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Terça-feira, 3/11/2009
Davi, de Michelangelo: o corpo como Ideia
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 25600 Acessos

Havia em Florença um gigantesco bloco de mármore que foi esboçado por Agostino de Duccio, mas que acabou abandonado antes de se transformar em escultura. Dois artistas disputavam a honra de esculpir o bloco para transformá-lo em uma obra de arte: Leonardo da Vinci e Andrea Sansovino. Mas seria Michelangelo quem ficaria responsável pela tarefa, devido à sua já consagrada fama de genial escultor por causa de seu Baco e de sua Pietà (esculpida aos vinte e três anos).

Michelangelo esculpiu Davi nesta enorme rocha de mármore, entre os anos de 1501-1504, como uma das mais belas representações do corpo humano da história da arte. A escultura, um colossal adolescente de mais de quatro metros e meio de altura, foi colocado no centro da cidade de Florença para admiração pública. A nudez do Davi acabou despertando a ira pudica dos Florentinos que várias vezes o apedrejaram. Aretino, que criticou a indecência e as liberdades anticlássicas do Juízo Final, pediu ao artista, em 1545, que cobrisse com folhas de parra em ouro as partes vergonhosas do seu belo colosso.

Se para os outros a escultura era uma imagem pagã, para Michelangelo tratava-se da mais perfeita forma criada por Deus: o corpo masculino. Como anotou Romain Rolland, "para este criador de formas admiráveis, que era simultaneamente um piedoso crente, um belo corpo era algo de divino ― um belo corpo era o próprio Deus surgindo sob o véu da carne".

Essa crença do artista na ideia de que é no corpo humano que a beleza divina melhor se manifesta é comprovada nos versos que Michelangelo dedicou a seu amante Cavaliere, quando diz que: "em nenhum lugar Deus se mostra mais a mim em sua graça do que em alguma bela forma humana; e só isso amo, pois nisso Ele se espelha".

Mais do que a simples representação de um adorável corpo adolescente nu, a obra de Michelangelo trazia para dentro de si as proposições máximas da estética e da filosofia do Renascimento. Superando o imperativo da Antiguidade da "semelhança com a natureza", contida na ideia de imitação, o que se pode ver é outra concepção, a de um triunfo da arte sobre a natureza, que se realiza graças à imaginação e à inteligência do artista que pode recriar a beleza absoluta que se acha incompleta no mundo natural, mas que está guardada perfeita na sua alma.

Para o Renascimento o grande escultor seria aquele que pela habilidade técnica produzisse o simulacro, a ilusão de que a vida habitava o mármore. A antiguidade clássica, que inspirava os renascentistas, baseava-se nessa proposição, e Virgilio, na Eneida, alude tipicamente a "bronzes que respiram suavemente e rostos vivos feitos de mármore".

Concepção essa típica também dos tratados artísticos da época de Michelangelo, como em Dürer: "E entende-se que um homem trabalhou bem quando consegue copiar com precisão uma figura de acordo com a vida, de modo que o seu desenho se assemelhe à figura e se pareça com a natureza. Sobretudo se a coisa for bela, a cópia será considerada artística e fará jus aos mais altos louvores".

Leonardo da Vinci e Leon Battista Alberti eram de parecer de que a representação perfeita dos sinais físicos da emoção e dos estados de espírito constituíam a tarefa máxima e mais difícil para o artista, pois, como registrou Leonardo, a figura mais admirável é aquela que por suas ações melhor exprime o espírito que a anima. O objetivo, então, era expressar as operações do espírito através da forma, sendo a arte o melhor lugar de sua tradução.

Segundo as premissas de Alberti, em seu tratado De pictura, o artista não deve apenas obter uma semelhança total do objeto que representa e sua natureza; deve ainda acrescentar-lhe a beleza. Para a realização dessa tarefa, a glória suprema do artista estaria em agrupar em si mesmo três qualidades: invenção, composição e execução. Desse ponto de vista, o Davi de Michelangelo satisfaz plenamente a teoria artística do Renascimento.

