Tristezas tropicais | Daniela Sandler | Digestivo Cultural

busca | avançada
28300 visitas/dia
957 mil/mês
Mais Recentes
>>> "A Falecida", de Nelson Rodrigues, estreia no Teatro Macunaíma
>>> Orlando Azevedo organiza evento com venda de obras e discussão sobre arte e fotografia
>>> Fotógrafo Marcelo Aniello lança livro fotografia inspirado nas cores de Trancoso
>>> Martie sobe ao palco ao lado do pianista Marcos Nimrichter
>>> Embaixador croata lança livro de poemas no Brasil
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Omissão
>>> Preparar Para o Impacto
>>> Fazendo a coisa certa
>>> Malcolm, jornalismo em quadrinhos
>>> Lembrança de Plínio Zalewski
>>> Que tal fingir-se de céu?
>>> As crianças do coração do Brasil
>>> Três filmes sobre juventude no novo século
>>> Poesia e Guerra: mundo sitiado (parte II)
>>> Notas confessionais de um angustiado (V)
Colunistas
Últimos Posts
>>> Ebook gratuito
>>> Poesia para jovens
>>> Nirvana pra todos os gostos
>>> Diego Reeberg, do Catarse
>>> Ed Catmull por Jason Calacanis
>>> Lançamento e workshop em BH
>>> Reid Hoffman por Tim Ferriss
>>> Software Programs the World
>>> Daphne Koller do Coursera
>>> The Sharing Economy
Últimos Posts
>>> O santo e el-rei (série: sonetos)
>>> O sonho acabou?
>>> Marola
>>> Quando algo está para acabar, chove. Foi testado.
>>> Tem café?
>>> Ferreira Gullar (1930-2016)
>>> 4 de Dezembro de 2016
>>> Carta aberta ao povo brasileiro
>>> Que bela lição a Colômbia está dando ao mundo
>>> No rastro de Augusto dos Anjos (série: sonetos)
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Parangolé: anti-obra de Hélio Oiticica
>>> Sobre o show da Madonna
>>> A ideologia que faltava
>>> Preparar Para o Impacto
>>> Risos, maestro!
>>> O soldado absoluto
>>> Meu Marido, de Livia Garcia-Roza
>>> Flores Azuis, de Carola Saavedra
>>> 13 musas da literatura
>>> Palpites e Patentes
Mais Recentes
>>> Os Retratos De Oscar Wilde
>>> Futebol Ao Sol E À Sombra
>>> Prática Das Pequenas Construções - Volume 1
>>> A Condição Humana
>>> A Arte Brasileira Em 25 Quadros (1790-1930)
>>> Geográfica Universal - Jul/1994
>>> Men'sHealth - Jan/2015
>>> Men'sHealth - Nov/2014
>>> Men'sHealth - Dez/2014
>>> Scientific American Brasil 27 - Edição Especial
>>> Dás Um Banho: Roberto Alves o rádio, o futebol e a cidade
>>> Essa História Está Diferente
>>> Scientific American Brasil 8 - Edição especial fronteiras da física
>>> Scientific American Brasil - Edição Especial Física (1)
>>> História das Ideias Políticas
>>> Caim
>>> O Evangelho segundo Jesus Cristo
>>> This will make you smarter
>>> A Universe from nothing
>>> As Relaçoes diplomáticas da Ásia
>>> BRICS - As potências emergentes
>>> História da Sexualidade III - O cuidado de si
>>> A assustadora história do holocausto
>>> História das Crenças e das Ideias Religiosas - parte I: da idade da pedra aos mistérios de elêusis
>>> Microfísica do Poder
>>> A insustentável leveza do ser
>>> Os crimes do amor
>>> A ética protestante e o espirito do capitalismo
>>> A ordem do discurso
>>> Der Antichrist (Deutsch)
>>> Basic writings of Nietzsche
>>> Eu via Satanás cair como um relâmpago
>>> The greatest show on Earth
>>> O macaco e a essência
>>> Os dêmonios de Loudun
>>> Pedaços de um caderno manchado de vinho
>>> Pulp
>>> Delirios Cotidianos
>>> Factótum
>>> Super Interessante - Ago/2012 - Especial
>>> Super Interessante - Out/2010
>>> Super Interessante - Ago/2011
>>> O Elo Perdido: Classe e identidade de classe
>>> Série Reencontro: O Morro Dos Ventos Uivantes
>>> A Mulher V: Moderna, À Moda Antiga
>>> Super Interessante - Mai/2010 - Edição especial
>>> Casamento Blindado
>>> Numa fria
>>> O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio
>>> Fabulário geral do delírio cotidiano: ereções, ejaculações e exibicionismos - Parte II
COLUNAS

