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Segunda-feira, 11/5/2009
O ódio on-line
Gian Danton

+ de 3600 Acessos
+ 2 Comentário(s)

A internet é uma invenção fantástica. Ela permitiu que pessoas em países diferentes se encontrassem e conversassem como se estivessem uma do lado da outra. Permitiu que o conhecimento fosse compartilhado. Permitiu que amantes se reencontrassem. Mas a internet também permitiu o surgimento de um novo tipo de crápula: o troll. O troll normalmente é o tipo covarde, incapaz de atacar quem quer que seja cara a cara, mas vira valentão no anonimato da rede. No jargão da internet, troll é um indivíduo que passa o dia deixando comentários ofensivos em comunidades do Orkut, listas de discussão e blogs. Seu prazer está na dor infligida ao outro, na polêmica causada e no fato de se sentir inatingível.

Segundo a Wikipédia, um troll geralmente tem o seguinte modus operandi:

1) Jogar a isca e sair correndo: consiste em jogar fogo na lenha, fazendo um comentário polêmico, ofensivo e abandonando a discussão quando percebe que conseguiu seu objetivo: criar inimizades no grupo atacado. Como em muitos casos, eles são expulsos das comunidades e listas; o complexo de vítima é uma forma de sair correndo e, ao mesmo tempo, sentir-se coitadinho.

2) Induzir a baixar o nível: é comum os trolls apelarem para a baixaria e xingamentos. Com isso, ele consegue fazer com que pessoas sensatas baixem o nível e se vejam desmoralizadas diante das outras. Os que não apelam para xingamentos são vistos pelos trolls como alguém que não está seguindo as regras do jogo. No caso, as regras do seu jogo.

3) Repetição de falácias: falácias são argumentos que parecem lógicos, mas não o são. Por terem um verniz de falsa lógica, são muito usados por trolls como forma de desestabilizar seus oponentes. Por exemplo: "vi numa entrevista que você elogiou um roteirista de novela. Se você o elogiou é porque assiste novelas. Como novelas são feitas para mulheres, você, evidentemente, é gay!".

4) Desfile intelectual: um troll tenta mostrar um bom nível intelectual fazendo citações de obras que não conhece ou se instalando em grupos com menor leitura de mundo. Por exemplo, um troll que se acha escritor pode entrar numa comunidade de crianças que escrevem para exibir sua superioridade intelectual. Tanto nesse caso, como em outros, não é um compartilhamento de conhecimentos. É uma exibição intelectual covarde, que tem por objetivo humilhar o oponente.

Até há pouco tempo, eu conhecia apenas o lado positivo da rede. O máximo que havia sofrido foram os ataques de um troll que deixava recados ofensivos em meu blog. Quando ele deixou um recado desejando a morte de minha filha, simplesmente desabilitei a opção comentários (na época, não era permitido bloquear comentários de determinados provedores nos blogs; ou você deixava todo mundo comentar, ou não deixava ninguém). Foi um fato que me assustou, mas ignorei.

Ano passado, fui vítima de um ataque sistemático de um troll muito conhecido (tempos depois, descobri que ele era o mesmo que havia me levado a retirar os comentários de meu blog). Eu estava divulgando uma série em quadrinhos de ficção científica quando ele lançou a isca com uma crítica. Como me pareceu uma crítica honesta, eu respondi. Hoje sei que muitos trolls iniciam com uma crítica que "parece honesta", apenas como uma isca. Como nunca me rebaixei ao seu nível de baixaria e sempre mostrei a falta de fundamentação de seus argumentos (como falar de marketing sem conhecer princípios básicos, como segmentação), ele me elegeu como inimigo.

A partir de então, começou a me perseguir em outras comunidades do Orkut e com comentários em meu blog. A situação se tornou realmente preocupante quando alguém me avisou que esse indivíduo poderia passar dos ataques virtuais para os ataques reais. Nessa época recebi o link de uma página do Orkut na qual o troll pedia a um amigo para tentar descobrir onde eu trabalhava.

Foi quando percebi que a coisa podia, sim, tornar-se perigosa. Tirei todas as fotos dos meus filhos do Orkut, deletei qualquer referência mais precisa à minha vida pessoal (endereço, telefone, local de trabalho) e abandonei por um tempo comunidades do Orkut e listas de discussão, além de bloquear comentários por pessoas que não fossem amigos. Continuei com meu blog, mas não liberava nada que parecesse minimamente ofensivo (eu logo descobri que o troll usava mais de um pseudônimo).

