Estevão Azevedo e os homens em seus limites | Guilherme Carvalhal | Digestivo Cultural

busca | avançada
71995 visitas/dia
2,6 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Relacionamentos amorosos com homens em cárcere é tema do espetáculo teatral ‘Cartas da Prisão’, monó
>>> Curso da Unil examina aspectos da produção editorial
>>> “MEU QUINTAL É MAIOR DO QUE O MUNDO - ON LINE” TERÁ TEMPORADA ONLINE DE 10 A 25 DE ABRIL
>>> Sesc 24 de Maio apresenta Música Fora da Curva: bate-papos sobre música experimental
>>> Música instrumental e natureza selvagem conectadas em single de estreia de Doug Felício
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
>>> 2021, o ano da inveja
Colunistas
Últimos Posts
>>> Hemingway by Ken Burns
>>> Cultura ou culturas brasileiras?
>>> DevOps e o método ágil, por Pedro Doria
>>> Spectreman
>>> Contardo Calligaris e Pedro Herz
>>> Keith Haring em São Paulo
>>> Kevin Rose by Jason Calacanis
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
Últimos Posts
>>> Gota d'agua
>>> Forças idênticas para sentidos opostos
>>> Entristecer
>>> Na pele: relação Brasil e Portugal é tema de obra
>>> Single de Natasha Sahar retrata vida de jovem gay
>>> A melancolia dos dias (uma vida sem cinema)
>>> O zunido
>>> Exposição curiosa aborda sobrevivência na Amazônia
>>> Coral de Piracicaba apresenta produção virtual
>>> Autocombustão
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Vida de aspirante a escritor
>>> Cesar Huesca
>>> 24 de Maio #digestivo10anos
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> 22 de Maio #digestivo10anos
>>> Intravenosa
>>> A primeira batalha do resto da guerra
>>> Metal for babies, o disco
>>> Luz sob ossos e sucata: a poesia de Tarso de Melo
>>> Sidney Lumet, invisível
Mais Recentes
>>> Fenomenologia e Direito de Aquiles Côrtes Guimarães -( Coordenador) pela Lumen Juris (2005)
>>> Bate - Papo Com o Além de Zibia Gasparetto pelo Espírito Silveira Sampaio pela Espaço Vida e Consciência (1994)
>>> Certain Girls de Jennifer Weiner pela Simon and Schuster (2008)
>>> Mountaing Fears de Stuart Woods pela Penguin Uk (2009)
>>> Danielle Steel de Granny Dan pela Dell (2009)
>>> Thirty Ways of Looking at Hillary: Women Writers Reflect on the Candidate and What Her Campaign Meant de Susan Morrison pela Harper Perennial (2008)
>>> A relíquia de Eça de Queirós pela O globo
>>> Iracema de Jose de Alencar pela Folha
>>> Três autos da alma da barca do inferno de Gil Vicente pela Folha
>>> Clara dos Anjos e outras histórias de Lima Barreto pela Folha
>>> O cortiço de Alusío Azevedo pela O globo
>>> Sonetos de Bocage pela Folha
>>> As pupilas do senhor reitor de Julio Dinis pela Folha
>>> Amor e Perdição de Camilo Castelo Branco pela O globo
>>> O noviço de Martins Pena pela Folha
>>> A relíquia de Eça de Queirós pela Folha
>>> O Leopardo de Giuseppe Tomasi Di Lampedusa pela Companhia Das Letras (2017)
>>> The Host de Stephenie Meyer pela Litle (2009)
>>> Uns e Outros de Helena Terra e Luiz Ruffalo pela Dublinense (2017)
>>> A mulher que escreveu a Bíblia de Moacyer Scilar pela Folha (2012)
>>> Pegasus e o fogo do olimpo de Kate Ohearn pela Leya (2011)
>>> Tempo de Geografia de Axé Silva e Jurandyr Ross pela Brasil (2019)
>>> Pegasus e a batalha pelo olimpo de Kate Ohearn pela Leya (2011)
>>> Pegasus e as origens do olimpo de Kate Ohearn pela Leya (2014)
>>> Pégasus e os novos olímpicos de Kate Ohearn pela Leya (2013)
COLUNAS

Quinta-feira, 10/8/2017
Estevão Azevedo e os homens em seus limites
Guilherme Carvalhal

+ de 2000 Acessos



Pensar a literatura brasileira sempre foi perceber uma produção que se associou aos panoramas da sociedade de sua época. O ímpeto pela construção de um sentimento nacionalista levou a obras ufanistas como O Guarani e Iracema. O prenúncio de uma cidade complexa e repleta de conflitos como o Rio de Janeiro ficou estampado em O Cortiço. O modernismo e sua antropofagia igualmente mostravam uma busca por um modelo artístico nacional, condizente com as características do país, em consonância com os questionamentos artísticas que surgiam pela Europa.

Um movimento literário de grande força e que marcou a literatura nacional foi o chamado regionalismo. Marcado através de nomes como José Lins do Rêgo, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, Autran Dourado, e cujas influências se estenderam até autores mais atuais como João Ubaldo Ribeiro, esse movimento primou por mostrar o Brasil pelo seu viés rural, aspecto majoritário dessa época, muitas vezes se referindo a problemas de caráter social do país.

