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COLUNAS

Quarta-feira, 9/1/2013
A escolha de Gauguin
Humberto Pereira da Silva

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Autorretrato ou Em Golgota, 1896, Óleo sobre tela, 76 x 64 cm, São Paulo, MASP

Quem quer que tenha conhecimento que não vá além de sobrevoo sobre a história da arte tem em mente que Paul Gauguin (1848-1903) - um perspicaz investidor que fez fortuna na Bolsa de Valores, colecionava quadros de artistas execrados pela crítica e pintava nas horas vagas -, aos trinta e cinco anos de vida, rompeu com tudo que o prendia ao mundo burguês e se entregou à pintura. A partir de então, sua vida, suas escolhas se radicalizam a ponto de ele romper com a civilização - os valores nos quais de início afirmava sua escolha pela arte, em proveito da vida burguesa - e terminar seus dias no Pacífico Sul: primeiro no Taiti e, finalmente, nas ilhas Marquesas.

Na história da arte, essa experiência forja, em grande parte, a lenda em torno de sua figura, de sua persona, na mesma medida em que coloca questões sobre como avaliar devidamente sua produção artística. Em Gauguin, de fato, um exemplo extremo de como a vida tem relevo na medida em que ela, em si, estabelece as balizas sobre as quais o valor de sua obra se sustenta. Nele, não é possível separar devidamente as escolhas que tornam aquilo que ele é (ou foi) da existência de suas telas: seus quadros são as escolhas de vida que fez.

De modo que não se vê um Gauguin impunemente, com a desinformação de que suas telas resultam de escolhas extremas, que culminam no afastamento do mundo em que vivia. Gauguin é um artista cuja obra está irremediavelmente condenada a que se a veja pelo prisma da ruptura com o mundo burguês e a civilização. Nesse sentido, é inócuo traçar paralelos com outros artistas: a poesia do romântico Lord Byron (1788-1824) pode ser lida sem que se saiba de sua decisão de lutar e morrer no movimento de libertação da Grécia; o pintor expressionista Franz Marc (1880-1916) não é mais ou menos relevante na história da arte em função de seu alistamento militar e morte nas trincheiras da Primeira Guerra; a popularização de Nietzsche deve muito ao colapso que o levou à loucura, mas ele não escolheu a patologia mental.

Outros artistas, poetas, romancistas ou pensadores podem ser aqui invocados, mas o caso é que em Gauguin obra e escolhas de vida são inseparáveis. Assim, parece razoável supor que o nexo entre vida e obra oferece uma base segura para entendê-lo e, por conseguinte, sua arte. Ledo engano, esse nexo é mais rugoso do que pode parecer à primeira vista. De um lado estão suas telas, ou seja, aquilo que realizou em decorrência de suas escolhas de vida, e que está devidamente catalogado na história da arte. De outro, um personagem cujas escolhas - as razões por tê-las feito - sempre instigarão as mais variadas especulações. Assim, à medida que é impossível avaliar um Gauguin com um filtro em sua vida, as razões (ou desrazões) que o tornam Gauguin são uma pedra no sapato.

"Se tivesse atuado de forma mais inteligente e previdente, podia agora levar uma vida agradável e sem preocupações", afirma numa carta Claude-Emile Schuffenecker, amigo com disposição artística como ele, que o amparou em momentos difíceis, e com quem trabalhara na época em que era corretor da bolsa. A carta foi escrita no momento em que Gauguin havia voltado de sua primeira estada no Taiti e se preparava para a volta definitiva. As palavras de Schuffenecker, na aparência repreensão moralista feita por alguém que está bem de vida e aponta o dedo para o erro de quem vê como fracassado, estão carregadas de sentido que, provavelmente, ele não quis dar.

Ambos saíram da Bolsa na mesma época e abraçaram a vida artística. Schuffenecker, no entanto, estava bem acomodado na condição de funcionário público, como professor de desenho. Acomodação esta impensável para Gauguin. Desde a infância com a mãe no Peru, fugidos da França sob Napoleão III, ele se acostumara à vida de aventura, errância e rebeldia. Adolescente, seu propósito era viajar e para isso seguir a carreira de marinheiro. Nesse ponto, contudo, o ponto cego: ele abandona a marinha, casa-se, constitui família e passa a viver confortavelmente como um burguês bem sucedido.

Ora, difícil levar ao pé da letra a ideia de que ele vá romper com a comodidade do mundo burguês - um mundo para o qual ele foi conduzido por circunstâncias fortuitas e no qual ascendeu rapidamente -, pois a ruptura ocorreu antes, quando abandonou a marinha e o propósito de uma vida de aventura. Mas não é difícil especular que ele manteve uma vida dupla, situada entre dois mundos excludentes. Não é difícil especular, outrossim, que ele jamais conseguiu se desvincular totalmente de um desses mundos e priorizar um deles em detrimento do outro. Schuffenecker o conhecia bem; em suas palavras, inevitável insinuar que Gauguin jamais se afastou do que de agradável a vida burguesa lhe oferecia.

