Estado de Sítio, de Albert Camus | Ricardo de Mattos | Digestivo Cultural

busca | avançada
34554 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
>>> Leminski, estações da poesia, por R. G. Lopes
>>> Crônica em sustenido
Colunistas
Últimos Posts
>>> Banco Inter É uma BOLHA???
>>> Não Aguento Mais a Empiricus
>>> Nubank na Hotmart
>>> O recente choque do petróleo
>>> Armínio comenta Paulo Guedes
>>> Jesus não era cristão
>>> Analisando o Amazon Prime
>>> Amazon Prime no Brasil
>>> Censura na Bienal do Rio 2019
>>> Tocalivros
Últimos Posts
>>> O céu sem o azul
>>> Ofendículos
>>> Grito primal V
>>> Grito primal IV
>>> Inequações de um travesseiro
>>> Caroço
>>> Serial Killer
>>> O jardim e as flores
>>> Agradecer antes, para pedir depois
>>> Esse é o meu vovô
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Festa na floresta
>>> A crítica musical
>>> 26 de Julho #digestivo10anos
>>> Por que escrevo
>>> História dos Estados Unidos
>>> Meu Telefunken
>>> Uma Receita de Bolo de Mel
>>> O apanhador no campo de centeio
>>> Curriculum vitae
>>> O Salão e a Selva
Mais Recentes
>>> Harry Potter e a Pedra Filosofal de J. K. Rowling pela Rocco (2000)
>>> Infinite Jest de David Foster Wallace pela Back Bay Books (1996)
>>> Nine Dragons de Michael Connelly pela Hieronymus (2009)
>>> The Innocent de Taylor Stevens pela Crown Publishers (2011)
>>> The Watchman de Robert Crais pela Simon & Schuster (2007)
>>> The Watchman de Robert Crais pela Simon & Schuster (2007)
>>> Filosofia Para Crianças e Adolescentes de Maria Luiza Silveira Teles pela Vozes (2008)
>>> O Caminho da Perfeição de A. C. Bhaktivedanta Swami pela The Bhaktivedanta (2012)
>>> O Caminho da Perfeição de A. C. Bhaktivedanta Swami pela The Bhaktivedanta (2012)
>>> Vida de São Francisco de Assis de Tomás de Celano pela Vozes (2018)
>>> Apóstolo Paulo de Sarah Ruden pela Benvirá (2013)
>>> Apóstolo Paulo de Sarah Ruden pela Benvirá (2013)
>>> Astrologia e Fatalismo Magnetismo e Hipnose de Ferni Genevè pela Fase (1983)
>>> Práticas da leitura de Roger Chartier (org.) pela Estação Liberdade (2001)
>>> Universo em Desencanto A Verdadeira Origem da Humanidade Vol 1 de Não Informada pela Mundo Racional
>>> Matemática Financeira de Roberto Zentgraf pela Ztg (2002)
>>> Como Negociar Qualquer Coisa Com Qualquer Pessoa Em Qualquer Lugar do Mundo de Frank L. Acuff pela Senac (1998)
>>> Morte e Vida Severinas: das Ressurreições e Conservações ... Ed. Ltda. de Nelci Tinem e Luizamorim: Organização pela Impre. Univ. J. Pessoa (2012)
>>> Mais Trinta Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura de Luiz Ruffato pela Record (2005)
>>> Príncipe Sidarta A Fuga do Palácio de Patricia Chendi pela Rocco (2000)
>>> Como Criar Filhos Autoconfiantes de Anthony Gunn pela Gente (2011)
>>> Como Criar Filhos Autoconfiantes de Anthony Gunn pela Gente (2011)
>>> Como Criar Filhos Autoconfiantes de Anthony Gunn pela Gente (2011)
>>> Como Criar Filhos Autoconfiantes de Anthony Gunn pela Gente (2011)
>>> Como Criar Filhos Autoconfiantes de Anthony Gunn pela Gente (2011)
>>> Smart Work Why Organizations Full Of Intelligent People ... de Steven A. Stanton pela Do Autor (2016)
>>> Estatística Objetiva de Roberto Zentgraf pela Ztg (2001)
>>> Diários Messiânicos: uma Experiência de Extensão Universitária de Bruno Cesar Euphrasio de Mello pela Univ. Federal Rgs. (2015)
>>> The Lost Symbol de Dan Brown pela Doubleday (2009)
>>> Dez Dias de Cortiço de Ivan Jaf pela Ática (2009)
>>> Medicina do Além Um Presente de Jesus para a Humanidade de Fabio Alessio Romano Dionisi pela Dionisi (2014)
>>> Energia Renovável de Dme pela Dme
>>> São João Paulo Grande Seus Cinco Amores de Jason Evert pela Quadrante (2018)
>>> At Risk de Patricia Cornwell pela Little Brown And Company (2006)
>>> Gone For Good de Harlan Coben pela Na Orion Paperback (2007)
>>> When The Wind Blows de James Patterson pela Little Brown And Company (1998)
>>> Windmills Of The Gods de Sidney Sheldon pela William Morrow And Companhy (1987)
>>> If Tomorrow Comes de Sidney Sheldon pela William Morrow And Companhy (1985)
>>> Pearl Dakotah Treasures 2 de Lauraine Snelling pela Bethany House (2004)
>>> Pearl Dakotah Treasures 2 de Lauraine Snelling pela Bethany House (2004)
>>> Children Of The Lamp Book One de P. B. Kerr pela Orchard Books (2004)
>>> The Tale Of Despereaux de Kate Di Camillo pela Candlewick Press (2003)
>>> What She Left For Me de Tracie Peterson pela Bethany House (2005)
>>> Mulher (Trilingue) de Orestes Campos Barbosa pela Sografe, Belo Horizonte (2009)
>>> Mulher (Trilingue) de Orestes Campos Barbosa pela Sografe, Belo Horizonte (2009)
>>> A Christmas Carol de Charles Dickens pela Bendon (2014)
>>> A Christmas Carol de Charles Dickens pela Bendon (2014)
>>> Ruby Dakotah Treasures 1 de Lauraine Snelling pela Bethany House (2003)
>>> Opal Dakotah Treasures 3 de Lauraine Snelling pela Bethany House (2005)
>>> Amethyst Dakotah Treasures 4 de Lauraine Snelling pela Bethany House (2005)
COLUNAS

