O prazer da literatura em perigo | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
56932 visitas/dia
1,5 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Michel Melamed fala sobre filme rodado em Nova York neste sábado (29) na TV Brasil
>>> Ética no cotidiano pauta debate no programa Café Filosófico deste sábado (29)
>>> DJ belga Marco Bailey é a atração da festa Non Stop
>>> Pssica, romance noir do Pará
>>> Festival difunde filmes de entidades que usam o cinema como ferramenta de inclusão
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Pantanal
>>> Por que a discussão política tem de evoluir
>>> Não olhe para trás (ou melhor, olhe sim)
>>> Fake-Fuck-Fotos do Face
>>> Silêncio
>>> Dando conta de Minas
>>> Em noite de lua azul
>>> O poeta, a pedra e o caminho
>>> O testemunho de Bernanos
>>> George Orwell e o alerta contra o totalitarismo
Colunistas
Últimos Posts
>>> 16 de Agosto
>>> Elvis 2015
>>> Eugênio Christi
>>> Nosso Primeiro Periscope
>>> Monica Cotrim
>>> Solange Rebuzzi
>>> Aden Leonardo Camargos
>>> Helena Seger
>>> Camila Oliveira Santos
>>> Cassionei Niches Petry
Últimos Posts
>>> Por que o Lula Inflado incomoda tanto
>>> Monumento a Noël Rosa
>>> SUPERLUA
>>> A grandiosa máquina em busca do êxito
>>> Trilogia de um texto só
>>> PONTO DE FUGA
>>> O caminhar de cada dia - prosa poética
>>> Papel vencido é lixo
>>> A impaciência dos pacientes
>>> POMPEIA depois da erupcão do Vesúvio
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A violência do silêncio
>>> Um estranho incidente literário
>>> Ator: embalagem e conteúdo
>>> A Auto-desajuda de Nietzsche
>>> O prazer, origem e perdição do ser humano
>>> Ler muito e as posições do Kama Sutra
>>> Dando conta de Minas
>>> Insatisfação
>>> Quem sabe eu ainda sou uma garotinha
>>> A literatura de Giacomo Casanova
Mais Recentes
>>> A CIVILIZAÇÃO MAIA
>>> PREPARE SEUS FILHOS PARA O FUTURO
>>> CARTAS DA ZONA DE GUERRA
>>> A RELIGIÃO DO TERCEIRO MILÊNIO
>>> OPERAÇÃO CAVALO DE TRÓIA 4
>>> OPERAÇÃO CAVALO DE TRÓIA 3
>>> OPERAÇÃO CAVALO DE TRÓIA 2
>>> STONEHENGE - O TEMPLO MISTERIOSODA PRÉ-HISTÓRIA
>>> O ENIGMA DE TEOTIHUACAN
>>> OS HITITAS
>>> A CIVLIZAÇÃO INCA
>>> HOLOCAUSTO ASTECA
>>> A DESCOBERTA DO HOMEM E DO MUNDO
>>> ALEXANDRE, O GRANDE - A ARTE DA ESTRATÉGIA
>>> A HISTÓRIA DO HOMEM - UMA INTRODUÇÃO A 150.000 ANOS DE HISTÓRIA DA HUMANIDADE
>>> ASCENÇÃO E QUEDA DAS GRANDES POTÊNCIAS
>>> DICIONÁRIO DO PENSAMENTO SOCIAL DO SÉCULO XX
>>> UMA BREVE HISTÓRIA DO FUTURO
>>> MEMÓRIAS DO MEDITERRÂNEO
>>> O PROBLEMA DA ESCRAVIDÃO NA CULTURA OCIDENTAL
>>> HISTÓRIA ILUSTRADA DA CIÊNCIA
>>> UMA HISTÓRIA DOS POVOS ÁRABES
>>> HIROSHIMA
>>> Cartas Xamânicas a Descoberta do Poder Através da Energia dos Animais
>>> Democracia?
>>> Lições de história do direito
>>> Capítulos de sentença
>>> O positivismo jurídico - lições de filosofia do direito
>>> Teoria dos princípios - da definição à aplicação dos princípios jurídicos
>>> coleção incompleta da revista Planeta ( editora três) 18 volumes ( 2, 5, 7, 8, 10, 11, 13, 15, 16, 17, 18, 21, 22, 26, 35, 38, 40, 55)
>>> Deus Existe?
>>> Pragmática da Comunicação Humana
>>> A invenção de uma vida
>>> Maigret e il Canne Giallo
>>> Por causa da noite
>>> O morro do suicídio
>>> Corpo de delito
>>> Post-Mortem
>>> Cemitério de indigentes
>>> Restos mortais
>>> MARX
>>> Desumano e degradante
>>> Alerta negro
>>> Perspectivas da Regra de São Bento
>>> A arte do AconselhamentoPsicológico
>>> Curando nossa imagem de Deus
>>> 6 mil em espécie
>>> O macaco de pedra
>>> A lágrima do diabo
>>> A cadeira vazia
COLUNAS

