A importância do nome das coisas | Adriana Baggio | Digestivo Cultural

busca | avançada
39917 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Se for viajar de navio...
>>> Incompatibilidade...
>>> Alguns Jesus em 10 anos
>>> Blogues: uma (não tão) breve história (II)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I)
>>> Asia de volta ao mapa
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
COLUNAS

Quinta-feira, 5/5/2005
A importância do nome das coisas
Adriana Baggio

+ de 24500 Acessos
+ 3 Comentário(s)

Ao dar nome às coisas, o ser humano se apropria delas. Elas passam a fazer parte da cultura, do cotidiano, das posses das pessoas. Hoje em dia, isso é bem mais difícil. Quando nascemos, a maioria das coisas com as quais teremos contato em nossa vida já tem um nome definido.

Na infância, ainda buscamos encontrar uma lógica entre o nome e a coisa a que ele se refere. Apesar de desqualificarem estas e outras atitudes normais das crianças, elas estão em um nível muito mais avançado do que os adultos, que já tiveram a oportunidade de estudar bastante, ler diversos livros, assistir muitas aulas, ter contato com os maiores pensadores da humanidade e mesmo assim não pensam sobre as palavras. Afinal, ao questionar porque algo se chama assim ou assado, as crianças retomam um dos grandes dilemas da humanidade. De Platão a Michel Foucault, essa relação entre o nome e ao que ele se refere tem sido investigada por pessoas muito sábias e inteligentes, como lingüistas, filósofos e crianças.

Mas como as coisas que conhecemos passaram a ter esses nomes? Ultimamente, as novas palavras são formadas através de junções, reduções, adaptações, utilizações em outros contextos. Essas daí, por sua vez, surgiram de outras, muito mais antigas, que têm origem nas primeiras tentativas de comunicação entre os homens. Nessa época remota, talvez as palavras tenham sido formadas pelos sons que cada objeto, animal ou pessoa emitia. "Mãe" não lembra os primeiros sons dos bebês ao mamar?

Fui atrás de algumas referências para elaborar essa coluna e dar um pouco mais de consistência às minhas reflexões. Lembrei de duas leituras que têm tudo a ver com esse assunto, mas não consegui encontrar os textos. Uma angústia isso de tentar lembrar de alguma coisa e não poder achar o lugar onde a informação está disponível. Revirei a pasta com os "xerox" de aulas dos mais diversos cursos e busquei na memória o nome de um livro para criança em que um menino dava nomes diferentes aos objetos. Santa internet, encontrei em um blog a menção à história infantil, mas não tive a mesma sorte com o texto acadêmico.

O Marcelo de Marcelo, Marmelo, Martelo, escrito em 1976 por Ruth Rocha, vivia se indagando sobre o nome das coisas: "Por que a colher se chama colher e não mexedor?". Para Marcelo, o nome deveria ter a ver com o objeto. Ou seja, a forma deve ter relação com o conteúdo. Mesmo que, para Marcelo, a forma fosse a função da colher e não seu desenho ou o material do qual é feita.

A outra referência, que eu busquei e não consegui encontrar (se alguém reconhecer, por favor indique a origem), é sobre a relação entre as palavras e as características do que elas significam. Grande parte delas parece carregar em seus sons e letras o espírito do que designam. No entanto, isso não acontece com outras. Não lembro quem argumentou que as palavras noite e dia em francês, por exemplo, não combinam com o referente. Nuit é uma palavra aberta, infinita, clara como o dia. Jour tem um som fechado, abafado, que se encerra em um sussurro, muito mais adequado para definir a escuridão do que a luz. Acho que em português as coisas parecem estar no lugar certo: dia é claro, aberto, e noite é mais fechada, escura.

Até Santo Agostinho, em suas Confissões, ficou intrigado com a origem das palavras. De onde elas vêm se, mesmo nunca tendo visto o objeto a que se referem, ele consegue saber do que se trata? Para o filósofo, as palavras são obra de Deus e já existem dentro de nós, fazem parte de nossa alma. Ele também argumenta que as pessoas relacionam as palavras e as coisas de forma arbitrária. Vemos alguém chamar uma xícara de xícara e decoramos sua designação. Como não sabemos a origem, não pensamos muito sobre essa relação. Apenas aceitamos como mais uma das inevitáveis regras necessárias de se aprender. Naturalmente, não paramos para perceber a beleza das palavras e os possíveis significados que as formas podem agregar ao conteúdo. As palavras acabam banalizadas e não se presta mais atenção nelas.

É possível ver as palavras de uma maneira muito mais rica em certas manifestações, como a literatura e a publicidade. Que não me crucifiquem por colocar arte tão nobre ao lado desta vil atividade. Mas a publicidade empresta da literatura os recursos que a fazem tão atrativa para, é lógico, atingir seus objetivos. Na publicidade, assim como na literatura, o nome das coisas é algo fundamental. Tem até um poema - outra referência que não consigo lembrar! - que fala sobre os nomes diferentes que os anúncios dão para coisas, normalmente tabus, que estamos acostumados a chamar de outro jeito. Menstruação é fluxo, velhice é melhor idade, morte é falta, e por aí vai.

