A clepsidra e os livros de areia | Daniela Kahn | Digestivo Cultural

busca | avançada
65675 visitas/dia
2,1 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Trajetória para um novo cinema queer em debate no Diálogos da WEB-FAAP
>>> ÚLTIMAS APRESENTAÇÕES ONLINE DO ESPETÁCULO O DESMONTE
>>> Rodolpho Parigi participa de live da FAAP
>>> Para fugir de ex-companheiro brasileira dá volta ao mundo com pouco dinheiro
>>> Zé Guilherme encerra série EntreMeios com participação da cantora Vania Abreu
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Entrevista: o músico-compositor Livio Tragtenberg
>>> Cabelo, cabeleira
>>> A redoma de vidro de Sylvia Plath
>>> Mas se não é um coração vivo essa linha
>>> Zuza Homem de Mello (1933-2020)
>>> Eddie Van Halen (1955-2020)
>>> Prêmio Nobel de Literatura para um brasileiro - II
>>> Vandalizar e destituir uma imagem de estátua
>>> Partilha do Enigma: poesia de Rodrigo Garcia Lopes
>>> Meu malvado favorito
Colunistas
Últimos Posts
>>> Zuza Homem de Mello no Supertônica
>>> Para Ouvir Sylvia Telles
>>> Van Halen ao vivo em 1991
>>> Metallica tocando Van Halen
>>> Van Halen ao vivo em 2015
>>> Van Halen ao vivo em 1984
>>> Chico Buarque em bate-papo com o MPB4
>>> Como elas publicavam?
>>> Van Halen no Rock 'n' Roll Hall of Fame
>>> A última performance gravada de Jimmi Hendrix
Últimos Posts
>>> Normal!
>>> Os bons companheiros, 30 anos
>>> Briga de foice no escuro
>>> Alma nua
>>> Perplexo!
>>> Orgulho da minha terra
>>> Assim ainda caminha a humanidade
>>> Três tempos
>>> Matéria subtil
>>> Poder & Tensão
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A PROPÓSITO DE UM POEMA
>>> Como E Por Que Ler O Romance Brasileiro
>>> Jornalista, um bicho de 7 cabeças e 10 chifres
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> O amigo do escritor
>>> O primeiro Show do Milhão a gente nunca esquece
>>> SemiÓtica
>>> Vandalizar e destituir uma imagem de estátua
>>> Cinema e os Direitos Humanos
>>> Elogio Discreto: Lorena Calábria e Roland Barthes
Mais Recentes
>>> O Uraguai de Basílio Gama pela Leitura XXI (2009)
>>> Dexter Design de Um Assassino de Jeff Lindsay pela Planeta (2011)
>>> Dexter no Escuro de Jeff Lindsay pela Planeta (2010)
>>> Querido e Devotado Dexter de Jeff Lindsay pela Planeta (2009)
>>> O Guardião de Memórias de Kim Edwards pela Sextante (2007)
>>> Querida Filha de Elizabeth Little pela Rocco (2017)
>>> Cinquenta Tons Mais Escuros de E. L. James pela Intrísica (2012)
>>> Cinquenta Tons de Cinza de E. L. James pela Intrísica (2012)
>>> Viver é coisa Perigosa - Orientações para soluções de conflitos de Guilherme Schelb pela Do autor (2008)
>>> Contos (Literatura Francesa) de Voltaire pela Nova Cultural (2003)
>>> Mulherzinhas (Literatura Norteamericana) de Louisa May Alcott pela Nova Cultural (2003)
>>> O morro dos ventos uivantes (Literatura Inglesa/Britânica) de Emily Brontë pela Nova Cultural (2003)
>>> Naná (Literatura Francesa) de Emile Zola pela Nova Cultural (2003)
>>> Babbitt (Literatura norteamericana) de Siclair Lewis pela Nova Cultural (2003)