Essa pragmática formal e estética, que implicava ainda em se seguir os princípios da proporção justa, da harmonia e do decoro, no entanto, deixava uma margem de liberdade ao artista, particularmente no momento em que trata tanto do movimento dos corpos quanto da alma. Segundo Alberti, a arte deve comunicar-se com o espectador no plano emotivo, convidando-o a participar das dores e prazeres das figuras representadas, e estimulando de alguma forma a sua simpatia ou imaginação. O pintor comove e persuade com a representação imóvel daquilo que as figuras da sua história fazem, pensam e sentem.

Nesse sentido, vale observar a narrativa inerente à própria escultura de Michelangelo que, diferente do que imaginava Buckhardt, que se mostrava incomodado com o contraste entre a fisionomia dramática do olhar e o corpo apolíneo do Davi, a extrema tensão fisionômica revela em si toda a ação dessa narrativa, que é transmitida pelos olhos que comunica a disponibilidade para ação. Trata-se de um primado da consciência sobre o corpo, de uma subordinação do potencial dinâmico da musculatura à temporalidade da consciência, que resume a própria ideia da escultura para Michelangelo, como representação física de uma ideia anterior, espiritual, captada pela consciência e fixada no corpo do mármore.

Leonardo da Vinci ficou impressionado com aquilo que chamou de "retórica muscular" do Davi. É no próprio corpo que está inscrita a história bíblica de Davi, nos seus detalhes musculares que representam a força e a consciência da sua vitória contra o inimigo.

Através da aparente calma emanada pela expressão de Davi, percebe-se a tensão interior pela postura do torso ligeiramente inclinado e pela cabeça voltada para o lado, oferecendo o perfil ao espectador. O herói bíblico não mostra sinais do combate vitorioso nem demonstra arrogância. Transmite, isto sim, uma força viril, que nasce da juventude e sustenta a beleza, o que a torna admirável.

O princípio ordenador da concepção artística de Michelangelo é a ideia de disegno, que, como diz Luiz Marques, mais do que uma atividade gráfica ou resultado dela, "tem acepções mais amplas e envolve noções como concepção projetual de uma figura, organização sintética da forma, em especial da forma do nu humano".

"O que o jovem Michelangelo estuda em Giotto é, claramente, seu disegno, vale dizer, uma síntese formal capaz de fornecer às artes visuais um denominador comum e uma premissa intelectual. Tendo Michelangelo ou Rafael por seu máximo expoente, o conceito de disegno permanece com a seiva mesma do legado do Renascimento, vale dizer, de uma concepção de arte fundamentada na precedência lógica e ontológica do pensamento sobre o gesto." (Luiz Marques)

O desenho é para o Renascimento o pai das três artes, escultura, pintura e arquitetura, conseguindo reunir todas as coisas da natureza num princípio único, seja uma forma ou uma ideia. Pode-se, portanto, concluir que o desenho nada mais é do que a criação de uma forma intuitivamente clara e correspondente ao conceito que o espírito contém e se representa, e do qual a ideia é de certo modo o produto.

Tal definição está de acordo com as concepções da "Academia platônica", segundo as quais as Ideias são realidades metafísicas: elas existem como verdadeiras substâncias, ao passo que as coisas terrestres são simplesmente suas imagens. São imanentes ao espírito de Deus e existem como modelos das coisas no espírito divino.

Segundo Pietro Bellori, os nobres pintores e escultores, imitando o primeiro Operário, formam igualmente em seus espíritos um modelo de beleza superior e, sem afastá-los dos olhos, emendam a natureza corrigindo suas cores e suas linhas.

Construída sob o controle absoluto dos meios e sobre a ideia do que seria a perfeição absoluta no reino metafísico, o Davi guarda, segundo Romaind Rolland, "uma força tumultuosa em repouso" tal qual exigia Alberti.

Michelangelo não esgota sua obra identificando imitação com semelhança. Ao contrário, tentará encontrar a beleza e a graça numa ideia de corpo que representa a superação dos exemplares particulares da natureza. Para ele, a beleza é o reflexo do divino no mundo real, pois, como afirmou em um de seus poemas "o que é imortal quer as coisas à sua semelhança. É esta, e não aquela, a que teus olhos se lança". Como apontou Panofsky, "as concepções artísticas do renascimento arrancam o objeto do mundo interior da representação subjetiva e o situam num 'mundo exterior' solidamente estabelecido".

