Tristezas tropicais | Daniela Sandler | Digestivo Cultural

busca | avançada
41511 visitas/dia
1,4 milhão/mês
Digestivo Cultural
O que é?
Quem faz?

Audiência e Anúncios
Quem acessa?
Como anunciar?

Colaboração e Divulgação
Como publicar?
Como divulgar?

Newsletter | Disparo
* Histórico & Feeds
TT, FB e Instagram
Últimas Notas
>>> Daily Rituals - How Artists Work, by Mason Currey
>>> Fernando Pessoa, o Livro das Citações, por José Paulo Cavalcanti Filho
>>> A Loja de Tudo - Jeff Bezos e a Era da Amazon, de Brad Stone
>>> Reflexões ou Sentenças e Máximas Morais, de La Rochefoucauld
>>> O Capital no Século XXI, de Thomas Piketty, o livro do ano
>>> Trágico e Cômico, o livro, de Diogo Salles
>>> Blue Jasmine, de Woody Allen, com Cate Blanchett
>>> The Devil Put Dinosaurs Here, do Alice in Chains
Temas
Mais Recentes
>>> Sobre caramujos e Omolu
>>> A literatura em transe
>>> Solitária cidadã do mundo
>>> Repensando a esquerda
>>> Ficção hiper-real
>>> Intervenção militar constitucional
>>> 'Eu quero você como eu quero'
>>> Reunião de pais, ops, de mães
>>> O gueto dos ricos
>>> Pendurados no Pincel
Colunistas
Mais Recentes
>>> Copa 2014
>>> Copa 2010
>>> Idade
>>> Origens
>>> Protestos
>>> Millôr Fernandes
Últimos Posts
>>> O Bolero, com Dudamel
>>> 120 anos da Poli
>>> Conheça General Rodriguez
>>> Ama teu vizinho
>>> Boca no Trombone
>>> Eduardo Galeano (1940-2015)
>>> Lembrança de Paulo Brossard
>>> Barbara Heliodora e a crítica
>>> Max Weber e o jornalismo
>>> Kiko Loureiro no Megadeth
Mais Recentes
>>> Lembranças de Ariano Suassuna
>>> Harold Ramis (1944-2014)
>>> Sergio Britto & eu
>>> Para o Daniel Piza. De uma leitora
>>> Joey e Johnny Ramone
>>> A Cultura do Consenso
>>> De Kooning em retrospectiva
>>> Delírios da baixa gastronomia
Mais Recentes
>>> Jaime Pinsky
>>> Luis Salvatore
>>> Catarse
>>> Chico Pinheiro
>>> Sheila Leirner
>>> Guilherme Fiuza
Mais Recentes
>>> O segundo e-book do Digestivo
>>> Momento cívico
>>> Digestivo Books
>>> Caixa Postal
>>> Nova Seção Livros
>>> Digestivo no Instagram
Mais Recentes
>>> Hipertexto
>>> Sobre Jobs e Da Vinci
>>> Desligando o Cartoon Network
>>> Estudo que merece prêmio
>>> casa dos políticos
>>> Sobrevivência dos impressos
>>> A divina Marilyn Monroe
>>> Casa de espelhos
>>> E Viva a Abolição - a peça
>>> Meu filho e Jaime Lerner
COLUNAS

Quarta-feira, 13/2/2002
Tristezas tropicais
Daniela Sandler

+ de 2700 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Futebol costumava ser o indicador de identidade brasileira no exterior por excelência. Era falar em Brasil e o interlocutor estrangeiro enumerava os nomes de jogadores, até mesmo nome de times. De uns tempos para cá, no entanto, não ouço mais “Romarriô” ou “Pêle” quando digo que sou brasileira. Ouço, isso sim, “caipirinha”.

O drinque é servido em bares e restaurantes das principais cidades norte-americanas, e até mesmo nas secundárias. Para os americanos, ainda é novidade; para os europeus, já é bebida conhecida. Italianos, alemães, franceses contam ter experimentado caipirinha e até mesmo batida de côco. Os gringos ensaiam, orgulhosos de seu conhecimento, a pronúncia da palavra “cachaça” – que na maioria das vezes sai “cacha-ha”, pois o cê cedilha lhes parece indecifrável. Quando tento ensinar “pinga”, que é muito mais fácil de dizer, eles já estão na segunda ou terceira dose, e aí não tem mais lição de língua que pare em pé.