Por esse tempo, o site da história em quadrinhos que havia ocasionado tudo foi vítima de ataques de hackers duas vezes no espaço de duas semanas. Na segunda vez, o troll comemorou em seu blog: "Parabéns, rapazes! Vocês fizeram um bom trabalho!". A experiência me fez mergulhar na mente insana e sua lógica bizarra. Ele achava, por exemplo, que os ataques pessoais feitos contra mim e outras pessoas (inclusive pessoas mortas recentemente, cujos parentes eram devidamente avisados dos ataques por ele mesmo através de recados no Orkut) iriam ajudar a promover seu livro. Ele acreditava que conseguiria algum tipo de lucro com os ataques.

Os trolls, eu logo descobri, são pessoas fracassadas, que se vingam do mundo ofendendo e difamando. Lendo os recados de seu blog, era possível identificar a maneira totalmente aleatória com a qual ele escolhia suas vítimas. Alguém dizia: "Troll, fala mal de Sicrano". E ele: "Quem é Sicrano?". Como resposta, era abastecido de links, biografias, trabalhos, que o ajudariam a colher argumentos para ataques.

Rosana Hermann, do blog Querido Leitor, teve que sair do país por causa de um troll que descobriu onde estudavam suas filhas. Em outra ocasião, ela colocou seu advogado para descobrir quem era. Ao descobrir, ligou para ele. Era um administrador de empresas desempregado, de 42 anos, que vivia com os pais e passava o dia na internet. Um "clássico covarde na vida real, que se torna o bam-bam-bam atrevido sob o manto do anonimato", definiu ela numa matéria ao G1.

Já existem casos de trolls sendo processados e condenados, embora nenhum deles esteja na cadeia, provavelmente por falta de uma legislação específica. Há ONGs especializadas em crimes de internet, como racismo e homofobia, mas a difamação sistemática por enquanto não é objeto de atenção das autoridades, embora já existam casos de trolls processados e condenados.

Enquanto a legislação não muda, o ideal é tomar alguns cuidados. Para lidar com um troll, o melhor é ignorá-lo completamente. Não responder a suas ofensas, não publicar seus comentários... um troll quer palco. Como ele não consegue chamar atenção por si mesmo, tenta fazer isso usando outros. Outra lição: cuidado com o que publica na internet. Não coloque fotos dos filhos, não diga onde eles estudam, não publique seu endereço ou seu telefone... Embora a maior parte dos trolls seja inofensivo fora da net, a verdade é que o seguro morreu de velho...

Nota do Editor
Leia também "Cyberbullying".


Gian Danton
Macapá, 11/5/2009

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Os dilemas de uma sociedade em Escudo de Palha de Guilherme Carvalhal
02. Origens: minha mãe de Jardel Dias Cavalcanti
03. Monteiro Lobato: fragmentos, opiniões e miscelânea de Gian Danton
04. O armário que me pariu de Lisandro Gaertner
05. O Hobbit - A Desolação de Smaug de Duanne Ribeiro


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
11/5/2009
11h28min
Caro Gian, sim, a imbecilidade e a crueldade humanas são incomensuráveis. Bom texto, ótimos conselhos (isto é: sabedorias), e entendo que seria interessante nos unirmos progressivamente a fim de desestabilizar tais tipos de práticas na internet.
[Leia outros Comentários de Sílvio Medeiros]
20/5/2009
07h36min
Gian, uma das estratégias do educador para controlar a turma de alunos era localizar rapidamente o tipo conhecido como Eminência Parda. Com o líder visível, a coisa era simples, pois sua honestidade permitia o diálogo aberto com o professor. Uma das técnicas para achar o Eminência era elogiar o líder, e ficar de olho no grupo opositor, pois ele estaria lá, calado, mas manobrando os seguidores idiotas. As comunidades do Orkut são o paraíso desses covardes, que acabam por seguir o educador sem chance de receber qualquer punição. Sei que um erro não justifica outro, mas identidades secretas costumam ajudar nesses casos. Você cria uma mulher, elogia o cara, ganha a confiança dele, troca juras de amor em todas as comunidades possíveis e depois revela para todos a palhaçada. Costuma funcionar por um tempo, até o covarde fabricar um novo personagem, para agir em seu paraíso, mas, com você, ele não mexerá mais...
[Leia outros Comentários de Dalton]
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