A arapuca da poesia de Ana Marques | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
87666 visitas/dia
2,7 milhões/mês
Mais Recentes
>>> “Bella Cenci” Estreia em formato virtual com a atriz Thais Patez
>>> Espetáculo teatral conta a história de menina que sonha em ser astronauta
>>> Exposição virtual 'Linha de voo', de Antônio Augusto Bueno e Bebeto Alves
>>> MAB FAAP seleciona artista para exposição de 2022
>>> MIRADAS AGROECOLÓGICAS - COMIDA MANIFESTO
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Ao pai do meu amigo
>>> Paulo Mendes da Rocha (1929-2021)
>>> 20 contos sobre a pandemia de 2020
>>> Das construções todas do sentir
>>> Entrevista com o impostor Enrique Vila-Matas
>>> As alucinações do milênio: 30 e poucos anos e...
>>> Cosmogonia de uma pintura: Claudio Garcia
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
Colunistas
Últimos Posts
>>> Cidade Matarazzo por Raul Juste Lores
>>> Luiz Bonfa no Legião Estrangeira
>>> Sergio Abranches sobre Bolsonaro e a CPI
>>> Fernando Cirne sobre o e-commerce no pós-pandemia
>>> André Barcinski por Gastão Moreira
>>> Massari no Music Thunder Vision
>>> 1984 por Fabio Massari
>>> André Jakurski sobre o pós-pandemia
>>> Carteiros do Condado
>>> Max, Iggor e Gastão
Últimos Posts
>>> A lei natural da vida
>>> Sem voz, sem vez
>>> Entre viver e morrer
>>> Desnudo
>>> Perfume
>>> Maio Cultural recebe “Uma História para Elise”
>>> Ninguém merece estar num Grupo de WhatsApp
>>> Izilda e Zoroastro enfrentam o postinho de saúde
>>> Acentuado
>>> Mãe, na luz dos olhos teus
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Carma & darma
>>> Sultão & Bonifácio, parte II
>>> Ensaio autobiográfico, de Jorge Luis Borges
>>> O código dos gênios
>>> A forca de cascavel — Angústia (Fuvest)
>>> Para você estar passando adiante
>>> Blogs roubam audiência
>>> O enigma da 21ª letra
>>> Crise dos 40
>>> Marcelotas
Mais Recentes
>>> Querido John de Nicholas Sparks pela Novo Conceito (2013)
>>> Saudável aos 100 Anos de John Robbins pela Fontanar (2009)
>>> Chico Buarque Letra e Música - 2 Volumes de Chico Buarque de Hollanda pela Companhia das Letras (1989)
>>> Songbook Caetano Veloso - Vol. 2 de Almir Chediak pela Lumiar
>>> Songbook Bossa Nova - Vol. 1 de Almir Chediak pela Lumiar
>>> Médio Dicionário Aurélio de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira pela Nova Fronteira (1980)
>>> Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa de Antônio Geraldo da Cunha pela Nova Fronteira (1982)
>>> Dolce Casa - Manuale Di Sopravvivenza Domestica de Grazia Dominici pela La Spiga (1984)
>>> Meu Mundo Caiu. a Bossa e a Fossa de Maysa. a Bossa e a Fossa de Maysa de Eduardo Logullo pela Novo Século (2007)
>>> Haroldo Costa de Vários Autores pela Rio (2003)
>>> Cancioneiro Popular Português e Brasileiro de Nuno Ctharino Cardoso pela Portugal-brasil Ltda (1921)
>>> Retratos - Dadá Cardoso de Dada Cardoso pela Avatar (1999)
>>> A Informação no Rádio de Gisela Swetlana Ortriwano pela Summus Editorial (1985)
>>> Yes, nos Temos Bananas - História e Receitas de Heloisa de Freitas Valle; Márcia Masca pela Senac São Paulo (2003)
>>> Manual de Modelismo de Albert Jackson; David Day pela Hermann Blume (1981)
>>> Madeira-mamoré. Patrimônio da Humanidade de Hércules Góes pela Ecoturismo (2005)
>>> Uma História de Agendas de João Rothschild pela Ernesto Rothschild (1990)
>>> Estética. La Cuestion del Arte de Elena Oliveras pela Aemecé (2007)
>>> Conheça o Pantanal de Nicia Wendel de Magalhães pela Terragraph (1992)
>>> Corpo de Baile de João Guimarães Rosa pela José Olympio (1956)
>>> Línguas de Fogo. Ensaio Sobre Clarice Lispector de Claire Varin pela Limiar (2002)
>>> Pedagogia Diferemciada : das Intenções à Ação de Philippe Perrenoud pela Artmed (2000)
>>> Um General na Biblioteca de Italo Calvino pela Companhia das Letras (2007)
>>> Linéia no Jardim de Monet de Christina Bjork; Llena Anderson pela Salamandra (1992)
>>> Fausto de Goethe pela Itatiaia (1997)
COLUNAS

