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COLUNAS

Terça-feira, 10/1/2012
Sideways Rain: Pausa, Choque, Fluxo e Corpo
Duanne Ribeiro

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Braços e pernas tesos e alongados, surge no canto o primeiro bailarino, similar a um animal pesado e vagaroso, quiçá ancestral. O fluxo irrompe insuspeito e não terá fim: os dançarinos sucessivamente atravessarão o palco de um lado a outro, como que em "corredores" diferentes, divisões abstratas do espaço cênico. A coreografia Sideways Rain, do grupo suíço de dança contemporânea Alias, tem um caráter hipnótico e só é interpretada de modo oblíquo, isto é, não diretamente, mas sentindo o sentido aos poucos. De que é que se trata? Do aleatório histórico que nos levou de bicho à gente? Da escassez de contato humano no cotidiano? Do choque como oportunidade de vida?

O espetáculo foi apresentado no 11º Panorama Sesi de Dança, em dezembro. Estreado em 2010, é o mais recente da companhia. Outro de seus trabalhos também foi exibido no festival: Le Poids des Éponges, de 2002. O Alias tem cerca de 20 produções, com mais de 500 execuções em várias partes do mundo. Seu diretor e fundador, Guilherme Botelho, é brasileiro; iniciou a carreira em São Paulo, passou pelo Ballet of the Grand Théâtre, de Genebra, na Suíça, e em 1993 criou o grupo. Assista a trechos das peças.

Após o primeiro dançarino, outros avançam da mesma maneira. É um primeiro modo de ser (uma primeira manada?). Os movimentos dos grupos seguintes são variados; eles se arrastam de costas, nádegas no chão, pernas flexionando e dando impulso; sentados com os joelhos dobrados, de frente para a plateia, deixam-se pender para o lado, caem, giram e voltam ao equilíbrio original; elegantes, lançam uma perna esticada a frente, como em um golpe de arte marcial; rodam, os pés plantados, mãos também no solo, quase o típico da capoeira. Quatro, cinco deles executando o mesmo padrão, como num balé; devagar ou às vezes tão velozes que são como vultos cruzando o espaço cênico.

E enfim um homem que anda. Depois de assistir a tantas variedades, o bipedismo surge quase gloriosamente. A cena remete ao processo evolutivo que gestou o humano. Pés na terra e postura ereta livraram as mãos para utilizar ferramentas, aperfeiçoaram o uso de energia pelo corpo, estimularam o crescimento do cérebro e ainda outras modificações. Em O Corpo Diz Sua Mente, Stanley Keleman destaca, nessa transformação, o efeito na nossa atitude frente ao mundo: "No caso dos animais quadrúpedes e que se agacham, a frente da cabeça conduz o contato. Eles recebem o mundo com a visão e o olfato. Mas, para o ser humano, toda a parte frontal do corpo conduz o contato - não só os olhos, o nariz e os ouvidos, mas também o peito, a barriga e os órgãos sexuais. Todo esse calor e contato expandidos conduzem, agora, o movimento. É isto que significa ficar de pé".

A naturalidade, a destreza com que outras formas de locomoção foram desempenhadas dão a impressão de que esta é só mais uma escolha entre tantas. Como seria o mundo se nos movêssemos diferentemente? A problemática da acessibilidade indica como apenas esse fator tem consequências arquitetônicas, tecnológicas, sociais.

Anomalia
Os vários modos de ser passam a conviver no palco. Correm como atletas olímpicos ou andam de costas, lentos e também impossivelmente rápidos. Quando um deles pára, isso é um verdadeiro acontecimento - a anomalia no fluxo. Destaco um desses eventos.

Imóvel e aparentemente confuso, ele estende o braço e segura a mão de uma mulher - todos os outros, em pontos variados, repetem o mesmo gesto, porém a ninguém. Poucos segundos em que todo o grupo está paralisado e que são carregados de tensão. Não dura. Ela se solta e continua sua marcha. Logo, alguém se choca com aquele homem parado e lhe transmite seu movimento, estacionando, por sua vez. O mero toque convulsiona toda a estrutura; o contato humano é raro, se dá apenas no impacto.

Ideia muito semelhante foi expressa em Crash - No Limite. Na primeira frase do filme é dito: "Em Los Angeles, ninguém toca em você. Estamos sempre atrás de metal e vidro. Acho que sentimos tanta falta desse toque que nos chocamos uns com os outros, só para sentirmos alguma coisa" (original aqui). Seguem-se histórias individuais que acabam se colidindo. O conflito revela aspectos pessoais desconhecidos para o indivíduo e também aproxima as pessoas, paradoxalmente.

Também se pode aproximar o espetáculo ao diagnóstico de Denis de Moraes sobre as relações simbólicas, sociais e culturais de nossa época no texto "A Tirania do Fugaz". O autor diz: "Vivemos com aturdida incredulidade, um tempo de velocidade implacável, de urgência desvairada. 'Vás más rápido! Los límites, los ponés vos!' (...) Navegamos, insaciáveis, por circuitos infoeletrônicos e ambientes virtuais. Somos privilegiados por transmissões convulsivas, mas não conseguimos reter tantos estímulos e ofertas. (...) O prazer deve ter breve duração, permitindo que, com a descontinuidade, ressurjam modos de alcançá-lo". Portanto, se em Clash o que se destaca é individualização intensa, aqui se releva a corrente ininterrupta que fragiliza todos os contatos.

Nudez
Assim, em Sideways Rain, podemos compreender pausa, choque e fluxo como símbolos do nosso modo de inserção no mundo. Antes deles, porém, está o corpo - é, conforme apontado, pelo movimento e pelo gesto que nos adaptamos ao externo e o adaptamos às nossas necessidades. Mais ainda, é pelos sentidos corporais que sentimos as impressões do exterior; é na própria pele, enfim. Roupas são já uma mediação, e é se livrando delas que a coreografia constrói sua passagem de maior beleza plástica.

Os dançarinos passam a cumprir seu curso ao mesmo tempo em que esticam fios até o outro lado do palco. A cena é recortada por inumeráveis linhas horizontais e diagonais. A luz surge apenas da direita, sem muita intensidade, a penumbra recobre o espaço. Os dançarinos, então, avançam nus. Rápidos, fragmentados, sob a sombra, quase vistos. As reações físicas ao movimento - a carne mole abalada pelos impactos, os músculos que se contraem -, antes latentes, pela neutralidade das vestes, agora estão em evidência. E como um círculo o espetáculo se fecha. A música eleva-se a um pico de tensão e, braços e pernas tesos e alongados, começa a surgir o último bailarino. Súbito, apaga-se a luz.

Sideways Rain parece simbolizar, enfim, o que diz Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas: "Existe é homem humano. Travessia".


Duanne Ribeiro
São Paulo, 10/1/2012

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