Quarta-feira, 13/2/2002
Tristezas tropicais
Daniela Sandler

+ de 3100 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Futebol costumava ser o indicador de identidade brasileira no exterior por excelência. Era falar em Brasil e o interlocutor estrangeiro enumerava os nomes de jogadores, até mesmo nome de times. De uns tempos para cá, no entanto, não ouço mais “Romarriô” ou “Pêle” quando digo que sou brasileira. Ouço, isso sim, “caipirinha”.

O drinque é servido em bares e restaurantes das principais cidades norte-americanas, e até mesmo nas secundárias. Para os americanos, ainda é novidade; para os europeus, já é bebida conhecida. Italianos, alemães, franceses contam ter experimentado caipirinha e até mesmo batida de côco. Os gringos ensaiam, orgulhosos de seu conhecimento, a pronúncia da palavra “cachaça” – que na maioria das vezes sai “cacha-ha”, pois o cê cedilha lhes parece indecifrável. Quando tento ensinar “pinga”, que é muito mais fácil de dizer, eles já estão na segunda ou terceira dose, e aí não tem mais lição de língua que pare em pé.

O sucesso da caipirinha foi coroado por sua eleição como um dos drinques do ano de 2001, na última edição da revista Bon Appétit (uma das mais respeitadas publicações gastronômicas daqui). Sua popularidade pega a onda de produtos culturais latinos, que vão de danças como a salsa (não, forró ainda não chegou) à culinária de países da América do Sul e Central – em especial o que eles chamam de “new latino”, uma fusão de elementos tradicionais de vários países e técnicas clássicas de cozinha.

A versão que os americanos preferem da caipirinha é diluída e adocicada, pois acham a mistura original forte demais. Apreciam a bebida por ser refrescante, leve e ter sabor vivo, colorido pelo limão. Verdade seja dita, muitos ainda confundem caipirinha e mojito (coloquemos a culpa em seu estado etílico, para não entrar na questão dos preconceitos...)

Achei curioso ser associada à alegre bebida. Quão festivos devemos parecer! Quando não é a caipirinha ou o futebol, é samba, carnaval, capoeira ou bossa-nova – ah, e as mulheres, claro. Quantas vezes já não me deparei com sorrisos maliciosos, meio de lado, acompanhando a referência enigmática à “fama da mulher brasileira”... O sexismo explícito deste último comentário apenas magnifica os estereótipos mais sutis (ou nem tanto!) que permeiam as outras associações.

O que significa ser visto como terra de festa, música, euforia coletiva? A minha pergunta tem dois sentidos. De um lado, o que isso significa para nós, que somos vistos; de outro, o que isso revela sobre eles, os que nos vêem.

A outra face

Antes mesmo que eu possa pensar muito nessas tristezas tropicais, das quais a caipirinha é apenas a mais recente, sou tomada por outra tristeza: a do reverso da moeda, o resto da história. Sim, porque não são essas as únicas referências que ocorrem aos estrangeiros quando se fala do Brasil. Várias pessoas já me perguntaram, em tom consternado, no último mês, como está a situação econômica na minha terra natal, e se eu estou preocupada com o fato de termos trocado de presidente três vezes em menos de um mês. Pelo visto, a confusão não é apenas entre caipirinhas e mojitos (eu já ia dizer que prefiro a confusão de bebidas, mas talvez ela tenha a mesma raiz da confusão histórica, econômica e política).

Percebo que o constrangimento, quando explico que essas coisas aconteceram na Argentina, é muito mais meu do que de meus interlocutores. Para eles, aliás, desfeita a mistura de nomes, está resolvida a situação. Para nós, não. O problema é justamente esse, não é? – que os detentores globais de poder político e financeiro fazem a mesma confusão, e decretam morte por contigüidade. Até parece que estamos falando do cólera, e não de crise econômica...

Voltando ao ponto inicial – se não é a crise econômica, então é a miséria, as criancinhas famintas, o crime, a Amazônia. Como se, para cada estereótipo festivo com que nos enfeitam, precisassem adicionar um negativo. Mas os clichês “bons” e “ruins” não são entidades opostas, antagonistas: muito ao contrário. São duas faces da mesma atitude. Eu, como brasileira, sinto-me tão desconcertada quando reduzem o Brasil ao buraco econômico como quando o reduzem à caipirinha.

