Tristezas tropicais | Daniela Sandler | Digestivo Cultural

busca | avançada
57337 visitas/dia
1,5 milhão/mês
Mais Recentes
>>> LOS MOLINOS TERÁ APRESENTAÇÃO DE BALLET TRADICIONAL FLAMENCO EM NOITE ESPECIAL
>>> Fred Martins lança no Brasil CD gravado na Europa
>>> O Mercado terá edição caliente!
>>> Turnê Minas 2015 - Grupo Galpão anuncia apresentações no Triângulo Mineiro
>>> TV Brasil apresenta Ciclo de Cinema Africano a partir desta segunda (3/8)
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O testemunho de Bernanos
>>> George Orwell e o alerta contra o totalitarismo
>>> Influências da década de 1980
>>> Gerald Thomas: cidadão do mundo (parte final)
>>> O romance do 'e se...'
>>> Xadrez, poesia de Ana Elisa Ribeiro
>>> Espírito e Cura
>>> Precisa-se de empregada feia. Bem feia.
>>> Minha Terra Tem Palmeiras
>>> Gerald Thomas: Cidadão do Mundo (parte IV)
Colunistas
Últimos Posts
>>> Acabou o governo
>>> O Chileno
>>> Fabio Gomes
>>> Irmãos Amâncio
>>> Rita de Cássia Oliveira
>>> Gil e Pepeu em Montreux 1978
>>> Wagner Moura em Narcos
>>> Marcio Acselrad
>>> Mais uma de Leonardo da Vinci
>>> Mr. Sandman
Últimos Posts
>>> A carteira do senhor Afonso
>>> Alunos, a leitura está proibida
>>> Das impaciências e incompusturas
>>> Irmãos Dardenne e Rosetta
>>> Uma História da Tecnologia da Informação- Parte 9
>>> O samba de Donga na Festa da Penha
>>> Um motor na civilização em crise - 2
>>> Um motor na civilização em crise - 1
>>> Iara Abreu expõe artes visuais com poesia
>>> A diferença entre homens e mulheres no amor
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A Passagem das Horas [a]
>>> Guerra é entretenimento
>>> Fritas acompanham?
>>> Em Alguma Margem, no Rio
>>> Uma conversa íntima
>>> Livros, livros e livros
>>> Entrevista com Cronópios
>>> O iPod por Da Vinci
>>> dulcíssima dulcinéia
>>> Associated Press matando os jornais?
Mais Recentes
>>> Ernest e Celestine: Músicos de rua, Gabrielle Vincent, Editora Salamandra
>>> o novo e o patologico
>>> diagnostico psicanalitico
>>> Psicologia Organizacional - uma Abo
>>> Psicologia Organizacional - uma Abordagem Vivencial
>>> O som e a fúria, de William Faulkner, 2 edição, 2009, Cosac Naify, capa dura com sobrecapa
>>> Cosac
>>> Odontologia para pacientes com necessidades especiais
>>> moda e comunicação
>>> candomblé
COLUNAS

Quarta-feira, 13/2/2002
Tristezas tropicais
Daniela Sandler

+ de 2800 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Futebol costumava ser o indicador de identidade brasileira no exterior por excelência. Era falar em Brasil e o interlocutor estrangeiro enumerava os nomes de jogadores, até mesmo nome de times. De uns tempos para cá, no entanto, não ouço mais “Romarriô” ou “Pêle” quando digo que sou brasileira. Ouço, isso sim, “caipirinha”.

O drinque é servido em bares e restaurantes das principais cidades norte-americanas, e até mesmo nas secundárias. Para os americanos, ainda é novidade; para os europeus, já é bebida conhecida. Italianos, alemães, franceses contam ter experimentado caipirinha e até mesmo batida de côco. Os gringos ensaiam, orgulhosos de seu conhecimento, a pronúncia da palavra “cachaça” – que na maioria das vezes sai “cacha-ha”, pois o cê cedilha lhes parece indecifrável. Quando tento ensinar “pinga”, que é muito mais fácil de dizer, eles já estão na segunda ou terceira dose, e aí não tem mais lição de língua que pare em pé.

