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COLUNAS

Quinta-feira, 21/9/2017
Sabemos pensar o diferente?
Guilherme Carvalhal

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Toda a atual celeuma em torno da exposição Queermuseu não é inesperada. O Brasil, por tradição, é composto por uma ampla dificuldade de formar um pensamento dialético, em uma sociedade composta por pessoas enfurnadas em suas bolhas e incapazes de interagir com o que existe fora dela. De tempos em tempos essas dificuldades de dialética se demonstram, fenômeno atualmente explanado ao extremo com o advento das redes e das mídias sociais digitais, que tiram pequenos pensamentos dos cômodos residências e lançam online.

Padre Landell de Moura, na virada do século XIX para o XX, é uma demonstração de como nos tempos da crença na ciência enquanto libertação do homem, o Brasil andava na contramão do fluxo. Cientista à frente de seu tempo, foi pioneiro na transmissão radiofônica, porém encontrou forte resistência tanto por parte da população quanto por parte do poder público (seu laboratório chegou a ser atacado, sendo chamado de satanista devido às suas ideias). Poderia ter entrado para a história como um dos maiores inovadores da ciência, mas essa dificuldade dialética atrapalhou e o relegou a herói local.

Podemos constatar essas manifestações nos mais amplos aspectos. Nosso país já constatou pedido de prisão contra Sófocles, a população do começo do século XX assistiu espantada aos médicos querendo vaciná-las à força, teve apresentadora de televisão atestando o uso de cúrcuma ao invés de pasta de dente, e segue uma sequência de crenças em xamanismo e resistência ao pensamento científico (a recente crença na capacidade da fosfoetanolamina curar o câncer baseado em evidências não-científicas nos mostra isso).

Compreender essa falta de dialética está estritamente ligado a todo um passado de desigualdades sociais, de uma população sem acesso a educação e afunilada em contextos de limitação de pensamentos, sem a condição de interagir com um plano mais amplo. O xamanismo medicinal, seja na tradição indígena ou em diversas outras, como nas oriundas de religiões europeias e africanas, se manifesta entre pessoas para quem a medicina científica não pode ser acessada. A figura do curandeiro será próxima a quem a do médico é distante. O afastamento institucional leva as pessoas a se virarem com o que tem, e o pensamento dialético passa longe.

De igual forma, o aspecto da educação formal causa danos diretos. Um exemplo é a baixa capacidade de pensamento matemático e, por conseguinte, de pensamento lógico, fruto da má educação. Esse prejuízo oriundo da escola gera uma sociedade para quem o questionamento acaba inexistindo. O resultado disso é a crença em argumentos rasos, o populismo político, o baixo empreendedorismo. Junte, ainda, a dificuldade em absorver conteúdo relacionado a história, artes, literatura: o resultado é bastante negativo.

Outro aspecto de cunho histórico é quanto à relação do indivíduo com a sociedade. Somos um país “forjado”. Falamos da formação de vilas e cidades em que suas elites muitas vezes contavam com total poder sobre o indivíduo. Falamos de uma ampla população oriunda de escravos africanos removidos de sua terra, de sua cultura, de sua língua, de sua sociedade. Isso todo sob um complexo administrativo nascido na metrópole, criando uma sociedade de cima para baixo, com suas normas e regras impostas sem saber o que a plebe queria.

Vivemos então o reflexo dessa formação: pessoas que não se relacionam naturalmente com a sociedade, mas de maneira mecanicista, artificial. Uma população que não compreende as próprias leis (o caráter disciplinador de um sistema legal feito apesar da população, e não para ela). O próprio pensar a coisa pública e zelar por ela é difícil ao brasileiro, já que ele próprio não se sente pertencente a ela. Direitos são transformados em privilégios por uma casta de elite política, utilizando toda essa falta de pertencimento para se perpetuar em suas posições.

A isso tudo, podemos somar impactos recentes da modernização. A sociedade midiática nos últimos anos tem tornado cada vez menor a pluralidade cultural das pessoas, notoriamente no aspecto musical. Há uma forte enxurrada de uma mesmice repetitiva, sendo vedado o plural. O conteúdo de cinema e, de certa forma em seu arrasto, o literário, cada vez mais é exclusivamente focado em conteúdo de natureza anglófila, em especial dos Estados Unidos. As favelas do Rio de Janeiro, localidades onde nasceu o samba, hoje se veem sem ele, cada vez mais exclusivo para uma classe média intelectual.

Esse somatório de fatores nos levam a compreender como o Brasil é uma sociedade onde pensar o diferente, em que pensar os contrapontos, é algo bastante difícil. As manifestações hoje em dia são notórias: baixa pluralidade no fazer político, restrições a uma exposição de artes, até mesmo a opressão através da violência de grupos de umbanda e candomblé por parte de traficantes influenciados por pastores.

Fico pensando como seria caso Francis Bacon (o pintor) ou Pasolini tivessem nascido no Brasil. Ou então se um gênio do calibre de Einstein tentasse pelo nosso universo pensante proferir uma teoria que colocasse abaixo as plenas convicções existentes até então pela física. Assim, temos um país que tende a permanecer na retaguarda dos avanços em todas as formas de pensamento.

Infelizmente, não se pode acreditar que estejamos dando passos a fim de alcançar uma mudança significativa. Uma pesquisa bem atual aponta que menos da metade dos adultos do Brasil não chegam ao ensino médio. O presente momento de crise indica que a tendência para os próximos anos não será de maior investimento em educação, e é bastante improvável que algum mudança consistente em questões de cidadania seja motivada pela iniciativa privada. Seguiremos sendo uma sociedade em que o pensar diferente será visto com espanto e rejeição. E continuaremos quebrando o laboratório de Landell de Moura.


Guilherme Carvalhal
Itaperuna, 21/9/2017


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