Quinta-feira, 4/9/2003
Estado de Sítio, de Albert Camus
Ricardo de Mattos

+ de 15600 Acessos



O Governador lhes é grato. Nada é bom quando é novo.

[Imagem elaborada por Alessandro Silva, colunista do Digestivo Cultural, especialmente para acompanhar esta Coluna]

A chave histórica para compreensão de Estado de Sítio, de Albert Camus, está principalmente na turbulência espanhola durante a primeira metade do século XX. Os distúrbios em Espanha começaram durante o reinado de Afonso XIII. O exército enviado ao Marrocos a fim de garantir o controle espanhol estava insatisfeito e cumulado a isto, a Catalunha exigia maior autonomia administrativa, pleiteando com violência o que não obteve mediante reivindicações. Tal a ordem de confrontos ocorridos na principal cidade catalã, Barcelona, que o capitão Miguel Primo de Rivera lá estabeleceu uma ditadura regional com beneplácitos régio e popular. A república de Espanha foi proclamada em 1.931 e, se mantida por um regime liberal moderado, recebeu ataques de extremistas de esquerda e de direita. Uma frente popular alcançou o domínio em 1.936, secundada meses depois pelo golpe militar de Francisco Franco. Toda esta instabilidade acabou servindo de cortina para o movimento. O general invadiu a Espanha liderando aquela parcela do exército encontrada em terras marroquinas. A famosa guerra civil (1.936/9) é fruto desta invasão, dividindo-se o campo de batalha entre nacionalistas – partidários do Exército – e lealistas – partidários do governo republicano – até a victória final dos primeiros representada pela tomada de Madrid. Franco estabeleceu sua ditadura com o apoio do partido fascista espanhol – a Falange –, do Exército, da Igreja Católica e de uma população exausta da luta interna. “Mais vale uma boa conciliação que uma vitória sobre escombros”.

