1964-2004: Da televisão à internet – um balanço | Julio Daio Borges | Digestivo Cultural

busca | avançada
48369 visitas/dia
1,6 milhão/mês
Mais Recentes
>>> OBRAS INSPIRADAS DURANTE A PANDEMIA GANHAM DESTAQUE NO INSTITUTO CERVANTES, EM SÃO PAULO
>>> Sempre Um Papo com Silvio Almeida
>>> FESTIVAL DE ORQUESTRAS JUVENIS
>>> XIII Festival de Cinema da Fronteira divulga Programação
>>> Centro em Concerto: ¡Navidad Nuestra!
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Entre Dois Silêncios, de Adolfo Montejo Navas
>>> Home sweet... O retorno, de Dulce Maria Cardoso
>>> Menos que um, novo romance de Patrícia Melo
>>> Gal Costa (1945-2022)
>>> O segredo para não brigar por política
>>> Endereços antigos, enganos atuais
>>> Rodolfo Felipe Neder (1935-2022)
>>> A pior crônica do mundo
>>> O que lembro, tenho (Grande sertão: veredas)
>>> Neste Momento, poesia de André Dick
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lula de óculos ou Lula sem óculos?
>>> Uma história do Elo7
>>> Um convite a Xavier Zubiri
>>> Agnaldo Farias sobre Millôr Fernandes
>>> Marcelo Tripoli no TalksbyLeo
>>> Ivan Sant'Anna, o irmão de Sérgio Sant'Anna
>>> A Pathétique de Beethoven por Daniel Barenboim
>>> A história de Roberto Lee e da Avenue
>>> Canções Cruas, por Jacque Falcheti
>>> Running Up That Hill de Kate Bush por SingitLive
Últimos Posts
>>> Nosotros
>>> Berço de lembranças
>>> Não sou eterno, meus atos são
>>> Meu orgulho, brava gente
>>> Sem chance
>>> Imcomparável
>>> Saudade indomável
>>> Às avessas
>>> Amigo do tempo
>>> Desapega, só um pouquinho.
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Por que Dilma tem de sair agora
>>> A árvore da vida
>>> Endereços antigos, enganos atuais
>>> Garanto que você não vai gostar
>>> Colunismo em 2004
>>> Frases de Drummond
>>> Luciano do Valle (1947-2014)
>>> 28 de Junho #digestivo10anos
>>> 19 de Julho #digestivo10anos
>>> Citizen Kane
Mais Recentes
>>> Eu sou Macuxi e outras histórias de Julie Dorrico pela Caos e Letras (2019)
>>> As festas no Brasil colonial de José Ramos Tinhorão pela 34 (2000)
>>> Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária de Marilena Chaui pela Fundação Perseu Abramo (2000)
>>> Jetstream - pre-intermediate A- Student's Book & Workbook -c/Audio CD de Jane Revell - Mary Tomalin pela Helbling (2015)
>>> Jetstream - intermediate- Student's Book de Jeremy Harmer - Jane Revell pela Helbling (2015)
>>> Araribá Plus Geografia 8 de Cesar Brumini Dellore pela Moderna (2020)
>>> Tudo sobre cinema de Philip Kemp (Editor geral) pela Sextante (2011)
>>> Insta English 1 - Student's Book & Workbook de Emma Heyderman - Fiona Mauchline e outros pela Macmillan (2019)
>>> Cara, Cadê o Meu País? de David S. Moore pela Francis (2004)
>>> História da igreja católica de Philip Hughes pela Dominus (1962)
>>> Diário de Bordo de Noé de Francesca Bosca pela Ftd (2007)
>>> A 3ª Visão de Lobsang Rampa pela Record
>>> Guardiao Sete - O Chanceler do Amor de Rubens Saraceni pela Madras (2004)
>>> 200 Crônicas escolhidas de Rubem Braga pela Círculo do livro
>>> Na Praia e no Luar, Tartaruga quer o Mar de Ana Maria Machado pela Ática (2010)
>>> A Dieta do Tipo Sanguíneo: Para Prevenção e Tratamento da Artrite de Peter D'Adamo e Catherine Whitney pela Campus (2004)
>>> As duas vidas de Audrey Rose de Frank de Felitta pela Francisco Alves (1977)
>>> O Mistério da Casa Verde de Moacyr Scliar pela Ática (2008)
>>> Teláris Arte 7 de Eliane Pougy - André Vilela e outros pela Ática (2019)
>>> Por amor a Audrey Rose de Frank de Felitta pela Francisco Alves (1983)
>>> Adestramento Inteligente de Alexandre Rossi pela Cms (2004)
>>> Aumente o Poder do Seu Subconsciente Para Vencer o Medo e a Ansiedade de Dr. Joseph Murphy pela Nova Era (2006)
>>> Eles não Usam Black-tie de Gianfrancesco Guarnieri pela Civilização Brasileira (2018)
>>> O Poder do Agora de Eckhart Tolle pela Sextante (2002)
>>> A Menina que Descobriu o Brasil de Ilka Brunhilde Laurito pela Ftd (2001)
COLUNAS >>> Especial 1964-2004

