A Oposição Adestrada | Daniel Aurelio | Digestivo Cultural

busca | avançada
48473 visitas/dia
1,4 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Namíbia, Não! curtíssima temporada no Sesc Bom Retiro
>>> Ceumar no Sesc Bom Retiro
>>> Mestrinho no Sesc Bom Retiro
>>> Edições Sesc promove bate-papo com Willi Bolle sobre o livro Boca do Amazonas no Sesc Pinheiros
>>> SÁBADO É DIA DE AULÃO GRATUITO DE GINÁSTICA DA SMART FIT NO GRAND PLAZA
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Modernismo e além
>>> Pelé (1940-2022)
>>> Obra traz autores do século XIX como personagens
>>> As turbulentas memórias de Mark Lanegan
>>> Gatos mudos, dorminhocos ou bisbilhoteiros
>>> Guignard, retratos de Elias Layon
>>> Entre Dois Silêncios, de Adolfo Montejo Navas
>>> Home sweet... O retorno, de Dulce Maria Cardoso
>>> Menos que um, novo romance de Patrícia Melo
>>> Gal Costa (1945-2022)
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lula de óculos ou Lula sem óculos?
>>> Uma história do Elo7
>>> Um convite a Xavier Zubiri
>>> Agnaldo Farias sobre Millôr Fernandes
>>> Marcelo Tripoli no TalksbyLeo
>>> Ivan Sant'Anna, o irmão de Sérgio Sant'Anna
>>> A Pathétique de Beethoven por Daniel Barenboim
>>> A história de Roberto Lee e da Avenue
>>> Canções Cruas, por Jacque Falcheti
>>> Running Up That Hill de Kate Bush por SingitLive
Últimos Posts
>>> Compreender para entender
>>> Para meditar
>>> O que há de errado
>>> A moça do cachorro da casa ao lado
>>> A relação entre Barbie e Stanley Kubrick
>>> Um canhão? Ou é meu coração? Casablanca 80 anos
>>> Saudades, lembranças
>>> Promessa da terra
>>> Atos não necessários
>>> Alma nordestina, admirável gênio
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Fantasmas do antigo Recife
>>> Luther King sobre os fracos
>>> O centenário do Castor
>>> O comercial do Obama
>>> Por que Dilma tem de sair agora
>>> Mininas no Canto Madalena
>>> Quase cinquenta
>>> Bate-papo com Odir Cunha
>>> Entrevista com Sérgio Rodrigues
>>> Leblon
Mais Recentes
>>> Eu Fico Loko -As Desventuras de Um Adolescente Nada Convencional de Christian Figueiredo de Caldas pela Novas Páginas (2015)
>>> Teoria Geral do Direito e Marxismo de Evguiéni B. Pachukanis pela Boitempo (2017)
>>> O Caso dos Dez Negrinhos de Agatha Christie pela Abril Cultural (1981)
>>> A Revolução Russa de 1917 de Marc Ferro pela Perspectiva (1974)
>>> A Questão Urbana de Manuel Castells pela Paz e Terra (1983)
>>> Esquerdismo Doença Infantil do Comunismo de V. I. Lenin pela Expressão Popular (2014)
>>> Crônicas de Nuestra América de Augusto Boal pela Codecri (1977)
>>> A Desumanização da Arte de José Ortega y Gasset pela Cortez (1991)
>>> Homens Em Tempos Sombrios de Hannah Arendt pela Companhia De Bolso (2013)
>>> A Música do Tempo Infinito de Tales A. M .Ab'Sáber pela Cosac & Naify (2012)
>>> Poesia e Filosofia de Antonio Cicero pela Civilização Brasileira (2012)
>>> A Estrada da Noite de Joe Hill pela Sextante (2007)
>>> O ornamento da massa de Siegfried Kracauer pela Cosac & Naify (2009)
>>> O Horror Econômico de Viviane Forrester pela Unesp (1997)
>>> Merleau-ponty e a Educação de Marina Marcondes Machado pela Autentica (2010)
>>> Revoluções de Michael Lowy pela Boitempo (2009)
>>> O Anticristo de Friedrich Nietzsche pela Lpm pocket (2008)
>>> E no Final a Morte de Agatha Christie pela Lpm pocket (2010)
>>> Estetica da Emergencia de Reinaldo Laddaga; Magda Lopes pela Martins Fontes (2012)
>>> Pós-produção: Como a Arte Reprograma o Mundo Contemporâneo de Nicolas Bourriaud pela Martins Fontes (2009)
>>> A saga da família Klabin-Lafer de Ronaldo Costa Couto pela Klabin (2020)
>>> Tudo Pelo Amor Dele de Sandie Jones pela Única (2019)
>>> Um Encontro de Sombras de V E Schwab pela Record (2017)
>>> O Vilarejo de Raphael Montes pela Suma das Letras (2015)
>>> Dança da Escuridão de Marcus Barcelos pela Faro (2016)
COLUNAS

Sexta-feira, 27/6/2003
A Oposição Adestrada
Daniel Aurelio
+ de 4100 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Em 1999, o filme American Beauty (Beleza Americana), do laureado diretor de videoclipes Sam Mendes, transformou-se num libelo contra o chamado american way life, pejorativo sinônimo de liberdade (vigiada) e democracia (duvidosa) norte-americana, tomadas à fórceps como o modelo mais adequado de comportamento social possível (e se você não gostou do que vaticinei agora, vá ler o Norberto Bobbio. Depois conversamos). Até aqueles eternamente bufões críticos de arte maiúscula curvaram-se, no mínimo, diante da ótima atuação do irretocável Kevin Spacey.

