Amantes, tranquila inconsciência | Vicente Escudero | Digestivo Cultural

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Quinta-feira, 8/10/2009
Amantes, tranquila inconsciência
Vicente Escudero
+ de 4300 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Não tenho muito interesse por filmes românticos, melodramáticos, daqueles em que o final é revelado pelas personalidades do triângulo amoroso, com a derrota do mau caráter. Alguém gosta? Acredito até que este gênero de filme exista apenas para preencher o vazio na educação sentimental de pessoas que envelhecem cada vez mais tarde e são cada vez mais solitárias, dispostas a derramar algumas lágrimas em troca de pequenos estímulos de esperança vitoriana, algo como um final feliz de Dickens, com Pip e Estella encerrando as diferenças e saciando a obsessão do amor platônico. De preferência com Estella sendo interpretada por Gwyneth Paltrow, num vestido Armani nada bufante.

Amantes, quarto filme de James Gray, aparenta ser isso. Ainda que à primeira vista a ideia do triângulo amoroso possa parecer clichê, neste romance lento e delicado, o diretor estende a experiência de filmes anteriores baseados no mesmo local onde passou a infância, o Brooklyn, em Nova York, repleto de imigrantes russos e judeus. Abandonadas as disputas entre traficantes russos e a polícia, presentes em Os donos da noite, a câmera se volta para Leonard (Joaquin Phoenix) e sua dúvida nem um pouco cruel entre o relacionamento com Michelle (Gwyneth Paltrow), a sensual shiksa ― garota não judia ―, e Sandra (Vinessa Shaw), uma decidida garota ― esta, sim, judia ―, que conta com o apoio sutil dos pais de Leonard para conquistá-lo.

Num ambiente monocromático, carregado pelas tradições do bairro de imigrantes onde prédios baixos impedem a entrada da luz e as sombras parecem esconder a melancolia dos personagens, Leonard, portador da síndrome do transtorno bipolar e levemente depressivo, passa a viver com os pais, depois do rompimento de um noivado. O apartamento onde moram é todo decorado com fotos e objetos de outras décadas, papéis de parede opacos combinam com a mobília de madeira maciça castanho-nostálgica e livros cobrem as cadeiras e mesas quando não há visitas. Neste ambiente em que a felicidade não entra em contato com o mundo exterior surge Michelle, a nova vizinha de um apartamento mantido pelo namorado, um seboso ― e casado ― advogado rico de Manhattan.

Neste encontro, o território ocupado pelos corpos não possui limites claros, o atalho das janelas dos fundos do prédio em que vivem serve como elo entre o relacionamento de Michelle e Leonard, nascido do primeiro contato visual entre os dois, algo parecido com o primeiro encontro de Pip e Estella em Grandes Esperanças, de Dickens, quando a obsessão do personagem, o amor platônico pela mulher inalcançável nasce e se intensifica até a sublimação na expressão artística de Pip. Quando Leonard colocou os olhos em Michelle, ela se tornou sua fonte de inspiração para a saída da depressão... e sua obsessão!

A Sra. Havisham do romance também encontra correspondência na trama de Amantes. A mãe de Leonard, interpretada por Isabella Rosselini, dedica-se ao filho a ponto de consentir que ele abandone tudo por Michelle: casa, emprego na lavanderia da família e a promessa futura de participação na sociedade com os pais de Sandra. O sofrimento que nasce daí vem da omissão, e não é menor pela solidariedade. A busca da felicidade, pelo filho que vive no limite entre as amenidades do mundo e a pouca responsabilidade do trabalho familiar, ressoa na imaturidade de Leonard. Esta condição, de homem incompleto, sua condescendência e sinceridade no tratamento das pessoas, em vez de torná-lo um perdedor, faz com que suas pequenas atitudes derretam o gelo e a nebulosidade do clima de Brighton Beach; seja fazendo truques para uma criança ou mímicas para os fregueses da lavanderia, uma certa leveza de espírito despreparado cativa. Daí o interesse de Michelle e Sandra. A primeira, contando com o apoio do novo melhor amigo para descobrir as intenções do namorado comprometido; e Sandra, na esperança de que Leonard possa ser um bom marido.

A semelhança com as narrativas extensivas de Dickens sobre o ser humano se transforma aos poucos num dramático exercício expressivo entre os vértices do triângulo amoroso. Tudo é captado. Os gestos e as expressões dos personagens criam um ambiente onde o desfecho é previsto, mas a caminhada é arrastada entre os obstáculos da geografia do romance. Na sinceridade de Gray não existem pausas ou atalhos para o futuro. Leonard, ansioso, aguarda a saída de Michelle da casa noturna enquanto tenta arrancar um adesivo do poste de luz, reclamando da má sorte, após descobrir a existência do rival. Na ocasião do jantar de Leonard com Michelle e seu namorado, o desconforto do protagonista é retratado desde a retirada do casaco, o estabanado uso do copo sem canudo e a espera pelo casal, sentado sob uma carranca ridícula, de expressão monstruosa. Mais tarde, a felicidade de Michelle no encontro com o namorado lanceta seu ciúme e ele assume o namoro com Sandra, logo em seguida a uma carícia desconcertante do casal.

Do lado oposto, competindo às cegas com Michelle, Sandra assume a condição de perpetuadora da família de Leonard, um pequeno ponto concreto de progresso, racionalidade e definição, na sua vida sonhadora e despreocupada. Leonard lida com estas expectativas sem antecipá-las, ao contrário da paixão demolidora e secreta pela shiksa.

James Gray assumiu, durante entrevista, a influência livre da novela Noites Brancas, de Dostoiévski, em Amantes. Esta pequena história contém elementos românticos, é uma pérola solitária desta fase do escritor; o tom reflexivo do protagonista, numa fantasia lírica, busca criar num mundo falso o alívio para a solidão. Ao contrário dos personagens de Amantes, que transitam sem preocupação entre relacionamentos, inconscientes da possibilidade de frustração ou das as disputas com os rivais, deixando de lado os resultados. A densidade e reflexão dos personagens do filme não deve nada à novela, pela câmera atenta do diretor, que segue as pequenas chamas de vida combatendo o frio de outono no Brooklyn, fazendo com que a plateia acompanhe sem pausas as decepções de cada um deles, seguidas pelas descobertas de pequenos grãos de areia de esperança, mesmo não existindo nenhum vestígio de beleza na desértica praia de Brighton Beach.

E por que gostamos de uma história tão comum? Talvez porque somos iguais a Leonard, Michelle e Sandra, sempre à espera de sentimentos bons, um pouco de diversão e, por que não, de um ombro amigo para viver ao lado.


Vicente Escudero
São Paulo, 8/10/2009

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
10/10/2009
12h23min
O dramalhão no filme acho interessantíssimo, pois a vida é esse drama, com muito humor, dores choros, agonias e prazeres. Viver intensamente é sempre temperar, com carinhos, com escapadas, com um beliscar gostoso no compartilhamento a dois ou a três ou quatro... e assim por diante. Mas aí a história é outra.
[Leia outros Comentários de Manoel Messias Perei]
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