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Sexta-feira, 14/9/2012
Feminista? Eu? Claro que sim!
Marta Barcellos

+ de 2700 Acessos

Em época de campanha para prefeitos e julgamento do mensalão, se posicionar politicamente se tornou tão natural nestes dias quanto comentar a novela das nove. Mesmo aqueles que dizem desprezar a política são capazes de engrenar uma conversa fiada sobre o seu provável voto, o candidato menos pior, talvez o melhor, ou comentar a votação no Supremo Tribunal Federal. Por que então, em meio ao saudável debate sobre o noticiário, sinto que minha frase gera algum desconforto?

─ ... é por essas e outras que sou feminista.

As mulheres não me endossam, como seria de esperar. Os homens parecem tentar imaginar a que tipo de feminismo eu me refiro. É curioso notar que, dependendo da roda, um homem se declarar feminista parece mais apropriado do que uma mulher.

Mas vamos ao contexto. O "essas e outras" que motivou a ratificação da minha condição feminista foi uma daquelas notícias que de tempos em tempos refletem a precariedade da situação da mulher no mundo. Não, a história em questão não dizia respeito a uma vítima de chibatadas em plena primavera árabe, mas se referia às estúpidas declarações de um deputado republicano. Todd Akin afirmou que casos de gravidez depois de estupros são muito raros, porque as mulheres teriam defesas biológicas para evitar a gravidez quando se trata de um "estupro legítimo" (legitimate rape, em inglês).

Não é para sair empunhando a bandeira do feminismo, se houvesse uma à mão? Pode ser que o termo feminista tenha ficado um tanto institucionalizado, como se pressupusesse a ligação com algum movimento formal, ou então que tenha simplesmente envelhecido - daí o preconceito. Mas não tem jeito: as mulheres ainda são vítimas de muitas desigualdades, não por culpa de nossos bem intencionados colegas de trabalho, namorados ou maridos - que se dizem sinceramente feministas na mesa do bar -, mas de uma condição histórica e cultural. Se simplesmente ligarmos o "automático", se deixarmos que nossas opiniões e atitudes se influenciem por um suposto "bom senso" relacionado à convivência em sociedade, corremos o sério risco de endossar ingenuamente desigualdades que serviram a séculos de dominação.

Assim como os direitos da criança precisam ser defendidos - a relação de poder dos adultos (inclusive dos maus pais) sobre elas é óbvia -, também é preciso ficar atento aos direitos da mulher, em função dessa dominação histórica. Não é difícil achar mulheres que trabalham, se sustentam, se julgam bem informadas e sensatas e no entanto aceitam injustiças e violências relacionadas à condição feminina. Não conheço, é verdade, nenhuma capaz de desconfiar da "legitimidade" de um estupro porque a vítima engravidou - isso parece mesmo o auge da ignorância. Mas não é difícil encontrar quem, diante da constatação de que uma mulher foi atacada, critique a roupa que ela usava. "Também, né, com aquela minissaia..."

Por isso, além de defender "o aprimoramento e a ampliação do papel e dos direitos das mulheres na sociedade" (feminismo segundo o Houaiss), eu também apoio iniciativas como a recente "Marcha das vadias". Do ponto de vista de estratégia política, nem sei se o termo "vadia" é o melhor para angariar simpatias mais conservadoras, mas talvez somente o choque sacoleje mentes e dissolva os últimos resquícios da cultura machista entranhada em todos nós.

Pois a mulher tem todo o direito de ser uma "vadia", ou seja lá o que se entenda por isso em atitudes e vestimentas. Pode ser mesmo uma prostituta. Nada disso a torna culpada de sofrer um estupro. E ponto. Esse é o espírito do movimento que surgiu no Canadá, e se espalhou em passeatas pelo mundo, depois que um policial de Toronto pediu que as mulheres não se vestissem como vadias para não serem estupradas.

Talvez estejamos precisando de imagens assim - jovens seminuas exigindo respeito pelas ruas -, semelhantes às dos movimentos de contracultura dos anos 1960, para fazer frente às cruzadas moralistas que espocam pelo mundo. Como se não bastasse os absurdos "científicos" pregados pelos líderes do Tea Party americano, da Rússia e dos países árabes também chegam notícias de retrocessos. Parece que os políticos, na falta de ideologias ou saídas econômicas para a crise global, decidiram defender "a família". Caramba, qual "família"? Vamos combinar assim: se você vir algum candidato, nessas eleições de outubro, defender os "valores da família", saia correndo e vote em seu adversário!

A tal família, à moda antiga, não era boa coisa para a mulher. Ainda hoje, não precisamos ir muito longe (talvez exista um exemplo bem a seu lado) para encontrar algum tipo de violência doméstica tolerada em nome do "bem estar da família". Mulheres humilhadas, mulheres que se submetem, mulheres que acham que é assim mesmo. Pegue as estatísticas - qualquer uma, incluindo as brasileiras - para verificar que as mulheres ainda têm remuneração bem menor que a dos homens, exercendo as mesmas funções.

No seu ambiente de trabalho e na sua casa não é assim? Ao contrário, as mulheres estão dominando? Que ótimo. Tomara que um dia essas exceções se tornem regra, e não precisemos mais ficar tão vigilantes. Enquanto isso, mantenha-se desconfiado, inclusive quando alguém repetir algo do "senso comum", como "feministas eram aquelas mulheres que queimavam sutiãs".



Marta Barcellos
Rio de Janeiro, 14/9/2012


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