Estereótipos culturais são, de certo modo, inevitáveis. Toda cultura os produz, toda cultura os alimenta, e toda cultura é deles objeto. Se falo da nossa caipirinha, talvez você pense na Escócia e seu uísque, ou na França e seus vinhos. Mas você há de pensar também que a conotação do uísque escocês ou do vinho francês é muito diferente da conotação da caipirinha. Aliás, não só a conotação, como o atestam os mercados futuros de vinhos e adegas milionárias.

Não – um copo de pinga com limão esmagado, gelo e açúcar não é exatamente a idéia que eu faço de “identidade nacional”. Como consolo, penso no nocaute etílico que a nossa caipirinha perpetra até mesmo em quem consome apenas o “suquinho”...

Falando em identidade...

A PBS, rede de televisão pública norte-americana, produziu e está veiculando uma série de ficção chamada A Família Americana (American Family). Como sinal dos tempos, rendendo-se à composição populacional do país, a tal família americana é de origem hispânica (em termos politicamente incorretos, “chicanos”, “cucarachas”). Quem interpreta a matriarca é Sônia Braga. Há algo de irônico nisso.

Nós, brasileiros – nosso sotaque, nossa cultura, nossa população – somos uma nação indefinida, desconhecida. Estamos lá, no meio, na América. No início, quando eu tinha de preencher formulários de imigração ou matrícula, ficava na dúvida quando chegava ao item “etnia”: será que eles me acham “hispânica”? Não há uma categoria para “latino-americanos”, mas há hispânicos, como há negros – afinal, o critério é étnico. Mas o que é um hispânico? Será alguém colonizado por espanhóis? Descendente de astecas ou maias? Mas e os incas? E os tupis? Será alguém que fala espanhol? Mas e os argentinos, serão hispânicos?

Ora! Mojitos, caipirinha, é tudo a mesma coisa.


Daniela Sandler
Rochester, 13/2/2002


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Quem não gosta de uma boa história? de Ana Elisa Ribeiro


Mais Daniela Sandler
Mais Acessadas de Daniela Sandler em 2002
01. Virtudes e pecados (lavoura arcaica) - 9/1/2002
02. Nas garras do Iluminismo fácil - 10/4/2002
03. Iris, ou por que precisamos da tristeza - 24/4/2002
04. Crimes de guerra - 13/3/2002
05. Somos diferentes. E daí? - 30/1/2002


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
17/2/2002
15h35min
dani, é sempre um prazer ler sua coluna, parabéns - e obrigada! beijos
[Leia outros Comentários de juliana fiorini]
17/2/2002
18h34min
Excelente texto, Daniela. Quando estive em São Francisco, cerca de oito anos atrás, eu e amigos ensinamos a dona de um bar (Beerness, se não me falha a memória) a preparar caipirinha. Foi um sucesso. Eu, particularmente, prefiro Mojito.
[Leia outros Comentários de Fabio]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A CHAVE DO SEGREDO
JERRY E ESTHER HICKS
EDIOURO
(2007)



OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM VENCEDOR - ENTRE A VIDA E A MORTE, O JOSÉ...
JOSÉ ROBERTO BURNIER
GLOBO
(2011)



O FUTURO DA HUMANIDADE
J KRISHNAMURTI/ DAVID BOHM
CULTRIX
(1986)



A CONQUISTA DO PARAÍSO + CRISTÓVÃO COLOMBO E SEU LEGADO
KIRKPATRICK SALE
JORGE ZAHAR
(1992)



LIMA BARRETO
CLARA DOS ANJOS
ESCALA
(1999)



A WOMANS WORLD
CLYDE M. NARRAMORE
ZONDERVAN
(1969)
+ frete grátis



CLARO ENIGMA
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
COMPANHIA DAS LETRAS
(2012)
+ frete grátis



OS ANIMAIS VÃO SALVAR A SUA PELE OU MELHOR: O SEU EMPREGO
GILBERTO MIRANDA
LANDSCAPE
(2004)
+ frete grátis



PURSUIT OF EXCELLENCE THE OLYMPIC STORY
THE ASSOCIATED PRESS AND GROLIER
GROLIER ENTERPRISES
(1979)
+ frete grátis



EL TEATRO JESUÍTICO EN EL BRASIL
JOSÉ CARLOS DE MACEDO SOARES
SNT/MEC
(1956)
+ frete grátis





busca | avançada
28300 visitas/dia
957 mil/mês