O processo de urbanização do país provocou mudanças na literatura. À medida em que a população das cidades crescia e a realidade nacional migrava da fazenda para os prédios, o foco da literatura também mudou. Tanto que nos tempos atuais, majoritariamente a nossa literatura não é apenas urbana, como também globalizada, com muitas obras apontando personagens que moram no exterior ou até mesmo se passando em outros países (como no caso da série Amores Expressos).

Assim sendo, Tempo de Espalhar Pedras, de Estevão Azevedo, é uma grata surpresa ao resgatar esse estilo que, apesar de representar uma importantíssima parte da nossa literatura, perdeu bastante espaço nos últimos tempos. E some a isso duas outras qualidades. Uma delas é o estilo de prosa do autor, brilhantemente desenvolvida. A outra, por retratar um ambiente bastante presente na nossa história e não retratada pela literatura: o garimpo.

A história se passa em uma vila cuja única sustentação econômica é o garimpo de diamantes. No período abordado, as pedras escassearam e a falta de perspectivas começa a afetar as pessoas. As relações jurídicas carecem de instituições formais e as pendengas são resolvidos pelo coronel, que possui direito de juiz e de vida ou morte sobre as pessoas. O coronel também detém o comércio local, tornando todos os garimpeiros seus dependentes, além de proibir através da força que vendam diamantes a outros compradores que não ele.

É nesse ambiente que um núcleo variado de personagens interage entre si. Homens desesperados atrás de pedras, esposas, filhas e outras mulheres que vivem em torno deles, um modelo de justiça inteiramente baseado no princípio da honra pessoal e toda forma de relação que advém desse tipo de sociedade. O fim de sua sustentação econômico torna essa rede de relações cada vez mais tensa, incitando a desconfiança e a violência.

O marco maior que guia sua narrativa são as restrições que envolvem todos os personagens. Faltam possibilidades de ganho financeiro, e isso leva a contendas violentas, desconfianças e inimizades. Falta o poder público, e isso cria um relativismo de regras que termina sempre na palavra do coronel.

Nesse meio de tantas restrições que Rodrigo tenta provar seu valor para o pai e em que o rezador Silvério conquista corações desafortunados com suas pregações. É o ser humano posto em uma situação um tanto quanto limítrofe, onde há cada vez menos alternativas e o desespero toma conta de todos.

A prosa de Estevão Azevedo remete à oralidade interiorana. Ele reconstrói, com qualidade poética, os modos de falar regionalistas, e nesse aspecto remete bastante a autores do modernismo, como Autran Dourado. Se vemos em muitos prosistas contemporâneos a busca pelo linguajar de periferia e outros modelos de dialetos urbanos, aqui encontramos a valorização de outra expressão calcada na fala, uma que tem se tornado mesmo expressiva nos tempos modernos.

O resgate realizado por Estevão proporcionou uma bela pérola literária para os tempos atuais. Em termos do que o brasileiro lê e do que temos em produção literária, ele foge da onda de autoficções e de literaturas urbanizadas que muitas vezes dão as costas para o Brasil e tentam ser mais estadunidenses e europeias do que brasileiras (sem contar o sonho da tradução). Ele resgata um pedaço precioso de nossa literatura e o faz com um livro rico e bem atual em seus dilemas, colocando o ser humano em seus limites.


Guilherme Carvalhal
Itaperuna, 10/8/2017


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Quincas Borba: um dia de cão (Fuvest) de Renato Alessandro dos Santos
02. Ficção e previsões para um futuro qualquer de Ana Elisa Ribeiro
03. Alma indígena minha de Elisa Andrade Buzzo
04. Layon pinta o silêncio da cidade em quarentena de Jardel Dias Cavalcanti
05. Championship Vinyl - a pequena loja de discos de Renato Alessandro dos Santos


Mais Guilherme Carvalhal
Mais Acessadas de Guilherme Carvalhal em 2017
01. Sabemos pensar o diferente? - 21/9/2017
02. Aquarius, quebrando as expectativas - 6/4/2017
03. A pós-modernidade de Michel Maffesoli - 8/6/2017
04. Mais espetáculo que arte - 16/3/2017
05. Literatura, quatro de julho e pertencimento - 20/7/2017


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A Mulher de Trinta Anos
Balzac
Nova Cultural
(2003)



Câncer Tem Cura!
Frei Romano Zago
Vozes
(1998)



Antologia Poética - Operários das Letras Vol 1
Odila Placência
Não Consta



Erros Clericais
Record
Record
(2005)



Radiologia e Diagnóstico por Imagem para Estudante de Medicina
David Sutton
Roca
(1996)



Captação De Recursos De Longo Prazo
Jairo Laser Procianoy, Richard Saito
Atlas
(2008)



Navegando Nas Letras - V. 1 - Cronicas
maurício de sousa
GLOBO
(1999)



Piadas Mix 6
Walter Sagardoy
Laselva
(2009)



Body For Life para Mulheres
Dra. Pamela Peeke
Sextante
(2006)



Memórias de Adriano
Marguerite Yourcenar
Nova Fronteira
(1980)





busca | avançada
71995 visitas/dia
2,6 milhões/mês