O óbvio ululante da crônica esportiva | Luiz Rebinski Junior | Digestivo Cultural

busca | avançada
22858 visitas/dia
708 mil/mês
Mais Recentes
>>> Mulheres detêm o poder do mundo em eletrizante romance de Naomi Alderman
>>> Comédia Homens no Divã faz curta temporada no Teatro Municipal Paulo Eiró
>>> Ballet Acadêmico da Bahia apresenta STAR DANCE no TCA, dia 07/06 às 20h
>>> Zé Eduardo faz apresentação no Teatro da Rotina, dia 30.05
>>> Revista busca artigos inspirados no trabalho de professores
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A Fera na Selva, filme de Paulo Betti
>>> Raio-X do imperialismo
>>> Cães, a fúria da pintura de Egas Francisco
>>> O Vendedor de Passados
>>> A confissão de Lúcio: as noites cariocas de Rangel
>>> Primavera para iniciantes
>>> Nobel, novo romance de Jacques Fux
>>> De Middangeard à Terra Média
>>> Dos sentidos secretos de cada coisa
>>> O pai da menina morta, romance de Tiago Ferro
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lançamentos em BH
>>> Lançamento paulistano do Álbum
>>> Pensar Edição, Fazer Livro 2
>>> Ana Elisa Ribeiro lança Álbum
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
>>> Conceição Evaristo em BH
>>> Regina Dalcastagné em BH
>>> Leitores e cibercultura
>>> Sarau Libertário em BH
>>> Psiu Poético em BH esta semana
Últimos Posts
>>> Greve de caminhoneiros e estupidez econômica
>>> Publicando no Observatório de Alberto Dines
>>> Entre a esperança e a fé
>>> Tom Wolfe
>>> Terra e sonhos
>>> Que comece o espetáculo!
>>> A alforja de minha mãe
>>> Filosofia no colégio
>>> ZERO ABSOLUTO
>>> Go é um jogo mais simples do que imaginávamos
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Propostas para o nosso milênio (I)
>>> Lobato e modernistas: uma história mal-contada
>>> Lobato e modernistas: uma história mal-contada
>>> Dos sentidos secretos de cada coisa
>>> Nobel, novo romance de Jacques Fux
>>> Entrevista da Camille Paglia
>>> Primavera para iniciantes
>>> Batchan, elas são lindas...
>>> Batchan, elas são lindas...
>>> Meu cinema em 2010 ― 2/2
Mais Recentes
>>> Os donos do poder - 02 vols.
>>> Quem é Você, Alasca?
>>> O Homem do Céu
>>> Lolita
>>> Vida Querida
>>> Paula
>>> Caetés
>>> Sem Marido... E Agora?
>>> Angústia
>>> Gafe não é Pecado
>>> Se Abrindo pra Vida
>>> O Despertar da Águia
>>> Cartas
>>> Linhas Tortas
>>> São Bernardo
>>> A Escrita da História - Novas Perspectivas
>>> O Pensamento de Farias Brito
>>> O Eneagrama no Amor e no Trabalho
>>> História das Literaturas-História Literária de Portugal Volumes 1 e 2
>>> Dicionário Biográfico Musical
>>> Novo Mundo dos Trópicos
>>> Francis Bacon, Descartes e Spinoza
>>> A Verdade como Regra das Ações
>>> A Grande Aventura Masculina
>>> La Dimension Cachée
>>> Segure o grito!
>>> Onde tem bruxa tem fada....
>>> Os bichos que eu tive
>>> Oo empinador de estrelas
>>> D.E.P. - diplomacia, estrategia politica
>>> Mais respeito, eu sou crianca
>>> Escritos dos 15 anos
>>> Droga de Americana
>>> Cecilia Meireles colecao melhores poemas
>>> As confusoes de aninha
>>> A volta do passaro encantado
>>> Os grandes experimentos cientificos
>>> Noçõeds de direito público e privado
>>> Temas de filosofia
>>> Herança
>>> Terra sonambula
>>> Tarsila e o papagaio Juvenal
>>> Sagarana
>>> Sagarana
>>> Quarto de despejo
>>> Petrus Logus os guardiao do tempo
>>> Poemas Negros
>>> Os sofrimentos do jovem werther
>>> O centauro no Jardim
>>> Historia do cerco de Lisboa
COLUNAS >>> Especial Olimpíadas e China

Quarta-feira, 27/8/2008
O óbvio ululante da crônica esportiva
Luiz Rebinski Junior

+ de 5000 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Em 1962, Nelson Rodrigues participava de uma das primeiras mesas-redondas de futebol da televisão brasileira, na TV Rio. O tema da discussão era um Fla-Flu vencido pelo time das Laranjeiras em que o juiz Airton Vieira de Morais, o Sansão, deixou de marcar um pênalti para o rubro-negro carioca. Para tirar definitivamente a dúvida se o juiz errou ou não, Luís Mendes, âncora do programa, manda rodar o teipe, grande novidade na TV brasileira e que prometia acabar com várias discussões sobre lances polêmicos. Ao rever o lance, os integrantes da mesa foram unânimes em apontar pênalti contra o Fluminense. Todos, menos o tricolor Nelson Rodrigues, que não pestanejou em dizer: "Se o videoteipe diz que foi pênalti, pior para o videoteipe. O videoteipe é burro". A história é bastante conhecida e é narrada por Ruy Castro em O anjo pornográfico, a biografia de Nelson Rodrigues. Mas a passagem não é apenas hilária, é também ilustrativa de como o jornalista Nelson Rodrigues, que sofria de um crônico problema de visão, via "o seu próprio jogo", muito mais com as lentes de um escritor do que de um jornalista ― afinal, detestava os idiotas da objetividade.

