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Quinta-feira, 16/3/2017
Mais espetáculo que arte
Guilherme Carvalhal

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Em tempos de sociedade hipermidiática e em que pequenos e insignificantes acontecimentos sobrepõem fatos relevantes, a visão referente à cerimônia do Oscar foi de certo frisson em torno da gafe na entrega do prêmio de Melhor Filme e um pouco menos no que importa, a imensa qualidade do ganhador Sob a Luz do Luar. Essa visão se estende ainda para a disputa entre o ganhador e aquele que vinha sendo apontado como o favorito, La La Land e sua pegada estilo arrasa-quarteirão. Justamente por contar com maior relevância midiática e maiores comentários é que essa obra se estabeleceu como a potencial ganhadora.

Chamar La La Land de arrasa-quarteirão é um certo exagero, até mesmo por conta de seu diretor Damien Chazelle, que produziu o excelente Whiplash e assim se mostrou capaz de abordar temas que saem do lugar comum. Porém, dos indicados ao Oscar, La La Land é o que mais se vale das ferramentas de atração do público: casal de protagonistas simpáticos, felicidade para dar e vender durante boa parte do filme, uma dose de comédia de situação (mesmo que descambe em um drama). Para ser mais preciso, o filme foi um meio termo em Hollywood entre as megaproduções e o cinema autoral. Ele busca apresentar uma história mais profunda e utiliza atores renomados e belas técnicas de filmagem, tanto que ganhou Oscar de Design de Produção, Fotografia e Direção.

Foi justamente desse modelo que Sob a Luz do Luar escapa completamente, sendo o filme mais barato já realizado a ganhar o Oscar de Melhor Filme. Algo aliás que tem ocorrido frequentemente nas últimas premiações, de filmes que estão longe de serem sucesso de bilheteria levando a estatueta. As últimas grandes produções a disputarem, como Avatar e O Regresso, resultaram em derrota e em filmes com menor recepção do público sendo premiados.

Essa a circunstância que envolve Sob a Luz do Luar. Um filme de baixa repercussão popular recebendo a maior premiação do cinema expõe mais ainda a realidade que os últimos anos têm demonstrado, a de um desencaixe entre o cinema de qualidade e o cinema de alta bilheteria. Não apenas no cinema, mas em todas as formas de cultura se percebe isso, a de uma reprodução de conteúdo de fácil assimilação como o ponto forte de um empreendimento financeiro. E aquilo que se pretende enquanto inovador, questionador, reflexivo, etc, anda entre as margens da grande indústria.

A falta de contato com a obra gera más interpretações na recepção de Sob a Luz do Luar, qualificando-o como um filme negro e LGBT, que seria premiado como uma espécie de cota, principalmente após a série de protestos ano passado em decorrência da ausência de negros indicados. Nada mais distante da verdade, já que Sob a Luz do Luar possui um roteiro que conta uma história bela e humana e é muito bem amarrado, sem deixar nenhuma aresta sobrando.

Sob a Luz do Luar conta a vida de Chiron da sua infância até a fase adulta. O filme é recortado em três partes segundo a cronologia do rapaz: sua infância, adolescência e depois de adulto. Em todas essas partes, acompanhamos Chiron em busca de sua própria identidade, querendo se encaixar em algum lugar do mundo.

A construção da personalidade de Chiron e essa busca por quem ele de fato é se apoia em várias situações. Inicialmente temos o conflito familiar, da mãe viciada e da ausência do pai. Essa ausência o leva a buscar conforto na casa de Juan, um traficante, e sua esposa Teresa. E a imagem de Juan serve de parâmetro de Chiron por toda vida. Ao longo do filme outros conflitos surgem, como o gatilho da homossexualidade na adolescência e o contato com a violência, onde todas as suas influências (e as ausências, como a do vínculo familiar) o levam a fortes dilemas, o da busca por sua real identidade.

O verdadeiro valor inclusivo de Sob a Luz do Luar não é o de ser um filme negro vencendo o Oscar, mas a da quebra de esteriótipos dentro da narrativa. A indústria do cinema tem poucos protagonistas negros, e em muitos desses casos eles se encaixam dentro de um determinado padrão de personagem. Negros no papel de bandidos ou de operários eram comuns, mas não tanto em papéis de médicos ou juízes.

Sob a Luz do Luar tem um pouco de esteriótipos, como a visão do negro como uma classe excluída, a pobreza, a violência. Mas dentro desse esteriótipo (que eu particularmente encaro como a exposição de um problema social e não de um esteriótipo) os roteiristas e o diretor criaram uma história profunda, intrigante e humana, que não se limita a um panfleto social como se esperaria de um filme sobre negros e sobre homossexuais, mas a uma perspectiva mais existencial, sobre o papel do eu no mundo.

Da abordagem a esse filme, podemos olhar o perfil dos outros indicados ao Oscar e notar o quanto as indicações nesse ano de 2017 se deram em primazia dos roteiros do que de outros atributos técnicos. Manchester à Beira-Mar, ganhador do Oscar de Melhor Roteiro Original, apresenta um homem que tenta se estabelecer após um acidente matar seus filhos. Um limite entre nós é outra obra que apela bastante para a história e para o lado humanístico, sobre um homem brutalizado pela vida e sua relação com esposa e filhos. Basta pensar que das grandes produções do ano passado (como 50 Tons de Cinza, Star Trek: Sem Fronteiras, Rogue One) nenhuma foi indicada a Melhor Filme.

O que se poderia colocar como exceção seriam o já citado La La Land e A Chegada. Não que seus roteiros sejam mais fracos, porém são filmes com maior orçamento e com um apelo maior de efeitos e de elenco. A Chegada foi até uma surpresa, por ser um filme de ficção científica entre tantas obras com um pé bem fincado na terra, superando bastante o insosso Perdido em Marte, indicado ano passado.

E, mesmo entre tantas obras que possuem valores distintos e que podem agradar aos mais variados gostos por cinema e entretenimento, o que ficou marcado da entrega do Oscar foi a gafe com o ganhador do Oscar. Mais um marco de uma sociedade em que há pouca profundidade e o espetáculo fala mais alto do que qualquer análise mais profunda, tempos em que o comportamento de manada e a padronização de gostos se exacerba diante da indústria de entretenimento. Acabou que essa cena foi a redenção de si mesmo: se os filmes não causaram o impacto desejado pelo público, a falha proporcionou a dose de emoção que todos aguardavam.


Guilherme Carvalhal
Itaperuna, 16/3/2017


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