>>> Ivanhoé (Literatura Escocesa/Britânica) de Walter Scott pela Nova Cultural (2003)
>>> A mulher de Trinta Anos (Literatura Francesa) de Honorè de Balzac pela Nova Cultural (2003)
>>> Razão e Sensibilidade (Literatura Inglesa) de Jane Austen pela Nova Cultural (2003)
>>> Tom Jones (Literatura Inglesa) de Henry Fielding pela Nova Cultural (2003)
>>> Ninguém escreve ao coronel de Gabriel Garcia Marques pela Record (2014)
>>> Tragédias - Romeu e Julieta/Macbeth/Otelo, o mouro de Veneza de William Shakespeare pela Nova Cultural (2003)
>>> Mazzaropi - Uma antologia do riso (Humorismo/Cinema brasileiro) de Paulo Duarte pela Imprensa oficial (2009)
>>> Cordel - Poeta Severino José (Literatura de Cordel) de Luiz de Assis Monteiro (Introdução e antologia) pela Hedra (2001)
>>> STP- Socialismo Teoria Y Prática 2 Febrero -1987 de Ekaterina Shalaieva pela Agência Prensa Nóvosti (1987)
>>> Moll Flanders de Daniel Defoe pela Nova Cultural (2003)
>>> Preceitos Áureos do Esoterismo de G. de Purucker pela Lorenz (1991)
>>> A Metamorfose de Franz Kafka pela Nova Cultural (2002)
>>> Macroeconomia de Olivier Blanchard pela Campus (1999)
>>> Energias Além das Formas de Marly Del Corona pela Casa Editorial Schimidt (1994)
>>> Madame Bovary de Gustave Flaubert pela Nova Cultural (2002)
>>> Noites do Sertão de João Guimarães Rosa pela José Olympio (1976)
>>> A Arte da Ilusão de Nora Roberts pela Harper Collins (2015)
>>> Farmacologia Clínica para Dentistas 2ªed. de Lenita Wannmacher - Maria Beatriz Cardoso Ferreira pela Guanabara Koogan (1999)
>>> Signos em Rotação de Octavio Paz pela Perspectiva (1990)
>>> Mulheres Empilhadas de Patrícia Melo pela Leya (2019)
>>> Extraordinário de R,J Palacio pela Intríseca (2014)
>>> O Homem Revoltado de Albert Camus pela Record (1996)
>>> Antologia Meus Contos Preferidos de Lygia Fagundes Telles pela Rocco (2004)
>>> Educar Professores? de Beatriz Alexandrina de Moura Fétizon pela Universidade de São Paulo (1984)
>>> A Geração das Palavras: Skinner e Chomsky Vol 25 de Maria da Penha Villalobos pela Universidade de São Paulo (1986)
>>> A Televisão e os Adolescentes A Sedução dos Inocentes Vol 22 de Heloisa Dupas Penteado pela Universidade de São Paulo (1983)
>>> Revista do Instituto de Estudos Brasileiros n. 41 de Prof. Dra. Marta Rossetti Batista (Diretora) pela Universidade de São Paulo (1996)
>>> Os Ministérios na Igreja dos Pobres de Alberto Parra S. J. pela Vozes (1991)
>>> Direitos Humanos Direitos dos Pobres de Leonardo Boff e Outros pela Vozes (1991)
>>> A Cristandade Colonial Mito e Ideologia de Riolando Azzi pela Vozes (1987)
>>> A Militarização da Questão Agrária no Brasil de José de Souza Martins pela Vozes (1984)
>>> Holocausto Desafio à Teologia Cristã de S. Shapiro e Outros pela Vozes (1984)
>>> Odontopediatria 7ªed. de Ralph E. Mcdonald- David R. Avery pela Guanabara Koogan (2001)
>>> O Poder dos Donos de Marcel Bursztyn pela Vozes (1984)
>>> Homenagem a Ugo Foscolo Omaggio de Elvira Rina M. Ricci Professora Responsável pela Universidade de São Paulo (1979)
>>> No País das Fadas e Outras Histórias Fantásticas de H. G. Wells pela Paulicéia (1993)
COLUNAS

