A política de uma bunda | Marcelo Miranda | Digestivo Cultural

busca | avançada
64744 visitas/dia
1,7 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Evento de reinauguração da Praça do Centro de Convenções da Unicamp
>>> Oficina Som Entre Fronteiras está com inscrições abertas
>>> Projeto “Curtas de Animação” com estudantes da zona rural de Valinhos/SP
>>> Novos projetos do Festival de Dança de Joinville promovem atividades culturais para 120 alunos
>>> Toca do Morcego anuncia agenda primavera/verão 2022/2023
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A pior crônica do mundo
>>> O que lembro, tenho (Grande sertão: veredas)
>>> Neste Momento, poesia de André Dick
>>> Jô Soares (1938-2022)
>>> Casos de vestidos
>>> Elvis, o genial filme de Baz Luhrmann
>>> As fezes da esperança
>>> Quem vem lá?
>>> 80 anos do Paul McCartney
>>> Gramática da reprodução sexual: uma crônica
Colunistas
Últimos Posts
>>> Marcelo Tripoli no TalksbyLeo
>>> Ivan Sant'Anna, o irmão de Sérgio Sant'Anna
>>> A Pathétique de Beethoven por Daniel Barenboim
>>> A história de Roberto Lee e da Avenue
>>> Canções Cruas, por Jacque Falcheti
>>> Running Up That Hill de Kate Bush por SingitLive
>>> Oye Como Va com Carlos e Cindy Blackman Santana
>>> Villa candidato a deputado federal (2022)
>>> A história do Meli, por Stelleo Tolda (2022)
>>> Fabio Massari sobre Um Álbum Italiano
Últimos Posts
>>> Baby, a chuva deve cair. Blade Runner, 40 anos
>>> Conforme o combinado
>>> Primavera, teremos flores
>>> Além dos olhos
>>> Marocas e Hermengardas
>>> Que porcaria
>>> Singela flor
>>> O cerne sob a casca
>>> Assim é a vida
>>> Criança, minha melhor idade
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Nuvem Negra*
>>> Discurso de William Faulkner
>>> Os Incríveis
>>> Erik Satie
>>> Ronnie James Dio em 1983
>>> O Leão e o Unicórnio
>>> O outro Carpeaux
>>> Something that grows
>>> Façam suas apostas
>>> Tempo de aspargos
Mais Recentes
>>> Dicionário de Psicologia de Roland Doron & Françoise Parot pela Ática (2001)
>>> Teologia da Criação de Sinivaldo S. Tavares pela Vozes (2010)
>>> Sou Péssima Em Matemática! de Béatrice Rouer pela Scipione (1992)
>>> Morte de um Inglês de Magdalen Nabb pela Bonobo (2009)
>>> English Grammar in Use: a Self-study Reference and Practice Book For.. de Raymond Murphy pela Cambridge (1999)
>>> Atlas Visual Compacto do Corpo Humano de Rúbia Yuri Tomita pela Rideel (1999)
>>> A Grande Batalha de Pietro Ubaldi pela Fundapu (1984)
>>> Curso Prático de Dança do Ventre de Fairuza e Yasmin pela Madras
>>> Ricardo Amaral Apresenta: Vaudeville - Memórias de Ricardo Amaral pela Leya (2010)
>>> Deltora: a Cidade dos Ratos - 3 de Emily Rodda pela Fundamento (2006)
>>> Wordstar 5 Guia do Usuário de José A. A. Ramalho pela Mcgraw-hil (1990)
>>> O Rei Leão e a Memória do Mundo de Salma Ferraz pela Furb (1998)
>>> Catálogo de Selos Brasil 81 de Diversos Autores pela Ave Maria
>>> Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll (adp:) Ana Maria Machado pela Atica (2010)
>>> Alter Jornal de Estudos Psicodinâmicos Vol XVIII N1 de Caiuby de Azevedo Marques pela Regina Lúcia Braga (1999)
>>> Fireworks Mx 2004 de Centro de Desenvolvimento Pessoal pela Do Autor (2003)
>>> Globalização do Turismo de Mário Carlos Beni pela Aleph (2003)
>>> É Proibido Chorar de J. M. Simmel pela Nova Fronteira (1977)
>>> Judas Iscariotes e Outras Historias de Leonid Andreiév pela Claridade (2004)
>>> Pastoreio e Compaixão - uma Contribuição à Pastoral Urbana a Partir... de Alonso Gonçalves e Natanael Gabriel da Silva pela Fonte (2013)
>>> Cinza de Fênix de Alcides Buss pela Insular (1999)
>>> As Soluções Finais de Adolfo Zigelli pela Lunardelli (1975)
>>> Lucíola de José de Alencar pela Ática (2001)
>>> O Que é Psicologia de Maria Luiza S. Teles pela Brasiliense (2003)
>>> Casais Em Reflexão de Antonio M Fernandes pela Paulinas (1982)
COLUNAS

Quinta-feira, 5/4/2007
A política de uma bunda
Marcelo Miranda

+ de 12100 Acessos
+ 4 Comentário(s)

O Cheiro do Ralo

A primeira imagem é a de uma imensa bunda, que toma a tela rebolando e se chacoalhando enquanto sua dona caminha pela rua. Estamos no universo de Lourenço Mutarelli, escritor e quadrinhista adaptado aqui pelo diretor Heitor Dhalia. Estamos no mundo de O cheiro do ralo. E quem não se dispuser a entrar nesse mundo, não terá uma boa experiência. Mas quem topar, sai perturbado.