Estranheza maior, no entanto, causou o resultado: uma multidão de entusiasmados espectadores, exatamente os mesmos ironicamente fotografados pela lente do diretor, e 5 Oscars reluzindo na estante da Universal Pictures.

Mas como poderia um longa-metragem descontínuo, sem aquelas definições cristalinas entre mocinho e vilão, um soco no estômago de pilares como as forças armadas e a família triunfar no sustentáculo maior da industria norte-americana, auto-júbilo sedutor de sua cultura? Não fora o mesmo cinema responsável por propagar nas artérias do ocidente as delícias de ser um estadunidense?

Continuo seguro de que a trama é excelente, tecnicamente criativa, com roteiro bacana e interpretações acima da média - exatamente a mesma imagem que me provocou à época. Cabe-nos, entretanto, avaliar em que medida a crítica subjacente à obra, alavanca e sua razão de ser, realmente resultou numa atitude mais reflexiva do cidadão atingido em cheio por estes valores retorcidos.

Se considerarmos apenas seus frutos factuais, nem uma módica pilastra oxidada fora removida desde então. Pior: sob suspeita de fraude, um ano depois, o trapalhão e plutocrata George W. Bush substituiu o debochado e diplomático Bill Clinton na presidência dos EUA, e aquilo que já seria um elementar anseio conservador (leve guinada à direita religiosa) tornou-se uma dramática encruzilhada: em seis meses de indefinição, abalou-se a legitimidade do espírito livre da nação e descobrimos, via satélite, o estilo obsoleto que imperava em seu pleito eleitoral. Mais: acordos internacionais algo flexíveis retrocederam ou foram rasgados, o ódio aos EUA reverberou no Oriente, atentados e guerras pipocaram cá e lá e a polícia do mundo estava de volta, agressiva como nunca e com a cega aquiescência popular, que preferiu consentir e digerir os quitutes requentados da receita clássica de Hollywood, o reino encantado da testosterona e do choro fácil. Entre comédias românticas redentoras estreladas por Meg Ryan à ação ultra-visual e descerebrada, peça pelo número.

American Beauty, em que pese sua singularidade, foi embalada e comercializada no varejo, misturada a toda sorte de maquinações massificadas: a arte produtora de encantamento e distração pode até tocar o coração de muitos, todavia a quem mudará as convicções? A inscrição "subversivo" no selinho da capa, por sinal, passou a ser um adjetivo cada vez mais aceito e consumido, da mamãe ao filhão, da titia ao vovô. É o princípio ativo da industria cultural.

Caráter transgressor ou não, a manifestação artística é inescapavelmente refém da realidade e seu refúgio mais covarde. Mesmo estilos socialmente violentos e contundentes, como o punk, desde o ventre estavam fadados ao fim que miseravelmente tiveram: as gôndolas dos magazines abarrotadas de seus discos e sua moda (?) barganhada nos pontos mais chiques de Nova York, Londres, Paris e a Oscar Freire aqui em São Paulo. A anti-estética absorvida: é a piada sendo retrucada na mesma moeda.

Aconteceu com The Simpsons, cuja crudele aciditia agrada tanto quanto o seu contraponto maior, o bom-mocismo descarado de The Jetsons. Triste sina esta a dos "não-virtuosos". Astros cintilantes, primeiros-ministros britânicos, senadores, presidentes, todo mundo quer ser sacaneado por Homer, Bart e Cia. A gente ri e fica nisso, prisioneiros de meta-linguagem inócua. É bom variar o cardápio às vezes.

Michael Moore, o caminhoneiro-gorduchinho vingador, autor de White Stupid Man e a bola da vez da mídia, teve o tal destino. Não assisti a Bowling for Columbine, mas sua estatueta dourada de Melhor Documentário de 2003 é paradigmática. Contanto que a economia daqueles que combate esteja bem aquecida, ele pode vociferar à vontade contra o poder. O microfone é todo seu, Michael.

Se nenhuma autoridade contestou os dados contidos no livro não foi por serem irrefutáveis, mas porque não machucaram dado o contexto ao qual foram realizadas as acusações. É o mal se lixando para isso.

