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Quinta-feira, 25/4/2013
Pynchon Contra o Dia
Luiz Rebinski Junior

+ de 9100 Acessos

Escrever sobre um livro Thomas Pynchon parece uma tarefa tão perigosa quanto as dinamites certeiras que Webb Traverse, um dos muitos personagens de Contra o Dia, costumava explodir nas fuças dos capitalistas donos de minas no final do século XIX no Colorado. Isso porque para um leitor menos afeito a jogos narrativos - o que não é nenhum pecado, há muitos livros assim enfadonhos - o penúltimo romance do escritor americano (o mais recente lançado em tradução por aqui) pode ser mesmo igual a uma torradeira, como comparou a revista Time. É um pouco ridículo - e até cruel - pensar que certos livros são apenas para certos públicos. Mas, dado o fanatismo de Pynchon por tramas intrincadas e referências obscuras, em narrativas gigantescas, seus livros se tornam restritos a um público ávido por esse cardápio. E esse é o outro lado da moeda: os leitores do escritor costumam gostar de tudo que o autor escreve, até mesmo daquilo que não entendem - principalmente disso, diria.

E Contra o Dia tem muita coisa para não entender. Ao mote aparentemente simples, Pynchon enxerta diversas tramas cabulosas, em que bota no papel suas mais desvairadas alucinações. Mas o eixo central do livro é bem careta, por sinal, e remonta aos gastos romances policiais. Webb Traverse é um mineiro anarquista que, por hobby e convicção, costuma sabotar empreendimentos capitalistas. Seu material de trabalho são bananas de dinamite. Webb, depois de barbarizar em diversas minas, é morto por dois pistoleiros contratados por Sacardale Vibe, o maior ricaço do pedaço, que tem negócios no mundo todo. Os responsáveis por vingar a morte de Webb são seus três filhos, Kit, Frank e Reef. E é isso. A espinha dorsal de Contra o Dia é essa. Tudo que é narrado entre essa trama é molho no sanduichão.

Há um grupo de aventureiros chamado Amigos do Acaso que, como o nome sugere, embarcam em missões que surgem misteriosamente. Trabalham para um Escritório Nacional que, sem dizer a finalidade, designa missões malucas aos Amigos, que viajam em um dirigível chamado Inconveniência e têm como tripulante um cachorro que lê Henry James. Entre outras aventuras, acompanham os primeiros experimentos com fotografia e luz elétrica. Em alguma altura do romance, os Amigos do Acaso, que aparentemente não têm nada a ver com a trama do livro, vão encontrar personagens da história que realmente importa. É como se Pynchon escondesse a cereja no fundo de um pote de chantily. Quem não tiver disposição pra cavar, não come a frutinha. Mas, ainda que um pouco enfadonhas, as narrativas paralelas são interessantes. Pynchon pode ser um grande charlatão, não entender nada sobre física, química, eletroquímica e engenharia, mas engana muitíssimo bem. Seus personagens discorrem sobre matérias científicas que, para um leigo, realmente não dá para saber se aquilo é real ou uma grande embromação - se é verídico, consistente, Pynchon certamente é o escritor contemporâneo que mais entende de ciência. Bem, mas se isso acontece, é porque Pynchon fez aquilo que todo leitor espera de um grande escritor: ser enganado.

Sobre o encontro de um dos Traverse com um grupo de cientistas que analisava o funcionamento de uma nova arma, Pynchon escreve que "tentando entender de algum modo os princípios de funcionamento daquela arma que subitamente se tornara desejável, o simpático comerciante da morte parolava num bistrô osbcuro com um punhado de Quaternionistas, entre eles Barry Nebulay, o dr. V. Ganesh Rao, naquele dia metamorfoseado num negro americano, e Umeki Tsurigane, que vinha acompanhada de Kit, cada vez mais fascinado por aquela uva nipônica". Bem, com uma rápida pesquisa descobre-se que os quaternionistas formam uma corrente de matemáticos, mas e o Ganesh metamorfoseado em um negro americano? É preciso entrar no jogo. Taí outra estratégia do senhor Pynchon: fundir informações verídicas, fatos históricos, a pirações de alto grau. Assim, um dos Traverse, Frank, que vai matar um dos assassinos de seu pai, luta na Revolução Mexicana antes de embarcar para Veneza, onde planeja um atentado contra Vibe.

