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Quinta-feira, 28/3/2013
Pieguice ou hipocrisia?
Rosângela Vieira Rocha

+ de 4400 Acessos

A exagerada demonstração de afeto por meio de frases, desenhos, pinturas e exclamações é algo que vem se tornando tão habitual entre nós, que chego a duvidar que o sentimento tão decantado, que parece ter tomado de assalto o país inteiro, seja real e verdadeiramente consistente.

Vejo expressões de afeto, abraços e beijos por toda parte: nas escolas, shoppings, estacionamentos, cinemas, lojas, restaurantes, bares, enfim, é como se uma gigantesca onda sentimental tivesse varrido todos os lugares. Nada contra abraços e beijos, mas quando o público não deixa nenhum lugar para o privado, dá uma sensação de estranheza danada. E quem não quiser ver os detalhes que se vire, pois parece existir uma vitrine geral, onde todos estão em exposição. Encontrar um cantinho mais opaco? Impossível, a ribalta é globalizante.

Nas redes sociais, blogs e sites, é um verdadeiro festival. Os beijos, antes dados no rosto, testa, boca, que sei eu, atravessam agora os limites da pele e da mucosa, e vencendo todos os obstáculos da anatomia humana, dirigem-se diretamente ao coração. Sim, todos os beijos agora são encaminhados para esse maravilhoso e sofrido órgão, que, além de cumprir as importantíssimas e complexas tarefas que lhe foram destinadas, ainda tem de receber, quer queira quer não, uma overdose quase que infinita de beijos. Assim, sem mais nem menos, sem cirurgia nem nada.

Pesado de beijos, quase aos pedaços, o pobre coração ainda é desenhado por toda parte. Antes, ficava inscrito em cascas de árvores, entalhado a canivete pelos apaixonados. No máximo, era enfeite de anel. Agora passou a enfeitar roupas, colares, brincos, bichinhos de pelúcia, bolos, doces, chocolates, chaveiros, uma imensa quantidade de objetos.

O amor, considerado em todas as épocas o mais nobre dos sentimentos, anda perdendo a nobreza, banalizado em frases toscas, desenhos ruins, na boca de personagens mal alinhavados, ou compondo frases cheias de erros, inclusive de ortografia. Só se fala em amor. Será que é amor mesmo?

Gritada e não mais confessada em sussurros à meia-luz, a expressão "eu te amo" vai perdendo o seu conteúdo, a sua significação original, para se transformar quase que em cumprimento, um enfeite, um jeito de dizer "quero te agradar falando isso". Se a expressão se transformasse em verdade cada vez que é repetida, não precisaríamos de mais nada, pois faríamos parte de um mundo pleno, autêntico nirvana, extensão do paraíso na terra.

Os elogios também agora são ditos o tempo todo, com ou sem base real. As redes sociais estampam fotos de filhos, netos, sobrinhos, com o obrigatório comentário do autor da postagem, decantando a beleza dos fotografados. Belos ou não, isso parece não ter a menor importância. "Lindo" passou a ser sinônimo de "meu" (filho, neto ou sobrinho). Todo mundo agora é lindo e não se sabe mais o que isso significa. Lindo não é mais lindo, virou outra coisa.

O mais grave de tudo é a infantilização generalizada que vem ocorrendo. Adultos mandam fotos com flores, estrelas, coraçõezinhos e laços a outros adultos, de preferência cor-de-rosa ou de bolinhas. Tudo me leva a pensar que uma segunda infância anda se instalando por aqui. Todos querem ser crianças, e para isso não se importam de forçar a barra, adotar gostos infantis, falar de ursinhos e assemelhados.

Por falar em animais, é importante registrar um outro fenômeno, provavelmente tão sério quanto o da infantilização das pessoas, que é a "humanização" dos animais domésticos. Se fossem apenas idolatrados, até aí tudo bem, tem gosto pra tudo, mas o que vem ocorrendo parece-me bastante grave, a começar por aqueles que postam nas redes, praticamente todos os dias, fotos de seus cães e gatos de estimação, como se fossem únicos, vindos de outro mundo, os reis da cocada preta. O problema é que, além dos brinquedos que já ganhavam, os cães, sejam machos ou fêmeas, agora vestem roupinhas, capinhas, casaquinhos, xales e não sei mais o quê. Não bastassem as roupas, as cadelas levam laços de fita no pelo e algumas usam até correntes de ouro. Sem contar, é claro, os anéis nas patas.

Além de festas de aniversário, geralmente bastante dispendiosas, os cães costumam ganhar também festas de "casamento", em que a "noiva" é adornada com véu e grinalda. As festas são praticamente idênticas às festas tradicionais de casamento, com direito a música, bolo, bem-casados, champanhe e lembrancinhas para os convidados.

Causa-me espanto ver com que orgulho os donos contabilizam os gastos com essas festas de "casamento". Parece que, quanto maior o custo, maior é o amor que sentem por seus cães. É evidente que cada um gasta o próprio dinheiro como quiser e minha função não é dar lição de moral, longe de mim tal ideia. O que me espanta é ver a inserção de uma cerimônia humana por excelência, inclusive definida pelo Código Civil Brasileiro, no universo dos bichos de estimação.

Um amigo meu, escritor muito perspicaz, me disse que fica morto de vergonha de São Francisco de Assis. Segundo ele, que é devoto do santo, se São Francisco viesse nos fazer uma visita, ficaria estupefato com a maneira como os animais estão sendo tratados. Ou melhor, digo eu, destratados e ridicularizados, pois, ao serem considerados pessoas, são destituídos do que os define, que é sua natureza de bicho. São Francisco protegia os animais e os respeitava como animais, nem sequer lhe passava pela cabeça mudar algo tão elementar.

Mas, para os donos que insistem em agregar complementos usados pelos humanos aos seus animais, ainda que estes sejam supérfluos, como roupas, adereços e festas, os bichos deixam de ser considerados bichos, mudam de status, pois passam a ser "extensões" de quem os cria, espelhos nos quais estes se veem. Quem não tem filho, cria cachorro ou gato como gente. Quem tem, por vezes cria também. E estamos conversados.

Os casos da banalização dos sentimentos, da infantilização das pessoas e da "humanização" dos animais domésticos foram escolhidos por serem emblemáticos da sociedade em que vivemos. Aparentar sentir tornou-se mais importante do que sentir de verdade, fingir que é criança é preferível a assumir-se como adulto, e brincar de casinha com animais, como se estes fossem amiguinhos humanos ou meros bonecos, completa o quadro "paradisíaco" da falta de compromisso e da breguice. Aí sim, fica tudo azul, azul até demais, como na canção popular. E, claro, com as indispensáveis e pavorosas bolinhas cor-de-rosa.


Rosângela Vieira Rocha
Brasília, 28/3/2013


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Do canto ao silêncio das sereias de Cassionei Niches Petry
02. Kurosawa de Maurício Dias


Mais Rosângela Vieira Rocha
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