Quinta-feira, 30/12/2010
A clepsidra e os livros de areia
Daniela Kahn

+ de 4600 Acessos
+ 1 Comentário(s)

O final de ano se aproxima. E esta é uma época em que o fluir do tempo se torna mais presente.

Isso me faz lembrar o relógio de areia, que torna a sua passagem próxima e palpável. Constituído por dois cones unidos pelo ápice, a clepsidra permite que visualizemos a migração continua dos grãos de areia do funil superior para o inferior. Quando este último está repleto a posição do dispositivo é invertida e inicia-se nova contagem.

Em 1975 Jorge Luis Borges publicou um volume de contos denominado O livro de areia. O conto título trata de um misterioso livro, cujas páginas proliferam desordenadamente, jamais repetindo o mesmo conteúdo. Ele é conhecido como o Livro de Areia, porque, como esta, é infinito. Depois de adquirir a obra, o protagonista do conto torna-se prisioneiro do fascínio algo sinistro de suas páginas mutantes. Até que um dia, num gesto de libertação, o descarta num canto esquecido da Biblioteca Nacional de Buenos Aires.

Borges faleceu em 1986, quando a internet começava a se internacionalizar. Provavelmente não chegou a saber que seu livro imaginário abandonara o seu obscuro esconderijo para invadir o quotidiano das pessoas do mundo inteiro. Em sua nova versão digital, a capacidade de sedução do livro se multiplicou pela imensa quantidade dos leitores que diariamente sucumbiam e ainda sucumbem a ela.

Quanto a suas faculdades ocultas, essas se tornaram mais evidentes e mais poderosas do que antes, como provam, entre tantos outros, os incidentes recentes protagonizados pelo polêmico site WikiLeaks. A diferença é que a fantasmagoria agora é tecnológica. Os seus agentes secretos invisíveis são os hackers; suas armas de combate os vírus e os cavalos de tróia; seus dossiês confidenciais os cadastros completos sobre cada um de nós. Talvez o mais assustador de seus poderes seja o de devassar redutos antes inexpugnáveis, abolindo privacidades, rompendo lacres de segurança, expondo a todos e a tudo, desde o mais humilde cidadão de alguma aldeia esquecida até a maior potência internacional.

A internet é o arauto e a mídia preferencial de um mundo em vertiginosa transformação. Como se sabe, ela eliminou fronteiras, agilizou e democratizou a distribuição de conteúdos, multiplicou formatos, pluralizou modos de comunicação e interação, padronizou meios de expressão, criou, enfim, modernos estilos de vida e novos modos de convivência. Com relação a estes últimos, o seu espaço se converteu no imenso quintal da vizinhança (evoco aqui outro conto precursor, o belo "O pátio da vizinhança", de Miguel Delibes) onde cada um mitiga a sua solidão.

À sua imensa capacidade de expansão e mobilidade se contrapõe a natureza epidérmica e volátil dos seus conteúdos. Se antes o jornal de hoje embrulhava o peixe de amanhã, nos tempos atuais as notícias se atropelam.

Voltada intensamente para o aqui e agora, a rede traduz a fragilidade do viver contemporâneo. O homem atual é, antes de tudo, um equilibrista que busca sobreviver dentro da precariedade de um presente que se alimenta sofregamente dos entulhos de um passado mal resolvido.

Neste século, que ainda engatinha, tudo, absolutamente tudo, é reciclável. A sua alma é o espetáculo e, seu porta voz, a publicidade. Sua resistência está paradoxalmente na celebração rumorosa da sua própria fugacidade. A ele não mais interessa a vida (e nem a morte) como ela é, apenas enquanto conteúdo do show da mídia que não pode parar.

Nesse contexto, em que todas as delimitações convencionais estão borradas e em que a distância entre o real e sua representação se encurtou perigosamente, cabe a pergunta: qual é o espaço reservado à obra de arte? E, dentro dele, ao livro e à literatura (que, afinal das contas, são o ponto de partida dessa reflexão)? Num mundo em que, seguindo o modelo da internet e do velho Livro de Areia, tudo tende ao efêmero, quais são os critérios de valor que ultrapassam os quinze minutos de fama proporcionados pelos meios de comunicação social?

É bom lembrar que cada obra de arte autêntica, não só a literária, é uma síntese visceral da época e da sociedade que a produziu. Dessa forma, ela traduz a sua contemporaneidade em profundidade não só aos que participam dela, mas, principalmente, à posteridade. Mais que isso, ela atrai apreciadores de épocas distintas, estabelece diálogos com outras obras e diferentes linguagens, constituindo-se eventualmente numa referência para as gerações vindouras.

