Harry Potter e o Gladiador | Alexandre Ramos | Digestivo Cultural

busca | avançada
45137 visitas/dia
2,3 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Circomuns Com Circo Teatro Palombar
>>> Prêmio AF de Arte Contemporânea abre inscrições para a edição comemorativa de 10 anos
>>> Inscrições abertas para o Prêmio LOBA Festival: objetivo é fomentar o protagonismo de escritoras
>>> 7ª edição do Fest Rio Judaico acontece no domingo (16 de junho)
>>> Instituto SYN realiza 4ª edição da campanha de arrecadação de agasalhos no RJ
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A pulsão Oblómov
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
>>> Garganta profunda_Dusty Springfield
>>> Susan Sontag em carne e osso
>>> Todas as artes: Jardel Dias Cavalcanti
>>> Soco no saco
>>> Xingando semáforos inocentes
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Esporte de risco
>>> Tito Leite atravessa o deserto com poesia
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jensen Huang, da Nvidia, na Computex
>>> André Barcinski no YouTube
>>> Inteligência Artificial Física
>>> Rodrigão Campos e a dura realidade do mercado
>>> Comfortably Numb por Jéssica di Falchi
>>> Scott Galloway e as Previsões para 2024
>>> O novo GPT-4o
>>> Scott Galloway sobre o futuro dos jovens (2024)
>>> Fernando Ulrich e O Economista Sincero (2024)
>>> The Piper's Call de David Gilmour (2024)
Últimos Posts
>>> O mais longo dos dias, 80 anos do Dia D
>>> Paes Loureiro, poesia é quando a linguagem sonha
>>> O Cachorro e a maleta
>>> A ESTAGIÁRIA
>>> A insanidade tem regras
>>> Uma coisa não é a outra
>>> AUSÊNCIA
>>> Mestres do ar, a esperança nos céus da II Guerra
>>> O Mal necessário
>>> Guerra. Estupidez e desvario.
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Micronarrativa e pornografia
>>> Os dois lados da cerca
>>> A primeira vez de uma leitora
>>> Se eu fosse você 2
>>> Banana Republic
>>> Da Poesia Na Música de Vivaldi
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Construção de um sonho
>>> Quem é mesmo massa de manobra?
>>> A crise dos 28
Mais Recentes
>>> Coleção Enciclopédia Disney - 8 Volumes de Disney pela Planeta (2001)
>>> Fórum dos Coordenadores de Joaquim Barbosa / Bárbara Sicardi pela Metodista (2003)
>>> O Último Portal de Eliana Martins / Rosana Rios pela Seguinte (2003)
>>> Batman Planetary - Edição de Luxo de Warren Ellis - John Cassaday - Dc Comics pela Panini (2014)
>>> Mentes Tranquilas, Almas Felizes de Joyce Meyer pela Thomas Nelson (2001)
>>> Democracia Francesa de V Giscard D Estaing pela Difel (1977)
>>> Esperança Viva - Uma Escolha Inteligente de Ivan Saraiva pela Casa Publicadora (2016)
>>> Manual Merck de Veterinaria de Merck pela Roca (2001)
>>> Conjugar Es Fácil En Español De España Y De América (spanish Edition) de González Hermoso, Alfredo pela Edelsa Grupo Didascalia (1997)
>>> Amy, Minha Filha - Amy, My Daughter de Micht Winehouse pela Record (2012)
>>> Avaliação da Inteligência de Marília Ancona-Lopez pela E.p.u (1987)
>>> O Menino do Dedo Verde de Maurice Druon pela Jose Olympio (1973)
>>> Contos E Lendas - Os Doze Trabalhos De Hércules de Christian Grenier - Carlos Fonseca ilustrador pela Cia Das Letrinhas (2013)
>>> Educação do Olhar Vol2 de Vários Autores pela Mec (1998)
>>> Tres Sombras de Cyril Pedrosa pela Quadrinhos Na Cia (2019)
>>> Federico Garcia Lorca - Obra Poetica Completa de Federico Garcia Lorca pela Unb - Martins Fontes (1990)
>>> Postura Profissional do Educador de Ana Maria Santana Martins pela Jcr (1999)
>>> Fale Tudo Em Inglês! - Inclui Cd Audio de José Roberto A. Igreja pela Disal (2007)
>>> Prazeres da Docência de Magalli B. Picchi pela Arte & Ciência (2003)
>>> Pequeno Dicionário Ilustrado Palavras Inventadas de Marcelo Godoi pela Sagui (2007)
>>> O que é Música de J. Jota de Moraes pela Brasiliense (1983)
>>> Para os Filhos dos Filhos dos Nossos Filhos de José Pacheco pela Papirus (2008)
>>> Liderando Crianças com Excelêcia de Márcia S.Ribeiro pela Videira (2008)
>>> Linguagem e Escola: Uma Perspectiva Social de Magda Soares pela Atica (1986)
>>> Regras Oficiais De Voleibol de Vários Autores pela Nd-sprint (1998)
COLUNAS

