Tristezas tropicais | Daniela Sandler | Digestivo Cultural

busca | avançada
57063 visitas/dia
1,3 milhão/mês
Digestivo Cultural
O que é?
Quem faz?

Audiência e Anúncios
Quem acessa?
Como anunciar?

Colaboração e Divulgação
Como publicar?
Como divulgar?

Newsletter | Disparo
* Histórico & Feeds
TT, FB e Instagram
Últimas Notas
>>> Daily Rituals - How Artists Work, by Mason Currey
>>> Fernando Pessoa, o Livro das Citações, por José Paulo Cavalcanti Filho
>>> A Loja de Tudo - Jeff Bezos e a Era da Amazon, de Brad Stone
>>> Reflexões ou Sentenças e Máximas Morais, de La Rochefoucauld
>>> O Capital no Século XXI, de Thomas Piketty, o livro do ano
>>> Trágico e Cômico, o livro, de Diogo Salles
>>> Blue Jasmine, de Woody Allen, com Cate Blanchett
>>> The Devil Put Dinosaurs Here, do Alice in Chains
Temas
Mais Recentes
>>> Predadores humanos
>>> O gosto da cidade em minha boca
>>> Abominável Mundo Novo
>>> I-ching-poemas de Bruna Piantino
>>> Liberdade
>>> 10 coisas que a Mamãe me ensinou
>>> Bruxas no banheiro
>>> Quero ser Marina Abramović
>>> O Jagunço degolado
>>> O sublime Ballet de Londrina
Colunistas
Mais Recentes
>>> Copa 2014
>>> Copa 2010
>>> Idade
>>> Origens
>>> Protestos
>>> Millôr Fernandes
Últimos Posts
>>> Daniel Piza Eterno
>>> Conheça o AgroTalento
>>> U2 no metrô
>>> Homenagem a Pipol
>>> LEM na TV Cronópios
>>> Sobre o Dia das Mães
>>> Lançamento de István Mészáros
>>> Maria Rezende no Sesc BH
>>> Ristridi
>>> Cesar Huesca
Mais Recentes
>>> Lembranças de Ariano Suassuna
>>> Harold Ramis (1944-2014)
>>> Sergio Britto & eu
>>> Para o Daniel Piza. De uma leitora
>>> Joey e Johnny Ramone
>>> A Cultura do Consenso
>>> De Kooning em retrospectiva
>>> Delírios da baixa gastronomia
Mais Recentes
>>> Jaime Pinsky
>>> Luis Salvatore
>>> Catarse
>>> Chico Pinheiro
>>> Sheila Leirner
>>> Guilherme Fiuza
Mais Recentes
>>> O segundo e-book do Digestivo
>>> Momento cívico
>>> Digestivo Books
>>> Caixa Postal
>>> Nova Seção Livros
>>> Digestivo no Instagram
Mais Recentes
>>> Simplesmente feliz
>>> Vídeos sobre a Guerra no Rio
>>> Blogs de jornalistas triloaded
>>> Django Unchained, de Quentin Tarantino
>>> A via férrea da poesia de Mario Alex Rosa
>>> Publicar em papel? Pra quê?
>>> PalavraNaTela2008, by MarioAV
>>> Direita, Esquerda ― Volver!
>>> Que seja eterno enquanto dure
>>> Cinquenta tons de cinza no mundo real
COLUNAS

Quarta-feira, 13/2/2002
Tristezas tropicais
Daniela Sandler

+ de 2700 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Futebol costumava ser o indicador de identidade brasileira no exterior por excelência. Era falar em Brasil e o interlocutor estrangeiro enumerava os nomes de jogadores, até mesmo nome de times. De uns tempos para cá, no entanto, não ouço mais “Romarriô” ou “Pêle” quando digo que sou brasileira. Ouço, isso sim, “caipirinha”.

O drinque é servido em bares e restaurantes das principais cidades norte-americanas, e até mesmo nas secundárias. Para os americanos, ainda é novidade; para os europeus, já é bebida conhecida. Italianos, alemães, franceses contam ter experimentado caipirinha e até mesmo batida de côco. Os gringos ensaiam, orgulhosos de seu conhecimento, a pronúncia da palavra “cachaça” – que na maioria das vezes sai “cacha-ha”, pois o cê cedilha lhes parece indecifrável. Quando tento ensinar “pinga”, que é muito mais fácil de dizer, eles já estão na segunda ou terceira dose, e aí não tem mais lição de língua que pare em pé.