George Orwell e Hemingway lutaram a favor dos republicanos. Do primeiro, a experiência resultou no Lutando na Espanha e um de seus mais famosos, A Revolução dos Bichos, é irmão do espetáculo de Camus. Pena ele não ter conhecido a minha Cigana, senão fatalmente ter-lhe-ia arranjado uma colocação na Granja do Solar. Ela seria uma espécie de eminência parda, e muitas vezes a autoridade constituída é uma mera porta-voz destas figuras. Não se deve deixar de ler também, com o cuidado de não misturar demais, O Crocodilo de Dostoievski.

O cunho político é claro. O espetáculo todo prima pela clareza, não havendo motivos para temer o autor. Há representação dos horrores da Segunda Grande Guerra, como a obrigatoriedade de se usar uma estrela negra na porta das casas das pessoas contaminadas, remetendo directamente à estrela de David de uso exigido aos judeus e a menção à necessidade da concentração de prisioneiros. Porém esta representação é mais afeita ao romance A Peste lançado no ano anterior que à peça pois aqui a crítica de Camus teve por alvo específico o regime em vigor na Espanha após a guerra civil e genérico os governos autoritários.

A estreia da peça deu-se no dia 27 de outubro de 1.948. O espetáculo foi dedicado ao actor francês de cinema e teatro Jean-Louis Barrault (1.901/1.994), sendo ele mesmo o director teatral e o primeiro Diego. Lembro-me de dois de seus filmes, não os principais contudo: Si Versailles M'Etait Conte (1.954) e Le Testament du Docteur Cordelier (1.959). A trama desenrola-se na cidade espanhola de Cádiz e inicia-se com a passagem d’um cometa, símbolo de futuras tragédias. Junto a Diego, os personagens são Vitória, o Juiz seu pai, a Peste, sua secretária (a Morte), o bêbado Nada, o governador, vários alcaides e inúmeros secundários, além do coro. De acordo com o teor das falas todas dos personagens ligados ao governo, parece não ser despropósito afirmar a existência do personagem Governo, ou Estado, d’um polvo do qual eles seriam os tentáculos.

A música incidental tocou ao compositor francês de ascendência suíça Arthur Honegger (1.892/1.955), cujas peças tinham temas ou inspirações inéditas como o rúgbi ou uma locomotiva. Suas concepções parecem ter calhado para o ideal de Camus: atente-se às constantes notas sobre os sons anteriores a certas cenas, como a passagem do cometa ou o alvoroço final da primeira parte. Por fim, o cenário e o figurino couberam a Balthus (1.908/2.002), pintor conhecido sobretudo pelas cativantes cenas íntimas e de cuja obra faz muita falta um álbum. Tenho particular apreço por estas aproximações entre as artes.

Apesar de todo o aparato, causou pouca impressão e foi mal acolhida pela crítica. O fracasso inicial talvez seja devido ao perceptível entusiasmo de Camus diante do tema. A espontaneidade afastou o refinamento esperado do autor d’A Peste, sendo exemplares a última convocação do coro – “vamos gritar pelo deserto” – e o último pronunciamento da Peste – personagem – ao final da primeira parte. Deveras, pode ser encontrada uma série de lugares-comuns, frases de efeitos e aforismos. São dignas de menção a discussão entre Victória, seus pais e Diego na segunda parte, e a outra entre Diego e a Peste na terceira. Na segunda discussão, o realismo com vislumbres de cinismo fala através da Peste, e Diego representa aquele idealismo inicialmente fraco e que se reforça e altera o regime em vigor. No Brasil, menciono como exemplo o abolicionismo.

