São Paulo, PS | Urariano Mota | Digestivo Cultural

busca | avançada
75847 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> 10º FRAPA divulga primeiras atrações
>>> Concerto cênico Realejo de vida e morte, de Jocy de Oliveira, estreia no teatro do Sesc Pompeia
>>> Seminário Trajetórias do Ambientalismo Brasileiro, parceria entre Sesc e Unifesp, no Sesc Belenzinho
>>> Laura Dalmás lança Show 'Minha Essência' no YouTube
>>> A Mãe Morta
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Quem vem lá?
>>> 80 anos do Paul McCartney
>>> Gramática da reprodução sexual: uma crônica
>>> Sexo, cinema-verdade e Pasolini
>>> O canteiro de poesia de Adriano Menezes
>>> As maravilhas do modo avião
>>> A suíte melancólica de Joan Brossa
>>> Lá onde brotam grandes autores da literatura
>>> Ser e fenecer: poesia de Maurício Arruda Mendonça
>>> A compra do Twitter por Elon Musk
Colunistas
Últimos Posts
>>> Oye Como Va com Carlos e Cindy Blackman Santana
>>> Villa candidato a deputado federal (2022)
>>> A história do Meli, por Stelleo Tolda (2022)
>>> Fabio Massari sobre Um Álbum Italiano
>>> The Number of the Beast by Sophie Burrell
>>> Terra... Luna... E o Bitcoin?
>>> 500 Maiores Álbuns Brasileiros
>>> Albert King e Stevie Ray Vaughan (1983)
>>> Rush (1984)
>>> Luiz Maurício da Silva, autor de Mercado de Opções
Últimos Posts
>>> Casa ou Hotel: Entenda qual a melhor opção
>>> A lantejoula
>>> Armas da Primeira Guerra Mundial.
>>> Você está em um loop e não pode escapar
>>> O Apocalipse segundo Seu Tião
>>> A vida depende do ambiente, o ambiente depende de
>>> Para não dizer que eu não disse
>>> Espírito criança
>>> Poeta é aquele que cala
>>> A dor
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Semana de 22 e Modernismo: um fracasso nacional
>>> Narciso revisitado na obra de Fabricius Nery
>>> A campanha on-line de Obama
>>> Entrevista de Emprego
>>> Três e Dez para Yuma
>>> Três e Dez para Yuma
>>> Escrever não é trabalho, é ofício
>>> 1984, de George Orwell, com Fromm, Pimlott e Pynchon
>>> O Afeto Autoritário de Renato Janine Ribeiro
>>> Deepak Chopra Speaker Series
Mais Recentes
>>> Return of Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle pela Wordsworth Classics
>>> Arte e Medicina: Interfaces de uma Profissão de André Mota (org.) pela Usp (2010)
>>> A Viagem de Théo de Catherine Clément; Eduardo Brandão pela Companhia das Letras (2002)
>>> Lágrimas Negras de Nieves Hidalgo pela Esencia (2014)
>>> Cobras Criadas de Luiz Maklouf Carvalho pela Senac Sp (2001)
>>> A Ilha Prometida - a História de Nova York de Anka Muhlstein pela Companhia das Letras (1991)
>>> La Ciencia En una Sociedad Libre de Paul Feyerabend pela Siglo Veintiuno Editores (1982)
>>> Moderna Plus - Biologia - V. 02 de Amabis Martho pela Moderna (2009)
>>> Senhora - Série Bom Livro de José de Alencar pela Ática (1998)
>>> Hospital: Fui Bem Atendido!!! a Vez do Brasil de Victor Mirshawka pela Makron Books (1994)
>>> Alvenaria Burguesa de Carlos A. C. Lemos pela Nobel (1985)
>>> Mathematics - Unlimited de Vários pela Harcourt (1991)
>>> Vinte anos depois Vol III de Alexandre Dumas pela Fittipaldi (1957)
>>> Desonrada de Mukhtar Mai; Marie Thérèse Cuny pela Best Seller (2007)
>>> Ulisses de James Joyce / Antonio Houaiss - Tradução pela Civilização Brasileira (1975)
>>> Destruição e Equilibrio de Sergio de Almeida Rodrigues pela Atual
>>> Saque - a Seda Líquida de Antonio Campis pela Senac (2012)
>>> Para Viver Juntos - Ciencias 9º Ano - Ensino Fundamental ii de Bezerra; Lia Monguilhott pela Sm Didáticos (2014)
>>> Lei das Sociedades por Ações de Vários Autores pela Atlas (2003)
>>> Do Que os Homens Gostam de Dra. Laura Schlessnger pela Sextante (2005)
>>> O Caso Debray - um Crime Monstruoso de Jean-paul Sartre pela Edições Dorell (1968)
>>> Tudo Vai Dar Certo de Cesar Romão pela Academia de Intelige (2008)
>>> 2 Vols. os Donos do Poder de Raymundo Faoro pela Globo (1977)
>>> Kindness Counts de Jan Berenstain; Stan Berenstain; pela Zondervan Usa (2010)
>>> Morte de um Dissidente de Vários Autores pela Companhia das Letras (2007)
COLUNAS >>> Especial SP 450