Terça-feira, 11/8/2009
O prazer da literatura em perigo
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 2800 Acessos
+ 1 Comentário(s)

O que leva alguém a amar a literatura? O que leva alguém, mais do que simplesmente ler literatura por amor, a se especializar querendo teorizá-la e ensiná-la? E que problemas isso pode gerar, inclusive colocando a literatura em perigo?

Para o ensaísta Tzvetan Todorov, autor do livro A literatura em perigo (Difel, 2009, 96 págs.), traduzido este ano para o português, a primeira pergunta é fácil de responder: "Porque ela me ajuda a viver. Em lugar de excluir as experiências vividas, ela me faz descobrir mundos que se colocam em continuidade com estas experiências e me permite melhor compreendê-las. Mais densa e mais eloquente que a vida cotidiana, mas não radicalmente diferente, a literatura amplia o nosso universo, incita-nos a imaginar outras maneiras de concebê-lo e organizá-lo. Ela nos proporciona sensações insubstituíveis que fazem o mundo real se tornar mais pleno de sentido e mais belo. Longe de ser um simples entretenimento, uma distração reservada às pessoas educadas, ela permite que cada um responda à sua vocação de ser humano".

Talvez esta seja a relação mais fecunda que alguém possa vir a ter com a literatura. Mas não é a única, já que cacarecos diversos vão se aderindo ao universo do prazer da leitura e sua consequente ampliação da sensibilidade humana. E esses cacarecos é que são o problema e o tema discutido pelo livro de Todorov.

Na orelha do livro, escrita pelo historiador da arte Jorge Coli, aparece o diagnóstico da problemática levantada por Todorov ao longo do seu texto. A partir dos anos 60, correntes teóricas literárias formalistas, estruturalistas e/ou sociólogo-marxistas fizeram com que o prazer da literatura fosse substituído pelo prazer da engenhosidade analítica. A teoria triunfou sobre o prazer. A literatura poderia existir (como na República de Platão), desde que submetida aos procedimentos cirúrgicos invasivos da racionalidade teórica que não só a compreenderiam, dissecando-a, mas controlariam seus efeitos sobre os leitores. Ulisses amarrado ao mastro para não sucumbir ao encanto perigoso do canto das Sereias.

A consequência mais imediata dessa tragédia é que nas escolas e universidades ensina-se e discute-se mais o que os críticos pensam das obras literárias do que o que as obras comunicam por si mesmas. Todorov levanta questões relativas aos rumos que o ensino de literatura tomou: devemos estudar, em primeiro lugar, os métodos de análise, ilustrados com as diversas obras, ou estudarmos obras consideradas como essenciais?

Nesse questionamento há uma crítica ao valor excessivo que a teoria tomou no mundo das letras e no mundo acadêmico: "Todos esses objetos de conhecimento são construções abstratas, conceitos forjados pela análise literária, a fim de abordar as obras; nenhuma diz respeito ao que falam as obras em si, seu sentido, o mundo que evocam".

