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Quinta-feira, 26/6/2003
Da Biografia de Lima Barreto
Ricardo de Mattos

+ de 24400 Acessos
+ 5 Comentário(s)

Francisco de Assis Barbosa nasceu no ano de 1.914 na cidade paulista de Guaratinguetá, onde iniciou seus estudos. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1.931, aí cursando a Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais e já se envolvendo com o jornalismo. Não foram poucos os jornais nos quais trabalhou: A Nação, A Noite, Última Hora, O Estado de São Paulo, entre outros. Foi também historiador, pesquisador, escritor e advogado. No conjunto de suas obras repara-se um grande gosto por uma escrita a envolver uma pesquisa prévia e consistente. Sua curiosidade levou-o da siderurgia brasileira da época joanina à análise da política de Kubitschek. Fundou a Associação Brasileira de Escritores; em 1.970 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira número 13, cujo patrono é Francisco Otaviano e o fundador o Visconde de Taunay. Faleceu em 1.991. Francisco Otaviano foi director do jornal A Reforma, no qual o pai de Lima Barreto trabalhou como tipógrafo.

Entre os gêneros cultivados por F. A. Barbosa estava a biografia e sua principal obra nesta área foi a do escritor Afonso Henriques de Lima Barreto. A Vida de Lima Barreto foi lançada em 1.952 alcançando sete edições durante a vida do autor. Em outubro de 2.002 saiu do prelo a oitava edição, a primeira póstuma. A observação inicial a fazer é relativa ao Respeito do biógrafo pelo biografado. Respeito não traduzido em adulação, como é fácil ocorrer, e sim no amparo da admiração, para esta contagiar novos prosélitos. A admiração, por sua vez, não exclui o posicionamento quando este faz-se necessário, como lê-se à página 155, sobre Chez Madame da Costa, romance abortado: "Seria uma sátira à sociedade? Evidentemente, sim. Mas se era este o propósito, a julgar pela amostra apresentada, o romancista fez muito bem em não levar adiante o projeto". Muito do sabido acerca do escritor deve-se a esta biografia e o posteriormente descoberto partiu dela. Um exemplo é a recente edição d'O Subterrâneo do Morro do Castelo, folhetim escrito por Lima Barreto mas publicado sem sua assinatura e depois esquecido. A riqueza de detalhes do livro significa o apanhado de tudo que o biógrafo conseguiu reunir. Detalhes, por felicidade, a não invadir a intimidade. Aprende-se muito sobre o escritor, mas sem indiscrições, sem apelo ao anedotário. Vale lembrar, inclusive, o recurso não só a documentos, mas também a testemunhos de contemporâneos.

A biografia é dividida em seis partes, um epílogo e um apêndice. A primeira parte cuida de estabelecer a genealogia do escritor, alcançando mais graus na ascendência materna que na paterna. Singular a figura do pai, o tipógrafo, quase médico e depois administrador João Henriques de Lima Barreto. Percebe-se o muito esforço feito para não só formar e manter uma família como para progredir individualmente. Não conseguindo ser "doutor", transferiu o encargo ao filho e acabou por impedí-lo de também alcançar o grau. Involuntariamente, é certo, pois enlouqueceu ao final da vida e foi necessário aposentá-lo do cargo de administrador da Colónia de Alienados da Ilha do Governador e dedicar-se o escritor à mantença dos irmãos. De qualquer forma, o abandono da Politécnica era previsível.

Nascido em treze de maio de 1.881, Lima Barreto foi testemunha ocular dos principais factos políticos do último quartel do século XIX: a abolição da escravatura, o advento da república, a revolução de 1.893 e a campanha de Canudos. Ao lado do pai, esperou no Largo do Paço, na capital fluminense, pela assinatura da Lei Áurea - ela tem apenas dois artigos; fosse hoje, teria 735 e aguardaria um decreto regulamentador, além da interpretação pelos nobres advogados para verificar-se até que ponto foi concedida a liberdade - e viu a princesa aparecer à janela para ser ovacionada pela multidão. Contudo, aos sete anos o escritor já era órfão de mãe, participava, de alguma forma, das vicissitudes profissionais do pai e era conhecido como criança introvertida e de temperamento difícil.