Sexta-feira, 14/12/2001
Harry Potter e o Gladiador
Alexandre Ramos
+ de 3400 Acessos
+ 4 Comentário(s)

Na Sexta-Feira Santa deste ano, eu era monge ainda, me deram o papel de Pôncio Pilatos — também conhecido como Pepê (1) — na liturgia da Paixão de Cristo. Do ponto de vista cênico, o Praefectus Judeae, representante do poder romano, é de longe o melhor personagem, já que Jesus praticamente entra mudo e sai calado. E crucificado, aliás. Mas desconfio que alguma obscura e provavelmente pérfida razão, que não o meu vasto talento dramático, presidiu à escolha. Vocês nem imaginam do que os monges são capazes.

Não me deixaram usar uma versão mais simplesinha das transadíssimas armaduras vestidas por Joaquin Phoenix em Gladiador, nem uma daquelas sandálias com tiras trançadas nas pernas. Não houve sequer bacia e jarro, de modo que tive que concentrar toda a riqueza da interpretação na leitura. Creio modestamente que arrasei, e se o Ridley Scott me visse... Te cuida, Russell Crowe.

Como qualquer bom ator, resolvi fazer laboratório e estudar um pouco o personagem, mergulhar na complexidade da mais remota e turbulenta província romana sob o império de Tibério, e acabei relendo algumas coisas já meio fora de moda, mas que me fizeram pensar.

Depois que Jesus disse a Pilatos que veio a este mundo para dar testemunho da verdade, o romano perguntou “O que é a verdade?”, e nessa pergunta alguns autores identificaram uma influência da filosofia estóica. Sei lá, não conheço essas coisas, mas às vezes Jesus me parece uma luva, em que a aparência é sempre a mesma, mas o conteúdo pode mudar um bocado. Me explico.

Por séculos cada palavra, cada passagem do Evangelho foi tomada como rigorosamente histórica (2). O desenvolvimento da crítica literária e dos estudos bíblicos foi mostrando que não é bem assim, algumas passagens foram elaboradas em vista de intenções teológicas precisas, ou em função do público a que se destinava o texto, mas depois a coisa degringolou para uma hipercrítica que simplesmente negava em bloco a historicidade dos Evangelhos, pretendendo uma distinção entre o “Cristo da Fé” e o “Jesus Histórico”, sendo que a este seria impossível chegar, mal dando para afirmar que ele existiu de verdade. Os Evangelhos, então, seriam uma mistureba no capricho de mitos, lendas, simbolismos de toda ordem, escritos por inumeráveis mãos. Um dos “demitizadores” — é assim que eles eram conhecidos —, Rudolf Bultmann, sempre se negou a ir conhecer a Terra Santa, simbolizando assim (se eles podem, eu também posso) o medo que aqueles caras que pretendem criar a História em seus escritórios têm de encontrar com a dita-cuja ao vivo e a cores, e ver como ela é diferente do que eles queriam.

Um outro grupo, o dos “libertadores” - os quais, todos juntos, não seriam capazes de libertar alguém de um saco de papel molhado -, diz que Jesus morreu por causa das implicações políticas de sua pregação, quando nem Pilatos, nem Herodes, homens duros e cruéis, escoladíssimos nas coisas do poder - viram em Jesus nada além de um pregador da roça, um bufão, um zé-mané.