Nelson Rodrigues, nosso maior dramaturgo, foi também nosso maior cronista esportivo. Mas seu jeito shakespeariano de contar uma partida de futebol parece ter morrido junto com ele. Hoje, o que se vê nos cadernos de esporte é um jornalismo chato, massificado e burocrático. Quase não há vozes dissonantes na área esportiva da imprensa escrita brasileira, que, aliás, deveria assumir outra nomenclatura e mudar o nome para editoria de futebol, seria mais sincero com os leitores e condizente com o conteúdo. A leitura de um caderno esportivo se tornou previsível. A falta de imaginação para boas pautas, que fujam do preguiçoso esquema preparação-jogo-repercussão, deixou os cadernos de esporte um espaço de leitura banal, em que o mais do mesmo é regra. Sem contar, claro, nos inúmeros comentaristas que se abundam na imprensa esportiva. Hoje, o que mais há é gente metida a comentar futebol. Há até o blog do torcedor nos grandes portais de informação. Como se não fosse suficiente ex-jogadores, ex-árbitros e ex-técnicos falando de futebol, agora até os torcedores são comentaristas, como se qualquer um tivesse algo relevante a dizer. Não tem. E isso deixa a leitura de cadernos de esporte empobrecida. Pura perda de tempo ― de quem escreve e de quem lê.

E talvez seja esse o motivo pelo qual, nas redações, principalmente de rádio e televisão, o esporte é sempre dissociado do jornalismo. Como se a cobertura de esporte também não fosse jornalística. Além de ser um "preconceito" histórico, que remete às origens do jornalismo nacional, a separação entre jornalismo e esporte certamente é fomentada por conta dessa avalanche de gente despreparada que fala e escreve sobre esporte em nossa imprensa. E de toda a fauna esportiva, o ex-jogador é o que mais causa urticária quando abre a boca. Parece haver um consenso burro em torno da idéia de que basta o cidadão ter jogado futebol durante 20 anos para poder se tornar um comentarista da bola. Isso o credencia a falar e escrever sobre futebol, mesmo que não consiga formular uma frase sequer sem agredir a querida língua portuguesa. Mas isso não importa, falar errado para milhões de telespectadores, no caso da TV, é o de menos, o que vale é que quem está comentando tem experiência, esteve no gramado um dia e sabe o que fala. Mas o pior é que muitos não sabem o que dizem ― ou não sabem como dizer o que sabem. Não é preciso ser fanático por futebol para perceber que a maioria dos comentaristas fica apenas repetindo o óbvio durante 90 minutos, sem dizer nada de singular ou que faça o telespectador pensar. Então por que ter uma pessoa que fique verbalizando ― muito mal, diga-se de passagem ― o que as câmeras mostram, por diversos ângulos diferentes? O fato é que a cobertura esportiva no Brasil menospreza a inteligência do leitor/espectador. A abordagem nonsense do futebol, os comentários vazios, que não dizem nada e só servem para encher lingüiça, ignoram o senso crítico de quem gosta de esporte (leia-se futebol, sempre). Na televisão a cabo, que oferece canais especializados, a qualidade melhora um pouco. Há gente mais preparada, que só fala quando tem certeza e evita dizer besteiras durante a transmissão. Mas na televisão aberta, o nível vai lá embaixo e não sobe de jeito nenhum. Além disso, o Brasil talvez seja o único país do mundo em que existe a figura do comentarista de arbitragem. Ou seja, um "especialista" do apito, geralmente árbitro aposentado, que vai avaliar o desempenho da autoridade máxima da partida. Seu trabalho consiste, basicamente, em esclarecer lances polêmicos, depois de rever várias vezes o replay da jogada. Fácil, não?! É a coisa mais esdrúxula do esporte. Simplesmente porque, no futebol, por conta de regras frouxas, há sempre espaço para interpretações diferentes de um mesmo lance, o que torna a opinião do especialista em arbitragem pouco relevante, pois é só mais uma entre tantas possíveis. Mas mesmo assim, em todo jogo de futebol no Brasil a figura meramente ilustrativa do comentarista de arbitragem se faz presente, inexplicavelmente.