Mas, quando tudo parece caminhar para uma narrativa linear, Pynchon bagunça o coreto e dá início a uma digressão em que Kit embarca em um transatlântico que, a certa altura, cai em uma realidade paralela, em que as situações mais bizarras acontecem.

E, no meio de tudo isso, aos poucos, os personagens vão se encontrando. Reef, por exemplo, foi colega de faculdade do filho de Vibe e em determinado momento da narrativa vai para na Sibéria, depois para algum lugar da Ásia, onde trava contato com obscuros povos até encontrar alguns Amigos do Acaso. Paralelamente às viagens mais pesadas da narrativa, Pynchon vai mostrando que é bom no romance de suspense/policial. A filha problemática de Weeb se apaixona e casa com Kindred, um dos assassinos do próprio pai. Foge e é deserdada pela mãe, que se isola em uma pequena cidade, onde ganha a vida vendendo sorvete. Lake, a filha traíra, acaba virando escrava sexual de Kindred e Slot, os dois matadores de seu pai, e, em um acesso de raiva, mata o marido.

Mas, como acontece com uma banda brasileira de homens de barba hirsuta, quem geralmente estraga a brincadeira do senhor Pynchon são seus fãs. Só um paranoico como o detetive Doc Sportello, o hippie de Vício inerente, anotaria as referências mais obscuras de um livro de mais de mil páginas e tentaria cruzá-las com informações ainda mais herméticas que aparecem centenas de páginas depois. Pois há, acreditem, pessoas que levam a sério piadas. O senhor Pynchon, além de habilidoso escritor, é um grande piadista, que deve se deleitar ao escrever as mais longas peças humorísticas que se tem notícia da literatura mundial. E morrer de rir dos aficionados que tentam desvendar algo que não é para ser desvendado, apenas apreciado, como uma bela garrafa de vinho. Digerir o senhor Pynchon, portanto, é mais saudável sem orientação de especialista.

Algumas obsessões de Pynchon voltam a carga em Contra o Dia, como o período do entreguerras (a Primeira, neste caso), os temas científicos, a desorientação do homem contemporâneo e os longos fluxos de consciência de seus personagens - em Contra o Dia Frank conversa com o pai morto em diversos trechos do livro.

Então, caso você seja um daqueles leitores que sente falta de romances parrudos, com muitas tramas, mas que não seja uma peça literária do século XIX, Contra o Dia é o livro certo. Pynchon une o grande romance muralista ao modernismo pós-Ulysses. Como se Joyce e Dostoiévski se fundissem em uma mesma persona literária. Ainda que em muitos momentos tortuosa, a leitura de Pynchon é compensadora. Logo após a leitura do senhor Pynchon, catei da cabeceira um finório exemplar de Snuff, romance do escritor Chuck Palahniuk, que ficou tão humilhado diante do senhor Pynchon quanto aqueles caras que buscavam apoio psicológico em Clube da Luta. A comparação é cruel, mas uma boa medida para perceber o fosso que separa o senhor Pynchon da maioria dos escritores contemporâneos.

Neste período mediocrizante que vivemos, em que o discurso coletivo clama pelo fim da arte singular, utilizando como bengala o fim das vanguardas (há tanto tempo, hein?), Pynchon mostra que ainda é possível transgredir, mesmo correndo o risco da incompreensão. O que, para um artista tão bem-humorado quanto ele, não deve ser um problema.

Para ir além


Luiz Rebinski Junior
Curitiba, 25/4/2013


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