Sexta-feira, 30/4/2004
1964-2004: Da televisão à internet – um balanço
Julio Daio Borges

+ de 16200 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Meu primeiro impulso, ao pensar num tema para estes 40 anos do "1964", foi escrever um balanço cultural entre o "ontem" e o "hoje". Mas seria uma análise incompleta (pois não tenho total domínio sobre as manifestações artísticas nestas quatro décadas), e cairia, inevitavelmente, nas obviedades de sempre: "Nos anos 60, tínhamos Chico, Caetano, Gil, Milton e Jorge Ben - e agora, temos o quê?". Ou seja: é muito fácil chegar à conclusão de que vivemos numa wasteland (pelo menos musical), mas é muito mais difícil identificar o porquê desse estado de coisas. É o que vou tentar fazer aqui. (Não sei se vou conseguir.)

Quando penso em 1964, em 1968, em termos culturais, e no que significativamente mudou, daqueles tempos para cá, penso logo na televisão. Mais especificamente, na fundação da Rede Globo (1965). Claro, também é muito fácil demonizar a Globo - e eu vou tentar não cair nessa tentação. De qualquer forma, tudo o que ocorreu desde então (principalmente para quem nasceu, como eu, na década de 1970) passou pelo "filtro" da Rede Globo. (Hoje, sua hegemonia não é o que era, mas basta imaginar um mundo sem controle remoto, sem Silvio Santos [um produto da Globo], sem cable TV, sem internet e - sobretudo - num regime onde toda crítica era camuflada e onde todo pensamento crítico não florescia...)

Eu fui uma criança que cresceu assistindo ao Sítio do Pica-Pau Amarelo, às oito horas da manhã (e meu pai implicava com a minha mãe, pois esta deixava que ligássemos o televisor logo cedo). Cresci à base de desenhos animados da Hanna Barbera (não na Globo) e quase peguei a Xuxa (na época da Manchete, em 1983) - mas, graças a Deus, me livrei do primado das apresentadoras de programas infantis para debilóides (aos 10 anos já achava o Bozo - ele havia estreado há pouco - um débil mental). Amadureci vendo novelas e me lembro relativamente bem de todas às quais assisti; felizmente me libertei delas ainda no início da adolescência.

Tudo isso para dizer que eu faço parte do sistema, que eu fui formado por ele, e que ele não me é estranho. No início da minha juventude, vivemos a primeira libertação dos escravos, com a introdução de canais UHF (tinha de comprar aquela antena) e com as experiências incipientes em matéria de TV a cabo (com algum esforço, era possível sintonizar a ESPN e mais alguns programas esporádicos de graça). Tomei um banho de MTV e meus heróis, além dos músicos, eram alguns VJs (hoje, sei, sucumbiram ao apelo da indústria da moda - onde uma carinha bonitinha [e um corpo "sarado"] manda[m] mais que um cérebro funcionando, como, aliás, em todos os outros canais).

