A crise da pauta | Débora Costa e Silva | Digestivo Cultural

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COLUNAS

Quinta-feira, 4/12/2008
A crise da pauta
Débora Costa e Silva

+ de 2800 Acessos
+ 4 Comentário(s)

Tudo começou com uma paquera. Me interessei por um jornalista charmoso e interessante e a desculpa que usei para pedir seu e-mail foi a tal: "como faço para te mandar uma sugestão de pauta?". Consegui o e-mail do cara e de quebra um problema: quem disse que eu tinha alguma pauta na manga?

Eu não podia mandar um e-mail sem a pauta. Do contrário, minhas segundas intenções seriam reveladas logo na primeira cartada. Passei o dia pensando e fuçando a cachola para ver se esbarrava em algum tema que valesse a pena ser reportado e investigado, que fosse impactante o suficiente para mostrar a importância da publicação, inovador, gostoso de pesquisar (para eu mesma não me meter em alguma furada), interessante, curioso e focado. Ufa!

Foi então que pedi ajuda à minha amiga Verônica. Ela, boa jornalista que é, claro, não doou nenhuma de suas idéias. Tentou me acalmar: "no fim de semana você trabalha em cima disso e aí as idéias vão surgir. Mas não se sinta mal, é complicado mesmo".

Você, que está lendo a coluna, não faz idéia do que estou falando e nunca ouviu falar em "pauta"? Aí vai a definição da Wikipedia: pauta é a orientação que os repórteres recebem descrevendo que tipo de reportagem será feita, com quem deverão falar, onde e como. Ela não é necessariamente escrita e nem sempre é premeditada ― no caso de um acidente de carro, por exemplo, o fato só vira uma pauta no momento em que acontece. A pauta é elaborada, nos dias de hoje, por editores e sub-editores, mas em algumas redações ainda existe o pauteiro, que é o profissional que tem a função de decidir o que será noticiado. Cabe a ele elaborar a pauta do dia, isto é, os assuntos que os repórteres deverão sair para apurar (investigar). Normalmente, um pauteiro recebe telefonemas, e-mails e cartas do público (e das assessorias de imprensa) dando sugestões de pauta. Ela varia de acordo com o veículo, mídia e público-leitor.

Bom, o impasse com o paquera acabou se resolvendo de outra forma, mas a angústia e frustração de não ter conseguido pensar em nenhuma pauta permaneceu. Como assim "trabalhar em cima disso"? Como se idéias brilhantes saíssem após esfregar os neurônios num tanque ou fazendo qualquer tipo de atividade física e prática: você faz X e acontece Y. Ficar rodando no Google e em sites e blogs sobre assuntos específicos de meu interesse não me adiantou muito também, pois só me traziam à tona idéias de coisas que já cansei de ler por aí.

Então bastou a lembrança de um momento constrangedor para que a crise se instaurasse de vez. Veio-me à cabeça uma das primeiras aulas da faculdade de Jornalismo, com Júlio Veríssimo nos explicando o que é a dita cuja: "é uma percepção, um insight, um olhar que vai acompanhar vocês no dia-a-dia. É difícil despertar, mas a partir do momento em que você desenvolve essa sensibilidade, tudo o que forem olhar ao redor de vocês vai virar pauta". Logo na seqüência, me vêm à mente um X vermelho num papel, reprovando a minha idéia "genial", copiada da "Ilustrada", acompanhado de um sonoro: "isso não é pauta!".

A recordação só veio me confirmar que ter idéias para pautas é um dom... que eu não tenho! Os poucos anos de profissão já foram suficientes para notar minha dificuldade. Tremia ao ouvir: "alguma idéia para a próxima edição?", "traga sugestões para sexta-feira", "vai começar a reunião de pauta", "você já tem pauta para o especial do mês?", "fique à vontade, o tema é livre", entre outras do gênero. Tema livre, aliás, sempre me deu calafrios. Cheguei ao cúmulo do ridículo, certa vez, em uma entrevista de emprego, ao escrever uma redação de três páginas sobre o que havia aprendido na aula de arte contemporânea na faculdade naquela manhã, por pura incapacidade de pensar num tema qualquer, mais simples e menos abrangente.