O sucesso da caipirinha foi coroado por sua eleição como um dos drinques do ano de 2001, na última edição da revista Bon Appétit (uma das mais respeitadas publicações gastronômicas daqui). Sua popularidade pega a onda de produtos culturais latinos, que vão de danças como a salsa (não, forró ainda não chegou) à culinária de países da América do Sul e Central – em especial o que eles chamam de “new latino”, uma fusão de elementos tradicionais de vários países e técnicas clássicas de cozinha.

A versão que os americanos preferem da caipirinha é diluída e adocicada, pois acham a mistura original forte demais. Apreciam a bebida por ser refrescante, leve e ter sabor vivo, colorido pelo limão. Verdade seja dita, muitos ainda confundem caipirinha e mojito (coloquemos a culpa em seu estado etílico, para não entrar na questão dos preconceitos...)

Achei curioso ser associada à alegre bebida. Quão festivos devemos parecer! Quando não é a caipirinha ou o futebol, é samba, carnaval, capoeira ou bossa-nova – ah, e as mulheres, claro. Quantas vezes já não me deparei com sorrisos maliciosos, meio de lado, acompanhando a referência enigmática à “fama da mulher brasileira”... O sexismo explícito deste último comentário apenas magnifica os estereótipos mais sutis (ou nem tanto!) que permeiam as outras associações.

O que significa ser visto como terra de festa, música, euforia coletiva? A minha pergunta tem dois sentidos. De um lado, o que isso significa para nós, que somos vistos; de outro, o que isso revela sobre eles, os que nos vêem.

A outra face

Antes mesmo que eu possa pensar muito nessas tristezas tropicais, das quais a caipirinha é apenas a mais recente, sou tomada por outra tristeza: a do reverso da moeda, o resto da história. Sim, porque não são essas as únicas referências que ocorrem aos estrangeiros quando se fala do Brasil. Várias pessoas já me perguntaram, em tom consternado, no último mês, como está a situação econômica na minha terra natal, e se eu estou preocupada com o fato de termos trocado de presidente três vezes em menos de um mês. Pelo visto, a confusão não é apenas entre caipirinhas e mojitos (eu já ia dizer que prefiro a confusão de bebidas, mas talvez ela tenha a mesma raiz da confusão histórica, econômica e política).

Percebo que o constrangimento, quando explico que essas coisas aconteceram na Argentina, é muito mais meu do que de meus interlocutores. Para eles, aliás, desfeita a mistura de nomes, está resolvida a situação. Para nós, não. O problema é justamente esse, não é? – que os detentores globais de poder político e financeiro fazem a mesma confusão, e decretam morte por contigüidade. Até parece que estamos falando do cólera, e não de crise econômica...

Voltando ao ponto inicial – se não é a crise econômica, então é a miséria, as criancinhas famintas, o crime, a Amazônia. Como se, para cada estereótipo festivo com que nos enfeitam, precisassem adicionar um negativo. Mas os clichês “bons” e “ruins” não são entidades opostas, antagonistas: muito ao contrário. São duas faces da mesma atitude. Eu, como brasileira, sinto-me tão desconcertada quando reduzem o Brasil ao buraco econômico como quando o reduzem à caipirinha.

Estereótipos culturais são, de certo modo, inevitáveis. Toda cultura os produz, toda cultura os alimenta, e toda cultura é deles objeto. Se falo da nossa caipirinha, talvez você pense na Escócia e seu uísque, ou na França e seus vinhos. Mas você há de pensar também que a conotação do uísque escocês ou do vinho francês é muito diferente da conotação da caipirinha. Aliás, não só a conotação, como o atestam os mercados futuros de vinhos e adegas milionárias.

Não – um copo de pinga com limão esmagado, gelo e açúcar não é exatamente a idéia que eu faço de “identidade nacional”. Como consolo, penso no nocaute etílico que a nossa caipirinha perpetra até mesmo em quem consome apenas o “suquinho”...

Falando em identidade...

A PBS, rede de televisão pública norte-americana, produziu e está veiculando uma série de ficção chamada A Família Americana (American Family). Como sinal dos tempos, rendendo-se à composição populacional do país, a tal família americana é de origem hispânica (em termos politicamente incorretos, “chicanos”, “cucarachas”). Quem interpreta a matriarca é Sônia Braga. Há algo de irônico nisso.