É claro que em um país onde o futebol faz parte da vida de grande parte da população, as pessoas se sintam confortáveis em palpitar sobre a escalação dos times, falar da arbitragem e comentar os bastidores do futebol em mesas de bar. Mas deveria haver um limite entre aqueles que se preparam para um ofício e quem apenas dá pitaco. Porque a maioria dos nossos comentaristas não faz mais do que palpitar, como qualquer um faria em uma roda de amigos, com maior ou menor habilidade. Não há quase nada de relevante saindo da boca dos comentaristas, apenas o óbvio. Então qual seria o critério para uma pessoa virar cronista esportivo? É o que me pergunto toda vez que ligo a televisão em busca de um bom jogo de futebol e escuto gente mais ignorante do que eu falando besteira. Em uma área tão povoada de pessoas que acham muito e sabem pouco, a saída certamente é a informação. Por isso que Paulo Vinicius Coelho, o PVC, destoa tanto entre os especialistas de futebol. Quando o jornalista da ESPN Brasil começa a falar de táticas e estatísticas obscuras do mundo da bola, o telespectador tem a certeza de estar vendo um profissional que checou informações, suou a camisa atrás de novidade, e não apenas mais um torcedor travestido de comentarista. E é isso que faz a diferença em um meio carregado de palpiteiros. Em qualquer área do jornalismo, o público quer sim opinião, claro, mas quer também informação, saber o que desconhece e agregar conhecimento ouvindo gente que vai atrás daquilo que poucos sabem. E no jornalismo esportivo não deveria ser diferente, mas o bom e dedicado repórter, como PVC, é exceção em meio aos especialistas do nada.

Em uma outra ponta, há gente que tenta dar mais sabor à caretice da nossa crítica esportiva fugindo dos números e apostando em uma boa prosa. Jornalistas vindos de outras áreas que não a do esporte, como Xico Sá (literatura), José Roberto Torero (cinema e literatura) e José Geraldo Couto (cinema) dão à crônica de futebol uma chance de escapar do lugar-comum. Principalmente o primeiro deles, Xico Sá, que tenta revelar o lado B do esporte em textos repletos de boas referências culturais. Crônicas que trazem a irreverência de um João Saldanha, a poesia de um Armando Nogueira e os delírios de um Nelson Rodrigues, sem esquecer da sabedoria do alambrado daquele que faz o mundo da bola girar, o torcedor. Mas assim como o superespecialista PVC, Xico Sá é um estranho no ninho. O grosso da crônica esportiva nacional é de palpiteiros que trocaram o boteco pelo estúdio de televisão e não se deram conta disso. Ao torcedor, impossibilitado de desligar a televisão por conta da paixão, resta apenas resignar-se ante o discurso insosso dos nossos profetas da bola.


Luiz Rebinski Junior
Curitiba, 27/8/2008


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Crônica de Aniversário de Julio Daio Borges
02. A noite do meu bem, de Ruy Castro de Julio Daio Borges
03. Elon Musk de Julio Daio Borges
04. E+ ou: O Estadão tentando ser jovem, mais uma vez de Julio Daio Borges
05. Blockchain Revolution, o livro - ou: blockchain(s) de Julio Daio Borges


Mais Luiz Rebinski Junior
Mais Acessadas de Luiz Rebinski Junior em 2008
01. O jornalismo cultural no Brasil - 2/1/2008
02. Bukowski e as boas histórias - 15/10/2008
03. Despindo o Sargento Pimenta - 16/7/2008
04. O óbvio ululante da crônica esportiva - 27/8/2008
05. Crônicas do anonimato - 19/3/2008


Mais Especial Olimpíadas e China
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
8/9/2008
12h34min
É preciso referir, também, o ótimo trabalho do Flávio Carneiro, a respeito, na sua coluna no Jornal Rascunho. Bjs, Paula
[Leia outros Comentários de paula cajaty]
27/2/2010
18h28min
Grande Nelson Rodrigues. Uma figuraça mesmo! Genial.
[Leia outros Comentários de vitalves]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O DESPERTAR DA MEIA NOITE
LARA ADRIAN
UNIVERSO DOS LIVROS
(2011)
R$ 10,00



THE LORD IS MY SHEPHERD AND HE KNOWS IM GAY
CHARLES L. LUCAS
A BANTAM BOOKS
(1978)
R$ 19,90



OS FILHOS DO IMPERADOR
CLAIRE MESSUD
NOVA FRONTEIRA
(2008)
R$ 5,00



DOCES MOMENTOS
DANIELLE STEEL
RECORD
(2008)
R$ 9,90



O SERMÃO DA MONTANHA
GEORGES CHEVROT
ASTER / CASA DO CATELO (PORTUGAL)
(1965)
R$ 8,00



O SEGREDO DE CHIMNEYS
AGATHA CHRISTIE
RECORD
R$ 8,99



MEU PRIMEIRO DICIONARIO OXFORD DE CIÊNCIAS DA NATUREZA
GRAHAM PEACOCK
OXFORD UNIVERSITY PRESS
(2016)
R$ 20,00



LORD JIM
AUTOR CONRAD
PAN CLASSICS
(1978)
R$ 8,00



SÃO PAULO PARA COLECIONADORES
ALEX XAVIER
PANDA BOOKS
(2003)
R$ 5,00



PUBLICIDADE EM CORDEL: O MOTE DO CONSUMO - GILMAR DE CARVALHO
GILMAR DE CARVALHO
MALTESE
(1994)
R$ 10,00





busca | avançada
22858 visitas/dia
708 mil/mês