Que o capitalismo é um equívoco histórico (como foram também o totalitarismo de esquerda e direita) isso ninguém, nem o mais aplicado e engomado aluno de MBA do planeta, discute. Aliás, eis a natureza da "mão invisível": você colhe o que semeia, aproveita o vacilo e rapina o que os outros semearam também e manda às favas qualquer fragmento extraviado de compaixão cristã ou bolchevique. Moore não é Chomsky, foi abocanhado também e deixará vagando em círculos o acanhado exército que angariou. Breve sofrerão fadiga e pedirão armistício.E o polemista, que não é bobo, logo logo tomará uns drinks com Donald Trump em Vegas ou na Mansão de Playboy. O capital, via de regra, se alimenta da letargia alheia.

E sobra para nós, enquanto tentamos escapulir da dor, aquela torturante questão das noites de sexta-feira: Michael Moore ou John Grisham? Simpsons ou Flinstones? Beleza Americana ou Homem-Aranha? Ramones ou Mariah Carey?

Menu de opções no máximo. Ação política, nem pensar. E não vai haver Robin Hood que nos livre disso.

Brasil Arcaico Na Veia

Ótima nova: o relançamento, pela épica José Olympio, do livro O Tronco, de Bernardo Élis, ícone do romance regionalista do Centro Oeste, espécie de José Lins do Rego do cerrado.

Élis é daquela turma seletíssima de autores que dominam o difícil processo de diálogo entre linguagem regional e erudição estética, o que torna a sua obra constantemente leitura obrigatória para vestibulandos brasileiros. Dispensável divagar sobre a natureza miúda da política e das relações sociais da região, o coronelismo aceso, as crendices. O painel clássico das capitanias hereditárias é a fonte na qual o autor bebe com satisfação.

Ao relê-lo, fiquei imaginando o que a TV Globo não faria com as construções psicológicas das personagens, numa dessas minisséries tapa buraco. Seguindo à risca a formatação tradicional de seus roteiros, escavaria de dez a quinze calientes romances, acentuaria o alheamento de uns, o caráter jeca-jocoso de outros e o maniqueísmo de todos. Reynaldo Gianechini seria o escrivão Vicente e sua prendada mulher, claro, Giovana Antonelli. Os Melos (qualquer alusão ao clã homônimo que conhecemos bem é mera coincidência) seriam interpretados respectivamente por Raul Cortez (Coronel Pedro), Gabriel Braga Nunes (Artur) e...Apaga, melhor não dar milho ao bode.

O livro, publicado em 1956, fala por si. É virulência normativa da estirpe de Cidade de Deus (concepção Paulo Lins) e Graciliano Ramos, com um irresistível sabor de carne seca da braba com cachaça de alambique.

Faltou um Lego No Meu Logos

Cognitivo: faltou conectá-lo quando me meti a escrever por ai.

Para ir além





Daniel Aurelio
São Paulo, 27/6/2003

Mais Daniel Aurelio
Mais Acessadas de Daniel Aurelio em 2003
01. Canto Infantil Nº 2: A Hora do Amor - 7/11/2003
02. Canto Infantil Nº 1: É Proibido Miar - 26/9/2003
03. O Sociólogo Machado de Assis - 5/9/2003
04. O Calígrafo de Voltaire - 13/6/2003
05. Elogio Discreto: Lorena Calábria e Roland Barthes - 19/12/2003


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
27/6/2003
17h47min
Depois que a imprensa reacionária nativa começou a achincalhar o Michael Moore todos, indistintamente, passaram a fazer o mesmo. Creio que isso se deve à subserviência inexorável de Pindorama aos ianques.
[Leia outros Comentários de Fabio Cardoso]
4/7/2003
12h46min
É verdade mesmo, Fabio. Eu nunca vi tanta gente malhar o Michael Moore como aqui no Brasil. Nosso povo não vale nada, mesmo... Concordo que o Moore pode não ser lá tudo isso, que tem o rabo preso ou que faz jogo de cena... Mas daí a só meter o pau no cara é demais! Se Moore fosse um francês, os brasileirinhos todos aplaudiriam seus discursos....
[Leia outros Comentários de Juliano Maesano]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Mens Sana: a Angústia do Homem Em Busca da Felicidade / Vol 3
Albino Aresi / Capa Dura
Mens Sana
(1984)



Livro - O Encouraçado Potemkin
Folha de São Paulo
Moderna
(2011)



Novelas - Concursos Literários do Piauí
Sergio Batista e Outros
Publique
(2005)



O Pirata eletrônico e o Samurai
Jeff Goodell
Campus
(1996)



A Lenda do Muri- Keko
Marcos Bagno
Sm
(2005)



Senhora Rezadeira
Denise Rochael
Cortez
(2004)



A Camada de Ozonio
M. Bright
Melhoramentos
(2000)



Descubra Seu Corpo
Nigel Nélson
Impala
(1996)



O Patinho Feio
Vários Autores
Ftd
(1996)



O Fio do Destino (1991)
Zibia Gasparetto
Vida e Consciencia
(1991)





busca | avançada
48473 visitas/dia
1,4 milhão/mês