Esse procedimento, o eufemismo, é mais comum do que dar uma de Marcelo, Marmelo, Martelo. Mas uma loja de eletrodomésticos e móveis decidiu inovar e resolveu mudar o nome dos objetos para conseguir se diferenciar em meio aos comerciais tão gritantemente (perdoem-me o trocadilho) parecidos. Você já viu o anúncio do Magazine Luiza? No filme, colchão é chamado de "noite bem dormida"; computador é "família bem informada" e secador de cabelos virou "elogio portátil".

A estratégia desses comerciais é "tangibilizar" o benefício. Traduzindo: com esses novos nomes, a loja mostra o que as pessoas vão ganhar comprando determinado produto. Está tudo relacionado com o tema maior da campanha publicitária, "ser feliz". Ao chamar colher de "mexedor" o Marcelo da Ruth Rocha "tangibilizava" o benefício do objeto, explicitando a sua função. (Será que ele cresceu e virou redator publicitário?) Para conferir os novos nomes para as coisas que você já conhece, dê uma olhadinha no dicionário que a loja preparou...

É gostoso brincar com os nomes das coisas. Mas é preciso lembrar que nem sempre cabe usar a retórica ou outros recursos para deixar o nosso discurso mais atrativo. Algumas coisas têm suas definições muito claras e estabelecidas e não devem ser modificadas, porque é importante que a sua essência seja mantida. Quando o presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti, chama estupro de "acidente", está denominando de "acontecimento casual, fortuito" (Houaiss) um dos piores crimes - atitude deliberada - que se pode cometer contra um ser humano.


Adriana Baggio
Curitiba, 5/5/2005


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Dos sentidos secretos de cada coisa de Ana Elisa Ribeiro
02. Bates Motel, o fim do princípio de Luís Fernando Amâncio
03. Luz sob ossos e sucata: a poesia de Tarso de Melo de Jardel Dias Cavalcanti
04. O espírito de 1967 de Celso A. Uequed Pitol
05. Omissão de Ricardo de Mattos


Mais Adriana Baggio
Mais Acessadas de Adriana Baggio em 2005
01. Traficante, sim. Bandido, não. - 16/6/2005
02. Por que eu não escrevo testimonials no Orkut - 6/10/2005
03. A importância do nome das coisas - 5/5/2005
04. O erótico e o pornográfico - 20/10/2005
05. É preciso aprender a ser mulher - 4/8/2005


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
9/6/2005
14h16min
Lendo sua coluna sobre a "importância do nome das coisas", lembrei-me de algo qui li na infância, que tem a ver com esse assunto, vou tentar resumir: conta a história de um certo marceneiro que tinha a mania de apelidar suas ferramentas, o martelo era o "toc, toc", o formão "roc roc" e o serrote era o "vaivem". Este tem até uma historia interessante: certo dia chega à marcenaria um menino dizendo que o pai o havia mandado buscar emprestado o serrote. O marceneiro já cansado de emprestar e não receber de volta, mandou o menino voltar e dizer ao pai que: - se vaivém, fosse e viesse, vaivém ia, mas como vaivém, vai e não vem, vaivém não vai...
[Leia outros Comentários de carlos j. b. fonseca]
26/10/2005
10h47min
Adriana, o Veríssimo escreveu, há muuito tempo, uma crônica bem humoradíssima sobre isso. Me lembro que ele falava sobre palavras como sílfide, borboleta, falava sobre palavras leves e pesadas, tudo com muito bom humor e criatividade. Só que eu tb sofro dessa sua doença: leio leio e leio e depois procuro procuro e procuro onde foram parar os textos mas nunca encontro. Abs.
[Leia outros Comentários de Ana Claudia]
28/3/2010
17h03min
Procurando justificativas para contar aos pais de meus alunos a importância do trabalho corporal que realizo na escola, cheguei neste seu bom texto de 5 anos de idade. Que bom que as palavras driblam o Deus Cronos que rege nosso planeta.
[Leia outros Comentários de dafne michellepis]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




FILHOS PRÓDIGOS
LYGIA FAGUNDES TELLES
CULTURA
(1978)
R$ 7,90



O QUE SAO RECURSOS HUMANOS
FLAVIO DE TOLEDO
BRASILIENSE
R$ 8,00



A ÚLTIMA MISSÃO
ANTHONY BURGESS
CÍRCULO DO LIVRO
R$ 12,00



A EXTRAORDINARIA PRESENÇA DE JESUS
SILAS MALAFAIA
CENTRAL GOSPEL
R$ 6,00



ADULTÉRIOS
WOODY ALLEN
L&PM
(2012)
R$ 4,80



BIRIGUI - COMPROMISSO COMO FUTURO
RENATO CORDEIRO
GRÁFICO
(1984)
R$ 25,68



TECNOLOGIA DE INFORMAÇÃO
ALBERTO LUIZ ALBERTIN ROSA MARIA DE MOURA ALBERTI
ATLAS
(2005)
R$ 10,00



COLEÇÃO PRÊMIOS NOBEL DE LITERATURA - O PROPRIETÁRIO
JOHN GALSWORTHY
DELTA
(1964)
R$ 7,00



AS REGRAS DA SEDUÇAO
MADELINE HUNTER
ARQUEIRO
(2013)
R$ 9,90



FRUTAS BRASIL FRUTAS
SILVESTRE SILVA HERNÂNI DONATO
D P L
(1991)
R$ 98,00





busca | avançada
39917 visitas/dia
1,1 milhão/mês