Sexta-feira, 30/1/2004
São Paulo, PS
Urariano Mota

+ de 7300 Acessos

Aprendi com São Paulo verdades que se sentem e só se vêem depois, como um post-scriptum de revelação.

São Paulo na primeira vez foi a cidade apresentada por um tio, do mais alto edifício da Avenida Rio Branco. Ele era o zelador do prédio, e lá de cima, do teto que me dava vertigem, mostrou uma floresta de edifícios, garoa, monumentos, elevações escuras ao longe.

- Quantas Recifes cabem aqui dentro? Hem, quantas Recifes?

Eu tinha dezessete anos e não sabia o que responder. "A primeira vez que vi Teresa / Achei que ela tinha pernas estúpidas". O que eu via era uma imensidão imensa sem rios Capibaribes. E o Recife, eu não sabia então, era o ventre da minha mãe. Como é que se pergunta a um menino quantas mães dele cabem no enevoado ao longe? Fiquei a balançar o queixo, e devo ter murmurado:

- Muito grande.

Devo ter agradado ao meu tio, porque logo descemos daquele, do que parecia ser um trapézio no alto do mundo.

São Paulo da segunda vez foi a cara de churrasco grego. Com fome, às duas da tarde na Avenida São João, na margem oposta aos Correios, havia um carrasco. Não pensem por favor que errei na palavra churrasco. Na Avenida São João havia um carrasco que passava afiadíssimas facas sobre a carne assada em luz de boite, estroboscópica, como raios de luz de radiola wurlitzer. E não pensem mais uma vez que erro. Em 1978 São Paulo, para mim, era a carne que faltava à hora do almoço, e a carência disso era tamanha que deixava as luzes do churrasco grego com a cor das cintilações da radiola dos bares de putas. (A primeira vez que vi Teresa "achei também que a cara parecia uma perna".) Aos domingos, quando a sorte era amiga, nas padarias São Paulo se transformava na tevê de cachorro: aqueles frangos rodando no espeto, de rosado pingue, em janelas transparentes do forno, de deixar água na boca de todos os mamíferos. Comportados, os baianos de todo o Brasil não latíamos.