O sucesso da caipirinha foi coroado por sua eleição como um dos drinques do ano de 2001, na última edição da revista Bon Appétit (uma das mais respeitadas publicações gastronômicas daqui). Sua popularidade pega a onda de produtos culturais latinos, que vão de danças como a salsa (não, forró ainda não chegou) à culinária de países da América do Sul e Central – em especial o que eles chamam de “new latino”, uma fusão de elementos tradicionais de vários países e técnicas clássicas de cozinha.

A versão que os americanos preferem da caipirinha é diluída e adocicada, pois acham a mistura original forte demais. Apreciam a bebida por ser refrescante, leve e ter sabor vivo, colorido pelo limão. Verdade seja dita, muitos ainda confundem caipirinha e mojito (coloquemos a culpa em seu estado etílico, para não entrar na questão dos preconceitos...)

Achei curioso ser associada à alegre bebida. Quão festivos devemos parecer! Quando não é a caipirinha ou o futebol, é samba, carnaval, capoeira ou bossa-nova – ah, e as mulheres, claro. Quantas vezes já não me deparei com sorrisos maliciosos, meio de lado, acompanhando a referência enigmática à “fama da mulher brasileira”... O sexismo explícito deste último comentário apenas magnifica os estereótipos mais sutis (ou nem tanto!) que permeiam as outras associações.

O que significa ser visto como terra de festa, música, euforia coletiva? A minha pergunta tem dois sentidos. De um lado, o que isso significa para nós, que somos vistos; de outro, o que isso revela sobre eles, os que nos vêem.

A outra face

Antes mesmo que eu possa pensar muito nessas tristezas tropicais, das quais a caipirinha é apenas a mais recente, sou tomada por outra tristeza: a do reverso da moeda, o resto da história. Sim, porque não são essas as únicas referências que ocorrem aos estrangeiros quando se fala do Brasil. Várias pessoas já me perguntaram, em tom consternado, no último mês, como está a situação econômica na minha terra natal, e se eu estou preocupada com o fato de termos trocado de presidente três vezes em menos de um mês. Pelo visto, a confusão não é apenas entre caipirinhas e mojitos (eu já ia dizer que prefiro a confusão de bebidas, mas talvez ela tenha a mesma raiz da confusão histórica, econômica e política).

Percebo que o constrangimento, quando explico que essas coisas aconteceram na Argentina, é muito mais meu do que de meus interlocutores. Para eles, aliás, desfeita a mistura de nomes, está resolvida a situação. Para nós, não. O problema é justamente esse, não é? – que os detentores globais de poder político e financeiro fazem a mesma confusão, e decretam morte por contigüidade. Até parece que estamos falando do cólera, e não de crise econômica...

Voltando ao ponto inicial – se não é a crise econômica, então é a miséria, as criancinhas famintas, o crime, a Amazônia. Como se, para cada estereótipo festivo com que nos enfeitam, precisassem adicionar um negativo. Mas os clichês “bons” e “ruins” não são entidades opostas, antagonistas: muito ao contrário. São duas faces da mesma atitude. Eu, como brasileira, sinto-me tão desconcertada quando reduzem o Brasil ao buraco econômico como quando o reduzem à caipirinha.

Estereótipos culturais são, de certo modo, inevitáveis. Toda cultura os produz, toda cultura os alimenta, e toda cultura é deles objeto. Se falo da nossa caipirinha, talvez você pense na Escócia e seu uísque, ou na França e seus vinhos. Mas você há de pensar também que a conotação do uísque escocês ou do vinho francês é muito diferente da conotação da caipirinha. Aliás, não só a conotação, como o atestam os mercados futuros de vinhos e adegas milionárias.

Não – um copo de pinga com limão esmagado, gelo e açúcar não é exatamente a idéia que eu faço de “identidade nacional”. Como consolo, penso no nocaute etílico que a nossa caipirinha perpetra até mesmo em quem consome apenas o “suquinho”...

Falando em identidade...

A PBS, rede de televisão pública norte-americana, produziu e está veiculando uma série de ficção chamada A Família Americana (American Family). Como sinal dos tempos, rendendo-se à composição populacional do país, a tal família americana é de origem hispânica (em termos politicamente incorretos, “chicanos”, “cucarachas”). Quem interpreta a matriarca é Sônia Braga. Há algo de irônico nisso.

