A arapuca da poesia de Ana Marques | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 22/11/2011
A arapuca da poesia de Ana Marques
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 18500 Acessos

Da Arte das Armadilhas é o segundo livro de poesia de Ana Martins Marques. É publicado, agora, pela prestigiosa editora Companhia das Letras. O livro aparece dois anos depois do excelente A Vida Submarina, publicado em uma edição muito caprichada pela editora Scriptum, de Belo Horizonte. O primeiro livro recebeu minha resenha aqui no Digestivo, no dia 23/03/2010, sob o título de "Poesia sem ancoradouro".

Na orelha do novo livro, o poeta Armando Freitas Filho chama a atenção para a "beleza sem esforço" da poesia de Ana Marques. Característica presente em ambos os livros. E aí está a marca maior de sua poesia: a capacidade de armar, através da expressão coloquial dos versos, a arapuca que finalmente cairá sobre o leitor, que, desprevenido, se vê aprisionado de uma hora para outra. Como se andando em ritmo compassado, caísse, de repente, num buraco sem saída. É a sensação que fica ao término da leitura de cada poema.

Misto de melancolia e ironia, os poemas não apontam saída para o drama humano, seja em sua relação com o amor, a natureza, o tempo, os objetos do mundo. E, pior, nem o verso escapa da ratoeira que o transforma, depois de capturado, em um "rato morto". "A linguagem/ sem cessar/ arma/ armadilhas", diz um dos poemas.

Entender as armadilhas? Não há como, pois, diz o mesmo poema, "somos nós as presas". E as armadilhas são tantas que nos envolvem em todos os campos e lugares da vida, principalmente no amor que, como a linguagem, também "sem cessar/ arma/ armadilhas". Um dos poemas do livro resume bem a ideia:

CAÇADA

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se

Na poesia de Ana Marques os objetos são traiçoeiros, não são o que aparentam ser, são mesmo, talvez, o contrário do que anunciam ser, como a vida e o amor, que se insinuam como promessa e terminam em fracasso. O título Açucareiro nos remete imediatamente a agradável sensação dos cristais de açúcar docemente derretendo na língua. Mas o que guarda o poema, sua armadilha, é o gosto amargo que aparece a partir de um objeto trivial do mundo cotidiano, o açucareiro, e de onde a poeta desvela o descontentamento com a experiência do amor: "De amargo/ basta/ o amor/ Agridoce,/ ela disse/ Mas a mim/ pareceu/ amargo".

A experiência negativa da vida vai sendo revelada a cada objeto apresentado. O poema Fruteira, nos faz pensar imediatamente em Caravaggio, que apresenta as frutas no ápice de sua potência e beleza e, ao mesmo tempo, num canto de uma ou outra fruta ou folha, já anuncia sua podridão e morte na sugestão do seu apodrecimento. O poema e o quadro são armadilhas que os artistas armam, expondo a doçura da vida, mas que ao primeiro piscar de olhos revela seu contrário imediato: a morte.

FRUTEIRA

Quem se lembrou de pôr sobre a mesa
essas doces evidências
da morte?

O mesmo se dá com relação à faca, que por trás de sua beleza, elegância e brilho, guarda o pior: "Sua fria elegância/ não escamoteia/ o fato:/ é ela que melhor se presta/ ao assassinato". Também o capacho das portas das casas, que vendem a mentira do "lar doce lar", revela-se na poesia de Ana Marques como o desejo de fuga para outro lugar que não a casa, mas a rua: "Home/ sweet/ rua".

Outro objeto carregado de negatividade é o brinco, abandonado na cama de seu querido, que "pode ser" a tentativa de impor uma lembrança, mas acaba "como se fosse/ (mas ó tão inexato)/ o meu amor". Afinal, diz o mesmo poema: "um cachorro estirado ao sol não é o sol". O brinco não é o amor e sua possibilidade, como o amor não é tão exato ou exatamente o quanto se espera que seja.

A condição dos leitores da poesia de Ana Marques, que se deleitam e sofrem a cada poema, pode ser comparada aos pássaros do poema Arapuca: "armando arapucas/ onde os pássaros/ caem cantando". Ao mesmo tempo em que nos inebriamos com a composição dos poemas e sua capacidade de nos pegar no laço, sentimos o quanto é difícil aceitarmos a prisão da arapuca que, apesar de revelar as desilusões, não nos deixa saídas: "Há desilusão/ mas não há/ fuga".

Em entrevista à Folha de São Paulo, Ana Marques fala de sua relação com o mar e seu aparecimento na poesia de alguém que vive em um Estado (Minas Gerais) sem mar. O que ela diz pode ser muito bem usado como uma metáfora da sua própria poesia. Diz Ana: "Acho que o que me atrai poeticamente no mar é ele ser ao mesmo tempo superfície e interior; ao mesmo tempo simples, regular, aberto, plenamente inteligível, e imprevisto, secreto, perigoso".

Não é outra coisa sua própria poesia, aparentemente simples, mas profunda e perigosa. Por trás do delicado rosto melancólico e do belo sapato de boneca da poeta (como na foto de divulgação), esconde-se aquela criança travessa, pronta a armar a arapuca que lhe proporcionará o prazer de ver a presa surpreendida pelo inesperado. Eis a magia da sua poesia.

Sobre ou contra o teatro da representação dos papéis da vida, Ana Marques joga com versos simples, mas que demonstram uma alta capacidade de aceitar e se armar do pior, como no poema Teatro:

TEATRO
Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho

Partindo da inutilidade dos objetos, como no poema Relógio, a poeta exibe ao mesmo tempo a contraposição entre a inutilidade do relógio e a afirmação mais negativa ainda de um outro tempo, um tempo próprio, interior, mas que também não deixa de ser regulado por ações que criam a prisão da vida em formas congeladas: "De que nos serviria/ o relogio? (...)/Se derramamos água:/ dia/ se entornamos vinho:/ noite/ (...) quando abrimos certos livros lentos/ e os mantemos acesos/ à custa de álcool, cigarros, silêncio:/ noite/ se adoçamos o chá:/ dia (...)/ se desabotoas lentamente/ tua camisa branca:/ dia/ se nos despimos com ânsia/ criando em torno de nós um ardente círculo de panos:/ noite (...)".

Apesar de alguns raros momentos bastante leves, o livro Da arte das Armadilhas não deixa o conforto ser dominante. Não dá para acomodar numa almofada macia e rosa a existência dos seres e objetos depois de sua leitura. Então, esses momentos breves de doçura são apenas como a bonita sombrinha que o equilibrista usa, mas com à qual, por mais bela que ela seja, não poderá contar para amortecer sua queda, como diz o poema A queda.

Um poema sugestivo é A descoberta do mundo, também uma metáfora do próprio ofício do poeta, que tenta alcançar o mundo com palavras, mas no fim das contas, solitário e "com os dois pés/ no cimento frio", se torna consciente do fracasso: "onde estás/ no que escrevi?".

Para ser coerente com a alma do livro e sua grandeza, não podemos deixar de pensar que depois de sua leitura "todas as coisas ficam marcadas/ como se estivessem/ impregnadas de veneno", para usar os termos da própria poeta no poema São Paulo.

Para ir além






Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 22/11/2011


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