Verdadeiros infiltrados: em defesa de Miami Vice | Marcelo Miranda | Digestivo Cultural

busca | avançada
80332 visitas/dia
2,6 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Projeto aborda riqueza da tradicional Festa da Carpição
>>> Canto dos Recuados - espetáculo musical mergulha na cultura afrobarroca
>>> Primeiro Roteiro
>>> Festival Cine Inclusão abre inscrições de curtas-metragens com o tema terceira idade
>>> Musical Guerra de Papel estreia dia 3 de setembro no Teatro Viradalata
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
>>> Poesia como Flânerie, Trilogia de Jovino Machado
>>> O mundo é pequeno demais para nós dois
>>> Ao pai do meu amigo
>>> Paulo Mendes da Rocha (1929-2021)
>>> 20 contos sobre a pandemia de 2020
>>> Das construções todas do sentir
>>> Entrevista com o impostor Enrique Vila-Matas
>>> As alucinações do milênio: 30 e poucos anos e...
Colunistas
Últimos Posts
>>> Unchained by Sophie Burrell
>>> Deep Purple em Nova York (1973)
>>> Blue Origin's First Human Flight
>>> As últimas do impeachment
>>> Uma Prévia de Get Back
>>> A São Paulo do 'Não Pode'
>>> Humberto Werneck por Pedro Herz
>>> Raquel Cozer por Pedro Herz
>>> Cidade Matarazzo por Raul Juste Lores
>>> Luiz Bonfa no Legião Estrangeira
Últimos Posts
>>> O cheiro da terra
>>> Vivendo o meu viver
>>> Secundário, derradeiro
>>> Caminhemos
>>> GIRASSÓIS
>>> Biombos
>>> Renda Extra - Invenção de Vigaristas ou Resultado
>>> Triste, cruel e real
>>> Urgências
>>> Ao meu neto 1 ano: Samuel "Seu Nome é Deus"
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Dia Marisa: todas as mulheres merecem
>>> O Filho da Noiva
>>> O rei nu do vestibular
>>> Selvageria Nunca Sai de Moda
>>> Você cumpre as promessas de final de ano?
>>> A cabeça de Steve Jobs
>>> O sublime Ballet de Londrina
>>> A vida subterrânea que mora em frente
>>> Por que as curitibanas não usam saia?
>>> Incubus - Circles
Mais Recentes
>>> Pimenta Neves - uma Reportagem de Luiz Octavio de Lima pela Scortecci (2013)
>>> O Estado do Planeta de Carlos Gabaglia Pena pela Record (1999)
>>> Escassez De Razão de Liberdade pela Liberdade (2021)
>>> Escola De Vendas K.L.A de Ser Mais pela Ser Mais (2021)
>>> A Estratégia Do Oceano Azul de Kim Mauborgne pela Elsevier (2008)
>>> Confissões de um Vira-lata de Origenes Lessa - Orlando Pedroso pela Global (2012)
>>> ESocial. Você E Sua Empresa Estão Preparados? de Leader pela Leader (2021)
>>> Ensaios E Conferências de Vozes pela Vozes (2021)
>>> Inocência - Série Bom Livro de Visconde de Taunay pela Ática (2011)
>>> Dicionário de Mitologia Grega e Romana de Mário da Gama Kury pela Zahar (1990)
>>> Mitologia Grega - Vol II de Junito de Souza Brandão pela Vozes (1997)
>>> Como Se Preocupar Menos Com Dinheiro de John Armstrong pela Objetiva (2012)
>>> Dicionário de Maçonaria de Joaquim Gervasio Figueiredo pela Pensamento (1996)
>>> Psicologia e Alquimia de C. G. Jung pela Vozes (1994)
>>> Símbolo, Rito, Iniciação de Vários Autores pela Ícone (1995)
>>> Sketchbook de Will Conrad pela Criativo (2013)
>>> Ensaios Psicanalíticos de Imprensa Livre pela Imprensa Livre (2021)
>>> João Turin - Vida, Obra, Arte - Vol 1 de José Roberto Teixeira Leite pela Nossa Cultura (2014)
>>> Leonard da Vinci. L de Vários pela Fondation Pierre Gianadda (2021)
>>> Ensinando Sobre O Holocausto Na Escola de Artmed pela Artmed (2021)
>>> Bye Bye Kitty!!! de David Elliott, Tetsuya Ozaki pela Yale University Pres (2011)
>>> Ensino Jurídico E A Formação Do Bacharel Em Direito de Livraria do Advogado pela Livraria do Advogado (2021)
>>> Frida By Ishiuchi de Miyako Ishiuchi pela RM Verlag (2014)
>>> Enthüllungen Aus Brasiliens Geschichte de Ordem do Graal pela Ordem do Graal (2021)
>>> Managing Our Natural Resources - 5ª Ed. de William G. Camp pela Cengage Learning (2008)
COLUNAS >>> Especial Melhores de 2006