Porque é muito fácil desgostar de O cheiro do ralo. Filme degradante sobre degradação, linguagem seca sobre a secura. É um objeto estranho na atual cinematografia brasileira, nada se assemelha a ele. E como qualquer objeto estranho, deve ser olhado e avaliado com estranheza - e é justamente disso que trata o filme: a estranheza de um homem torpe que encontra a própria humanidade na bunda de uma balconista de lanchonete.

Para mal ou bem, o filme é marcado pelo jeito muito próprio como o diretor Dhalia se coloca no encadeamento da narrativa e das imagens - ainda mais considerando o trabalho de afetação que foi Nina (2004), seu primeiro longa-metragem, em que a falta de sutilezas na construção da personagem principal e o contraponto excessivamente perverso simbolizado pela velha interpretada por Myriam Muniz o tornavam um filme de razoável fraqueza.

Não é o que acontece em O cheiro do ralo. Selton Mello se entrega ao protagonista auxiliado pela forma como Dhalia o filma. Os trejeitos, as nuances, as manias e o olhar e corpo sempre encurvados são catalisados pela câmera, sem que isso se torne uma espécie de caneta de cor pulsante a reafirmar as condições estranhas características do personagem ou mesmo do ambiente que o cerca. O tal homem é Lourenço (homônimo do autor da história), vivido por Selton naquela que deve figurar, até prova em contrário, como a grande interpretação desde que se tornou ator. Lourenço é a alma do filme, e para isso precisava de um intérprete à altura.

O filme se estrutura de forma cíclica: o protagonista toma café, vai para o escritório, onde compra e nega objetos, justifica o mau cheiro como vindo do ralo do banheiro, dorme, volta a tomar café e assim adiante. A recorrência de diálogos e situações dá o tom de deboche e tragicomédia, mesmo quando o enredo envereda por caminhos cada vez mais profundos. Ri-se da forma como vão se acumulando as situações, e não dos envolvidos. Há, de fato, algo de muito político na colocação do comprador perante seus vendedores, em todo aquele jeito de abusar do poder - algo já existente em Nina e reafirmado agora.

Veja acima o trailer de O Cheiro do Ralo

A política de O cheiro do ralo se manifesta em aspectos dentro e fora do filme. Fora, pela insistência de Dhalia em levar às telas trama tão controversa, bancando na base da cooperação o dinheiro necessário à empreitada. O orçamento de filmagem foi de R$ 300 mil, captado junto aos próprios realizadores - ninguém de fora quis bancar um projeto com o nome em questão e sobre tema tão "desagradável" com protagonista detestável. Outros R$ 300 mil foram usados para finalização. Apenas quando o filme causou frisson no Festival do Rio e, em seguida, na Mostra de São Paulo, ambos no segundo semestre de 2006, é que alguém apareceu para ajudar O cheiro do ralo a, de fato, existir junto ao público. A distribuidora Filmes do Estação adquiriu os direitos da fera.

Já dentro do próprio filme, a política está nas relações entre forte e oprimido, sendo que este último sempre vai se dar mal por conta da imponência do primeiro. Pode parecer um tanto afetado o jeito como Dhalia coloca Lourenço perante seus "subordinados", mas aí reside a graça da brincadeira toda: um ser tão detestável vai se moldar apenas com a parte mais "grandiosa" do corpo feminino. O que seria mais coerente, e também irônico, do que isso, afinal? Não se trata de maldade que chega à redenção, e sim de complementação a uma mente inicialmente doentia.

Dhalia não é cínico de insinuar que Lourenço vai se tornar um novo homem após realizar o maior de seus fetiches. Aquilo surge na vida dele como algo a mais dentro de seus mecanismos de dominação - porém, é o único desses mecanismos que ele não consegue realmente dominar. Ele deixa-se render. O encontro entre o usurário e a "bunda" guarda em si um instante quase apocalíptico: é quando, pela primeira vez, Lourenço se vê numa posição inferior - literalmente, inclusive, pois ele precisa se ajoelhar para alcançar o sonho.

A política, ali, se inverte: o poder está com o oprimido, e resta ao outro se render a esse poder se quiser, em seguida, continuar poderoso. Nesse jogo de peso e contrapeso está a complexidade da narrativa do filme. E o próprio Dhalia entra na jogada: ele se ergue após o fiasco de Nina para se firmar como um cineasta a ser mais bem acompanhado a partir de agora. O cheiro do ralo não é uma redenção, e sim uma complementação. O cheiro do ralo equivale, para Dhalia, à bunda que tanto fascina Lourenço.


