiquei com vergonha e pensei: “Que escritor de araque, eu sou, se nem li, ainda, o Grande Sertão: Veredas, do Vovô Joãozito!”. “Vovô Joãozito” eu não pensei, não (só fui descobrir o Vovô João, anos depois, na coleção de cartões postais que Guimarães Rosa enviava às suas netas – e que eu dei de presente, claro, em exemplar autografado, para o meu tio). Apesar do “trauma” com as Primeiras Estórias, apesar do sobrevôo em Sagarana, apesar do Luis Fernando Veríssimo, apesar do Mario Prata, era minha obrigação agora embarcar na travessia do Grande Sertão.

Foi no início de 2002, logo depois do ano novo. Eu estava na praia, e nem sei se fazia tempo ruim ou bom, só sei que me embrenhei no Grande Sertão. Minha primeira reação foi xingar todos aqueles que haviam superestimado as dificuldades apresentadas pela linguagem: a linguagem era difícil, sim, mas não era impossível! Depois de algumas páginas, ela adquiria uma lógica própria, e você se pegava raciocinando que nem o Riobaldo, no seu célebre monólogo. Tanto que fui ler outra coisa, naquela mesma época, e, quando encarei um texto em ordem direta, parecia que estava tudo de cabeça pra baixo. Como um óculos – que os físicos dizem que existe – que “desinverte” as imagens projetadas, de cabeça pra baixo, na sua retina, e que, quando você tira, – de tão acostumado que o cérebro está – inverte o mundo todo. Depois de mergulhar no Riobaldo, não adianta, seu português é outro. Eis um dos grandes mistérios do Guimarães Rosa. Como ele conseguiu produzir esse efeito? E como ele (o efeito) foi reproduzido nas traduções?

O aspecto da linguagem, em si, já é genial, mas a história, também, é poderosa. Como dizem por aí, existem poucas cenas na nossa literatura como a da morte de Diadorim. Eu senti um arrepio e acho que até chorei quando li. Fui reler para a minha namorada. De repente, era o fato mais importante daquele começo de ano. Pois, como disse Borges, a literatura pode ter tanto realismo (ou mais) quanto a própria realidade. Muitos ficaram presos, formalmente, no aspecto da linguagem, e imitaram o jeito de Guimarães Rosa fazer os boizinhos e as vaquinhas falarem, mas isso não é o mais importante. Sem a sua erudição, esse “efeito” torna-se apenas imitação vazia. E Guimarães Rosa derivava suas criações verbais dos tantos idiomas que dominava (dezessete, na última contagem). Comparando-se a sua bagagem com a dos nossos escritores e escritoras... temos, aí sim, bois e vacas (coitados dos bois e das vacas...). Na “nova geração”, então, vixe. Deveriam ter vergonha de escrever (e mais ainda de publicar), depois de ler Guimarães Rosa.

Passado o Grande Sertão: Veredas, esse monumento tão exageradamente temido pelos leitores, descobri que poderia ler qualquer coisa, até Os Sertões, de Euclides da Cunha. Mas fui ler a correspondência de Guimarães Rosa. Sua troca de cartas com seus tradutores mostra que o buraco é bem mais embaixo do que professores de literatura, jornalistas e escrevinhadores em geral costumam suspeitar. É Guimarães Rosa explicando Guimarães Rosa – porque, senão, como iriam conseguir traduzi-lo para outros idiomas? Aí se percebe que cada vocábulo inventado é um enigma muito mais profundo. Ele mistura línguas, adapta de outras, reaproveita corruptelas, termos que se perderam no tempo e no espaço, ou simplesmente apela para o som das palavras (Décio Pignatari, tentando desmascará-lo, diz que ele, às vezes, segue a própria ordem dos dicionários). Como escreveu José Mindlin, no seu primeiro livro, João Guimarães Rosa é um homem que teve bastante trabalho (ele usa a distância temporal, de dez anos, entre Sagarana e o Grande Sertão, para exemplificar). E, realmente, com a pressa de nossos autores de agora, que – salvo raríssimas exceções – têm de obrigatoriamente soltar um livro por ano, não vai surgir, tão cedo, outro Guimarães Rosa.

E fascinante é, igualmente, a personalidade de Guimarães Rosa. Antonio Callado, naquele documentário de Pedro Bial (que é a melhor coisa que o Bial já fez na vida), diz que Guimarães Rosa tinha consciência de sua própria capacidade e que aspirava, sim, à glória. Acredito na primeira parte, mas não acredito muito na segunda. Acredito mais na sua filha, Vilma, que diz que Guimarães Rosa era um sujeito muito reservado e que, depois de morrer, viu surgiu “amizades” do nada. Como a lenda de que era míope porque lia muito e também a de que, durante a Segunda Guerra – de novo, segundo Callado –, preso no consulado na Alemanha, aproveitou para reler Proust. Na correspondência com as filhas, ele aconselhava diligentemente leituras e, de forma indireta, falava de sua formação. (Novamente: o pessoalzinho ainda acha que emulando diálogos dos seriados de televisão vai ser escritor...)