Segunda-feira, 15/1/2007
Verdadeiros infiltrados: em defesa de Miami Vice
Marcelo Miranda

+ de 3900 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Venho acompanhando, como sempre, as indicações e distribuição de prêmios da indústria norte-americana de cinema - é Globo de Ouro aqui, sindicatos de atores e diretores ali, associações e grupos acolá, todos dando palpites sobre os melhores filmes do ano - os melhores feitos nos EUA, vale registrar.

(Existe sempre aquela categoria sem-vergonha do "filme estrangeiro", que diplomaticamente elege um título de fora do país para definir como "o melhor". Estranho e meio picareta foi ver o Globo de Ouro deste ano indicar, entre cinco finalistas, dois filmes de produção americana - Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood, e Apocalypto, de Mel Gibson - unicamente por não terem diálogos em inglês. Mas divago...).

O título mais em alta na temporada de premiações, sem maiores dúvidas, vem sendo mesmo Os Infiltrados, novo trabalho do mestre Martin Scorsese. Marca seu retorno ao universo violento e traiçoeiro dos mafiosos urbanos contemporâneos, depois de mergulhos no tempo e nos épicos que foram Gangues de Nova York e O Aviador. O filme é realmente muito do que se tem dito, trabalho de um artesão dos mais competentes em atividade e merecedor de absoluto respeito. Porém, o que este humilde colunista/crítico não consegue compreender é porque todas essas listas de prêmios vêm ignorando aquele que certamente é o grande filme feito nos EUA em 2006: Miami Vice, de Michael Mann. É aqui que estão, de fato, os verdadeiros infiltrados.

Miami Vice


Para começar, infiltrados no sentido "scorsesiano" do termo: assim como no longa de Scorsese, em Miami Vice há policiais inseridos no mundo do crime com o intuito de informar a seus superiores das artimanhas que estão sendo tramadas - e o limite entre a fidelidade a um ou outro lado é muito tênue. E há outro tipo de "infiltração" no filme, que é a do próprio diretor Michael Mann. Junto a David Cronenberg, M. Night Shyamalan, Clint Eastwood e o próprio Martin Scorsese, Mann se tornou um dos maiores contrabandistas de idéias e formas de se fazer cinema no cenário americano. Só que, diferente dos demais citados, que guardam, cada um à sua forma, jeitos de lidar com esse contrabando voltados mais a um certo classicismo, Mann aposta em escolhas radicais de construção de imagem e narrativa para atingir seus objetivos. Neste sentido, ele se firma como um autêntico autor dentro de uma indústria que prioriza o pouco pensar e a baixa inteligência - e se firma mergulhando na alma dos temas e abordagens que escolhe seguir.

