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Sexta-feira, 5/7/2013
Cachorros e Lágrimas
André Simões

+ de 7600 Acessos

Ela me chamou de lado, durante a festa, perguntou se eu tinha um minuto, queria falar comigo, muito polida, quase cerimoniosa, aquilo não combinava com nossa intimidade, nem com o ambiente. Foi um jorro de lamentações sobre o namorado (ex-namorado, naquela altura), ao fim do qual não pôde conter as lágrimas.

Ficou muito muito envergonhada, deu para perceber. Não pelo fato de, neste ano do Senhor de 2013, sendo pessoa esclarecida, com graduação em filosofia, bradando suas tendências progressistas, ainda comportar-se como o arquétipo da mulher de malandro - isso seria justificável. Ela estava constrangida era por chorar na minha frente, pediu desculpas e tudo.

Ora, mas que coisa, não havia necessidade de perdoá-la e não era motivo de embaraço externar emoções na frente de um amigo. Agradeci pela confiança em mim depositada, e que ela soubesse sempre lhe daria atenção quando precisasse. Infelizmente, naquele caso específico, não havia como interferir, meu papel estava restrito ao de ouvido disponível para desabafo. Tivesse serenidade, não se maltratasse, claro que uma situação destas é sempre triste, mas as coisas se ajeitam. Não me ocorreu nada melhor do que murmurar a velha frase: "vai ficar tudo bem" .

***

Algumas semanas depois. Tudo bem. Madrugada bem madrugada, lanchonete. À minha frente um hambúrguer, à frente dela alguma coisa indefinível feita de soja, entre nós as gargalhadas e as divagações despropositadas que o horário e a situação impõem.

Ela era vegetariana fazia muitos anos, certo? Adorava os animaizinhos, mantinha grupos no facebook, denúncias de abusos e tal. Também tinha cachorros e gatos em casa. Até aqui tudo bem? Então, ela, filósofa, e bem informada sobre o assunto, que me ajudasse a encontrar uma falha no meu raciocínio, porque eu não estava conseguindo achar.

A maioria dos vegetarianos mantém, entre outros espécimes de nossa rica fauna, cachorros e gatos em casa. Não tenho dados sobre isso, mas acho que é uma observação segura, né? Vou assumir que esses lindos bichinhos não são deixados para buscar seu alimento junto à mãe natureza. Recebem, de seus donos, ração. A ração tem carne bovina. Tiramos daí que, consciente ou inconscientemente, para boa parte dos vegetarianos, o abate bovino para a alimentação de animais domésticos é justificável; para a alimentação de humanos, não. Logo, tem-se a criação de uma tabela valorativa, na qual cachorros e gatos valem mais do que bois; estes, por sua vez, são mais importantes do que os humanos.

Foi ficando vermelha ao longo do meu discurso, não liguei, mas numa pausa para tomar fôlego ela aproveitou a brecha e me dirigiu seu "cala a boca, vai", porque tudo o que ela não precisava naquela noite era ouvir piadas escrotas sobre vegetarianos vindas de quem vibra com bicho morto.

Eu deveria ter seguido o conselho e calado a boca, mas quis me defender da acusação. Uma falácia de raciocínio dizer que eu vibrava com bichos mortos: minha vibração era restrita ao SABOR de ALGUNS TIPOS de bichos mortos, apenas quando adequadamente preparados. Uma fração insignificante de espécies ante a variedade desse mundão. E em segundo lugar, não estava fazendo piada. Estava realmente pedindo ajuda a ela, filósofa, para encontrar alguma falácia no MEU raciocínio, porque a conclusão parecia de uma incoerência tão grande que não era verossímil assumir a desatenção de todos os vegetarianos do mundo a esse fato. Só poderia ser eu mesmo que estava deixando passar algum ponto vicioso, e a procurei como auxílio qualificado para a localização dessa falha.

Sorriso amargo, pezinho balançando, olhar 43 dando lugar ao 666. "Talvez cachorros, gatos, bois e ratos valham mesmo mais do que humanos, às vezes fica mais fácil notar."

Embora me preocupasse a fragilidade de sua autoestima, respeitava sua opinião, reservando-me o direito de discordar. Na minha tabela particular de valoração, embora haja casos desafiadores como Paulo Maluf, Hitler e o inventor do forno micro-ondas, a média ainda faz da espécie humana a mais louvável, com cachorros, bois e ratos sendo de igual categoria - apenas acontece de homens diferentes se afetuarem a animais diferentes, assim como há quem prefira Friends a Seinfeld, fazer o quê.

