Parati, Flip: escritores, leitores –e contradições | Julio Daio Borges | Digestivo Cultural

busca | avançada
64351 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Concerto cênico Realejo de vida e morte, de Jocy de Oliveira, estreia no teatro do Sesc Pompeia
>>> Seminário Trajetórias do Ambientalismo Brasileiro, parceria entre Sesc e Unifesp, no Sesc Belenzinho
>>> Laura Dalmás lança Show 'Minha Essência' no YouTube
>>> A Mãe Morta
>>> BATA ANTES DE ENTRAR
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Quem vem lá?
>>> 80 anos do Paul McCartney
>>> Gramática da reprodução sexual: uma crônica
>>> Sexo, cinema-verdade e Pasolini
>>> O canteiro de poesia de Adriano Menezes
>>> As maravilhas do modo avião
>>> A suíte melancólica de Joan Brossa
>>> Lá onde brotam grandes autores da literatura
>>> Ser e fenecer: poesia de Maurício Arruda Mendonça
>>> A compra do Twitter por Elon Musk
Colunistas
Últimos Posts
>>> Oye Como Va com Carlos e Cindy Blackman Santana
>>> Villa candidato a deputado federal (2022)
>>> A história do Meli, por Stelleo Tolda (2022)
>>> Fabio Massari sobre Um Álbum Italiano
>>> The Number of the Beast by Sophie Burrell
>>> Terra... Luna... E o Bitcoin?
>>> 500 Maiores Álbuns Brasileiros
>>> Albert King e Stevie Ray Vaughan (1983)
>>> Rush (1984)
>>> Luiz Maurício da Silva, autor de Mercado de Opções
Últimos Posts
>>> A lantejoula
>>> Armas da Primeira Guerra Mundial.
>>> Você está em um loop e não pode escapar
>>> O Apocalipse segundo Seu Tião
>>> A vida depende do ambiente, o ambiente depende de
>>> Para não dizer que eu não disse
>>> Espírito criança
>>> Poeta é aquele que cala
>>> A dor
>>> Parei de fumar
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O batom
>>> Como num filme
>>> Only time will tell
>>> Política - da filosofia à neurociência.
>>> Ideologia: você quer uma pra viver? Eu, não
>>> The Flickrization of Yahoo!
>>> TechCrunch Disrupt
>>> O humor é como as marés, ora sobe ora desce
>>> Guimarães Rosa em Buenos Aires
>>> Festival de Curitiba 2010
Mais Recentes
>>> Livro de Bolso - Histórias Extraordinárias de Poe pela Abril Cultural (1978)
>>> Dos Ritmos aos Caos de Pierre Berge e Outros pela Unesp
>>> Livro - Sabedoria para Viver Bem- Meditações para Lidar Com a vida com alegria e otimismo de Louise L. Hay/ Ana Raquel Maia pela Sextante (2009)
>>> Assassinatos na Academia Brasileira de Letras de Jô Soares pela Companhia das Letras (2005)
>>> Livro de Bolso - O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde pela Abril Cultural (1980)
>>> Livro - Suíte Francesa de Irène Némirovsky pela Companhia das Letras (2006)
>>> Área de Corte de Jandira Zanchi pela Patuá (2016)
>>> Livro de Bolso - O Vermelho e o Negro de Stendhal pela Abril Cultural (2022)
>>> Catecismo da Igreja Católica de Típica Vaticana pela Loyola (2000)
>>> Robert Kennedy de James W. Hilty pela Temple University Pr (1997)
>>> Livro - Harry Potter e o Cálice de Fogo de J. K. Rowling; Lia Wyler pela Rocco (2001)
>>> Livro de Bolso - Mulheres Apaixonadas de D. H. Lawrence pela Abril Cultural (1979)
>>> Processo Sancionador e Mercado de Capitais de Daniel Kalansky; Eli Loria pela Quartier Latin (2016)
>>> Uma Arte de Amar Para os Nossos Tempos de Jean-Yves Leloup pela Vozes (2002)
>>> Manual Prático de Ginecologia e Obstetrícia de Gian Carlo Di Renzo pela Elsevier
>>> Livro - A Escriba - Inspirado Em Fatos Históricos de Antonio Garrido pela Suma de Letras (2009)
>>> Livro de Bolso - A Idade da Razão de Sarte pela Abril Cultural (1979)
>>> Um Sorriso Ou Dois de Frederico Elboni pela Benvira (2014)
>>> Livro de Bolso - O Sol Também Se Levanta de Ernest Hemingway pela Abril Cultural (1980)
>>> Livro - Fernando Pessoa, o Menino da Sua Mãe de Amélia Pinto Pais pela Companhia das Letras (2009)
>>> Beyond Students Book Premium Pack-a2 de Rebbeca Robb Benne; Rob Metcalf; Robert Campbell pela Macmillan Education (2015)
>>> Livro de Bolso - O Leopardo de Giuseppe Tomasi Di Lampedusa pela Abril Cultural (1979)
>>> Livro o Ateneu de Raul Pompéia pela Atica (1996)
>>> Livro - Nós Estamos Grávidos de Maria Tereza Maldonado pela Integrare (2010)
>>> Minidicionário Aurélio da Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira pela Nova Fronteira (1993)
COLUNAS