Marcelo Miranda
Belo Horizonte, 5/4/2007


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O palhaço no poder de Luís Fernando Amâncio
02. Um Furto de Ricardo de Mattos
03. O que não fazer em época de crise de Fabio Gomes
04. A natureza selvagem da terra de Elisa Andrade Buzzo
05. Solidão Moderna de Mentor Muniz Neto


Mais Marcelo Miranda
Mais Acessadas de Marcelo Miranda em 2007
01. A política de uma bunda - 5/4/2007
02. Conceição: onde passar, não perca - 19/2/2007
03. O criado e o mordomo: homens do patrão - 26/7/2007
04. Cão sem dono e Não por acaso: pérolas do Cine PE - 10/5/2007
05. Verdadeiros infiltrados: em defesa de Miami Vice - 15/1/2007


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
4/4/2007
12h36min
Também é muito fácil gostar de O cheiro do ralo. A pretensa tensão entre opressor e oprimidos(as) se dilui na trilha sonora animadinha, no figurino lúdico, na fotografia leve. Não seco, mas ornamentado. E "degradantes" talvez sejam as salas de cinema, afogadas em gargalhadas que não percebem política nenhuma na grande bunda, mas que se identificam com o fofo Selton Mello, incapaz de nos fazer desperceber sua voz e seus olhos de menino, obstáculos tão grandes à boa caracterização de um personagem assim amargo e mesquinho. O cheiro do ralo é um filme divertido, talvez, mas discordo em absoluto de que coloque de forma relevante e aprofundada a questão política da opressão. Muito pelo contrário, aborda-a (no mais das vezes) de maneira superficial o bastante para, no máximo, render uma risada gostosa e descompromissada da audiência. O maior mérito do filme foi o de ter captado tão bem a atmosfera hedonista e supérflua tão presente em considerável parte da atual literatura brasileira...
[Leia outros Comentários de marcos visnadi]
5/4/2007
09h40min
Ótimo texto, Marcelo. Mas você tem certeza de que um personagem torpe numa história torpe é uma novidade no cinema nacional? Bem, não vi o filme. Também não sei se vou ver.
[Leia outros Comentários de Guga Schultze]
8/4/2007
17h22min
Talvez o maior valor de "O Cheiro do Ralo" seja provar que ainda é possível fazer cinema, com boa história e bons atores sem necessariamente torrar rios de dinheiro governamental. E concordo que também não é tão difícil gostar de "O Cheiro do Ralo", é um filme simples, com um ar cool, um roteiro com ótimas frases e personagens diferentões, permeando um universo onde Lourenço é o Rei.
[Leia outros Comentários de Bia Cardoso]
27/4/2007
14h43min
Eu me admiro com esses "comentadores". Todo mundo fica arrumando mil pretextos para fazer uma crítica "cabeça" do filme. Política, falta de política, opressor, oprimido, superficialidade, hedonismo... Mas, no final, todo mundo se embasbaca mesmo é com a política da bunda. Bunda, bunda, bunda. Ensaia-se, desvia-se, disfarça-se e se chega na... bunda. E é isso mesmo, uma bunda majestosa e dominante, num filme muito original, divertido e absorvente, no bom sentido. Assisti fascinado, sentindo que, apesar de esse Selton Mello quase estragar tudo, como sempre, esse sim é um filme muito melhor do que essas leguminosas a que vamos assistir no fim de semana nos Cinemarks dos shoppings.
[Leia outros Comentários de Jose Bueno Franco]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Eu Chovo, Tu Choves, Ele Chove...
Sylvia Orthof
Objectiva
(2001)



Casamento , Término & Reconstrução - 8ª Ed - Revista e Atualizada
Maria Tereza Maldonado
Integrare
(2009)



Teresa - A Santa apaixonada
Rosa Amanda Strausz
objetiva
(2005)



Raízes do Sucesso Empresarial a Experiência de Três Empresas
Haroldo Vinagre Brasil
Atlas
(1995)



Orçamento e Controle - Economia e Finanças
Fabiano Simoes Coelho, Ronaldo Miranda Pontes
Fgv
(2018)



Para Onde Vai a Cultura Brasileira?: Desafios Pastorais
Estudos Cnbb
Edicoes Paulinas
(1990)



Ideologia e Cidadania
J. B. Libanio
Moderna
(2004)



Il Drappo Scomparso
Slawka G. Scarso
Casa Delle Lingue
(2014)



Factoring Passo a Passo - as Quatro Operações - Confira!
Antonio Carlos Donini
Klarear
(2003)



Segredos do Toque Amoroso
Franz Benedikter
pallas
(2002)





busca | avançada
64744 visitas/dia
1,7 milhão/mês