Era o que pensava Ficino, que definia a beleza como a semelhança evidente dos corpos com as Ideias ou como o triunfo da razão divina sobre a matéria. E era crença de Michelangelo, ao compor seu Davi, que a figura humana é a forma particular em que ele encontra essa beleza divina mais claramente manifesta.

O escultor acreditava que a Ideia deve submeter a matéria, pois não há concetto que não possa ser expresso sob a forma da escultura. É o que fica claro no seu soneto escrito para Vittoria Colonna: "Não tem o ótimo artista conceito algum/ que mármore em si não encerre/ em sua matéria, e só àquele chega/ a mão que obedece ao intelecto".

Alberti preconiza que a obra de arte era a tradução de uma ideia de beleza que está longe de acontecer na natureza, precisando da imaginação do artista para concretizá-la de fato no mundo real. Michelangelo era quem realizava esse ideal, proclamando constantemente que a beleza terrestre é o "véu mortal" através do qual reconhecemos a graça divina, que só a amamos e devemos amá-la porque ela reflete o divino (assim como, inversamente, é o único meio de atingirmos a visão do divino) e que a contemplação da beleza dos corpos deve elevar a alturas celestes "o olhar sadio".

Desse ponto de vista, a divina proporzione não seria outra coisa que a imagem terrena das ideias metafísicas, imanentes ao espírito de Deus, que seriam transpostas para a imagem criada pelo artista. E o artista, como Prometeu, seria aquele que consegue arrancar a "scintilla della divinita" ao espírito divino, captando do intelecto de Deus o desenho interior das formas ideais e revelando-as ao homem na sua obra. O verbo se fazendo carne.

Seguindo um raciocínio platônico, Michelangelo atribuía um valor metafísico a esta capacidade de perceber em espírito a beleza que se traduziria posteriormente em obra de arte. A obra de arte seria a criação de uma forma que corresponda ao conceito que o espírito faz da ideia absoluta.

Esses caminhos são os de uma metafísica da arte que se empenha em deduzir a fenomenalidade da criação artística de um princípio supra-sensível e absoluto, ou, conforme expressão que utilizamos hoje de bom grado, de um principio cósmico.

A arte de Michelangelo fazia parte da mesma cultura humanística de Alberti, aquela que é a expressão visual de uma concepção harmoniosa da vida e do mundo que deleita e instrui todo aquele que com ela entra em contato. A obra de arte teria, por meio da beleza, a capacidade de elevar a mente do espectador "a uma contemplação da beleza divina e, consequentemente, à comunhão com Deus". Por sua capacidade de criar com a mesma maestria com que Deus criou o mundo, Michelangelo foi qualificado no seu próprio tempo como "o divino".

Para o escultor, existe uma beleza espiritual que transcende a beleza material e é a ela que se deve buscar na concretização de uma obra de arte: "Pois se minha alma não fosse criada igual a Deus, nada desejaria a não ser a beleza exterior, que agrada aos olhos; mas, já que esta é tão falaz, ela a transcende em direção à forma universal".

Esta consciência o coloca diante da matéria marmórea, investido de um poder de execução mais poderoso que o seu poder de conceber (concetto) e dar forma às promessas da sua imaginação. Davi será libertado de dentro do mármore, um herói que já sabe de sua vitória antes mesmo que o combate aconteça. De sua postura orgulhosa e seu olhar encolerizado, sem medo e seguro de sua força inumana, ele se ergue, protegido por sua coragem, no momento mais brilhante e belo da sua vida de adolescente e homem, de herói que a glória de sua missão consagra.