Há ainda os esotéricos, que pretendem que Jesus desembarcou do disco voador, aprendeu levitação com o Lavai Lama em pessoa, fez doutorado em marketing em Wharton, e mais tarde foi descido da cruz ainda com vida, tratado com alguma milagrosa pomadinha japonesa — ou tibetana, ou egípcia, talvez com merthiolate — e ... bem, aí varia, a biblioteca do mosteiro tem uma penca de livros de autores seriíssimos, documentadíssimos, cientificíssimos, que provam por A+B que Jesus 1) voltou para o disco voador; 2) foi para as Gálias (por Tutatis!); 3) foi para a Índia; 4) foi para o Tibet ou 5) muito mais provavelmente, segundo minhas próprias pesquisas, foi criar galinhas em Teresópolis.

Como se vê, não é difícil manter a aparência de alguma coisa e dar a ela o conteúdo que nos interessa. Reparem como a rebeldia e o inconformismo dos hippies, dos roqueiros e rebeldes sem causa em geral — aliás talvez esteja aí o problema: quando não há uma causa consistente, as manifestações superficiais significam muito pouco — acabaram assimilados, industrializados, embalados e vendidos justamente pelo “sistema” que eles pretenderam combater. Como disse o Bono, do U2, “não acredito que o rock’n’roll possa mudar o mundo” (3).

Com os ilustres cientistas, filósofos e teólogos, que tão freqüentemente consideramos acima de sentimentos mesquinhos — e como nos enganamos nisso! — acontece o mesmo: reputações, prestígio, poder, a conquista de cátedras importantes e o implacável publique-ou-morra ajudam a obscurecer o raciocínio de muita gente “boa”.

Procurar a verdade requer muita razão, muito instrumental técnico, muita ciência; mas também muita, ou, melhor, muitas virtudes: coragem, perseverança, humildade, honestidade, generosidade, a lista é longa. Sempre que leio artigos e livros do jornalista italiano Vittorio Messori, por exemplo, fico emocionado com o empenho desse homem, que combina rigor científico, curiosidade jornalística, muita coragem e uma ardente paixão em suas investigações sobre Jesus.

Comigo a coisa já não é bem assim. Como não tenho a mente lógica e ordenada indispensável a qualquer filósofo ou cientista que se preze, e meus raciocínios procedem por caminhos tortuosos e obscuros, nesta altura do texto começo a lembrar do Harry Potter. Em suas aventuras, muito bacanas por sinal (4), a magia quebra um galho danado, mas sempre como ferramenta, e nunca ao ponto de substituir o esforço, o estudo, o trabalho duro. A magia também não fornece coragem, lealdade, companheirismo, dignidade e honra, muito menos corrige falta de caráter, covardia, inveja e malícia.

O que quero dizer é que, para buscar a verdade, não bastam nem os mais refinados aparatos científicos, nem a credulidade tão exacerbada que acabe praticamente extinguindo a possibilidade de um real ato de fé. Afinal, quem acredita em tudo é porque na verdade já não acredita em nada. Para buscar a verdade — e Sócrates dizia que uma vida sem busca não é digna de ser vivida — é preciso um strip-tease moral, um despojamento de nossas ambições e vaidades, de nossos desejos e fantasias. Inclusive a de gladiador.

Notas

(1) Não confundir com o finado e saudoso pescador que possuía uma famosa barraquinha às margens do lago de Tiberíades.

(2) Embora também, em plena Idade Média, a Bíblia fosse lida em chave alegórica de fio a pavio.

(3) Em God part II, do álbum Rattle and Hum, o último que prestou.

(4) É de bom-tom entre os fãs ter os seus personagens preferidos. Os meus são os gêmeos Fred e Jorge Weasley.