Uma epidemia qualquer aflige os habitantes de Cádiz – escolha não desacompanhada de crítica. É uma doença como poderia ser qualquer outro fenómeno externo – ou interno, mas a atacar de fora –, imprevisível e forte. A imprevisão decorre da ausência de um raciocínio político a longo prazo e tem por conseqüências tanto o despreparo diante do novo quanto o recrudescimento do autoritarismo. O despreparo leva a encobrir o problema: esconde-se o irresolúvel. Elevar o grau do autoritarismo é a velha prática do ataque como melhor defesa. O povo deve esquecer a passagem do cometa e quem insistir em lembrar será punido. “A vontade do governador é que nada aconteça em seu governo e que tudo continue bem, como sempre foi”. Não se fuja do hábito, pois novos factos e novas ideias trazem consigo a necessidade de novas explicações. Se as explicações oficiais forem erróneas ou falsas, podem ser corrigidas ou desmentidas, levando daí ao questionamento e provável enfraquecimento da autoridade, ao descrédito e à desobediência. Revela fundamentos frágeis a autoridade que não admite ser questionada. Quando o governo recorre à agressão, a Força, uma virtude governamental, é confundida com seu vício oposto, a fraqueza. Um povo crédulo – e a credulidade em si não é falha estatal – entretanto, facilita muito a permanência deste status. Provavelmente a personificação da Peste sirva, n’um primeiro momento, para demonstrar o comportamento do Governo diante do cúmulo a que se pode chegar com este quadro de desordem.

Outra derivação do recrudescimento do autoritarismo, segundo quer mostrar-nos Camus, é o cultivo de leis e de formalidades. Muitas, obscuras e contraditórias leis e formalidades escudam o arbítrio, tornando difícil sua prova. Nada agrada mais um funcionário público que um procedimento com começo, meio e fim, esconda o que esconder. “No caso de dúvida, recorra-se a quem de direito". O prejudicado muitas vezes prefere resignar-se. Por isso aquele fechar de portas no espetáculo, ainda na primeira parte. O diálogo entre a secretária e um pescador, na segunda parte, atinge o caricato.

Para ir além





Ricardo de Mattos
Taubaté, 4/9/2003


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O jornalismo cultural na era das mídias sociais de Fabio Gomes
02. Meshugá, a loucura judaica, de Jacques Fux de Jardel Dias Cavalcanti
03. Memorial de Berlim de Marilia Mota Silva
04. Eu matei Marina Abramovic (Conto) de Jardel Dias Cavalcanti
05. 50 tons de Anastasia, Ida e outras protagonistas de Elisa Andrade Buzzo


Mais Ricardo de Mattos
Mais Acessadas de Ricardo de Mattos em 2003
01. Da Poesia Na Música de Vivaldi - 6/2/2003
02. Poesia, Crônica, Conto e Charge - 13/11/2003
03. Da Biografia de Lima Barreto - 26/6/2003
04. Estado de Sítio, de Albert Camus - 4/9/2003
05. A Euforia Perpétua, de Pascal Bruckner - 5/6/2003


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O HOSPITAL: A LEI E A ÉTICA
JOSÉ DE QUEIROZ CAMPOS E JUAREZ DE QUEIROZ CAMPOS
LTR (SP)
(1976)
R$ 21,28



SE EU TIVESSE NADADEIRAS
JEANE CABRAL SCHLATTER
CIRANDA CULTURAL
(2012)
R$ 19,90



O QUE É JAZZ
ROBERTO MUGGIATI
BRASILIENSE
R$ 8,00



COMENTÁRIOS À CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DO TRABALHO
VALENTIN CARRION
SARAIVA
(2005)
R$ 27,00



VILLA LOBOS - O FLORESCIMENTO DA MÚSICA BRASILEIRA
MANUEL NEGWER
MARTINS FONTES
(2009)
R$ 26,00



O SENHOR DA CHUVA
ANDRÉ VIANCO
NOVO SECULO
(2002)
R$ 15,00



ANJOS DO MEU ALTAR
IRIS DE CARVALHO
RAZÃO CULTURAL
(1988)
R$ 24,00



ORIGEM DOS DIREITOS DOS POVOS
JAYME DE ALTAVILA
MELHORAMENTOS
R$ 10,50



TURISMO E HOTELARIA UMA VISÃO MULTIDISCIPLINAR
LECY CIRILO E SILVANA FURTADO ( ORG. )
ANHEMBI MORUMBI
(2007)
R$ 4,78



NÃO ME DEIXE AQUI RINDO SOZINHO
ANDRÉ LAURENTINO
REALEJO EDITORA
(2017)
R$ 31,84





busca | avançada
34554 visitas/dia
1,1 milhão/mês