Enfim, eu ia falar da Globo. E da televisão. Pois então: penso que a minha geração, e as subseqüentes (até muito recentemente), cresceram anestesiadas pela "máquina de fazer doidos". Como diria Platão (através de Sócrates), não acho que a tevê seja uma forma de conhecimento. Essa é minha tese há muito tempo - e sei que muitos de vocês agora vão chiar. É incalculável o quanto perdemos vendo televisão (e o quanto se perde ainda - apesar de que sua força vem diminuindo com o tempo...). Não apenas em horas diante do aparelho, mas sim formando uma "mentalidade" em que todo o resto é visto sob a ótica da televisão.

Outro dia, um exemplo, fui a um lançamento de livro de um amigo. Ele dividia a palestra (introdutória à sessão de autógrafos) com outro escritor. Este último (embora relativamente conhecido nos meios) se comportava exatamente igual a um apresentador de programa de auditório: apelava para piadas jocosas, queria ser o centro das atenções, falava mais alto do que o necessário e se utilizava de expressões nada literárias (que denunciavam suas "influências") como "o povo quer saber". Eu senti vergonha pelo meu amigo; ele era muito mais do que aquilo (se algum desconhecido visse, não acreditaria), mas ele tinha de fazer uso de expedientes como esses, senão as pessoas ali presentes ou dormiriam ou se aborreceriam. (Afinal, estavam acostumadas à esparrela da televisão.)

Outro exemplo. Nélson Rodrigues escrevia, em suas crônicas, que uma coisa dita uma única vez permanecia inédita; era preciso repeti-la, portanto, para que se fizesse conhecer. Depois da televisão essa colocação simples se transformou em religião: o bombardeio de estímulos audiovisuais (que contaminam também o cinema, pois este se vê obrigado a competir) é tamanho que ninguém mais presta atenção em nada. (Depois vai se tratar de DDA.) Assim, o esforço para se transmitir uma informação, uma analogia, um raciocínio tem de ser decuplicado. Por conseqüência (em comparação à televisão), um longa do Novo Realismo Italiano parece "lento"; um livro (qualquer que seja) parece "chato" apenas; uma música (que não seja barulhenta e de curta duração) provoca sonolência aguda. (Nem precisa dizer que esses aspectos todos foram abordados, em muito maior profundidade, pelos "teóricos da comunicação". O que exponho aqui é apenas a ponta do iceberg.)

Então você entende porque as telenovelas da Globo repetem os seus enredos e as mesmas "situações" há tantos anos; porque as vinhetas do Fantástico e do Jornal Nacional não mudam desde que foram inventadas; porque o Galvão Bueno expele as mesmas barbaridades a cada Copa do Mundo de futebol; porque - verdade seja dita - os "ídolos" dos anos 60 permanecem "insuperáveis" (e dá-lhe Elvis, e dá-lhe Beatles, e dá-lhe MPB...), enquanto há um mundo lá fora diariamente se renovando. Porque - vamos encarar os fatos - estamos todos petrificados, com as idéias congeladas, reentoando os velhos mantras da televisão. (Sem que ninguém perceba, o que é pior.)

"Ah, mas não é a televisão; e, no Brasil, não é a Globo" - alguém pode objetar. E eu concordo; mas isso não invalida a minha lógica. Sim, tivemos imprensa amordaçada por uns bons longos anos; tivemos um número significativo de membros da nossa "elite intelectual" silenciados ou mesmo banidos; tivemos décadas de prosperidade (ainda que artificial), coroadas com um boom em infra-estrutura (leia-se: empregos), que compensaram, para o grosso da população, quaisquer mazelas do regime de exceção. Mas o "projeto" não estaria completo sem a tevê e sem a Globo. Graças a ambas, - volto a insistir - ficamos travados no tempo e no espaço; habitamos um mundo encantado e sem saída; abdicamos de qualquer desejo ou vontade, a não ser o prato que nos ofereciam à base de Namoradinhas do Brasil, Robertos Carlos e Chacrinhas.