Nós, brasileiros – nosso sotaque, nossa cultura, nossa população – somos uma nação indefinida, desconhecida. Estamos lá, no meio, na América. No início, quando eu tinha de preencher formulários de imigração ou matrícula, ficava na dúvida quando chegava ao item “etnia”: será que eles me acham “hispânica”? Não há uma categoria para “latino-americanos”, mas há hispânicos, como há negros – afinal, o critério é étnico. Mas o que é um hispânico? Será alguém colonizado por espanhóis? Descendente de astecas ou maias? Mas e os incas? E os tupis? Será alguém que fala espanhol? Mas e os argentinos, serão hispânicos?

Ora! Mojitos, caipirinha, é tudo a mesma coisa.


Daniela Sandler
Rochester, 13/2/2002

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Viagem aos baixos do Viaduto do Chá de Elisa Andrade Buzzo
02. Rugas e rusgas de Elisa Andrade Buzzo
03. O irmão alemão, de Chico Buarque de Jardel Dias Cavalcanti
04. Em Tempos de Eleição de Marilia Mota Silva
05. Entrevista com Dante Ramon Ledesma de Celso A. Uequed Pitol


Mais Daniela Sandler
Mais Acessadas de Daniela Sandler em 2002
01. Virtudes e pecados (lavoura arcaica) - 9/1/2002
02. Nas garras do Iluminismo fácil - 10/4/2002
03. Crimes de guerra - 13/3/2002
04. Iris, ou por que precisamos da tristeza - 24/4/2002
05. Somos diferentes. E daí? - 30/1/2002


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
17/2/2002
15h35min
dani, é sempre um prazer ler sua coluna, parabéns - e obrigada! beijos
[Leia outros Comentários de juliana fiorini]
17/2/2002
18h34min
Excelente texto, Daniela. Quando estive em São Francisco, cerca de oito anos atrás, eu e amigos ensinamos a dona de um bar (Beerness, se não me falha a memória) a preparar caipirinha. Foi um sucesso. Eu, particularmente, prefiro Mojito.
[Leia outros Comentários de Fabio]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




>>> Arte Postal e pré-estreia de série sobre arte contemporânea
>>> ENDA 2015 acontece entre 29 e 31 de maio, no Teatro Sérgio cardoso
>>> Gilvan Barreto lança livro no Espaço Cult
>>> TV Brasil estreia série "Venha ver o meu mundo!" nesta quinta (21)
>>> Samara Noronha: O 'Caos' rondoniense produzido pelo cantor Vinny!
>>> Alê Jordão apresenta a mostra "Spectrum" no Museu Oscar Niemeyer (MON) de Curitiba nesta quarta-feir
* clique para encaminhar

José Olympio
Primavera Editorial
Hedra
Editora Conteúdo
Best Seller
Bertrand Brasil
Cortez Editora
Editora Perspectiva
Nova Fronteira
Companhia das Letras
Arquipélago Editorial
Intrínseca
WMF Martins Fontes
Editora Record
Civilização Brasileira
Globo Livros
LIVROS


COMO GATA E RATO, COMO CÃO E GATA
LUIZ RAUL MACHADO

De R$ 25,00
Por R$ 12,50
50% off
+ frete grátis



CREPÚSCULO - LIVRO DE ANOTAÇÕES DA DIRETORIA
CATHERINE HARDWICKE

De R$ 29,90
Por R$ 14,95
50% off
+ frete grátis



LIBERDADE, AINDA QUE TARDE
EDUARDO VETILLO

De R$ 34,00
Por R$ 17,00
50% off
+ frete grátis



POIS É
PAULO RONAI

De R$ 39,00
Por R$ 19,50
50% off
+ frete grátis



SOBRE A LIBERDADE
JOHN STUART MILL

De R$ 24,00
Por R$ 12,00
50% off
+ frete grátis



PROCURA-SE UM INVENTOR
DANIEL DA ROCHA LEITE

De R$ 39,00
Por R$ 19,50
50% off
+ frete grátis



O LIVRO DE JOANNA
BERNADETTE BARBIERI

De R$ 42,00
Por R$ 21,00
50% off
+ frete grátis



A CASA VAZIA
VINCENT GOODWIN E BEN DUNN

De R$ 26,90
Por R$ 13,45
50% off
+ frete grátis



O PODER VERDADEIRO
G. BRASMAN E G. NORRIS

De R$ 29,90
Por R$ 14,95
50% off
+ frete grátis



MANUAL DE GENTILEZAS DO EXECUTIVO
STEVE HARRISON

De R$ 36,50
Por R$ 18,25
50% off
+ frete grátis



busca | avançada
57063 visitas/dia
1,3 milhão/mês