Michelangelo não copia a Antiguidade, ele a recria, a reinventa na sua modernidade de homem renascentista. O herói cristão é também um herói grego, uma espécie de Hércules ou Teseu diante do Minotauro. Concentrado em sua audácia que o levará, brevemente, à ação, ele tem força, ira concentrada e poder de antever o resultado de seu ato. Encarna em si o preparo do guerreiro grego e as virtudes da Renascença. Momento em que o nu transfere seu significado da esfera física para a esfera moral. A sede do triunfo irradia-se pela escultura. Os seus mínimos gestos não traem seu pensamento secreto da certeza da vitória? A massa de músculos prepara-se para agir, enquanto o gesto das mãos traduz a coragem tranquila e o olhar indica a decisão orgulhosa. O tensionamento de um lado do corpo e o relaxamento do outro cria o contraste entre força e segurança. O peso repousa sobre a perna direita e o movimento da esquerda responde ao do braço esquerdo erguido. O lado esquerdo é todo liberdade, enquanto o direito parece conter em si a força em potência. Haveria aqui a sobrevivência da crença medieval, que atribuía ao lado direito do corpo o privilégio da proteção divina, enquanto o esquerdo era dominado pelo mal?

Davi é um herói desarmado, sem espadas, sem vestimentas, sem armaduras. Michelangelo concentrou-se na potência muscular, na força moral do olhar. Não há nada de pitoresco nessa imagem, nada que distraia o espectador da beleza pura. Para o conceito de arte clássica, a unidade orgânica do corpo é o modelo da própria unidade artística. No texto de Alberti: "o corpo humano não é apenas o suporte privilegiado da verdade ou da expressão das paixões: é o alicerce, a medida e o modelo da unidade da representação em seu conjunto".

O seu triunfo irradia-se por todo o corpo, como uma energia latente que dilata os músculos e incha as veias tão visíveis. Foram "os gregos que descobriram no nu a possibilidade de personificação da energia, (...) desde tempos homéricos, os deuses e heróis da Grécia exibiam orgulhosamente a sua energia física".

O sentido da vida é inferido na observação dos músculos, local de sua presença máxima. A vida que não se deixa afrouxar apenas por ser pedra. A vitalidade dos volumes está por toda parte, coxas, braços, peito, nádegas, ombros, rosto. Michelangelo revelou a ideia para a arte de que o tema mais elevado era constituído pelo nu masculino, fisicamente perfeito, e executado de tal forma que o corpo humano pudesse transmitir através de sua aparição um movimento de energia transbordante de vida. Mais tarde, William Blake, um aficionado pelo escultor, diria que "a energia é a eterna delícia".

Comentando o sentido dos nus de Michelangelo, Keneth Clark diz: "Qualquer que fosse a sua intenção explícita, é evidente que Michelangelo os interpretava como mediadores entre o mundo físico e o espiritual. A sua beleza física é uma imagem da perfeição divina. Os seus movimentos atentos e vigorosos são uma expressão da energia divina. Os belos corpos de jovens, segundo as fórmulas do idealismo grego, encontravam-se tão sobrecarregados de valores espirituais que puderam entrar ao serviço da cristandade".

A beleza do corpo despido de Davi revela o profundo conhecimento que o escultor tinha de anatomia, conhecimento este assimilado e subordinado a um ideal espiritual. Por isso a energia, embora latente, mostra-se contida, como diz Walter Pater, ao definir o que seria a principal característica de Michelangelo: "delicadeza y fuerza, que causan placer y asombro; energia de concepción que parece a cada momento romper todas las cualidades de forma graciosa, pero que recobra luego toque a toque um encanto que, por lo general, sólo se halla em las cosas naturales más sencillas ― ex forti dulcedo".

Segundo disse John A. Symonds: "No Davi Michelangelo mostrou pela primeira vez aquela qualidade de terribilità, de enorme força apavorante, pela qual posteriormente se tornou célebre".

Demais, sabemos do tema neoplatônico da persistência da Ideia como manifestação metafísica, provinda do tratado de Alberti sobre a pintura, que estará sempre presente na poesia do escultor. Em Michelangelo, o amor ao corpo é o amor ao espiritual, aquilo que não se apaga com o tempo e leva a mente à contemplação do divino. Davi, embora represente o corpo humano, escapa de sua realidade corpórea, transmitindo diretamente uma ideia pura. A natureza do corpo criada pela essência do espírito.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 3/11/2009


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