Nós, brasileiros – nosso sotaque, nossa cultura, nossa população – somos uma nação indefinida, desconhecida. Estamos lá, no meio, na América. No início, quando eu tinha de preencher formulários de imigração ou matrícula, ficava na dúvida quando chegava ao item “etnia”: será que eles me acham “hispânica”? Não há uma categoria para “latino-americanos”, mas há hispânicos, como há negros – afinal, o critério é étnico. Mas o que é um hispânico? Será alguém colonizado por espanhóis? Descendente de astecas ou maias? Mas e os incas? E os tupis? Será alguém que fala espanhol? Mas e os argentinos, serão hispânicos?

Ora! Mojitos, caipirinha, é tudo a mesma coisa.


Daniela Sandler
Rochester, 13/2/2002

Mais Daniela Sandler
Mais Acessadas de Daniela Sandler em 2002
01. Virtudes e pecados (lavoura arcaica) - 9/1/2002
02. Nas garras do Iluminismo fácil - 10/4/2002
03. Crimes de guerra - 13/3/2002
04. Iris, ou por que precisamos da tristeza - 24/4/2002
05. Somos diferentes. E daí? - 30/1/2002


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
17/2/2002
15h35min
dani, é sempre um prazer ler sua coluna, parabéns - e obrigada! beijos
[Leia outros Comentários de juliana fiorini]
17/2/2002
18h34min
Excelente texto, Daniela. Quando estive em São Francisco, cerca de oito anos atrás, eu e amigos ensinamos a dona de um bar (Beerness, se não me falha a memória) a preparar caipirinha. Foi um sucesso. Eu, particularmente, prefiro Mojito.
[Leia outros Comentários de Fabio]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




>>> Série musical traça panorama da obra de Luiz Ayrão
>>> Mariana Muniz encerra temporada de "D'Existir", em Votorantim
>>> Documentário 'Flamengo Paixão' estreia na TV Brasil nesta sexta (24)
>>> O ator Heinz Limaverde e a Cia Rústica estreiam em SP, O Fantástico Circo-Teatro de um Homem Só
>>> Mendigos são centro temático em SPon SPoff SPend, novo espetáculo do Maracujá Laboratório de Artes
>>> Dadaísmo dá o tom em Figuras e Vozes, do Ballet Stagium
* clique para encaminhar

Editora Perspectiva
Nova Fronteira
WMF Martins Fontes
José Olympio
Hedra
Cortez Editora
Best Seller
Editora Record
Arquipélago Editorial
Companhia das Letras
Editora Conteúdo
Bertrand Brasil
Civilização Brasileira
Intrínseca
Globo Livros
Primavera Editorial
LIVROS


BRASIL PÓS-CRISE
FABIO GIAMBIAGI

De R$ 105,00
Por R$ 52,50
50% off
+ frete grátis



O FIM DE SEMANA
BERNHARD SCHLINK

De R$ 29,90
Por R$ 14,95
50% off
+ frete grátis



TRIBUTO A GYLMAR
MARCELO MELLO

De R$ 60,00
Por R$ 30,00
50% off
+ frete grátis



COMÉRCIO INTERNACIONAL E LEGISLAÇÃO ADUANEIRA
RODRIGO LUZ

De R$ 96,00
Por R$ 48,00
50% off
+ frete grátis



O ÚLTIMO DUELO
ERIC JAGER

De R$ 47,90
Por R$ 23,95
50% off
+ frete grátis



REGIONAL-GLOBAL
ROGÉRIO HAESBAERT

De R$ 40,00
Por R$ 20,00
50% off
+ frete grátis



DIÁLOGO COM UM EXECUTOR
RUBENS SARACENI

De R$ 19,90
Por R$ 9,95
50% off
+ frete grátis



A CASA VAZIA
VINCENT GOODWIN E BEN DUNN

De R$ 26,90
Por R$ 13,45
50% off
+ frete grátis



O CANTO DAS SEREIAS
VAL MCDERMID

De R$ 55,00
Por R$ 27,50
50% off
+ frete grátis



SOB A LUZ DA LUA
ANDREA CREMER

De R$ 52,00
Por R$ 26,00
50% off
+ frete grátis



busca | avançada
41511 visitas/dia
1,4 milhão/mês