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Sexta-feira, 15/6/2012
A herança e a partilha
Ana Elisa Ribeiro

+ de 4500 Acessos

Há anos venho cultivando, aqui e ali, de um jeito e de outro, uma biblioteca. Comecei pedinte: "Mãe, compra?", o que surtia sempre bom efeito, graças a Deus. Repitam comigo: Graças a Deus. Ali dei início à empreitada mais cara, provavelmente, da minha vida. Cara, sim, mas sem qualquer sombra de arrependimento. Comprar livro jamais me pareceu uma afronta ou um desperdício. Foi, isto sim, oportuno e voluntário, como seria qualquer outra coisa.

Sem pensar muito na tecnologia predominante, na máquina hegemônica ou na marca do software, fui juntando meus desejos em prateleiras, ora brancas, ora cor de café. Incluem-se entre meus quereres as próprias estantes, que chegaram leves e se tornaram pesadas e firmes. Os livros, além de outras coisas, ajudam a estabilizar parafusos e a fincar pés. As estantes foram sendo necessárias, já que os livros foram ficando incontidos.

Há décadas venho ajuntando o resultado das minhas leituras, sejam elas passadas ou futuras. Pedi o que os professores indicaram, pedi o que ninguém me contou, pedi o que ouvi falar que era bom, pedi o que cismei de conhecer, pedi o que ninguém me deu. Chega uma hora em que é importante dar passos com meus próprios pés, comprar meus próprios livros, sem dar desculpas a ninguém. O risco é: se a escola não pediu, pra que serve? Não me venham com isso. É o leitor que manda, quando ele pode. E eu queria mandar.

Bem, das indicações escolares aos desejos íntimos surgiu, então, parte do aparato que sustentou minha vida. Sem exagero, é a vida que está ali, atrás das lombadas. E então, quando vi que pedir à mãe já não cabia (o pai nunca participou disso, ao menos diretamente), parei de lanchar, que era um jeito diet de ler mais e continuar cultivando minha imaginação; continuar regando a alma; continuar oferecendo insumo ao que eu ainda iria escrever; ração ao Homo sapiens, que só sabe o que conhece, só saboreia o que lhe cai no gosto.

Formada minha biblioteca, sempre em expansão, seja ela impressa ou virtual, resolvi, depois de me tornar mãe, fazer algo parecido pelo meu filho, ainda sequer leitor. Com a vantagem de conhecer autores e de ganhar livros de presente (muita vez autografados), comecei a compor a estante do meu guri. Não sei se ele a quererá, nem sei se ele sabe o que ela significa, mas ele já gostava de capas e lombadas coloridas.

Comprei uma pequena estante multicor para alojar o leitor que eu tinha certeza de ter parido. Não é possível? Será que não? Quem haveria de distorcer assim uma geração? Não seria. O que seria de mim sem isso? Que herança verdadeiramente deixar? Melhor fazer minha parte. E fiz. E faço.

Passei alguns anos acariciando uma certa ansiedade. Por algumas vezes, cheguei a engolir certa vontade de chorar ao ver o menino aprendendo o alfabeto, sendo apresentado à leitura. Ficava ali, espreitando cada investida dele contra o texto, cada passo que ele dava em direção às palavras escritas. Não forcei, mas deixei claro que havia estantes à disposição. Acesso não é tudo. Acesso é só uma porta aberta. Não é pouco, no entanto. Mas é preciso querer entrar.

Cheia de um ambiente propício, dona de um jardim de livros, autora de outros, chegou o dia de ver meu filho entender uma história escrita. Não foi fácil. Como é complicado aprender a ler! Como é digno chegar ao sentido. Fui acompanhando, sem alarde, as conquistas do garoto, que não demonstrava pela escrita o mesmo interesse que eu, mas que se esforçava por compreender a operação que abria os caminhos da literatura e de tudo o mais que se quisesse aprender.

Há anos venho lendo à noite para meu piá. Há anos participo, com ele, daquele ritual da escolha de um livro, da luz do abajur, de recostar na cabeceira da cama, de ter um bom edredom onde esquentar os pés, de assumir o controle do ritmo da história, de mostrar gravuras e a bela ilustração, de admirar-me com ele dos rumos da narrativa, dos sustos da poesia. Lá íamos nós, sempre comigo à frente, com o livro aberto nas mãos, esperando o sono chegar.

Passamos anos, eu e meu menino, reiventando histórias, relendo coisas engraçadas, tecendo tramas. Anos sendo a leitora oficial do campeonato, a voz que traduzia letra em encanto. Até que chegou o dia. Poucas vezes me dei conta de uma alegria tão imensa e tão sensata. Foi assim: escolhemos o livro, sentei-me na cama, ajeitei-me sobre os travesseiros, cobri meus pés e concentrei-me no volume que eu mesma segurava. Ele, por sua vez, ajeitou-se do mesmo modo de sempre, ao ponto de eu não perceber diferença em sua intenção. Quando ia começar, meu guri assaltou-me, tirou-me das mãos o livro e, com firmeza, ordenou: "deita, mãe, hoje EU vou ler para você". E cumpriu, não sem alguma dificuldade, a proposta linda que nos fizemos desde sempre: a de compartilhar palavras, agora em mão dupla.


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 15/6/2012


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