O sucesso da caipirinha foi coroado por sua eleição como um dos drinques do ano de 2001, na última edição da revista Bon Appétit (uma das mais respeitadas publicações gastronômicas daqui). Sua popularidade pega a onda de produtos culturais latinos, que vão de danças como a salsa (não, forró ainda não chegou) à culinária de países da América do Sul e Central – em especial o que eles chamam de “new latino”, uma fusão de elementos tradicionais de vários países e técnicas clássicas de cozinha.

A versão que os americanos preferem da caipirinha é diluída e adocicada, pois acham a mistura original forte demais. Apreciam a bebida por ser refrescante, leve e ter sabor vivo, colorido pelo limão. Verdade seja dita, muitos ainda confundem caipirinha e mojito (coloquemos a culpa em seu estado etílico, para não entrar na questão dos preconceitos...)

Achei curioso ser associada à alegre bebida. Quão festivos devemos parecer! Quando não é a caipirinha ou o futebol, é samba, carnaval, capoeira ou bossa-nova – ah, e as mulheres, claro. Quantas vezes já não me deparei com sorrisos maliciosos, meio de lado, acompanhando a referência enigmática à “fama da mulher brasileira”... O sexismo explícito deste último comentário apenas magnifica os estereótipos mais sutis (ou nem tanto!) que permeiam as outras associações.

O que significa ser visto como terra de festa, música, euforia coletiva? A minha pergunta tem dois sentidos. De um lado, o que isso significa para nós, que somos vistos; de outro, o que isso revela sobre eles, os que nos vêem.

A outra face

Antes mesmo que eu possa pensar muito nessas tristezas tropicais, das quais a caipirinha é apenas a mais recente, sou tomada por outra tristeza: a do reverso da moeda, o resto da história. Sim, porque não são essas as únicas referências que ocorrem aos estrangeiros quando se fala do Brasil. Várias pessoas já me perguntaram, em tom consternado, no último mês, como está a situação econômica na minha terra natal, e se eu estou preocupada com o fato de termos trocado de presidente três vezes em menos de um mês. Pelo visto, a confusão não é apenas entre caipirinhas e mojitos (eu já ia dizer que prefiro a confusão de bebidas, mas talvez ela tenha a mesma raiz da confusão histórica, econômica e política).

Percebo que o constrangimento, quando explico que essas coisas aconteceram na Argentina, é muito mais meu do que de meus interlocutores. Para eles, aliás, desfeita a mistura de nomes, está resolvida a situação. Para nós, não. O problema é justamente esse, não é? – que os detentores globais de poder político e financeiro fazem a mesma confusão, e decretam morte por contigüidade. Até parece que estamos falando do cólera, e não de crise econômica...

Voltando ao ponto inicial – se não é a crise econômica, então é a miséria, as criancinhas famintas, o crime, a Amazônia. Como se, para cada estereótipo festivo com que nos enfeitam, precisassem adicionar um negativo. Mas os clichês “bons” e “ruins” não são entidades opostas, antagonistas: muito ao contrário. São duas faces da mesma atitude. Eu, como brasileira, sinto-me tão desconcertada quando reduzem o Brasil ao buraco econômico como quando o reduzem à caipirinha.

Estereótipos culturais são, de certo modo, inevitáveis. Toda cultura os produz, toda cultura os alimenta, e toda cultura é deles objeto. Se falo da nossa caipirinha, talvez você pense na Escócia e seu uísque, ou na França e seus vinhos. Mas você há de pensar também que a conotação do uísque escocês ou do vinho francês é muito diferente da conotação da caipirinha. Aliás, não só a conotação, como o atestam os mercados futuros de vinhos e adegas milionárias.

Não – um copo de pinga com limão esmagado, gelo e açúcar não é exatamente a idéia que eu faço de “identidade nacional”. Como consolo, penso no nocaute etílico que a nossa caipirinha perpetra até mesmo em quem consome apenas o “suquinho”...

Falando em identidade...

