A vida subterrânea que mora em frente | Elisa Andrade Buzzo | Digestivo Cultural

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Quinta-feira, 8/7/2010
A vida subterrânea que mora em frente
Elisa Andrade Buzzo

+ de 3600 Acessos
+ 1 Comentário(s)


Ilustra: Tartaruga Feliz

Daqui do meu apartamento tenho uma nesga de sol devido ao sobrado em frente que resiste à passagem do tempo. Ele ainda se mantém erguido diante dos prédios e das mãos mecânicas que demolem as estruturas mais obstinadas. O cachorro da casa, que ficava com o focinho comprido pra fora da grade já morreu, parece que envenenado, já não me lembro mais. Foi a maior tristeza a morte do Foxy, era como eu o chamava. Ele tinha pelagem áspera e oleosa, as mãos saíam empapuzadas depois de alisar sua cabecinha dura e compacta. Toda a vez que esperava o ônibus ou olhava pela janela lá estava Foxy, imperturbável sentado na muretinha, os olhos voltados para o movimento contínuo da rua. Aparentemente lá estaria ele por toda a eternidade, para sempre policiando, guardando silenciosamente o bairro (agora me recordo de que nunca ouvira um único latido seu).

O velho da casa também sempre estava por lá, batendo um papo com quem passava, varrendo a rua. Eu mesma já havia conversado algo com ele, uma conversa curiosa e frouxa, cujo teor perpassa pelas amenidades de vizinhos separados pelas circunstâncias. Estava no bairro há 15 anos, ele então, decerto há uns 60 ou mais. A irmã que morava com ele, e decerto lhe proporcionava uma alimentação mais substancial e uma vida mais completa, morrera. Do alto da minha janela, entrando pelo portão ainda não pichado, ela era uma outra cabecinha, também castanha, embora tingida, visivelmente calva no cocuruto. As duas janelas do sobrado não foram vistas por mim sequer uma vez abertas, nem aquela envidraçada da sala. O máximo que conseguia vislumbrar era a luz débil do lustre tarde da noite. Foxy se retirava para os fundos.

Nenhuma lembrança posso ter do interior daquela casa, apenas, e talvez este pouco, que é nada, seja mais intenso do que seria conhecê-la inteiramente, ou ter entrado para uma visita de compadres. Não é mais época para tanto. Caso pudesse adentrar no desconhecido, tivesse a permissão desejada de em minhas mãos estreitar este mundo extinto ― a porta, boca que se abre convidativa ―, quem sabe não mais haveria o ardor das grandes paixões dificultosas, desvaneceria-se em miragem a imagem inventada de seu interior ricamente adornado, a escada de madeira sólida, este último exemplar de construção enamorado da mansão alguns quarteirões acima.

Agora contemplo as cortinas da sala por onde até há poucos dias se podia ver seu rosto aparecendo como o sol da manhã por entre as nuvens afastadas pelas mãos. Foram os últimos momentos de sua presença na casa. A renda branca decorada com motivo de flores deve ter tido seus dias de glória, e hoje se pode constatar mesmo da rua que uma película amarelenta toma conta de suas fibras. Do pequeno jardim da frente restaram umas ervas crescendo aleatoriamente; ao fundo, no vasto quintal se antevê uma confusão de madeiras e entulho acumulado. A fechadura improvisada da porta é boca que cala.

Nas noites das expectativas infundadas, em que o sonho resvala na realidade, até que aquele se destaca como uma bolha de voo suicida, subo a rua e, mais uma vez, lá está ela, a casa, silenciosa, um pouco assustadora em suas sombras desenhadas pela iluminação dos postes. O velho e Foxy, a boca semiaberta formando um sorriso gentil, também sobem a ladeira. O tom de azul desfalecido das paredes havia sido recoberto por uma única demão amarela. Alguns pontos ficaram na cor antiga, imprimindo uma decrepitude à sua imagem esmorecida pelo iminente abandono.

Da garagem arrancaram um calhambeque já sem teto, a cor azul quase marrom de sujeira dos anos guardados. Foi um coração resfolegante puxado por guinchos, tamanha sua fraqueza e insistência em ali permanecer como um monumento derradeiro. As coisas, afinal, não podem acabar assim sem um grito agudo, uma encenação de comoção intensa. Ainda que futuramente o estouro da bolha seja apenas um eco surdo, há de causar um pequeno tumulto a ocasião do estrondo. Por isso a rua parou para acompanhar a remoção do auto, ficamos da janela aguardando o emergir e o desfecho daquela vida subterrânea que morava em frente. Depois, largaram ao pé da casa caixas de papelão com panos, bugigangas, o odor de mofo penetrante, que ficaram dipostas no chão sujeitas ao olhar público, que, quase como se envergonhasse de tal demonstração descuidada da intimidade alheia, desviava os olhos. Só alguns mendigos e bêbados é que se comprazeram, logo vendo que nada havia de valioso.

Agora, os restos mortais do velho estão lá: cabo de guarda-chuva, caixa de creme de barbear Bozzano, um sapato preto e um suéter marrom dispersos, alcançando a sarjeta e o olho da rua, como que boiando no fundo de um mar ressequido. A família parece não ligar em expor a vida do velho a esse ponto, mas como fazer a limpeza senão extirpando os órgãos, maltratando seu corpo até dizer "não dá mais" e colocando tudo, enfim, à luz do dia? Pouco tempo depois, os objetos se evadiram misteriosamente da calçada. Sabe-se lá quem deu conta de lançar ao vento as últimas cinzas, não restando mais nada como traço de crime sem importância. A não ser a própria casa, estendida em sua vacuidade. Também tem um bêbado, que se apossou de sua fachada e do ponto de ônibus ao lado como seu palco de variedades, e hoje é ele quem se apresenta nas tardes folgazãs de outono.


Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 8/7/2010


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
10/7/2010
05h13min
Tenho uma ligação afetiva com os textos de Elisa Andrade Buzzo. Tenho hábito de, da janela do meu apartamento, imaginar histórias dos vizinhos, que nem conheço, das outras janelas, da praça, da rua. E haja solidão, na rua e nas janelas.
[Leia outros Comentários de Liliane]
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