A arrogância teórica é o alvo de Todorov. Por isso, ele vaticina: "Nós ― especialistas, críticos literários, professores ― não somos, na maior parte do tempo, mais do que anões sentados em ombros de gigantes". Pois, continua o ensaísta, "Rosseau, Stendhal e Proust permanecerão familiares aos leitores, muito tempo depois de terem sido esquecidos os nomes dos teóricos atuais ou suas construções conceituais". E, finalmente, conclui: "há mesmo evidências de falta de humildade no fato de ensinarmos nossas próprias teorias acerca da obra em vez de abordar a própria obra em si mesma".

Uma boa paulada na cabeça desses castrati que se arrogam o poder de conhecedores da arte quando na verdade mal fruíram o objeto, mal foram contaminados pela sua corrente sensual interna, sua riqueza irracional e abismal. Claro, psicanaliticamente falando, criamos uma cultura cartesiana-defensiva que teme a paixão e usa a teoria como forma de defesa contra os sentimentos perigosos produzidos pela literatura.

No livro A eloquência dos Símbolos, Edgar Wind afirma que "Platão sacrifica os direitos do artista às exigências da sociedade, quando pretende que o legislador force o artista por meio da ameaça de expulsão da cidade a representar os temas que promovam a admiração dos feitos heroicos e o desejo de imitá-los, e a empregar somente os meios de expressão que revigorem a alma e não a façam adormecer, desejando assim eliminar de Homero e Hesíodo todas as passagens que possam pôr em perigo a adequada educação dos moços".

Ora, a teoria agora substituiu o totalitarismo da República de Platão, que não suportava as liberdades imaginativas da poesia. O que a teoria faz é negar o prazer do texto, dizendo que ele é algo impuro, subjetivo, do reino das trevas (em oposição ao racionalismo iluminador e esclarecedor da teoria). Teoria: o prazer cognitivo substitui o prazer estético, ler a receita substitui o prazer de saborear o bolo, passar os olhos pelo guia turístico substitui o prazer da viagem, a masturbação substitui o ato sexual.

Não se trata de simplesmente massacrar a teoria, mas de colocá-la no seu devido lugar. O estudo dos meios de acesso às obras não pode substituir o sentido da obra, que é o fim. Conhecer as teorias literárias (de que natureza sejam, sociológicas ou estruturalistas etc.) não pode, portanto, ser um fim em si mesmo, "sem falar que dificilmente poderá ter como consequência o amor pela literatura", avisa Todorov.

A autonomia da arte gerou também a autonomia do prazer gerado pela arte ― o gozo desinteressado ou estético, como anotava Kant (não se ama mais o Cristo de Velásquez por razões religiosas, mas pela paixão estética que ele nos causa).

Como afirma Todorov, a partir do século XVIII a arte passa a encarnar tanto a liberdade do criador quanto a sua soberania, sua autossuficiência e sua transcendência em relação ao mundo. "Cada um dos movimentos consolida o outro: a beleza se define como aquilo que, no plano funcional, não tem fim prático, e também como o que, no plano estrutural, é organizado com o rigor de um cosmo. A ausência de finalidade externa é, de algum modo, compensada pela densidade das finalidades internas, ou seja, pelas relações entre as partes e os elementos da obra. Graças à arte, o ser humano pode atingir o absoluto".

Os românticos sabiam que a arte é conhecimento do mundo por outras vias que não as da razão e do empirismo (como nas ciências). O que faz de Shakespeare um grande dramaturgo é o fato de ele possuir uma visão profunda sobre a essência do homem. O conhecimento que ele nos transmite, no entanto, não vem de forma explicativa, mas como efeito de sua arte sobre nós.

A função da arte (se é que ela tem função), diz Todorov, é nos educar para descobrirmos facetas ignoradas dos objetos e dos seres que nos cercam. Turner não inventou o fog londrino, mas foi o primeiro a percebê-lo e tê-lo mostrado em seus quadros ― de algum modo ele nos abriu os olhos.