Então houve a terceira vez. São Paulo foi as pernas de uma adolescente judia. Na noite de cinco graus celsius, na sala, enquanto conversávamos o rumo da revolução brasileira, a mocinha adivinhou que um de nós não possuía o mais elementar rumo, como, primeiro, achar onde dormir numa noite paulistana. Sentada em almofada no chão, ela ergueu os joelhos para neles apoiar o queixo. A saia longa se abriu como as cortinas do Teatro Santa Isabel. Pensativa, concentrada, ela pôs um sabor de vênus na noite plena de Karel Kosik. Noite de citações dialéticas mas falta do amor concreto. E fria, sim, tão fria, a adolescente, quanto a carne que à nossa fome se oferece e nos diz: "Por onde e para onde pensais ir? Perdei a esperança". Nossos olhos iam e esbarravam na telinha de algodão ao fim de suas longas pernas. A mocinha inteligente, concentrada, parecia insensível aos cinco graus da noite com as coxas tão descobertas. Eu não sabia, a perversidade não tem frio.

Então a cidade foi chegando mais perto da sua revelação. Num bar da Praça Roosevelt, no alto e ao fim de uma escada helicoidal, eu mantive guarda, inútil, estúpida, vergonhosa, covarde, ao corno que levou um conterrâneo. O amigo urso é hoje um alto (por que sempre esses adjetivos para São Paulo? Alta, imensa, grande, vertiginosa? )... o criminoso é hoje um alto executivo de uma grande empresa de comunicações. A infiel é atriz de telenovelas. Na época era atriz de companhias mambembes de teatro. O conterrâneo, coitado, parece que seu melhor papel era ser o companheiro da atriz. Mas o meu foi mais triste. Assisti à bela atriz, então jovem, suave, suculenta e italiana como as massas ao molho vermelho, ah, ouvi, vi, senti, testemunhei o crime de ela ser cantada. E sem poesia. O atual executivo cantou-a com algo tão grosseiro quanto, "quando posso comê-la?", e ela, em vez de uma passional bofetada respondeu , "só não pode ser agora - o amigo aí...", e me apontou com o queixo, como se apontam os cegos numa mesa, porque se pensa que também são surdos.

Então eu me disse, depois dessa terceira vez, "São Paulo, nunca mais". Era sincero, impulsivo, mas não verdadeiro. Eu não sabia nem poderia saber então, porque não possuía a clareza. Agora vejo, 25 anos depois, o post-scriptum da cidade. São Paulo, PS:

Em juras de amor não correspondido não se deve crer.


Urariano Mota
Olinda, 30/1/2004


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Lançamentos de literatura fantástica (1) de Luís Fernando Amâncio
02. Elon Musk de Julio Daio Borges
03. Guilherme Carvalhal de Guilherme Carvalhal
04. Neon Genesis Evangelion de Duanne Ribeiro
05. Selton Mello de Wellington Machado


Mais Urariano Mota
Mais Acessadas de Urariano Mota
01. Lulu Santos versus Faustão - 11/7/2003
02. O Rei Roberto Carlos e a Ditadura - 19/4/2004
03. A nova escola - 29/8/2003
04. Alfredo Bosi e a dignidade da crítica - 18/4/2003
05. São Paulo, PS - 30/1/2004


Mais Especial SP 450
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Liberdade Emocional
Judith Orloff
Rocco
(2011)



Valentine - Princess (capa Dura,
Meg Cabot
Harper Collins
(2006)



A Galinha Preta -
Martina Schlossmacher
Martins Fontes
(2000)



A Irmã da Lua - as Sete Irmãs - Livro 5
Lucinda Riley
Arqueiro
(2018)



Estrutura da Notícia - 2ª Edição
Nilson Lage
Ática
(1987)



Adorável Impostora
Roxane St. Claire
Harlequin Books
(2007)



Zapp! the Lightning of Empowerment
William C. Byham Jeff Cox
Ballantine Books
(1992)



Redes de Computadores das Lans Mans e Wans às Redes Atm
Luiz Fernando Gomes Soares - Guido Lemos - Sérgio
Campus
(1995)



As Uvas da Raiva
Sergio Bermudas
Nova Fronteira
(2002)



Dez Anos da Comissão de Direitos Humanos
Maria Luíza Marcílio
Universidade de São Paulo
(2007)





busca | avançada
75847 visitas/dia
1,8 milhão/mês