Segue-se a adolescência de Lima Barreto. Atente-se para seu envolvimento com as pregações positivistas tão em voga naquele final de século, quando a doutrina de Comte encontrou calorosa acolhida nestas terras. Tão cedo, logo aos catorze, quinze anos, apesar de mais tarde ironizar o próprio interesse. O biógrafo entende as reflexões sarcásticas do escrivão Isaías Caminha em torno dos seus rompantes filosóficos como reflexo e prova dessa ligação. A leitura e a reflexão, todavia, foram hábitos arraigados do jovem Lima Barreto, tanto na escola quanto durante os preparatórios e depois na Politécnica. Um dos apêndices apresentados é justamente o inventário de sua biblioteca pessoal, ocupante de 27 páginas do volume e mencionando oitocentos itens segundo a disposição nas prateleiras e estantes. De acordo com este inventário, um item pode ser um volume, ou uma encadernação de folhetos diversos, de pequenos romances em brochuras, de revistas ou mesmo de peças teatrais. Pode ser também um dos célebres "amarrados", entre os quais estavam até manuscritos. Em suma, o número das obras transcede o dos itens e caso todas tenham sido lidas, demonstram a dedicação estreita à leitura pelo autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma, até para ajustar alguma lacuna em sua formação.

Invejável a "Limana", como ele mesmo chamou. Predominam as obras em francês, mesmo sobre as em português, ambas seguidas de longe por livros em inglês, italiano e espanhol. Muitas obras editadas hoje pela primeira vez no Brasil, ou reeditadas depois de longos anos, já constam do catálogo no idioma original ou vertidas para o francês. Assim com Les Moujiks, de Chekhov; Qu-est-ce l'Art, de Tolstói; e A Narrativa de A. Gordon Pym, de Poe. Os assuntos prevalecentes são História, Literatura, Filosofia e Arte, mas as obras de Darwin são presentes, bem como volumes de antropologia, sociologia e lingüística. Ao lado do item 123 - Camões.T. Braga (sic) - está anotada entre parêntesis uma liberalidade inconcebível para mim: Dei. Liberalidade inconcebível e proibida através das gerações. Tenho um livro - Fabíola, do Cardeal Wiseman - que pertenceu a uma tia-bisavó, no qual ela anotou à primeira página, talvez para evitar o constrangimento de uma recusa: "Um livro não se empresta, muito menos se dá". Típico, mas infelizmente precisei aprender pessoalmente esta lição.

Muitas vezes o biógrafo pesquisou o histórico familiar social e profissional do escritor para de encontrar o substrato de alguns personagens. O pai louco teria servido como modelo para a criação do major Policarpo Quaresma, na condição das parentas a base de Clara dos Anjos, etc. Usa algumas páginas para noticiar a elaboração e recepção de cada um dos livros. Lima Barreto teria buscado aliar nas suas obras uma estética desvinculada das regras de bel-letrismo vigentes a um carácter social - resultante, diz o biógrafo, da leitura do livro L'Art au Point de Vue Sociologique, de Guyau. Entre suas pretensões estava a inauguração do "negrismo" na literatura. Entretanto, foi polemista e contrário à filiação ou comparação de seu estilo com o de outros escritores. Comparado a Machado de Assis e embora o admirasse, passou a atacá-lo. Outro alvo de seus ataques foi o escritor Coelho Neto. Desta forma, se alguns receberam bem o novo escritor, outros o ignoraram. Nem nos dois volumes de Perfis, nem nos quatro de Crítica o escritor, jornalista e académico Humberto de Campos menciona-o. Contudo, era amigo pessoal e admirador declarado de Coelho Neto.

A condição negra atordoou-o muito desde os primeiros momentos em que passou a sentir-se menosprezado por causa dela. Não só uma certa mania de perseguição o feria, como também um estado denominado no seu tempo como "Bovarismo". Bovarismo - ainda hoje corrente - caracteriza o indivíduo que se considera em melhor conta com relação ao meio social e aflige-se por não ser reconhecido da forma "justa". Este estado de espírito foi delineado na obra Le Bovarysme pelo escritor francês do século XIX Jules Gaultier. Esta insatisfação foi marcante.

Lima Barreto envolve-se em demasia com a bebida, com ela buscando fugir das atribulações. Apesar de afirmar a melhoria de sua escrita quando alcoolizado, as conseqüências foram desastrosas. Várias vezes internado por causa dela, veio a falecer no ano de 1.922, aos 41 anos. Morreu no dia primeiro de novembro. Seu pai seguiu-o dois dias depois.

