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Terça-feira, 1/3/2011
Baudelaire, um pária genial (parte III)
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 4300 Acessos

Existia em Paris uma revista chamada Magasin des Familles, um periódico direcionado às senhoras e senhoritas, tratando de moda, trabalhos de costura e literatura decente e adequada. Não se sabe o que Baudelaire tinha em mente, mas foi nesta revista que publicou dois poemas, na coluna "poesia para a família". Os poemas eram "O vinho das pessoas honestas" e "Castigo do orgulho". Junto aos poemas anunciava-se a publicação do livro Os Limbos, "destinado a representar as agitações e as melancolias da juventude moderna".

Baudelaire identificava na vida moderna uma certa melancolia "exalada não sei de que forte perfume de prostíbulo, que logo nos conduz para os limbos inexplorados da tristeza". Essa constatação o faz abandonar o título do livro anunciado inicialmente como As Lésbicas para Os Limbos (que mais tarde se tornaria As Flores do Mal).

Baudelaire tem uma profunda obsessão por corrigir seus poemas, reescrevê-los, reordená-los dentro do conjunto e deixa o editor Michel Lévy esperando a obra por três anos. Mas o livro não sairá através desse editor, mas por outro, um jovem de 25 anos, Poulet-Malassis, com quem se encontra na Laiterie Du Paradoxe, junto com Nadar, Gérard de Nerval e outros para beber e falar da sua enorme paixão por livros e editoração.

Apesar de suas diferenças políticas (Baudelaire um aristocrata, dândi e feroz individualista, Poulet-Malassis um fervoroso republicano), "eles evocam juntos escritores desconhecidos do passado, falam de sua paixão sobre bibliofilia, obras notáveis pela beleza da tipografia e a qualidade da paginação, ilustradores, encadernações suntuosas, à holandesa, com verniz Martin, grofaduras, canteiros, capitéis, os irmãos Bozérian que revolucionam a arte de embelezar os livros".

Enquanto corrige os poemas de Os Limbos, continua publicando textos críticos sobre pintura, literatura e música para ganhar algum dinheiro, pois sua ligação escandalosa com Jeanne Duval afasta o apoio financeiro da mãe e do general Aupick. Em 1851 publica seu ensaio sobre o vinho e o haxixe, baseado nas suas experiências no Hotel Pimodan. Aos trinta anos, alegra-se com a publicação de onze de seus poemas no diário Messager de L´Assemblée.

Decide morar com Jeanne, mas sua musa agora não é mais "a serpente que dança" e não tem mais a charmosa e "fluida cabeleira de ácidos perfumes", pois tornou-se a envelhecida "musa venal":

"Que tens esta manhã, ó musa de ar magoado?
Teus olhos estão cheios de visões noturnas,
E vejo que em teu rosto afloram lado a lado
A loucura e a aflição, frias e taciturnas."

Nesse contexto, Baudelaire se identifica com a obra Le Chant des ouvriers, de Pierre Dupont, sob quem escreve um ensaio e revela a natureza de sua admiração e seu credo poético: "Quando ouvi esse admirável grito de dor e de melancolia, fiquei deslumbrado e enternecido. Fazia tantos anos que esperávamos um pouco de poesia forte ou verdadeira! Com o machado na mão, ele cortou as correntes da ponte levadiça da fortaleza; agora a poesia popular pode passar. Não basta ter a voz afinada ou bela, é muito mais importante ter sentimento. Você precisa então entrar na pele do ser criado, impregnar-se profundamente dos sentimentos que ele expressa e senti-los tão bem que a obra pareça ser sua".

É essa capacidade da obra penetrar a alma e o corpo do poeta que o levará a se identificar plenamente também com Allan Poe. Depois de encomendar as obras completas de Poe, Baudelaire escreve sobre o autor afirmando que grandes artistas são sempre "mais ou menos filósofos", como foram Goethe, Diderot, Laclos, Hofmann e seu venerado Balzac.

