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Quarta-feira, 14/5/2008
Reinventando clássicos
Luiz Rebinski Junior

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Ao artista que se aventura no arenoso território das versões, há sempre duas opções: seguir a mesma fórmula da música original, com vocal e arranjos fidedignos, ou ousar, mudar o ritmo, acrescentar elementos sonoros inexistentes à matriz e buscar uma interpretação pessoal da canção. Com a primeira, bem mais segura, corre-se menos risco de cair no ridículo e entrar para a história como o intérprete que acabou com um clássico. Já a segunda opção, mais arriscada, requer do artista coragem, bom senso, muita personalidade e boa dose de talento. Dois ícones do underground americano, de gerações distintas, resolveram encarar o desafio de dar sobrevida a canções consagradas por grandes artistas. Cat Power, com seu recém-lançado Jukebox (2008), e a veterana Patti Smith, com Twelve (2007), retornaram à cena com trabalhos bastante parecidos.

Figura conhecida na cena independente americana, Cat Power, que também atende por Chan Marshall, seu nome verdadeiro, lançou um corajoso álbum de regravações, que mistura clássicos absolutos como "New York, New York" (Frank Sinatra), a canções menos conhecidas como "Ramblin' (Wo)man" (Hank Williams) e "Lost someone" (James Brown). Depois de um período sabático e de um bom álbum chamado Moon Pix (1998), Chan ressurgiu nos anos 2000 com You Are Free (2003), trabalho que destoava bastante do som introspectivo de seus álbuns anteriores. A partir daí, a artista deslanchou com The Greatest (2006), seu melhor trabalho autoral até agora. Com este Jukebox, Chan completa uma espécie de trilogia involuntária que a fez ressurgir do limbo e a trouxe novamente para os holofotes. Ainda que continue fiel às suas influências do começo de carreira (Dylan continua sendo a maior delas), é notório o amadurecimento da artista, que se reinventou ao partir para um som bem mais sofisticado e apurado, bem diferente das guitarras secas que costumavam dominar seus discos lançados nos anos 1990.

Jukebox representa o ápice desse processo de refinamento artístico que Chan vem sofrendo ao longo da última década. Esteada pela The Dirty Delta Blues, banda formada pelo guitarrista Judah Bauer (do Blues Explosion), pelo tecladista Gregg Foreman (do Delta 72), pelo baixista Erik Paparazzi (da Lizard Music) e pelo baterista Jim White (do Dirty Three), Chan concebeu um disco impecável, no qual ousa desconstruir músicas aparentemente intocáveis. É assim que a alegre "New York, New York" vira uma sóbria canção interpretada pausadamente e com muita tranqüilidade pela cantora. A pacata "Silver Stallion" é igualmente cantada de forma doce por Chan, que tem apenas um slide guitar como acompanhamento, o que dá à música uma aura country. O piano de bar e a guitarra contida dão ao disco um tom jazzístico, com uma pegada meio blues bastante interessante, sem o incremento de quase nenhum floreio.

O ídolo maior, Bob Dylan, é homenageado em duas faixas. Em "I believe in you", música de Slow Train Coming (1979), uma guitarra stoniana marca o ritmo, e em "Song to Bobby", Chan segue os passos de Dylan, quando em 1962, em seu disco de estréia, escreveu uma canção ao grande ídolo, Woody Guthrie. Em "Aretha, sing one for me", uma das mais belas canções do disco, Chan canta como uma verdadeira diva do blue-jazz, à altura da homenageada. A música é um belo exemplo de como Chan passou de uma indie triste a uma cantora de fôlego, capaz de interpretar grandes clássicos. O disco fecha com duas brilhantes interpretações para músicas de Janis Joplin ("Woman left lonely") e Joni Mitchell ("Blue").

Clássicos reinventados
Menos ousada que Chan Marshall na escolha do repertório, mas não menos competente em suas interpretações, a eterna punk nova-iorquina Patti Smith fez um disco repleto de clássicos do período de ouro do rock ― os anos 60 e 70. Experiente em recriar músicas de outros artistas, Patti se apropria de canções com tal naturalidade, que é difícil não acreditar que a música que canta não foi feita sob medida para ela. Foi assim em seu disco de estréia, Horses (1975), quando gravou "Gloria", do irlandês Van Morrison, e praticamente tomou para si a música, sendo ainda hoje um de seus hits obrigatórios em shows. "Because the night", seu maior sucesso radiofônico, foi igualmente surrupiada de Bruce Springsteen, que talvez pela impecável interpretação de Patti, nunca chegou a gravá-la.