Alexandre Ramos
Teresópolis, 14/12/2001

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Biblioteca básica latino-americana de Marcelo Barbão


Mais Alexandre Ramos
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
14/12/2001
10h23min
É verdade: os que se interessam acabam encontrando alguma maneira de buscar a sua verdade mais ou menos pé no chão, mais ou menos mediada por símbolos e mitos, mais ou menos dependente de representações alheias. Quanto mais internalizado e pessoal o método, mais chance a pessoa tem de se sentir "in progress" no tempo de que dispõe. ( A vida é curta, a busca infinita, considero.) Alguns julgam que encontraram a verdade e "a" colocam a serviço de alguma causa. Vale! Outros tantos têm a capacidade invejável de mostrar seus processos de busca de maneira estimulante, seja na filosofia, literatura, agricultura, procriação, contabilidade, odontologia - métodos, formas, intenções e gestos. Vale! Desconfio que a incapacidade de muita gente (muita!!!!!) de sentir tesão pela busca da verdade diminui a humanidade no homem. De deuses ou "filhos de" sei tão pouco que é preferível não comentar nada.
[Leia outros Comentários de raquel bueno]
3/6/2002
00h43min
Caro Alexandre (sem pseudônimos aqui, né?): São realmente muitas as interpretações dadas ao que nos foi ensinado. Ainda mais sobre a história de um personagem importante como Jesus, que vai sendo encaixada e adaptada para as várias religiões que vão surgindo... Lembro-me de um exemplo deste tipo de coisa que uma professora de história nos deu em sala: um amigo, parente ou algo assim dela era de uma religião, seita, ou algo assim, que não permitia que seus devotos comessem carne de porco. O motivo? "E então os espíritos impuros saíram, entrando nos porcos. Eles então correram violentamente..." - Marcos 5:13 (a tradução pode estar equivocada, estou copiando isso de uma carta de Magic em inglês...). Por causa deste trecho, que segundo minhas nebulosas memórias trata-se de um 'exorcismo', nessa seita acredita-se que os porcos são impuros. Até hoje. Fazer o quê? Acho eu que isso sempre vai acontecer. O importante é saber separar o ridículo e o inventado do que pode realmente ser verídico. Estou certo?
[Leia outros Comentários de Rafael Smith]
3/6/2002
09h51min
Smith, com uma Bíblia na mão dá pra justificar qualquer coisa. A simples noção de ridículo já ajuda, em grande parte, a separar o joio do trigo (por sinal, uma expressão bíblica). Mas para as questões mais sérias, como a da Eucaristia, por exemplo, aí só mesmo um Magistério divinamente instituído, porque nem o conhecimento, nem a sabedoria, nem a santidade e - muitíssimo menos - nem a maioria dos homens podem ser decisivos. Grande abraço.
[Leia outros Comentários de Alexandre Ramos]
3/6/2002
19h15min
Meu querido Alexandre, achei esse seu texto agorinha, e já ri até as lágrimas, e já me enterneci,já fiquei séria e já fiquei encantada com a idéia de um monge vestido de Pilatos, com armadura e tudo! Sem querer brincar de Bob Carlos, foram tantas emoções... Agora, só me resta uma pergunta: você tem o endereço do Cristo em Teresópolis? Beijos da Sue
[Leia outros Comentários de Assunção Medeiros]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Collection Thyssen Bornemisza
Maitres Anciens
Palais de Beaux
(1982)
+ frete grátis



Livro Religião Se Abrindo pra Vida
Zibia Gasparetto
Vida e Consciencia
(2009)



Prato do dia vegetariano
Tiça Magalhães
Paz e Terra
(2014)



Informatica Na Empresa
Aldemar De Araújo Santos
Atlas
(1998)



Coleção El Hazard
Hidetomo Tsubura
JBc
(1996)



Histórias de Lovecraft
H. p. Lovecraft
Pandorga
(2019)



Todos os Olhos: Videovigilâncias, Voyeurismo E
Bruno Cardoso
Ufrj
(2014)



Vidas Secas
Graciliano Ramos
Record
(2017)



Rhétorique de la Lecture
Michel Charles
Du Seuil
(1977)



Homem Lento
J. M. Coetzee
Companhia Das Letras
(2007)





busca | avançada
45137 visitas/dia
2,3 milhões/mês