Terça-feira, 22/11/2011
A arapuca da poesia de Ana Marques
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 17500 Acessos

Da Arte das Armadilhas é o segundo livro de poesia de Ana Martins Marques. É publicado, agora, pela prestigiosa editora Companhia das Letras. O livro aparece dois anos depois do excelente A Vida Submarina, publicado em uma edição muito caprichada pela editora Scriptum, de Belo Horizonte. O primeiro livro recebeu minha resenha aqui no Digestivo, no dia 23/03/2010, sob o título de "Poesia sem ancoradouro".

Na orelha do novo livro, o poeta Armando Freitas Filho chama a atenção para a "beleza sem esforço" da poesia de Ana Marques. Característica presente em ambos os livros. E aí está a marca maior de sua poesia: a capacidade de armar, através da expressão coloquial dos versos, a arapuca que finalmente cairá sobre o leitor, que, desprevenido, se vê aprisionado de uma hora para outra. Como se andando em ritmo compassado, caísse, de repente, num buraco sem saída. É a sensação que fica ao término da leitura de cada poema.

Misto de melancolia e ironia, os poemas não apontam saída para o drama humano, seja em sua relação com o amor, a natureza, o tempo, os objetos do mundo. E, pior, nem o verso escapa da ratoeira que o transforma, depois de capturado, em um "rato morto". "A linguagem/ sem cessar/ arma/ armadilhas", diz um dos poemas.

Entender as armadilhas? Não há como, pois, diz o mesmo poema, "somos nós as presas". E as armadilhas são tantas que nos envolvem em todos os campos e lugares da vida, principalmente no amor que, como a linguagem, também "sem cessar/ arma/ armadilhas". Um dos poemas do livro resume bem a ideia:

CAÇADA

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se

Na poesia de Ana Marques os objetos são traiçoeiros, não são o que aparentam ser, são mesmo, talvez, o contrário do que anunciam ser, como a vida e o amor, que se insinuam como promessa e terminam em fracasso. O título Açucareiro nos remete imediatamente a agradável sensação dos cristais de açúcar docemente derretendo na língua. Mas o que guarda o poema, sua armadilha, é o gosto amargo que aparece a partir de um objeto trivial do mundo cotidiano, o açucareiro, e de onde a poeta desvela o descontentamento com a experiência do amor: "De amargo/ basta/ o amor/ Agridoce,/ ela disse/ Mas a mim/ pareceu/ amargo".

A experiência negativa da vida vai sendo revelada a cada objeto apresentado. O poema Fruteira, nos faz pensar imediatamente em Caravaggio, que apresenta as frutas no ápice de sua potência e beleza e, ao mesmo tempo, num canto de uma ou outra fruta ou folha, já anuncia sua podridão e morte na sugestão do seu apodrecimento. O poema e o quadro são armadilhas que os artistas armam, expondo a doçura da vida, mas que ao primeiro piscar de olhos revela seu contrário imediato: a morte.

FRUTEIRA

Quem se lembrou de pôr sobre a mesa
essas doces evidências
da morte?

O mesmo se dá com relação à faca, que por trás de sua beleza, elegância e brilho, guarda o pior: "Sua fria elegância/ não escamoteia/ o fato:/ é ela que melhor se presta/ ao assassinato". Também o capacho das portas das casas, que vendem a mentira do "lar doce lar", revela-se na poesia de Ana Marques como o desejo de fuga para outro lugar que não a casa, mas a rua: "Home/ sweet/ rua".

Outro objeto carregado de negatividade é o brinco, abandonado na cama de seu querido, que "pode ser" a tentativa de impor uma lembrança, mas acaba "como se fosse/ (mas ó tão inexato)/ o meu amor". Afinal, diz o mesmo poema: "um cachorro estirado ao sol não é o sol". O brinco não é o amor e sua possibilidade, como o amor não é tão exato ou exatamente o quanto se espera que seja.

A condição dos leitores da poesia de Ana Marques, que se deleitam e sofrem a cada poema, pode ser comparada aos pássaros do poema Arapuca: "armando arapucas/ onde os pássaros/ caem cantando". Ao mesmo tempo em que nos inebriamos com a composição dos poemas e sua capacidade de nos pegar no laço, sentimos o quanto é difícil aceitarmos a prisão da arapuca que, apesar de revelar as desilusões, não nos deixa saídas: "Há desilusão/ mas não há/ fuga".