Nenhum pastor alemão, por mais alto que latisse, jamais chegou perto da força da 9ª Sinfonia, e nenhuma docilidade ovina é tão comovente quanto o Soneto de Fidelidade. Mesmo as delícias dos lençóis de seda e do bacon devem ser antes atribuídas ao homem, usando o mesmo tipo de convenção que nos leva a felicitar pelo gol o atacante, não o dono da fábrica que entregou as traves do estádio.

Acho que foi o salvo-conduto dado a ela naquele dia da festa. A moça começou a se esvair em lágrimas, ali, na frente dos clientes lotando o estabelecimento, um espetáculo. Misturou tudo em seu desabafo: estava chegando o dia dos namorados e ela havia perdido o seu, queria distrair-se com os amigos, mas justo quando estava conseguido se divertir era zoada por mim, até tu Brutus, e eu não respeitava a sensibilidade dela, a solidão, e o Totó (ou sei lá qual o nome do bicho) havia morrido há alguns meses (juro que não sabia), o emprego estava uma bosta etc. Eu estava com medo que EU fosse tomado como o namorado cruel ante aqueles ruídos, aquele rímel escorrendo, aquela caca de nariz. Uma vez vi um cara fortão interferir numa briga de casal num bar, "você está precisando de ajuda com o sujeitinho aí, querida?". Deus me livre.

Como proceder? Calma, eu só quis ser irreverente, não sabia que você estava assim tão sensível, desculpe se a ofendi. Mão no ombro. "Vai ficar tudo bem."

* * *

Filmes comoventes, palavras e gestos bonitos da namorada, morte de parentes, muito raramente isso me faz chorar. As lágrimas não me vêm por tristeza, melancolia, explosão de felicidade, enternecimento - isso seria salutar -, mas por desespero, de maneira bissexta, em torrentes, para expurgar algo há muito represado. Se fosse mais manteiga derretida, talvez conseguisse ser uma pessoa mais leve.

Posto esse elogio ao choro, devemos convir que há gente chorando demais por aí. Em público. E isso é meio irritante. Okay, muito irritante. Chorar é como assoar o nariz: não se deve ter vergonha da necessidade, mas é de bom tom não fazer exibicionismo disso.

As pessoas que reprimem o choro deveriam chorar mais, e quem chora pode continuar chorando - mas com a discrição que um ato íntimo demanda. Enrustir gases faz mal à saúde, traz problemas intestinais; segurar o choro também faz mal à saúde, traz problemas emocionais. Essa verdade, no entanto, não torna mais adequado soltar uma bufa no Fasano ou chorar durante todo o expediente, não produzindo nada e incomodando o trabalho alheio, porque ele não ligou no dia seguinte.

Quando o caso não é de repressão das lágrimas, mas de simples falta de propensão, o camarada não precisa sentir-se mal por isso. É só uma característica pessoal, sem relação com a sensibilidade ou a falta dela. Para continuar com as analogias flatulentas, há gentes que naturalmente externam menos gases, mas nem por isso não comportam um intestino em suas entranhas; do mesmo modo, há quem chore bem menos do que a média, sem por isso merecer o constrangimento de ter contestada sua capacidade de sentir emoções.

Dica de etiqueta: o segredo para se comportar bem, em relação ao choro, é entendê-lo como uma função fisiológica qualquer, como defecar, urinar, arrotar ou, para pegarmos mais leve na escatologia, bocejar, criar remela, suar, soluçar.

* * *

Descobri a falsa premissa de minha sequência de silogismos: a assunção de que todas as rações para cães e gatos contêm carne. Subestimei mesmo a criatividade e poder de inovação dos vegetarianos. Transformar bichinhos que Deus fez carnívoros, assim os mantendo por milhares de anos, em herbívoros, por que não?

As rações veganas para animais domésticos ainda permanecem bem restritas, no entanto, pelo que pesquisei. Incrível minha amiga filósofa não ter tomado conhecimento dessa maravilha tecnológica. Vou contar a ela, tomara chore - de alegria. Seus vira-latas é que terão outros motivos para lágrimas. Vai ficar tudo bem, talvez.


André Simões
São Paulo, 5/7/2013


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