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Quinta-feira, 2/5/2002
Querido, eu me rendo
Adriana Baggio

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+ 4 Comentário(s)

Laura é casada há onze anos com John Doyle, mas só há pouco tempo passou a usar o sobrenome do marido. Feminista, ex-rebelde, jornalista formada com louvor pela San Jose State University, Laura é uma profissional de marketing especializada em traduzir assuntos complexos para uma linguagem mais simples, acessível. E foi isso que ela fez em seu livro Sim, querido (Bertrand Brasil, 304 páginas). O título original da obra (The Surrendered Wife - literalmente, A Mulher Rendida) dá um sinal mais claro do que vem depois da capa colorida, delicada, de papel macio. Laura apropriou-se de conceitos básicos de psciologia de revista feminina e de outras teorias de auto-ajuda e compilou tudo em uma obra que pretende ser a nova proposta de salvação de casamentos. Do ponto de vista da mulher, bem entendido.

A idéia básica do livro é que as mulheres precisam abrir mão do controle para que possam voltar a ter maridos românticos, atenciosos, másculos e responsáveis. Até aí tudo bem. Analisando a idéia sem considerar os papéis, pode-se dizer que o exercício de confiar responsabilidades aos outros é saudável e realmente pode trazer resultados benéficos a vários tipos de relacionamento. Por exemplo, os líderes são encorajados a delegar tarefas e compromissos a seus subordinados, para que estes possam adquirir novas habilidades e "liberar" o chefe para atividades mais estratégicas; os pais são encorajados a deixar os filhos assumir determinada quantidade de responsabilidade, para que amadureçam. E Laura propõe que as mulheres parem de controlar o que seus maridos comem, vestem, decidem, para que estes deixem de ser rabugentos e passem a agir de acordo com que as mulheres esperam dos homens: carinho, atenção, intimidade, paz, presentes...

O grande problema da maioria dos livros de auto-ajuda é que, enquanto a teoria parece coerente, os exemplos práticos são radicais, extremados. Laura segue por esse mesmo caminho, talvez porque os conceitos que coloca não sejam nenhuma novidade, mas fruto de simples bom senso. No entanto, para valorizar idéias tão simples, a autora mostra, o tempo todo, o que mulheres com apenas o primeiro nome, como Kim ou Carol, fizeram para salvar seus casamentos. Um desses exemplos ilustra o "antes e depois" de um relacionamento onde a mulher implicava com seu marido porque ele usava tênis Adidas com meias Nike. Bem, até Catarina admitiria que essa mulher é uma megera. O que Laura não aborda é o feijão-com-arroz das brigas entre casais. A autora prefere se concentrar em comportamentos radicais, mais fáceis de serem compreendidos quando confrontados com a teoria e impossíveis de serem questionados. Alguém se arrisca a defender a obsessiva que se irrita com meias e tênis de marcas diferentes?

Por ser simplista, e por não permitir um aprofundamento, o livro acaba sendo também chato. Depois da idéia principal - abrir mão do controle e deixar que seu marido tome conta das coisas - há uma seqüência de desdobramentos da mesma teoria com aplicação em aspectos específicos do relacionamento. Um dos campos mais polêmicos mexe com o bolso do casal. Laura acha fundamental que, para ser uma Esposa Cordata (esse é o nome dado às mulheres que seguem suas idéias com o objetivo de ter novamente um casamento feliz), a mulher deve abrir mão completamente do controle das finanças do casal. O marido deve ser responsável pelas contas da casa e - bomba das bombas - a esposa deve entregar seu salário para que seja administrado pelo homem. Na prática, Laura sugere que a mulher faça uma lista de suas despesas mensais e entregue ao marido. Este, por sua vez, entrega a ela a quantia solicitada em espécie. Nada de talões de cheque ou cartões de crédito. Laura argumenta que o fato de andar com um bolo de dinheiro vivo vai fazer a mulher sentir-se mais poderosa. Talvez ela nunca tenha ouvido falar em assalto... É claro que o buraco é muito mais embaixo que o problema de segurança pública. Uma das resenhas sobre o livro pergunta o que devem achar dessa idéia as mulheres que estão brigando nas audiências de divórcio por sua parte nos bens do casal, ou as viúvas que, além de sofrer a dor da perda, ainda têm que lidar com os cobradores do falecido.