Sexta-feira, 16/7/2004
Parati, Flip: escritores, leitores –e contradições
Julio Daio Borges

+ de 20600 Acessos
+ 5 Comentário(s)

Se me contassem, eu não acreditaria. "Estou me sentindo uma rockstar", desabafou Rosa Montero, a autora espanhola de A louca da casa, depois de ser insistentemente abordada por crianças, jovens e adultos nas ruas de Parati - gente atrás de autógrafos, uma palavra amiga ou um mero afago gentil.

Chico BuarqueIsso não é comum entre escritores. Normalmente pensam como Chico Buarque, que, em Budapeste, declarou o óbvio: "A literatura não precisa se exibir". Depois teve de se corrigir, diante de Liz Calder, a idealizadora da Flip (Festa Literária Internacional de Parati): "Realmente, [essa declaração] talvez seja 'anti-Flip' (...) Pessoalmente, eu acho que o escritor tem de se mostrar, ir ao bar, sair por aí. Os escritores são bichos muito esquisitos".

São mesmo. E é impressionante que haja tanta gente interessada neles. Martin Amis, um dos mais conhecidos escritores ingleses das últimas décadas, tremia visivelmente diante da platéia - e, ao ler a si mesmo, enrolava a língua. Era evidente: fora do Brasil e fora da Flip, nunca tinha passado por aquilo. "Para Martin, o escritor é aquele sujeito que se sente mais vivo quando está sozinho", havia dito Isabel Fonseca, sua esposa, na noite imediatamente anterior.

Isabel FonsecaEu mesmo tive meu momento Quase Famosos e não me esqueci. Foi por causa de Caco Belmonte que, hospedado na mesma pousada, durante o café-da-manhã, cuspiu meu nome e meu sobrenome, tecendo inclusive loas ao Digestivo, quando eu apenas lhe informei que me chamava "Julio" e que vinha de "São Paulo Capital"...

Já o Angeli - que não é escritor, mas que em Parati era como se fosse - sorriu largamente e apertou minha mão, quando, passando-lhe meu cartão, contei que havia resenhado a nova edição de Wood & Stock. Mesmo o Verissimo, a celebridade mais evocada e mais reconhecível (e também a mais muda), demonstrou algum interesse e leu atentamente o nome do site, enquanto apalpava os relevos com dedos finos.

Rosa Montero"No início, havia as pessoas que gostavam de falar e as que não gostavam de falar. Nós, escritores, não gostávamos de falar, então optamos por escrever. Acontece que agora [com eventos assim] temos de voltar a falar, além de escrever", concluiu Rosa Montero, desconcertada mas, ao mesmo tempo, decidida.

"Eu acho que tem a ver com a explosão da mídia. De repente, o jornal de domingo, que era o mais 'grosso' da semana, virou o padrão. E os jornalistas - para preencher os espaços vazios - descobriram que têm de escrever até sobre nós... escritores", ponderou Martin Amis.

Ian McEwan"Não posso reclamar: viajo pelo mundo, conheço pessoas ótimas, hospedo-me em bons hotéis (...) No começo, eu me cansava de ter de explicar a mim e a minha obra. Até que, uma vez, escrevi um livro com prefácio - contendo todas as explicações. Não adiantou: as pessoas me pediam para explicar o prefácio; ou seja, me pediam para dar explicações sobre as explicações", arrematou Ian McEwan.

Então era essa a contradição mais flagrante da Flip: os escritores, por timidez ou por algum outro motivo, optaram pela escrita como profissão; não previam, porém, eventos literários e muito menos uma festa dessa magnitude, em que fossem - justamente ao contrário do que sempre foram - o centro das atenções.