Nesse sentido, por menos oportuno que seja falar em permanência numa época tão instável, um dos parâmetros para avaliar a perenidade de um livro seria o critério irônico do próprio Borges: uma obra literária aspirante à imortalidade teria que sobreviver ao seu autor, por, pelo menos, 50 anos.

Enquanto 2010 se despede de nós, gostaria de encerrar esse texto fazendo uma referência àquele outro livro que cada um de nós escreve involuntariamente e ao qual cada dia que vivemos se incorpora como uma nova página: o livro das nossas vidas.

Mais uma vez invoco Borges, que via não apenas nos livros, mas, sobretudo, nos leitores, uma fonte de infinitas transformações.

Somos todos atores e decodificadores do mundo que nos cerca e autores dos nossos próprios livros de areia. Na medida em que a nossa vida avança, nossa leitura do universo não só se torna mais depurada, como também reinterpretamos as nossas próprias vivências. Nisso somos auxiliados por um editor bastante infiel, ainda que decisivo: trata-se da nossa memória, que formata, do seu modo, os "textos" que compõem a nossa experiência diária, registrando, alterando, deletando, agregando, condensando, corrigindo, deformando e, ás vezes, até mesmo copiando conteúdos de fontes alheias.

Mas, questões de edição à parte, desejo que, no escoar dos últimos momentos de 2010, todos tenhamos um ano novo repleto de momentos enriquecedores que acrescentem belas páginas ao livro da vida de cada um de nós.


Daniela Kahn
São Paulo, 30/12/2010


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Meshugá, a loucura judaica, de Jacques Fux de Jardel Dias Cavalcanti
02. O poeta, a pedra e o caminho de Wellington Machado
03. A novilíngua petista de Julio Daio Borges
04. Passe Livre, FdE e Black Blocs - enquanto Mídia de Duanne Ribeiro
05. A guerra das legendas e o risco da intolerância de Marta Barcellos


Mais Daniela Kahn
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
4/1/2011
09h07min
Cara Daniela, se encontramos conteúdos nossos em textos alheios saiba que devorei teu texto como se cada partícula me fosse íntima. Vivemos um tempo ímpar, e é preciso digeri-lo em perspectiva, sob pena de nos perdermos de nós mesmos. É sempre um norte ler um texto lúcido e diagnóstico. Abraço e um feliz 2011.
[Leia outros Comentários de Melinda]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O PRÍNCIPE
NICOLAU MAQUIAVEL
PRINCIPIS
(2019)
R$ 14,00



SEDES DA COPA
STEPHAN CAMPINEIRO E DANIEL GONÇALVES
ARTE ENSAIO
(2012)
R$ 14,00



GUIA DO EMPREENDEDOR ESTRANGEIRO NA CHINA
JUAN ANTONIO FERNANDEZ- SHENGJUN
LEAP
(2010)
R$ 29,00



BELEZA SUSTENTÁVEL: COMO PENSAR, AGIR E PERMANECER JOVEM
CARLA GÓES SOUZA PÉREZ
INTEGRARE
(2010)
R$ 6,00



DICIONÁRIO DE DECISÕES TRABALHISTAS - 19ª EDIÇÃO
B. CALHEIROS BOMFIM E OUTROS
TRABALHISTAS
(1997)
R$ 5,00



OBESIDADE, NUTRIÇÃO E DIETA
DR. EMÍLIO PERES
CAMINHO
(1982)
R$ 12,00



LIÇÕES DE VIDA
ANNE TYLER
ED. IMAGO
(1989)
R$ 5,00



A BREVE SEGUNDA VIDA DE BREE TANNER
STEPHENIE MEYER
INTRÍNSECA
(2010)
R$ 5,00



DIREITO DO TRABALHO
PEDRO PAULO TEIXEIRA MANUS
ATLAS
(1999)
R$ 5,90



OS DEZ MANDAMENTOS
LORON WADE
CASA PUBLICADORA BRASILEIRA
(2007)
R$ 15,00





busca | avançada
65675 visitas/dia
2,1 milhões/mês