"E onde entra a internet (do título)?" - alguém pode perguntar. A internet, a meu ver, é o antídoto. E aí está a minha segunda tese (contra a qual muitos vão protestar também). A World Wide Web, com sua democratização dos "meios de produção", rompe com séculos de mudez e de ausência de crítica. Pela primeira vez, a voz do Big Brother não é engolida a seco; o tom oficialesco perde o seu ar "marcial" (pois qualquer internauta pode zombar dele); a imprensa (já sem a mordaça desde a Abertura [1984-5]) deixa de ser conduzida, sai da mão de alguns grupos (ligados ao poder de uma forma ou de outra) e, cibernética, está ao alcance de mim e de você. Foram abertas as comportas. E, através da escrita e da leitura (compulsórias no mundo digital), retomamos aquela linha evolutiva de "informação, analogia e raciocínio" - para sair, finalmente, do imobilismo. Desapertamos o "pause" e as cenas, que ficaram paradas lá nos anos 60 ("Chico, Caetano, Gil, Milton, Jorge Ben..."), voltam a se suceder. Não foi uma nem duas: foram quatro, as décadas perdidas.

Não chamaria a internet de "renascimento", como Gerald Thomas chamou, para depois voltar atrás. Ainda assim penso que ela é, além de tudo, um exemplo útil de como o "poder" cultural se descentralizou, nestes tempos de agora. Basta observar o número crescente de pequenas editoras que surgem; de minúsculas gravadoras e de ínfimos selos de fundo de quintal; de incontáveis revistas (e até jornais) superlotando, cada vez mais, as bancas; de produtoras independentes despejando filmes (sim, filmes) e até sangue novo - quem diria... - na outrora mal vista grade de programação. Os problemas - é evidente - são os mesmos de sempre: falta de público, falta de massa crítica, falta de demanda, falta de dinheiro, falta de reconhecimento, falta de "condições". Mas se considerarmos quantos milhões de zumbis ainda somos por despertar (e os investimentos, em todas as áreas, apostam nisso), até que não estamos tão mal. E poderemos, inclusive, um dia, nos gabar de ter vivido anos tão ou mais ricos que os tais anos 60. Ao menos, culturalmente.


Julio Daio Borges
São Paulo, 30/4/2004


Mais Julio Daio Borges
Mais Acessadas de Julio Daio Borges em 2004
01. Parati, Flip: escritores, leitores –e contradições - 16/7/2004
02. Mens sana in corpore sano - 14/5/2004
03. 1964-2004: Da televisão à internet – um balanço - 30/4/2004
04. Por que a crítica, hoje, não é bem-vinda - 25/6/2004
05. Ensaio de interpretação do Orkut - 20/8/2004


Mais Especial 1964-2004
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
30/4/2004
13h24min
Gostei bastante do seu texto. Achei mais sóbrio que os textos que encontramos por aí defendendo a internet como se fosse uma nova religião salvadora. Ela não revolucionou a comunicação (pelo menos ainda); talvez pudéssemos falar em modernização conservadora para a internet.
[Leia outros Comentários de paulo]
3/5/2004
10h37min
Achei o texto bem interessante, retratando a internet e a tv, nas suas respectivas qualidades e defeitos. A globo tem o poder de persuadir seus telespectadores, e ja elegeu e derrubou presidentes. No caso da Web, como em todo os segmentos da informatizacao, vai provocar o fim de profissoes nostalgicas, como a do entregador de cartas, e a queda, ja acentuada, de profissionais da imprensa escrita.
[Leia outros Comentários de Milton Moreira]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Agonia de uma Oração
Michael Bruckner
imago
(2002)



Bastidores da Mediunidade
Emanuel Cristiano
allan kardec
(2004)



São Marcos de Palestra Italia
Celso de Campos Jr
Realejo
(2011)



Livro - Os Filhos Vêm do Céu
John Gray
Rocco
(2003)



As Boas Mulheres da China: Vozes Ocultas
Xinran
Companhia das Letras
(2007)



Hei de Vencer
Arthur Riedel
Pensamento
(1999)



Redes Solidárias
Maria Tereza Maldonado
Saraiva
(2009)



Na Minha Cadeira Ou na Tua?
Juliana Carvalho
Terceiro Nome
(2010)



O Brilho da Estrela
Danielle Steel
Altaya Record
(2001)



O Código da Bíblia
Michael Drosnin
cultrix
(1997)





busca | avançada
48369 visitas/dia
1,6 milhão/mês