Vem sendo assim desde o início da carreira. Michael Mann começou escrevendo para seriados de televisão, depois estreando como diretor de longas também na tela pequena. Data de 1981 o primeiro trabalho para cinema - Ruas de violência, iniciando um estilo a ser depurado com o passar dos anos e que atingiria o ápice com Miami Vice. No meio do caminho, vieram novos trabalhos de TV (inclusive a criação do seriado homônimo ao filme de 2006) e de cinema, entre eles Caçador de Assassinos (primeira versão de Dragão Vermelho, lançado em 1986), o popularíssimo O último dos moicanos (1992) e a impressionante série de grandes e reconhecidos projetos, que foram Fogo contra fogo (1995), O Informante (1999), Ali (2001), Colateral (2004) e, finalmente, Miami Vice. Em todos, sem exceção, Mann deixou marcas indeléveis de um verdadeiro artista, de um diretor firmemente convicto das próprias crenças e que se dispõe a ir o mais fundo possível naquilo a que se propõe.

Fiquemos, sem grandes floreios, no supracitado Miami Vice. É, a princípio, um filme policial sobre dois agentes em investigação contra o tráfico de drogas. Porém, Mann transforma o banal em sublime. Pega a dupla protagonista e a coloca num emaranhado de dramas pessoais e profissionais que, por si só, resultariam num potencial bom trabalho. Somado a isso, Mann trabalha com o tempo e a imagem com habilidade ímpar. Naquele visual proporcionado pela câmera digital (Mann é talvez o melhor utilizador desse recurso como forma de linguagem), elipses na narrativa vão e vêm. Não existe uma cronologia exata das coisas. O filme é narrado em ordem clássica (começo-meio-fim), mas dentro dessa ordem não existe ordem. Vale tudo para atingir o efeito dramático.

O grande montador Walter Murch já escreveu, no obrigatório Num piscar de olhos, que a maior prioridade da montagem fílmica deve ser a emoção - e não necessariamente a lógica, a continuidade ou o ritmo. Murch sabe o que diz. Montou, entre outros, obras-primas como O poderoso chefão 2 e Apocalypse Now. Escreve ele: "O que você quer que o público sinta? Se ele sente exatamente o que você queria durante todo o filme, você fez o máximo que poderia fazer. O que será lembrado não será a edição, a câmera, as atuações ou mesmo o enredo, mas como o público sentiu tudo isso (...) Se tiver que abrir mão de alguma coisa, nunca abra mão da emoção em benefício do enredo".

É justamente isso que Michael Mann faz na sua obra. Especialmente em Miami Vice, auxiliado pelo estupendo trabalho da dupla de montadores William Goldenberg e Paul Rubell. Ele preza a emoção, o impacto do que está sendo contado, acima daquilo que é contado. Porque contar, qualquer um pode. Contar bem é para poucos. O cinema de Michael Mann, grosso modo, torna-se arte na capacidade do diretor em nos narrar de um jeito incrivelmente original e particular histórias que não são nem trarão novidade alguma. É um detetive atrás de um psicopata (Caçador de assassinos), é o agente experiente da polícia num jogo de gato e rato com o expert em assalto a banco (Fogo contra fogo), é o homem amargurado perante o grande poder das multinacionais (O Informante), é a vida cheia de altos e baixos de um grande esportista (Ali), ou então o mercenário e seu refém num thriller de suspense e perseguição na noite (Colateral).

Mann consegue, nestes temas todos (e tão batidos), extrair sensibilidade e singeleza, por mais violentos que sejam os universos retratados. Poucas vezes no cinema o embate entre dois homens peritos no que fazem teve tamanha força como no conflito entre Al Pacino e Robert DeNiro em Fogo contra fogo, para muitos a obra-prima de Mann. Ali está a quintessência moral e temática de seus filmes: o choque nunca pacífico entre um personagem solitário contra forças iguais ou acima de sua capacidade de enfrentamento e entendimento, resultando numa quase metamorfose desse mesmo personagem naquilo que ele precisa combater. Isso existe em todos os filmes, e a partir disso Mann vai montar o espetáculo que é seu cinema - não no sentido espetaculoso do termo, mas sim na acepção do prazer estético, da fruição, do gosto pelo que se vê projetado na tela.