Pode parecer afoiteza, ou carência de prevenção, essa interpretação de palavras casuais de Schuffenecker. Mas, vamos lá, em 1876, quando Gauguin trabalhava na Bolsa e se dedicava à pintura nas horas vagas, algumas telas dessa época foram acolhidas e expostas no Salão Oficial de Paris (lembremos que Paul Cézanne foi recusado em suas tentativas). E, em 1880, quando ainda estava na Bolsa, ele participou da exposição dos impressionistas, que notoriamente se recusavam a participar dos Salões.

Nenhum problema nisso, senão pelo fato de que o rumo de sua pintura carece de direção: um estilo próprio que o caracterize como artista parece indefinido (até a ida ao Taiti, ele oscilou entre realistas, impressionistas, pontilhistas, simbolistas, cloisonnistas e nabistas); assim como cabe especular a aparente radicalidade de suas escolhas: um penoso exercício de liberdade; uma busca sincera e vivida da natureza, de um modo de vida selvagem. Muitos de seus gestos, num paradoxo, parecem afirmar que sua vida foi assim, daí a lenda em torno de sua persona; mas igualmente muitos de seus gestos embaralham essa percepção de busca de um ideal de vida selvagem.

A estação com Van Gogh, em Arles, foi fruto de acordo com Theo Van Gogh, que se comprometeu a negociar seus quadros. Sua decisão, portanto, estava longe de expressar amor pela arte e pactuar, com Van Gogh, a ideia de formação de uma comunidade de artistas. Vale dizer: os dez anos que separam sua saída da Bolsa e a primeira viagem ao Taiti são marcados pela tentativa de ser bem sucedido no mundo das artes; ou, no limite da vaidade, alcançar a fama, a glória, ser reconhecido, enfim (não à toa, seu esforço para se imiscuir em grupos e movimentos artísticos que se contrapunham). Seus contatos e articulações com marchands, artistas e poetas simbolistas (Stéphane Mallarmé, Paul Verlaine, Jean Moréas) sugerem um espírito calculista, em contraste com a imagem de um rebelde em busca de liberdade para criação.

A decisão de abandonar o mundo civilizado, portanto a busca de um ideal na natureza que lhe pudesse fornecer elementos para uma arte genuína, carrega um tanto da dubiedade de mundos em que Gauguin vivia; um tanto da dubiedade que alimentou a aparência de radicalidade em suas escolhas. No Taiti ou nas ilhas Marquesas ele vivia, de fato, como um europeu. É certo que, na maior da do tempo, as condições nas quais ele viveu não eram as mais cômodas; mas é igualmente certo que, nas maiores dificuldade por que passou, sempre recorreu aos seus contatos na França.

Gauguin, de fato, nunca esteve totalmente isolado e, tampouco, absorveu o universo cultural no qual supõe estariam presentes os elementos que o possibilitariam uma expressão artística autêntica, selvagem, em contraste, pois, com o que se fazia no mundo civilizado. Seus escritos reunidos no livro Nôa, Nôa (1897), em que descreve suas experiências nos mares do sul, deixam evidente que a compreensão que tinha dos nativos não lhe permitia entrar em seu universo de crenças: por decisão consciente ou não, ele não absorveu o que a cultura nativa lhe podia oferecer.

Disso se extrai que ele não rompeu com a civilização. Dois anos no Taiti (1891-1893) e ele retorna à civilização, para retornar novamente aos mares do sul (1895-1903). Nessa segunda estada, um contrato com o marchand Ambroise Vollard lhe permite viver bem, de um ponto de vista que seria reclamado por Schuffenecker. Deve-se, com isso, tributar ao tráfego de suas telas a criação da lenda do artista que rompe com a civilização em busca de um lugar idealizado para sua criação. E essa lenda aumenta na mesma proporção em que suas experiências nos mares do sul ganham contornos de dramaticidade. Em seus últimos anos de vida, ele passa a conviver com problemas crônicos de saúde, provavelmente pela contração de sífilis, em conflito com autoridades locais e, finalmente, tem uma morte agonizante.

Com isso, o que se tem em vista é a dimensão e a ressonância das rupturas de Gauguin. De uma parte, nele não é possível separar vida e obra: esta é vista pelo crivo da ruptura com o mundo civilizado e pela busca de uma natureza que o possibilitasse uma criação genuína. Mas, sua arte reflete os valores do mundo que nega; e, disso ele não escapa: sua obra se afirma efetivamente na civilização. Ele não consegue - ou calculadamente não teve essa intenção - realizar uma arte maori ou algo parecido. Gauguin está na história como um dos grandes artistas da civilização com que ele, supostamente, havia rompido.

O valor da obra de Gauguin, isso é inequívoco, reflete suas escolhas. As razões destas, contudo, jamais serão suficientemente esclarecidas, em decorrência de sua personalidade dúbia. Com isso se quer sugerir tão somente que, artista genuinamente civilizado, como resultado de suas escolhas sua arte é única - ninguém o seguiu em seu atelier nos trópicos. Se sua vaidade chegou a tanto (sua estada nos mares do sul deixa indícios de que queria voltar, mas desaconselhado pelo marchand Daniel de Monfreid, decidiu jogar com a roleta russa até o fim e sustentar a lenda do pintor do Pacífico Sul), seu nome se impõe como experiência absolutamente singular na história da arte.


Humberto Pereira da Silva
São Paulo, 9/1/2013


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