"Virou um circo", confidenciou-me, à boca pequena, um certo editor de cultura. "Meu caro, você me perguntou se eu ia a Parati, mas eu não vou: não sou escritor", confidenciou-me, por e-mail, um outro. Os dois estavam lá. Mas tinham razão: havia, igualmente, à maneira de João Ubaldo Ribeiro, um certo constrangimento no ar...

Ian McEwan, Martin Amis e Michel Laub

Eu mesmo cutuquei Michel Laub que, de repente, para mim, surgiu entre um pipoqueiro e outro, na Praça da Matriz: "Michel, por que você não está lá [apontei para a Tenda dos Autores]? Você é mais escritor do que muitos 'escritores' por aí..." (Eu estava me referindo a Marcelino Freire, Joca Reiners Terron, João Paulo Cuenca e até a Adriana Lisboa.) Michel sorriu e se limitou a me informar que estaria mediando a mesa de Ian McEwan e Martin Amis. (Para qualquer pessoa minimamente esclarecida, a mesa mais importante da Flip...)

Escritores, embora evitem os holofotes, são seres extremamente vaidosos - e essa era a segunda contradição. "Muita gente se mete a escrever diários e a tomar anotações quando adolescente ou mesmo criança. Os escritores, também. A diferença é que as pessoas normais acabam superando essa fase; os escritores, não. Nesse sentido, eles são eternamente adolescentes - adolescentes que não conseguiram se livrar do diário" (Martin Amis, na coletiva).

Martin AmisOs escritores não são normalmente homenageados, muito menos valorizados de maneira espontânea, por seus leitores. Então quando o são, sempre surge alguém com uma lista de injustiças e de injustiçados. Eu tinha obviamente a minha: queria ver mais a "geração internet" (embora não aprecie os blogs); queria ver a Ana Elisa Ribeiro (embora ela estivesse dando a luz); queria ver o Fabrício Carpinejar; e queria que os jornalistas fossem considerados tão escritores quanto os "autores" da Flip.

É verdade que os escritores não têm geralmente sido prioridade nos mais variados meios. E é verdade, também, que essa "prioridade" precisa ser invertida de vez em quando. Mas, na Flip, os "autores" tinham - por vezes - uma ascendência desrespeitosa e uma desnecessária supremacia. Havia cadeiras reservadas para eles em todo lugar; e eu vi um sujeito entrando num restaurante aos berros porque uma suposta "mesa dos autores" havia sido inadvertidamente ocupada...

Paul AusterEnquanto isso, uma jornalista da revista Simples se aproximava de mim falando baixinho e perguntando se eu poderia escrever sobre seu livro. Ela era praticamente "autora", mas não tinha "acontecido" ainda - e não passava, portanto, de uma reles "jornalista", não desfrutando de nenhum privilégio especial por isso...

Era a terceira contradição da Flip. Se qualquer pessoa pode publicar um livro (ainda que pague por isso), por que os "autores" eram deuses na Flip e por que os "não-autores" eram cidadãos de segunda categoria? "Para escrever meu novo livro, eu me aproximei de um neurocirurgião muito cortês que me permitiu acompanhá-lo na sua rotina. Pude estar a seu lado inclusive nas cirurgias. Eu me paramentava, me vestia de branco e atravessava aqueles corredores longos onde os familiares se acumulam. Eles me olhavam e pensavam: 'Lá vai o doutor...' Então eu me sentia 'grande', eu me sentia 'maior'..." (Ian McEwan).

Colm TóibínA quarta contradição diz respeito ao público. Se o Brasil é costumeiramente lembrado como um "país de não-leitores", como explicar os ingressos esgotados, os auditórios abarrotados, o respeito reverente... a escritores! E eu não estou falando apenas de Chico Buarque (que foi apontado, pela organização, como um dos maiores "autores" contemporâneos, mas - que me perdoe a Flip - não é, não). Nem estou falando de Caetano Veloso, que pouca gente viu passar este ano. Estou falando de Paul Auster - que deu aulas de cordialidade, sendo acompanhado por olhares silenciosos, quando circundava a Praça com sua esposa (sem quaisquer esquemas de segurança).

Afinal, por mais que se despejem críticas à Flip, ela conseguiu deslocar mais de 10 mil pessoas até Parati, para 5 dias com escritores tão obscuros quanto Colm Tóibín, Margaret Artwood e Pierre Michon. E eu vi uma moça, de uns 25 anos, tentando encontrar passagens (lidas no telão) do Ulysses de Joyce; e eu ouvi uma discussão - cansativa, vá lá - entre um casal gay, onde um era "o crítico" e outro era "o artista"; e eu encontrei um casal de meia-idade - morando em São Paulo, mas de Recife - que embarcava em elogios desbragados aos escritores. E não eram do meio; e não escreviam uma linha. Eram leitores. Lei-to-res.