E em Twelve Patti Smith mostra a mesma competência de outrora ao transformar trabalhos alheios em músicas assustadoramente pessoais. É assim com "Gimme Shelter", a música que marcou um dos momentos mais difíceis da carreira dos Rolling Stones, quando em 1969 um jovem negro foi assassinado em um show da banda pelos Hell's Angels. A canção já fazia parte do repertorio da cantora há alguns anos ― Patti a tocou em sua passagem pelo Brasil, no Tim Festival ―, antes mesmo da gravação de Twelve. E é realmente impressionante ver como a canção parece ter sido feita para Patti, ainda que a versão original dos Stones seja também muito boa. Os versos "guerra, crianças, está a um tiro de distância/ está a um tiro de distância", além de serem bastante propícios para nossa época, são cantados com muita propriedade pela mesma pessoa que há 30 anos acreditava que "as pessoas têm poder" ("People have the power"). O mesmo acontece com a pop "Everybody wants to rule the world", do Tears for Fears, docemente interpretada por Patti, que coloca sua história de militância a serviço dos inocentes versos "agir só pensando em si próprio / virar as costas para a natureza / todos querem comandar o mundo". Patti Smith ainda dá novas interpretações a clássicos absolutos da psicodelia sessentista, como "Are you experienced", do primeiro disco de Jimi Hendrix, e a viajandona "White Rabbit", do grupo de Grace Slick, o Jefferson Airplane.

Optando por instrumentos acústicos e semi-acústicos na maior parte do disco, Patti acerta na mosca ao escolher "Helpless", do quarteto Crosby, Stills, Nash, and Young. Acostumada a gritar palavras de ordem, aqui Patti se rende à doçura pedida pela balada originalmente gravada em Dejà Vu (1970). A figura imponente de Patti joga a favor. Sua voz indefectível, sua história como combatente política e poetisa do rock dão credibilidade às suas incursões aos versos alheios. É como se tomasse para si a autoria das músicas que canta, fazendo-o com plena autoridade e convicção. É com muita coragem que ela arrisca transformar a pesada e furiosa "Smells like teen spirit", música-símbolo de uma geração, em uma canção sóbria, esteada por um inesperado bandolim, que facilmente poderia estar em um dos bons álbuns do The Pogues. O álbum como um todo, com suas 12 canções, é prova de como Patti Smith continua sabendo criar um som verdadeiramente único, exatamente como há três décadas, quando combinou de forma edificante a gênese da poesia beat com o poderoso espírito punk.

Careqa espera por Tom Waits
Se interpretar canções alheias já é uma tarefa difícil e perigosa, a tradução de letras musicais é, com certeza, um trabalho ainda mais delicado. Há quem acredite que traduzir poesia é uma tarefa impossível, dada a dificuldade de se manter intactos o sentido e a forma dos versos originais. Em À espera de Tom, o cantor e compositor Carlos Careqa sai ileso da difícil tarefa de verter para o português os versos boêmios do cantor norte-americano Tom Waits, ainda que tenha arriscado modificar expressões e sentidos em algumas das letras do disco com o claro objetivo de aproximar o universo de Waits do público brasileiro.

Se Chan Marshall e Patti Smith tentaram transformar clássicos em música autoral, À espera de Tom tem claramente o objetivo de prestar tributo a Waits, sem tentar reinventar o som peculiar que garantiu ao norte-americano a aura cult que o acompanha desde os anos 70, seja na música, literatura ou cinema. E assim, mesmo com algumas alterações, como em "Jersy Girl", que virou "Garota de Guarulhos", e "Chocolate Jesus", alterada para "Guaraná Jesus" (uma homenagem ao refrigerante mais popular do Maranhão), Careqa acerta a mão ao não trair a atmosfera marginal das músicas de Waits, o que parece ser o mais importante aqui, muito mais do que seguir uma tradução literal dos versos do cantor. Ainda assim, em faixas como "Temptation" e "I don't wanna grow up" (uma das canções mais divertidas, e sérias, de Waits), Careqa prefere ser fiel à matriz. Mas é na manutenção da estética underground, que se baseia em histórias de vagabundos incorrigíveis, bêbados perturbados e marginais de coração dolorido, presente na música de Waits, que faz do disco de Careqa um interessante ponto de partida para quem não conhece Tom Waits a fundo, mas também para quem já é familiarizado com a peculiar sonoridade do norte-americano. Careqa foi fiel à orquestração habitual das músicas de Waits, com contrabaixo, piano, guitarra, acordeon e percussão pungente, o que deu ao álbum o clima de cabaré e clube noturno que povoa a discografia de Waits. A demência das letras, que abordam temas que vão da religião a dor de cotovelo, encontra eco na música que ora tende ao jazz, ora ao folk. Crédito para a banda, afinadíssima, que acompanha Careqa nesta empreitada. Em "Downtwon train" ("Num trem de metrô"), o solo de violão de aço de Mário Manga contrasta com o jeito canastrão, quase brega, que Careqa interpreta a letra sobre um loser que vaga pela noite. Já "Ruby's arms" ("Pro meu rubi"), gravada originalmente em Heartattack and Vine (1980), um dos mais potentes álbuns da primeira fase de Waits, é uma balada triste arrebatadora cantada com esmero por Careqa, que é acompanhado pelo piano de Gabriel Levy.

Ator, assim como o ídolo (Careqa atuou, entre outros, em Bicho de Sete Cabeças, de Lais Bodanzky), Carlos Careqa engrossa a voz, empunha o megafone e representa de forma convincente o papel de Waits durante as 14 canções do disco. Se traduzir é trair, como o próprio Careqa afirma no encarte do CD, em À espera de Tom o cantor o faz com estilo e elegância, exatamente como o personagem que Waits construiu e representa há várias décadas.


Luiz Rebinski Junior
Curitiba, 14/5/2008


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