Para Todorov "o objetivo da literatura é a própria condição humana, aquele que a lê e a compreende se tornará não um especialista em análise literária, mas um conhecedor do ser humano. E ter como professores Shakespeare, Dostoiévski e Proust não é tirar proveito de um ensino excepcional?".

Como dizia Malevitch, devemos considerar a pintura como uma ação que tem seus objetivos próprios. Isso serve para todas as artes, e conhecer esses "objetivos próprios" só é possível ouvindo a própria obra dizer o que eles são, da forma que ela mesma sabe e quer dizer. É preciso, então, naufragar no reino da Sereias encantadoras.

E como nos ensinou Giambattista Vico, além da linguagem racional existe outra, que também produz conhecimento sobre o mundo, ela é a linguagem poética, com sua razão própria.

Todorov termina seu livro com uma pergunta e uma resposta: "O que devemos fazer para desdobrar o sentido de uma obra e revelar o pensamento do artista? Todos os 'métodos' são bons, desde que continuem a ser meios, em vez de se tornarem fins em si mesmos".

Afinal, para quem ama a literatura ou qualquer arte, o fim é a própria obra em si e a liberdade que ela nos transmite. Como anotou Starobinsky em A Invenção da Liberdade, "a obra de arte é o ato por excelência da consciência livre".

Nota do Editor
Leia também "A literatura em perigo".

Para ir além






Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 11/8/2009

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Um DJ no mundo comunista de Celso A. Uequed Pitol
02. A pomba gíria de Ana Elisa Ribeiro
03. O gueto dos ricos de Marta Barcellos
04. Doida pra escrever de Ana Elisa Ribeiro
05. Tectônicas por Georgia Kyriakakis de Humberto Pereira da Silva


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2009
01. Davi, de Michelangelo: o corpo como Ideia - 3/11/2009
02. Michael Jackson: a lenda viva - 13/1/2009
03. A deliciosa estética gay de Pierre et Gilles - 24/11/2009
04. Cigarro, apenas um substituto da masturbação? - 1/9/2009
05. A eterna Sagração da Primavera, de Stravinsky - 24/3/2009


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
24/8/2009
18h35min
A literatura é uma oportunidade de você dizer verdades como se ficção fosse. É um momento em que possamos trabalhar a cultura, o preconceito, a visão popular e dar a ela outros sentidos. Na literatura você inverte o olhar e os pensamentos.
[Leia outros Comentários de Manoel Messias Perei]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS


O SENTIDO DA VIDA E A BUSCA DA FELICIDADE
JOÃO PAULO DOS REIS VELLOSO

De R$ 42,00
Por R$ 21,00
50% off
+ frete grátis



A BÚSSOLA DO PEREGRINO
PEDRO TERRÓN

De R$ 46,70
Por R$ 23,35
50% off
+ frete grátis



CASTELO DE AREIA
FREDERIK PEETERS E PIERRE OSCAR LÉVY

De R$ 34,90
Por R$ 17,45
50% off
+ frete grátis



EXODUS
JULIE BERTAGNA

De R$ 36,90
Por R$ 18,45
50% off
+ frete grátis



O MELHOR DO HUMOR NA INTERNET 2
AUSGUSTO M. COSTA NETTO

De R$ 22,00
Por R$ 11,00
50% off
+ frete grátis



A CANÇÃO DO ASSASSINO
M. G. VASSANJI

De R$ 72,00
Por R$ 36,00
50% off
+ frete grátis



A EVOLUÇÃO DE BRUNO LITTLEMORE
BENJAMIN HALE

De R$ 49,90
Por R$ 24,95
50% off
+ frete grátis



UM ERRO EMOCIONAL
CRISTOVÃO TEZZA

De R$ 42,00
Por R$ 21,00
50% off
+ frete grátis



GUERRA AÉREA E LITERATURA
W.G. SEBALD

De R$ 39,00
Por R$ 19,50
50% off
+ frete grátis



NOVOS MONSTROS
NEWTON CANNITO

De R$ 24,90
Por R$ 12,45
50% off
+ frete grátis



busca | avançada
56932 visitas/dia
1,5 milhão/mês