Em entrevista à Folha de São Paulo, Ana Marques fala de sua relação com o mar e seu aparecimento na poesia de alguém que vive em um Estado (Minas Gerais) sem mar. O que ela diz pode ser muito bem usado como uma metáfora da sua própria poesia. Diz Ana: "Acho que o que me atrai poeticamente no mar é ele ser ao mesmo tempo superfície e interior; ao mesmo tempo simples, regular, aberto, plenamente inteligível, e imprevisto, secreto, perigoso".

Não é outra coisa sua própria poesia, aparentemente simples, mas profunda e perigosa. Por trás do delicado rosto melancólico e do belo sapato de boneca da poeta (como na foto de divulgação), esconde-se aquela criança travessa, pronta a armar a arapuca que lhe proporcionará o prazer de ver a presa surpreendida pelo inesperado. Eis a magia da sua poesia.

Sobre ou contra o teatro da representação dos papéis da vida, Ana Marques joga com versos simples, mas que demonstram uma alta capacidade de aceitar e se armar do pior, como no poema Teatro:

TEATRO
Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho

Partindo da inutilidade dos objetos, como no poema Relógio, a poeta exibe ao mesmo tempo a contraposição entre a inutilidade do relógio e a afirmação mais negativa ainda de um outro tempo, um tempo próprio, interior, mas que também não deixa de ser regulado por ações que criam a prisão da vida em formas congeladas: "De que nos serviria/ o relogio? (...)/Se derramamos água:/ dia/ se entornamos vinho:/ noite/ (...) quando abrimos certos livros lentos/ e os mantemos acesos/ à custa de álcool, cigarros, silêncio:/ noite/ se adoçamos o chá:/ dia (...)/ se desabotoas lentamente/ tua camisa branca:/ dia/ se nos despimos com ânsia/ criando em torno de nós um ardente círculo de panos:/ noite (...)".

Apesar de alguns raros momentos bastante leves, o livro Da arte das Armadilhas não deixa o conforto ser dominante. Não dá para acomodar numa almofada macia e rosa a existência dos seres e objetos depois de sua leitura. Então, esses momentos breves de doçura são apenas como a bonita sombrinha que o equilibrista usa, mas com à qual, por mais bela que ela seja, não poderá contar para amortecer sua queda, como diz o poema A queda.

Um poema sugestivo é A descoberta do mundo, também uma metáfora do próprio ofício do poeta, que tenta alcançar o mundo com palavras, mas no fim das contas, solitário e "com os dois pés/ no cimento frio", se torna consciente do fracasso: "onde estás/ no que escrevi?".

Para ser coerente com a alma do livro e sua grandeza, não podemos deixar de pensar que depois de sua leitura "todas as coisas ficam marcadas/ como se estivessem/ impregnadas de veneno", para usar os termos da própria poeta no poema São Paulo.

Para ir além






Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 22/11/2011


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Notícias da terra das sombras de Rafael Lima


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2011
01. Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I) - 20/12/2011
02. A arapuca da poesia de Ana Marques - 22/11/2011
03. Wagner, Tristão e Isolda, Nietzsche - 13/9/2011
04. Vantagens da vida de solteiro - 23/8/2011
05. Discos de Jazz essenciais - 28/6/2011


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Cinderela - Minha Princesa Preferida - Disney Princesa
Culturama
Culturama
(2016)



Cenários construtivistas: temas e problemas
Daniela Beccaccia Versiani e Heidrun Krieger Olinto (orgs.)
7Letras
(2010)



Cirurgia do Ombro
Charles S Neer II
Revinter
(1995)



O Cinza de Solidão
M. P. Haickel
Thesaurus
(2011)



Poder, Sofrimento Psíquico e Contemporaneidade (xx Congresso 2ª P
Revista Brasileira Psicanalise Vol 39, Nº 3
Rbp
(2005)



Os Monopólios 2ª Edição
Jean Pierre Delilez
Estampa
(1976)



Miramón, El Hombre
Jose Fuentes Mares
Contrapuntos (méxico)
(1975)



Kirlian El Diagnostico Preventivo de Su Salud. Manual y Guia Prac
Norma Tagle
Kier (buenos Aires)
(1995)



Espanhol para Brasileiros
Juan Kattán-ibarra
Pioneira
(1995)



Cabeça de Porco
Luiz Eduardo Soares, MV Bill e Celso Athayde
Objetiva
(2005)





busca | avançada
87666 visitas/dia
2,7 milhões/mês