"Sim, eu vejo um bom momento para a literatura contemporânea. Na verdade, não sei se há muitas pessoas lendo, mas, certamente, há muitas escrevendo." (Paul Auster)

"Quando publiquei meu primeiro livro, literatura era coisa para uma pequena esfera. Então não me incomodo se, de repente, esse tempo voltar - e a literatura se restringir, novamente, a apenas algumas pessoas -, eu me sentiria confortável do mesmo modo." (Martin Amis)


Julio Daio Borges
São Paulo, 16/7/2004


Mais Julio Daio Borges
Mais Acessadas de Julio Daio Borges em 2004
01. Parati, Flip: escritores, leitores –e contradições - 16/7/2004
02. Mens sana in corpore sano - 14/5/2004
03. 1964-2004: Da televisão à internet – um balanço - 30/4/2004
04. Por que a crítica, hoje, não é bem-vinda - 25/6/2004
05. Ensaio de interpretação do Orkut - 20/8/2004


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
13/7/2004
17h16min
De um modo geral acho que o encontro esconde seus defeitos no nome, afinal é uma festa literária, não é um encontro acadêmico propriamente dito. Também fiz alguns comentários aqui.
[Leia outros Comentários de Arquimimo Novaes]
14/7/2004
23h29min
Sou um cara meio exigente. Só falei teu nome e comentei sobre o Digestivo porque realmente os acompanho. Leitura obrigatória.
[Leia outros Comentários de Caco Belmonte]
22/7/2004
09h23min
Daio, você conseguiu dar uma visão geral da FLIP. Também estive lá, assisti à maioria das mesas e acho que a festa foi extremamente positiva. Claro que alguns autores foram maravilhosos e outros, como você sitou, ninguém sabe porque estavam lá. Mas o que realmente me impressionou foi a quantidade de gente jovem nas palestras (sem falar na do Chico ou do Caetano). Isso é um ótimo sinal! Espero que a FLIP continue, pois mesmo com erros e acertos, me parece uma iniciativa muito corajosa em relação à literatura. Nos dias em que a Flip aconteceu, a cidade de Paraty estava num clima de palavras efervescentes!
[Leia outros Comentários de Vera Carvalho]
23/7/2004
23h12min
Julio, muito boa a tua "versão" da Flip. Acho a festa super válida, com seus erros e acertos. Qualquer coisa que estimule a leitura é positiva, e foi bom ver quanta gente jovem compareceu.
[Leia outros Comentários de Alice Sampaio]
11/8/2006
21h24min
Eu vejo a FLIP mais como um encontro anual de amigos. Muita gente vai a Parati para conhecer "chapas" virtuais, divulgar seus próprios projetos, aproveitar as noites festivas, do que realmente para ir às palestras e mesas. Bom, ao menos foi o que eu vi alguns escritores e conhecidos meus literatos dizerem, tempos atrás. Isso não tira a importância do evento, claro. Mas não se pode negar que a FLIP é quase um "Rock in Rio" literário. Quero muito poder ir ao festival, se não na próxima edição, na de 2008. Me arrependo de não ter me programado pra ir este ano. Justo o ano que o Hitchens veio e o Safran Foer, autores de dois dos melhores livros que li este ano.
[Leia outros Comentários de Rafael Rodrigues]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Samuel Klein e Casas Bahia: uma Trajetória de Sucesso
Elias Awad
Novo Seculo
(2005)



Domando o Dragão
Jack Perkowski
Landscape
(2008)



O naturalista da evolução das espécies
André Campos Mesquita
Escala
(2011)



Matematica - Volume Unico -sebo Tradição
Gelson Iezzi; Osvaldo Dolce; David Degenszajn
Atual Didáticos
(2015)



Memórias de um Sargento de Milícias - Série Bom Livro
Manuel Antônio de Almeida
Ática
(1992)



On stage volume 1 M.P. + CD
Amadeu Marques
Ática
(2011)



Chã
Enoo Miranda
Cepe
(2018)



White Hot
Carla Neggers
Pocket Books
(1998)



Como Conseguir um Emprego no Brasil do Século XXI
Thomas A. Case
Catho
(2004)



Schlage Die Trommel Und Furchte Dich Nicht
Malzan
Publisher Not Specified
(1991)





busca | avançada
64351 visitas/dia
1,8 milhão/mês