Ah, lembrei. Aquele meu professor de Português, o saudoso lá do ginásio, dizia que o Guimarães Rosa andava pela sua fazenda com um bloco pendurado no pescoço, anotando coisas que escutava de seus peões. E o “João Rosa” saiu mesmo, uma vez, com eles, naquela viagem mítica que – dizem – os guias hoje refazem com os turistas... E eu já escrevi isso aqui: as pessoas vão até o meio do mato, tentando encontrar Guimarães Rosa, esquecendo-se de que ele era civilizado até o pescoço e de que, se continuasse em Codisburgo, sua cidade natal – e não tivesse vindo para o Rio, e ido para a Alemanha – não seria o Guimarães Rosa que nós conhecemos, o universal. Como disse Cristopher Hitchens, outro dia, no Estadão, esse revival do “bom selvagem”, que virou moda nos anos 60 e 70, é apenas uma opção retrô. O mundo anda pra frente, por mais que cristãos e muçulmanos, por exemplo, hoje sintam nostalgia da Idade Média e da sociedade feudal.

São João Guimarães Rosa”, aliás, escreveu Otto Lara Resende em Portugal, quando Vovô Joãozito morreu, em uma carta endereçada a Hélio Pellegrino, no Brasil. “Vá ser grande assim lá no inferno!”, provocou o Otto. Fernando Sabino, ainda uma estréia precoce sob os auspícios de Mário de Andrade, escrevia para Clarice Lispector – quando eles, recém-casados, flertavam platonicamente – que havia saído um tal de Grande Sertão: Veredas (1956), de um certo Guimarães Rosa, que ele, Fernando, havia lido, e que aquele sujeito, mineiro como ele, era, no mínimo, genial. Guimarães Rosa, como sempre, não cabia em sua época. Por último: Ferreira Gullar contou a Pedro Bial, no documentário, que Guimarães Rosa, quando escrevia, metaforicamente plantava ipês e ambicionava, sem falsa modéstia, construir alguma coisa para daqui a 400, 500 anos... É o que vamos demorar para compreendê-lo na sua totalidade. Se conseguirmos também fugir dos lugares-comuns, tão presentes, no Brasil, o país das efemérides em piloto automático.

“Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:

“– ‘Meu amor!...’”


Julio Daio Borges
São Paulo, 7/4/2006

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
7/4/2006
12h02min
Quero ver se atravesso ao menos algumas milhas de Sertão neste fim de semana. Bravo, Julio! Quando escreves sobre literatura, somos obrigado a imprimir, ler, reler, rereler. Quando tentei ler Rosa, pelo menos uma duas vezes (fui de cara ao Grande Sertão) não senti tanta dificuldade com a linguagem, como advertiam. Você entra naquele universo, há uma lógica própria. O motivo de não continuar foi, sei lá, aquela idéia de que, enfim, é no fundo o tal embate entre bem-mal, deus-demônio, nonada, e estava com uma cabeça tão pós-moderna, em função de outras leituras, que tudo aquilo parecia ter acabado. Bobagem, é claro. Essa, aliás, é uma das nossas maldições de brasileiro. Sem antes entendermos a nós mesmos, e entendermos árvores como Rosa, preocupamo-nos em ser primeiro franceses, depois norte-americanos... Guimarães é uma exuberante rosa de vermelho-vinho aveludado, cujo fascínio só implica em deixar de lado tantas flores de plástico às quais estamos domesticados.
[Leia outros Comentários de Rogério Kreidlow]
7/4/2006
13h28min
Julio, meu chapa. Bem legal o escrito sobre Guimarães Rosa. Apesar de eu ter mais idade que você - 58 agora em junho - passei pelas mesmas dificuldades em relação ao tão decantado escritor brasileiro, em priscas eras, o mesmo em relação ao Machado de Assis. A diferença é que você já enfrentou as "feras" novamente. Estou me preparando: Sagarana tá aqui na mesinha ao lado e comprei parte da obra do Machado da Nova Aguilar. Escreveu por mim Julio, até o que penso do Mário Prata. Saudações do Aurélio Prieto, São Paulo Capital
[Leia outros Comentários de Aurélio Prieto]
13/4/2006
11h53min
Bom dia, Daio, sou de cuiabá, mato grosso, sou um leitor voraz de Rosa, e aqui temos um escritor, Ricardo Guilherme Dick, Maravilhoso, que fez uma tese e defendeu, sobre o Grande Sertao... me lembrei porque voce citou seu tio, seria interessante esse livro para ele, Dick destrincha de maneira sublime esse universo roseano, o livro, "Conjunctio Opositorum no Grande Sertao", vale a pena, valeu.
[Leia outros Comentários de andré]
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