Clique acima e assista ao trailer de Miami Vice

Longe de mim querer desvalorizar Os Infiltrados. Gosto do filme. Há quem deteste com ódio mortal, caso do crítico do Estadão Luiz Carlos Merten. Não é meu caso. Sou defensor, inclusive, dos dois filmes anteriores do diretor. Muitos não gostaram dos projetos épico-intimistas recentes de Scorsese, dizendo que ele se afastou de suas obsessões como cineasta. Um pouco de injustiça e incompreensão, porque Gangues de Nova York e O Aviador não são tão diferentes de outros trabalhos maravilhosos seus, como Taxi Driver e Touro Indomável. São, sim, igualmente calcados no transe de personagens tão grandes quanto o mundo que habitam, mas tão pequenos e mesquinhos quanto os sentimentos que os aprisionam neste mesmo mundo. Os Infiltrados é isso tudo também, e talvez ainda mais. No fundo, Scorsese está sempre falando de uma América criada, desenvolvida e mantida sob atos violentos.

Porém, como projeto ideológico e estético, como construção, criação e desenvolvimento de linguagem, como mergulho visual e narrativo num universo ao qual não temos muita certeza de onde estar pisando, Miami Vice me parece um tipo de cinema bem mais desenvolvido e essencial do que Os Infiltrados. Michael Mann já demonstrou influências fortes de outros diretores, inclusive de Scorsese. Mas há tempos ele deixou de ser discípulo para se tornar mestre. Só os participantes de sindicatos, associações, grupos e não-sei-mais-quem que julgam "os melhores do ano" ainda parecem não ter atentado para isso. Tudo bem. É característica do bom contrabandista passar despercebido por quem deveria estar de olho nele.


Marcelo Miranda
Belo Horizonte, 15/1/2007


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A Palavra Mágica de Marilia Mota Silva
02. Flexibilidade Histórica de Daniel Bushatsky
03. Aula de Português I: texto X gramática de Marcelo Spalding
04. Os beats e a tradição romântica de Guilherme Diniz
05. Dorian Gray abre o sótão: Orkut de Andréa Trompczynski


Mais Marcelo Miranda
Mais Acessadas de Marcelo Miranda em 2007
01. A política de uma bunda - 5/4/2007
02. Conceição: onde passar, não perca - 19/2/2007
03. O criado e o mordomo: homens do patrão - 26/7/2007
04. Cão sem dono e Não por acaso: pérolas do Cine PE - 10/5/2007
05. Verdadeiros infiltrados: em defesa de Miami Vice - 15/1/2007


Mais Especial Melhores de 2006
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
11/1/2007
02h53min
Rapaz, veja que coisa engraçada. Alguns dos filmes a que mais gostei de assistir nos últimos 10 anos foram dirigidos pelo Mann, e eu nem sabia disso. "O informante", "Ali" e "Colateral" foram filmes que gostei demais de ver. Agora que descobri isso, vou pegar o dvd de "Miami Vice" tão logo tenha tempo pra assistir, além de tentar ver outros filmes dele também. Sobre a qualidade do texto, não há o que dizer: excelente!
[Leia outros Comentários de Rafael Rodrigues]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Para um Homem de êxito
Lídia Maria Riba
Vergara & Riba
(1999)



Direito Á Saúde
Alvaro Luis de A. S. Ciarlini
Saraiva
(2013)



Os Regimes de Bens no Novo Código Civil
Heloísa Helena Barbosa e Luiz P V de Carvalho
Espaço Jurídico
(2003)



Quem Mexeu no Meu Queijo? - 49ª Edição - Revista e Ampliada
Spencer Johnson M. D.
Record
(2005)



Kairós
Marcelo Rossi; Fábio de Melo
Principium
(2013)



O Sindicato Em um Mundo Globalizado
Jose Carlos Arouca
Ltr
(2003)



Furacão Elis
Regina Echeverria
Nórdica
(1985)



Perigos Que Rondam o Ministério
Richard Exley
Ucb
(2003)



Emílio Ou da Educação - 4ª Edição
Jean- Jacques Rousseau
Martins Fontes - Selo Martins
(2018)



Tatibitati e os Mitos da Floresta
Fatima Maia e Paulo Caldas Ilustrações
Typografia
(2010)





busca | avançada
80332 visitas/dia
2,6 milhões/mês