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Quinta-feira, 3/7/2003
O silêncio e a palavra
Lucas Rodrigues Pires
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O silêncio

Quando lançado há quase dois meses, o que muito se falou de Nelson Freire, o documentário de João Moreira Salles sobre o renomado pianista, foi sobre os seus "silêncios", os momentos em que a câmera se voltava a ele e ele, timidamente, pouco falava ou nada dizia. Sim, a música fala pela pessoa do artista, como o poeta se expressa pelos seus versos. Errado. O artista Nelson Freire está mais para o fotógrafo, que capta uma imagem de uma paisagem/cenário e passa sua visão daquilo. Músico e não compositor, o que o pianista faz é justamente recriar a arte feita por outrem, colocando nela um pouco de si.

O documentário investiga não só o artista como a pessoa atrás do artista, o ser humano. Em pequenos episódios, que retratam momentos deslumbrantes, Salles encontra a fragilidade humana que os olhos nus não podem enxergar atrás da roupa com cauda daquele homem de estatura baixa e barba branca, que em sua casa brinca com sua cadela e se diverte assistindo aos musicais dos anos 40 e 50. Os silêncios de Freire decorrem exatamente da fragilidade que exala o ser humano, e mesmo sua genialidade - pianista que dava concertos aos 6 anos e era chamado de menino-prodígio desde muito cedo - exposta pelo tocar nos dedos as teclas do piano não o impede de ser como outro qualquer, ao mesmo tempo plausível de medos e desejos. Ilustrativo disso é a seqüência inicial quando Freire termina um concerto e sai do palco ovacionado com o coro de bis. Ele se oculta atrás das cortinas e a primeira coisa que faz é pedir um cigarrinho. Os produtores falam para voltar e tocar mais uma, ele vai, agradece os aplausos e volta para o acobertamento. Pede novamente um cigarrinho, o que lhe é negado mais uma vez. Esse movimento de sair e entrar no palco acontece umas 4 vezes até que ele se sente e toque o bis para só então depois saborear seu cigarrinho.

Pois bem, Salles mostra com essa passagem que a genialidade, no fundo, está acompanhada de ingenuidade e, até certa forma, infantilidade, como a birra com o desejoso cigarrinho faz parecer. A capacidade de tocar um piano como ninguém não o deixa distante de qualquer um de nós. Pelo contrário, sente-se a proximidade com seu mundo repleto de desafios - como tocar um trecho complicadíssimo de Brahms -, expectativas (como o que tanto esperavam dele desde a infância anormal de menino-prodígio numa cidadezinha de Minas Gerais até a partida para o Rio de Janeiro, conforme demonstrou seu pai na carta emocionada lida por Eduardo Coutinho, talvez o ápice do filme e síntese de um Freire criança) e embaraços (quando dos cumprimentos e elogios recebidos pessoalmente, ao final do filme, após um concerto).

Num determinado momento, Freire assume ser fã de um músico de jazz americano (não me recordo seu nome agora), pois este tocava o piano com alegria. Quando perguntado se ele tocava com alegria, sua resposta foi o silêncio munido de um sorriso moleque num rosto maduro. Os silêncios de Freire, que João Moreira Salles, em entrevistas, já definiu como algo que "diz tudo que quer, sem palavras, com reticências, com pausas, com frases que ficam perduradas no ar, sem conclusão" dizem muito de seu mundo, de sua música. Aliás, dizem tudo. Seu sorriso maroto é a maior prova disso.

A palavra

O Homem que Copiava é um filme composto por palavras. Seu diretor, Jorge Furtado, é reconhecido como dos melhores roteiristas brasileiros atuais e soube fazer proveito de seu talento para compor a história de André, um operador de fotocopiadora em Porto Alegre.

A palavra é o meio pelo qual André, protagonista narrador da trama, apresenta-se e nos apresenta a seu mundo de trabalho, voyeurismo e ilustrações. Na seqüência inicial, temos uma extensa introdução com tiradas irônico-filosóficas dignas de Furtado. Com o estilo que o consagrou como curta-metragista desde Ilha das Flores, o diretor gaúcho faz da colagem um aliado para a narrativa se desenrolar.

Em O Homem que Copiava, tudo é cópia e, ao mesmo tempo, original. Num mundo em que a originalidade perdeu seu valor, pois ninguém mais sabe o que é verdadeiro e o que é falso, a cópia/falsificação passa a ser uma forma de ganhar a vida (leia-se, dinheiro), como muitos camelôs fazem vendendo milhares de produtos piratas. Furtado faz a mesma coisa. O banco roubado chama-se Banco Imobiliário (alusão ao jogo de tabuleiro) e a camisa de um dos personagens traz um jacaré com o rabo esticado (lembrou-se da Lacoste?), por exemplo. A cópia forma o todo, embasado em diversas composições fílmicas que dão ao filme sua originalidade e força. As ilustrações de André ganham vida, a composição dos quadrinhos surge para explicar o ritual de ir deitar da mãe de André, conclusões tiradas através do reflexo do espelho, por trás de cortinas e pelo binóculo também fazem referências a esta história que se utiliza de outras linguagens para contar a sua própria história.

Nesse mundo fragmentado, onde as informações não têm tempo para ser deglutidas devido à velocidade de produção (metáfora no filme feita pela máquina de fazer cópias e as leituras interrompidas e descontínuas que André faz do que copia, imagem do conhecimento fragmentado e desconexo do homem contemporâneo), o tempo é um elemento incapaz de ser copiado ou modificado. Sua força está além da capacidade humana de copiar ou falsificar. E a resposta de Furtado vem através de nova apropriação - o soneto de Shakespeare que trata da fruição do tempo e seu "vão combate" -, que dará o desfecho a unir André e Silvia. O tempo, relatado pela forma mais nobre da palavra - a poesia -, traz à tona a originalidade da vida, da arte, de Shakespeare e agora também de O Homem que Copiava.

Se a vida é original e o resto é cópia, como diz o cartaz do filme, Furtado criou um filme repleto de vida, o que inclui muito humor, drama e poesia. Mesmo com um final aquém do restante da fita.


Lucas Rodrigues Pires
São Paulo, 3/7/2003

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