A PBS, rede de televisão pública norte-americana, produziu e está veiculando uma série de ficção chamada A Família Americana (American Family). Como sinal dos tempos, rendendo-se à composição populacional do país, a tal família americana é de origem hispânica (em termos politicamente incorretos, “chicanos”, “cucarachas”). Quem interpreta a matriarca é Sônia Braga. Há algo de irônico nisso.

Nós, brasileiros – nosso sotaque, nossa cultura, nossa população – somos uma nação indefinida, desconhecida. Estamos lá, no meio, na América. No início, quando eu tinha de preencher formulários de imigração ou matrícula, ficava na dúvida quando chegava ao item “etnia”: será que eles me acham “hispânica”? Não há uma categoria para “latino-americanos”, mas há hispânicos, como há negros – afinal, o critério é étnico. Mas o que é um hispânico? Será alguém colonizado por espanhóis? Descendente de astecas ou maias? Mas e os incas? E os tupis? Será alguém que fala espanhol? Mas e os argentinos, serão hispânicos?

Ora! Mojitos, caipirinha, é tudo a mesma coisa.


Daniela Sandler
Rochester, 13/2/2002

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Minha Terra Tem Palmeiras de Marilia Mota Silva
02. A aproximação entre Grécia e Rússia de Celso A. Uequed Pitol
03. Para que serve a poesia? de Ana Elisa Ribeiro
04. Gerald Thomas: cidadão do mundo (parte I) de Jardel Dias Cavalcanti
05. Viagem a 1968: Tropeços e Desventuras (3) de Marilia Mota Silva


Mais Daniela Sandler
Mais Acessadas de Daniela Sandler em 2002
01. Virtudes e pecados (lavoura arcaica) - 9/1/2002
02. Nas garras do Iluminismo fácil - 10/4/2002
03. Crimes de guerra - 13/3/2002
04. Iris, ou por que precisamos da tristeza - 24/4/2002
05. Somos diferentes. E daí? - 30/1/2002


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
17/2/2002
15h35min
dani, é sempre um prazer ler sua coluna, parabéns - e obrigada! beijos
[Leia outros Comentários de juliana fiorini]
17/2/2002
18h34min
Excelente texto, Daniela. Quando estive em São Francisco, cerca de oito anos atrás, eu e amigos ensinamos a dona de um bar (Beerness, se não me falha a memória) a preparar caipirinha. Foi um sucesso. Eu, particularmente, prefiro Mojito.
[Leia outros Comentários de Fabio]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS


O MUNDO DE WALLY
MARSHA BOULTON

De R$ 29,90
Por R$ 14,95
50% off
+ frete grátis



ACIDENTES DO TRABALHO
GUSTAVO FILIPE BARBOSA GARCIA

De R$ 56,00
Por R$ 28,00
50% off
+ frete grátis



ECLIPSE - CAPA DO FILME
STEPHENIE MEYER

De R$ 29,90
Por R$ 14,95
50% off
+ frete grátis



ANUÁRIO DO COLÉGIO WILLIAM MCKINLEY
DEBRA MOSTOW ZAKARIN

De R$ 59,90
Por R$ 29,95
50% off
+ frete grátis



QUEBRANDO REGRAS
BARBARA TAYLOR BRADFORD

De R$ 40,00
Por R$ 20,00
50% off
+ frete grátis



O MILAGRE DO AGORA
TONI PACKER

De R$ 22,00
Por R$ 11,00
50% off
+ frete grátis



WORLD OF WARCRAFT - CRIMES DE GUERRA
CHRISTIE GOLDEN

De R$ 38,00
Por R$ 19,00
50% off
+ frete grátis



A BÚSSOLA DO PEREGRINO
PEDRO TERRÓN

De R$ 46,70
Por R$ 23,35
50% off
+ frete grátis



A OBRA DO ARTISTA
FREI BETTO

De R$ 39,00
Por R$ 19,50
50% off
+ frete grátis



QUE FAZ DE UM DEGAS UM DEGAS?, O - (3 EDICAO)
MUHLBERGER, RICHARD

De R$ 47,00
Por R$ 23,50
50% off
+ frete grátis



busca | avançada
57337 visitas/dia
1,5 milhão/mês