Baudelaire impressiona-se com a capacidade de coesão e lógica da obra de Poe: "Graças a essa sobriedade cruel, a idéia geradora se mostra melhor... Em Poe, nada de lamúrias enervantes. Dir-se-ia que ele tenta aplicar à literatura os procedimentos da filosofia, o método da álgebra. Desenha nuvens e árvores que parecem sonhos de nuvens e árvores, igualmente agitados por um arrepio sobrenatural e galvânico". Esse procedimento será adotado por Baudelaire e fará de As Flores do Mal um teorema poético-geométrico das paixões pessoais do autor. Isso não afasta os poderes da imaginação, para ele "a rainha das faculdades", porque só ela percebe "a analogia universal ou o que a religião misteriosa chama de correspondência".

Outra influência direta é Gautier, "o perfeito mágico das letras francesas", de quem descobre o poema "À une robe rose", dedicado à Madame Sabatier:

"Como me agradas neste vestido
Que te despe tão bem,
Fazendo surgir teu peito em globo,
Mostrando todo nu teu braço pagão!

Frágil como uma asa de abelha,
Fresco como um miolo de rosa-chá,
Seu tecido, carícia vermelha,
Volteia ao redor de tua beleza

Dos meus desejos insaciados,
Colocando no corpo de que tu o privas
Uma túnica de beijos."

Este poema tocará profundamente o poeta e inspirará Baudelaire a escrever também para a venerável Madame Sabatier seu poema "A uma mulher sempre alegre", usando as mesmas métricas em quadras octassilábicas:

Teu ar, teu gesto, tua fronte
São belos qual bela paisagem;
O riso brinca em tua imagem
Qual vento fresco no horizonte.

(...)
Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora da volúpia soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite.

Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu seio perdoado
E abrir teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida.

E, como em êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!

Junto aos poemas que envia à mulher que ama e teme ao mesmo tempo, manda também uma carta: "Eu sou um egoísta, me sirvo da senhora. Eis minha infeliz escrita. Quanto eu seria feliz se pudesse estar certo de que esses altos conceitos do amor têm alguma chance de ser bem-acolhidos num canto discreto de seu adorável pensamento. Jamais o saberei."

Em 30 de dezembro de 1856, o poeta finalmente assina o contrato para publicação de As Flores do Mal com o editor Poulet-Malassis, quando, então, começa a revisar escrupulosamente os poemas que vem escrevendo há mais de 15 anos. Enquanto isso vai publicando poemas dispersos em revistas literárias, como a Revue des deux mondes e Revue Française.

"Baudelaire fiscaliza seu editor e seu livro de muito perto. Ele se revela dos mais detalhistas, dando extrema importância à composição e à paginação de seus textos, examinando cada palavra, verificando se os itálicos e os hífens de que tanto gosta foram bem impressos e se a ordem que ele quer para os poemas foi perfeitamente respeitada".

Em plena revisão de seu livro recebe a notícia da morte de seu padrasto Aupick e vê, sem se importar minimamente, que seu nome não está nas cartas de participação das exéquias. Só lhe interessa agora seu livro. Dias depois da morte do general ele publica no L´Artiste três poemas de As Flores do Mal, anunciando a publicação que está por vir às livrarias.

Baudelaire faz um movimento de exibição do seu livro, usando sabiamente a imprensa e enviando a edição para os principais nomes das letras francesas e de língua inglesa: Gautier, a quem dedica o livro, Saint-Beuve, Aurevilly, Leconte de Lisle, Victor Hugo, Longfellow, Tennyson, Quincey, Browning.

No dia 25 de julho, finalmente, As Flores do Mal é publicado. Estava criado e revelado o documento fundador do modernismo. Baudelaire fundiu nos seus poemas o tema licencioso e a clareza formal, os sonetos mais obedientes às regras formais e as mais grosseiras metáforas, na avaliação de Peter Gay, no seu livro O Modernismo: o fascínio da heresia. Juntava-se à uma exuberante imaginação erótica uma esplêndida disciplina literária. Segundo T. S. Eliot, admirador do mestre francês, Baudelaire encontrava um correlato objetivo para tudo o que queria ou precisava expressar.

Celebrando o êxtase da carne e seus tormentos, as angústias da existência e os desvarios do ser, fazendo conviver Deus e Satã em meio à luxúria, o livro será alvo de críticas, processo e também da admiração dos mais importantes literatos parisienses. Assunto para o nosso próximo artigo.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 1/3/2011


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