Como Laura não é boba nem nada, tentou diminuir as brechas para questionamentos. Por isso, deixou bem claro que as mulheres não devem começar a se comportar como Esposas Cordatas caso seus maridos se encaixem nas seguintes situações: sejam viciados em drogas ou jogo; pratiquem violência física com a esposa e filhos; obriguem ao sexo forçado; sejam traidores contumazes. O engraçado é que a autora reforça o caráter da freqüência em relação à traição conjugal. Ela deve ter percebido que se excluísse de sua lista os casais cujos maridos são infiéis, independentemente da quantidade de vezes, não haveria público para o livro...

A princípio, Sim, querido pode parecer lisonjeiro aos homens, já que parte do princípio de que a esposa deve confiar incondicionalmente no marido e em sua capacidade de tomar decisões certas que vão do guarda-roupa à conta bancária. No entanto, o que Laura prega nada mais é do que a manipulação dos homens. Depois de anos lutando para tentar alcançar objetividade nos relacionamentos, as mulheres são aconselhadas a retomar as táticas de conseguir o que desejam por caminhos tortuosos. Nos exemplos citados, a autora mostra homens cujo comportamento beira o infantil ou o imbecilizado. Como se os homens fossem regidos por um sistema de liga-desliga. Se você quer seu homem de determinada maneira, aja assim. Se não, aja assado. Em nenhum momento Laura coloca a possibilidade de que o casal possa sentar e conversar sobre as coisas que incomodam no relacionamento. Para ela, os homens assemelham-se a crianças, cuja reação depende mais de um processo castigo-recompensa do que da argumentação. Assim, automaticamente seu marido vai tratá-la melhor se você deixá-lo sentir-se competente. E essa sensação pode vir até do fato de que ele vai aprender a colocar a louça na máquina de lavar sem a sua ajuda, ou sua interferência. Não importa que ele gaste muito sabão, ou que a máquina quebre. Pela tentativa e erro, e sem o seu controle pernicioso, ele vai progredir e chegar lá. A autora chega ao cúmulo de enumerar exemplos de homens que conseguiram promoções ou aumento de salário depois que a patroa parou de encher o saco. Por passarem a se sentir melhores, mais poderosos, seguros, másculos e viris, puderam também melhorar seu desempenho no trabalho.

Por mais que, no fundo, a estratégia não seja nada lisonjeira ao lado masculino do casal, ainda é mais degradante para as mulheres. Livros como os de Laura Doyle só refletem o desespero que as mulheres sentem por estarem sós ou aturando um relacionamento que não é satisfatório. Depois de ter conquistado a igualdade dos direitos civis, a liberdade sexual, a independência financeira, elas estão tendo que conquistar os homens que, parafraseando John Gray (Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus), fugiram correndo para suas cavernas. O caso é tão sério que Laura chega ao ponto de sugerir uma heresia: as esposas devem, mesmo sem ter vontade, fazer sexo com seus maridos pelo menos uma vez por semana. Claro, para fugir às críticas pela generalização, ela exclui dessa obrigação mulheres que passaram por algum trauma sexual. Nesse caso, sugere urgentemente um tratamento e a promessa de que, assim que melhorar, a mulher vai voltar a fazer sexo com o marido.

Livros como Sim, querido, têm o mérito de levantar a poeira. O problema é que acabam partindo para o exagero, e passam a ser caricatos. Basicamente, algumas idéias de Laura não são ruins. Abrir mão de parte do controle, resgatar a feminilidade, assumir as diferenças entre os sexos, são conselhos válidos, que qualquer revista feminina oferece todo mês nas bancas, por menos de dez reais. Não chegam a ser novidade, muito pelo contrário: estão muito mais para o bom senso do que para fórmulas mágicas. Mas por isso mesmo, não vendem. Quando revestidas de uma pitada de polêmica, essas teorias passam a ganhar notoriedade, e se alimentam do desespero coletivo. Existem milhares de títulos nas prateleiras ou nos links de auto-ajuda das livrarias com receitas para se dar bem no trabalho, na escola, na cama. Nada ilustra melhor e com mais propriedade o funcionamento desse esquema do que o comentário de uma outra conselheira matrimonial, Pat Allen, sobre Laura Doyle: "se eu fosse atrás de cada um que pega minhas idéias, só faria isso na vida. Mas Laura é bem vinda ao grupo. O bolo é grande o suficiente para ser dividido por todos."