Sim, porque para mim o que funciona é escrever sobre fatos. O resto é nariz de cera, literatice e viagem na maionese ― coisas que adoro ler, porém, não consigo reproduzir. Mas que jornalista é essa que não tem criatividade? Quando entrei no Digestivo Cultural, a situação ficou ainda mais crítica, porque tinha liberdade com temas, formas e estilos. Alguém me explica o que fazer com esse universo imensurável de possibilidades? (O Julio bem que tentou, enchi ele de perguntas ao longo desse tempo). Sentia falta de limites de caracteres, temas e fatos (mal sabia do valor do tesouro que eu tinha em mãos). Tanto que a maior parte dos meus textos publicados aqui se refere a fatos (cursos, shows e afins).

Mesmo depois de descartar a oportunidade de sugerir uma pauta para o paquera (afinal, tive que escolher entre uma coisa e outra), comecei a refletir sobre as várias outras portas abertas que já encontrei por aí e a frustração bateu ainda mais forte: quantas chances já desperdicei por falta de uma pautinha que fosse?

Até que numa noite dessas, após um dia recheado de queda nas bolsas, alta no dólar, viagens do Lula, conflitos no Congo e seis copos de café, perdi o sono. E como numa dessas comédias da Sessão da Tarde, em que uma banalidade promove uma guinada de supetão, algo "mágico" aconteceu naquela madrugada. Cabeça borbulhando, sem conseguir fixar leitura nenhuma, sequer completar cruzadinhas. O chocolate e o chá já tinham sido acionados (e fracassaram na missão de me acalmar), quando, de repente, a falta de sono se tornou agitação e por alguns segundos foi como se estivesse sob efeito de ácido ou algum outro alucinógeno.

E, então, fez-se o milagre: tudo que eu olhava ao meu redor (pente, despertador, caixas de som, roupas e meias sujas, perfume, violão, tapete, comprovantes de pagamento, telefone etc.) parecia render uma ótima matéria. Na maioria dos casos, as pautas eram mais frias (o que significa não ser necessariamente factual), voltadas para comportamento, mas até economia veio à minha cabeça. Fiquei sensível a qualquer coisa que meu olhar detectasse e tudo inspirava incríveis reflexões e desdobramentos.

Saindo d'O fantástico mundo de Bob e voltando à realidade, eu explicaria o "fenômeno do surto da pauta" a partir da ocorrência simultânea de dois fatos. Primeiro: cabeça cheia. Trabalhar com hard news faz a gente engolir informação e, na maioria das vezes, não digerir bem. Você lê mil coisas, ao mesmo tempo em que trata uma imagem, e se perguntarem sobre a notícia que você estava editando é capaz de não lembrar os detalhes. Mas, de qualquer forma, se abastecer de informações sobre diversos temas alucinadamente é o jeito mais rápido de fazer as pautas borbulharem.

Segundo: a pausa. De nada adianta se afogar em livros, jornais e sites se não há uma interrupção dessa avalanche de informações para processar tudo isso. E foi o que aconteceu. Apesar de ter sido uma pausa mais física do que intelectual, o fato é que eu parei (na hora mais inconveniente). Bastou essa fresta para vislumbrar todas as possibilidades que estavam escondidas nesse tempo de crise. A Verônica tinha razão: tem como trabalhar em cima, sim, mas claro, cada um à sua maneira. Ainda bem que ela não me passou sugestões, senão a preguiça e o comodismo teriam me dominado e eu não teria conhecido as maravilhas de uma noite em claro. E agora já sabem: se precisarem de pautas, podem entrar em contato, estão à venda.


Débora Costa e Silva
São Paulo, 4/12/2008


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
4/12/2008
09h05min
Adorei o texto. Mas fiquei curiosa com a paquera!
[Leia outros Comentários de Fernanda]
4/12/2008
17h16min
Notou que a "falta de pauta" virou sua pauta? Dica de uma publicitária: observa o cotidiano e enxergarás.
[Leia outros Comentários de Vanessa Guedes]
5/12/2008
15h57min
Sou suspeita para falar visto que acompanhei as duas "crises" de perto (tanto a da paquera, como a da pauta! rs), mas parabéns! Adorei o texto e, mais ainda, saber que você superou o drama da pauta... isso significa que eu ainda tenho esperança!
[Leia outros Comentários de Paula Dourado]
11/12/2008
12h35min
Fenomenal! mto bom o texto, parabéns, adorei ;-)
[Leia outros Comentários de Tel Braga]
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