Esta biografia é um modelo. O homem e o escritor são apresentados de forma equilibrada, séria, sem especulações ou demonstrações inúteis de conhecimento. Infelizmente não posso dizer o mesmo do Mahler, de Marc Vignal. Este apresenta-nos meramente um homem que compõe. Buscando saber mais sobre este compositor, não encontrei aqui boa fonte. Dispenso informações sobre seu número de amantes, se teve bastardos ou se foi mau pagador de dívidas. Queria saber sobre sua formação, o meio social, os problemas enfrentados, suas leituras, o círculo de amigos, e tudo o mais que pudesse auxiliar na compreensão de sua obra. Contudo, após uns riscos biográficos, o autor mete-se a dar detalhes técnicos sobre as composições, inúteis se não a ouvimos no momento, pouco esclarecedores no caso oposto. A música profundamente intelectual de Mahler merecia maior empenho.

Fábula Primeira - Cigana e os Pássaros
Neste domingo, estavam as rolinhas no terreiro do quintal, na eterna farra pela sangra de arroz diariamente lançada. Alguns pardais e outros tantos chupins faziam-lhes companhia.

Algumas delas, já fartas e não tendo família para manter, empoleiraram-se nas árvores em volta para a digestão e burburinho de sempre. N'um átimo, um gavião negro muito bem tratado surgiu por cima do muro e já com uma delas morta entre as garras - ela não deve ter dito "ai" - afastou-se na mesma rapidez da chegada.

As demais quedaram-se atónitas. Um mal estar manteve-se entre elas e outra seria a presa se outra ave de rapina passasse pela vizinhança. Não foi o que aconteceu, porém um acerto tácito fê-las buscar refúgio na copa cerrada da jabuticabeira.

Horas depois, o bem-te-vi dominante da região surgiu na mesma copa. Encrespou-se todo, cantou, afastou outro da mesma espécie que por lá pousou, avançou sobre os demais pássaros. Em seguida, escolheu o galho mais alto, no qual reafirmou sua soberania sobre o território para quem quisesse ouvir ou tivesse alguma dúvida.

A cadela Cigana tudo acompanhou e reflectiu sobre como é fácil ser valente após o término do perigo.

Para ir além






Ricardo de Mattos
Taubaté, 26/6/2003


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
26/6/2003
10h04min
Sou uma admiradora de Lima Barreto, e adoro a biografia dele, feita, impecávelmente pelo jornalista e escritor Francisco de Assis Barbosa, que Ricardo de Mattos analisa tão precisamente no Digestivo Cultural. Biografias não me atraem porque a maioria só se preocupa com detalhes menores da vida das pessoas, mas a de Lima Barreto é tão boa que já faz parte dos livros básicos sobre o escritor pré-modernista. Para quem não sabe nada sobre Afonso Henriques. É bom começar com A vida de Lima Barreto, e depois enveredar pela obra do mulato carioca. Desse modo se terá uma visão completa do ambiente, do homem e da época que ele viveu. Considero Lima Barreto um dos escritores fundamentais.
[Leia outros Comentários de Sandra Chaves]
2/10/2004
16h02min
Francisco de Assis Barbosa dignifica Lima Barreto nesta biografia definitiva.
[Leia outros Comentários de Edmilson Paes]
28/3/2005
13h21min
Ao começar um trabalho monográfico sobre Lima Barreto pude observar como sua obra é importante e ficar feliz por saber que seus admiradores podem contar com essa fantástica e tão organizada biografia.
[Leia outros Comentários de Gisele Chaves]
31/3/2006
09h02min
A biografia de Afonso Henrique foi enriquecedora, abordando os temas de sua vida que foram mais importante.
[Leia outros Comentários de Rayssa]
14/5/2007
13h23min
A biografia de Lima escrita por Assis Barbosa é um documento histórico valiosíssimo. Todavia, creio que o Lima já merece algo mais sofisticado que aborde a sua vida e obra de modo dialético. Lima era um homem repleto de contradições. Por exemplo, o fato de ser negro e ao mesmo tempo intelectual. Isto deixava a sua personalidade sem sustentação, pois não encontrava nem nos brancos e nem nos negros pobres e analfabetos ressonâncias para as suas aspirações culturais. Dos brancos, recebia apenas desprezo. Entre os negros era incompreensível. Tal circunstancia, transladado para a sua obra, o tornou um escritor profundamente contraditório, dilemático e complexo. Sua visão do Brasil, em tal circunstancia, só podia ser carregada de ambiguidades. Assis Barbosa não concegue apanhar tais contradições e assim deixa as ricas ambiguidades e incoerencias de Lima serem interpretadas como defeito e não como profundidade de alma.
[Leia outros Comentários de Sergio Fonseca]
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