Para ser uma Esposa Cordata: www.surrenderedwife.com


Adriana Baggio
Curitiba, 2/5/2002


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
2/5/2002
08h56min
Primeiro: gostaria de perguntar como este livro foi parar na sua mão e você leu-o? Segundo: acho tão óbvio o interesse comercial ($) da autora, uma vez que o mercado que ela pretende atingir deva ter sido meticulosamente calculado graças ao grande número de mulheres na situação descrita, que duvido que ela acredite no que escreveu. Terceiro: de uma vez por todas a sociedade, principalmente as mulheres, deve perceber que a instituição do matrimônio, foi adequada à épocas remotas onde a mulher cumpria um papel coadjuvante na estrutura familiar. Tarefas domésticas, casamentos negociados, sexo religioso, babás oficiais, cúmplices de adultérios,etc. Nossos avós sabiam bem como isto funcionava. Atitudes incabíveis em nossa sociedade! Esta dependência financeira descrita no livro é o próprio contrato de posse de um marido sobre uma esposa....Lamento às mulheres que pensam em "segurar" casamento, hoje um relacionamento baseia-se em confiança, cumplicidade, sexo aberto, sem estâncias familiares superiores se intrometendo, respeito pela individualidade de cada um e suas sequelas, e muita inteligência em jogo. Ninguém que tenha maturidade emocional admite pisar ou ser pisado por ninguém.
[Leia outros Comentários de Eduardo Vianna]
2/5/2002
18h01min
Cara Adriana, sou mais radical que você. Acho que o mérito de um livro desses é meramente casual. Afinal, é difícil encontrar algum livro que não tenha absolutamente nenhum mérito. Mesmo porque as pessoas têm um fundo cultural comum que coicide em alguns pontos e contém uma mínima dose de sabedoria. Concordo plenamente que o problema principal é que não há diálogo entre os casais. Assim, os dois não ficam sabendo o que está acontecendo, já que não procuram formular conscientemente suas idéias sobre a relação. Acho extremamente importante que se façam críticas sérias a livros de auto-ajuda. Boa parte de seu sucesso de vendas se deve ao fato de que os intelectuais se acham tão superiores que nem sequer admitem a possibilidade de descer de seus pedestais e ler um livro desses. Então só encontramos críticas comerciais, feitas sobre encomenda, ou então críticas generalizadas, sobre os livros de auto-ajuda como um todo. Agora, o difícil é encontrar paciência para ler esse tipo de livro, sendo que existem tantos outros, bons, esperando para ser lidos!!
[Leia outros Comentários de Evandro Ferreira]
2/5/2002
21h02min
Eduardo Recebi o livro para fazer a resenha, e pra falar a verdade, adorei o desafio. É um prato cheio poder analisar o que há por trás disso tudo. Mesmo que o livro seja meio chato, valeu a pena. Também acho que o casamento como "antigamente" é uma instituição falida. Mas ainda acredito em duas pessoas vivendo juntas, se respeitando, aproveitando a vida, tendo filhos, conquistando coisas, sendo fiéis. Meu otimismo me faz pensar que talvez essa fase seja passageira, e dê origem a um tipo de relação mais saudável. Talvez a autora acredite no que escreve, e pior, deve ter muita gente que acredita, senão não estaria vendendo a rodo na Europa, Ásia, aqui no Brasil...
[Leia outros Comentários de Adriana]
2/5/2002
21h12min
Evandro Concordo com você que o mérito pode ser casual. Quis colocar essa ressalva - a de que há algum mérito - porque não acredito na crítica absoluta, radical. Meu objetivo não foi descer a lenha no livro cegamente. Generalizando, em tudo a gente pode tentar encontrar um lado bom, mesmo que seja bem escondido. O que você falou de fundo cultural comum é o bom senso. É fácil revestir o bom senso de um pouco de teoria e polêmica, e tentar devolver às pessoas como novidade. Por falar nisso, será que ainda existe novidade hoje em dia? É lógico que existem livros muito melhores do que esse, mas ler para fazer uma crítica é diferente de ler por prazer. Não deixa de ser um prazer, no meu caso, porque é uma atividade que eu gosto. Acho que muita gente pretensamente intelectual lê porcarias bem piores do que livros como esses, mas talvez não queiram criticar para não dar bandeira. Ou então, as pessoas criticam sem conhecer. Apesar de ter uma posição bem negativa em relação ao livro mesmo antes de abrí-lo, procurei ler para poder criticar com conhecimento de causa.
[Leia outros Comentários de Adriana]
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